The Hell Verse
26 Neve Eterna
Notas iniciais
Kaien e Rukia assistiam à luta travada entre o substituto de shinigami e o pecador, incrédulos com a nova forma do ruivo. Inacreditável como ele conseguia até comover o Inferno a cooperar com este. Aparentemente, ele não só modificara o regime hierático que prevalecera durante milhões de anos na Soul Society, como alcançara até as profundezas infernais.
– Quem é ele na verdade? Como é possível?
– Ichigo Kurosaki, substituto de shinigami.
O orgulho era nítido na voz musical da Kuchiki. Apesar de o Shiba não a poder censurar, ele inclusive sentia vaidade de o ter como sobrinho. Seu irmão de facto fizera um bom trabalho na educação do filho.
Era translúcido o vínculo entre eles, ia muito para além de uma partilha de poderes ou reaitsus. Eles estavam conectados, essa ligação era algo inexplicável não podendo ser observável, porém acabava por ser visível quando estes se encaravam ou falavam de si, com o extremo carinho que possuíam um pelo outro. A relação que ele ambicionou construir com Rukia mas que fracassara.
O combate se iniciou com potentes golpes, desferidos pelo inimigo descontrolado. No entanto este rapidamente mudou seu alvo. Singularmente, Kokuto deixa de fustigar Ichigo e investe um relâmpago em Rukia, provavelmente por ódio das palavras que o ruivo tinha proferido, ele optou por vingar-se directamente na Kuchiki para punir severamente o Kurosaki.
– Rukia!
A pequena shinigami permanece estática, encarando o ataque. Estava machucada com as diversas investidas na tortura e os males tratos por parte de Kokuto, não conseguira utilizar o shunpo para desviar e muito podes manusear Sode no Shirayuki para cortar o relâmpago cintilante. Ichigo volta as costas ao pecador, redirecionando-se até à shinigami, apressando-se, para assim evitar que a surtida não alcançasse seu destino. Apesar de este ter o perfeito conhecimento que nunca chegaria a tempo para impedir tal catástrofe.
O Shiba por sua vez parecia assistir a todas as reacções lentamente e turvamente. O sorriso potente do pecador albino, o terror nas ordens avelãs de seu sobrinho enquanto exclamava a plenos pulmões o nome da pequena shinigami, e por fim a feição de Rukia que era indescritível. Que se encontrava numa batalha entre a espanto e medo.
Como se subitamente retomasse à realidade tórrida, ele finalmente processa as informações dos acontecimentos. Compreendo a gravidade da situação: o Kurosaki nunca chegaria a tempo até ela, seria tarde demais. Rukia jamais iria conseguir esquivar-se, nas suas actuais limitações físicas.
Ele gritou desesperado, esperando que ela o conseguisse escutar, mas com medo do que poderia acontecer com as consequências daquele golpe fatal ele decide improvisar. Só uma vez. Ele queria poder dizer pelo menos uma vez antes que fosse tarde demais. Necessitava de dizer "eu te amo". Talvez nunca tivesse oportunidade de expressar isso em palavras, provavelmente nem fosse digno de tal acto, no entanto esperava que com seu gesto ela por fim percebesse seus sentimentos.
Surpreendo Rukia, o Shiba intercede o golpe, sofrendo todo o impacto em seu peito. O ataque trespassou seu peito, deixando um enorme buraco em sua carne. Ele fez a única coisa certa que já tinha feito no passado para se redimir: sacrificou-se pela mulher que amava, pela segunda vez. Dando-lhe a oportunidade de ela viver e ser feliz.
– Kaien-dono!
O moreno observou o desespero naquele mar violáceo puro, nascendo um sorriso em seus lábios. Seu antigo sorriso. Rukia nunca mudaria. Ela chorava pelo homem que a sequestrara e torturara… Ela era uma pessoa com um enorme coração.A pequena Kuchiki se ajoelhou ao lado dele, agarrando sua mão fraca.
– Por favor, não morra Kaien-dono.
Ele queria dizer que estava tudo bem, que tudo acabaria da melhor forma. Mas nada saíra de sua boca, nem sequer conseguia movimentar seus dedos. E muitos menos sentia o calor reconfortante das mãos pequenas envoltas da sua.
Sempre cogitou se em seu mundo interno nevasse eternamente, ele conseguiria mudar sua vida. Se com isso poderia esconder os seus sentimentos pela pequena Kuchiki. Nunca alcançara uma resposta concreta. Apesar que ele tinha, naquele momento, certeza de que isso seria impossível. Mesmo com a neve eterna, ele sempre iria escavar mesmo que involuntariamente sobre ela para trazer à superfície seu amor.
Afinal água e neve nem sempre permaneciam juntas para sempre, por vezes uma incessantemente prevalecia a outra.
Rukia assistiu ao aclaramento do olho negro de Kaien, retomando à sua cor esverdeada original. Por um momento a shinigami reviu seu antigo superior, sentindo seu peito apertar com a despedida. O Inferno abandonara o corpo de Kaien.
O destino era cruel e implacável. De um certo jeito, a morte constantemente levava aqueles no momento em que estes arrependem de seus pecados. Inacreditavelmente, a tragédia une mais as almas dispersas do que a felicidade. Por vezes a única forma de derrotar o orgulho e o medo de confessar seus sentimentos, é com o término da vida. Quando já nada se tem a perder, então arrisca-se o que não se tem.
“Infelizmente, outras coisas mudaram… Somos inimigos e nunca te perdoarei por isto.”
Inevitáveis suas palavras, principalmente o termo «nunca», perturbaram o traidor, desmanchando seu sorriso. Com um fio ligeiro de esperança ele desejava ter alcançado o perdãocom seu gesto, mas isso não apagaria seus feitos anteriores. Não eliminaria os erros cometidos do passado. Ele a traíra por egoísmo, por possessividade. Ela nunca lhe pertenceu, e essa realidade dramática não se modificaria no futuro, antes ficaria mais límpida.
– Rukia, me perdoa.
Ele sabia que não o merecia, mas pelo menos teria de se desculpar. Tinha de empenhar-se em solucionar um pouco todo o estrago que lhe causara. Acreditava que Ichigo tomasse muito bem conta da morena, aquela que era a possuidora de seu coração.
Porém, inesperadamente, ela acena positivamente com a cabeça soluçando internamente, sufocada pela dor de o rever partir pela segunda vez sem nada poder fazer. A felicidade em Kaien era indescritível, ela sofria com a sua ausência e, principalmente, o perdoara. Sorrindo largamente descontraído, sabia que agora poderia partir finalmente em paz.
Todavia essa felicidade não fez com que ele se deixasse de sentir culpado por novamente fazer a Kuchiki derramar incontáveis lágrimas impossíveis de se camuflar com sua cabeleireira negrume. Aparentemente, esta seria sua última imagem antes de padecer. Preferia um último sorriso dirigido a si, mesmo que o motivo não fosse ele mas um shinigami com uma madeixas arruivadas peculiares. Talvez ambicionasse demais, já recebera muito do seu coração dócil. Já tinha conquistado seu galardão.
– Espero que um dia nos voltemos a ver, Rukia.
A finalidade de seu adeus. A irrevogabilidade de sua perda inevitável. A morte de um amor não correspondido.
Tudo fora castigo por seu pecado abominável: Trair quem amava.
Inevitavelmente, o céu começou a chorar.
Felizes para sempre só acontece nos sonhos. A guerra é e sempre será uma dura realidade fria, cujas consequências o são ainda mais.
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