The Haunted
3 Capítulo 2
Notas iniciais
"Tudo mudou drasticamente. Uma terrível beleza nasceu."
— William Butler "
Quando ele disse aquilo, comecei a pensar imediatamente nas piores possibilidades. Câncer, algum tipo de doença mortal, eu havia sido mordida por um animal estranho e estava morrendo... Mas por sua expressão, não era nada disso. Talvez devesse mesmo me preocupar com o jeito que minha vida ficaria dali em diante.
-O quê? Como assim? Como vai ser a minha vida? -continuo o olhando, com pontos pretos em minha visão em conta da dor. Eu precisava saber. A curiosidade matou o gato. E me matou junto.
-Deita... -ele me faz deitar, ficando do meu lado- Você está com dor e ainda se tortura ficando sentada. -ele suspira- Você jura que não vai gritar, rir, ficar com medo de mim e essas coisas? Porque se você ficar com medo... Eu acho que vou ter que te forçar a aceitar isso.
-Você esta me dando medo agora... Me fala de uma vez o que eu tenho! Já falei que odeio ficar curiosa.
-O animal que te atacou... -ele faz uma pausa — Era um demônio, uma criatura semelhante a um vampiro com poucas diferenças. -ele morde o canto da boca, um pouco nervoso- Eu já sabia que era, mas achei que teria alguma volta... Os médicos não sabem que foi isso, eles acham que foi um urso ou algo do tipo.
-Demônios não existem. Você está tirando com a minha cara. Por favor... É só um mito que contam pras crianças não saírem de casa.
-Você não é mais criança... –sua risada era sarcástica — E não esta em casa. Então não deu certo esse tal mito. -ele parecia irritado- Eles existem o.k? E você vai se tornar um deles em breve. -seu rosto estava muito pálido, seus olhos verdes estavam escuros e sua boca avermelhada como sangue de um corte superficial. — Se você não quer acreditar, eu realmente não vou poder te ajudar.
-Não preciso da sua ajuda. -o encaro séria — Quando eu conseguir andar de novo, vou conseguir me virar sozinha. Alias, já consigo. Não preciso de ajuda.
-É mesmo? -ele fala- Então levanta e vai pra casa. Tomara que morra de dor. -ele sorri de um modo irônico -Sabia que você não ia acreditar. -ele vira de costas pra mim.
-Que bom que você sabe. -me sento de novo, ignorando a dor e puxando a cadeira de rodas que estava ao lado da cama mais perto. Ninguém ficava um dia inteiro virando as costas pra mim, principalmente depois de uma brincadeira idiota como essa. Quem ele acha que é?
Ele empurra a cadeira com o pé, fazendo-a parar perto da mesa. Olho pra ele, vendo seu sorriso malicioso e atrevido ameaçando aparecer. As covinhas estavam totalmente à amostra. Estava de braços cruzados.
-Qual o seu problema? -falo irritada. Minha voz sai rouca.
-Talvez você... -ele ri baixinho- Você disse que conseguia fazer sozinha. Então não precisa da cadeira de rodas. Mas se quiser a minha ajuda... -ele senta na mesa- Eu vou estar aqui.
-Eu falei "depois de voltar a andar". Até lá, cadeira de rodas... -reviro os olhos sentindo o gosto metálico de sangue na minha boca. Olho pelo quarto, vendo muletas perto da porta. Arrasto minhas pernas pro lado de fora da cama. Engulo o sangue que estava em minha boca por conta do corte que reabri em minha bochecha, a mordendo.
Ele me segura, me fazendo deitar. Seus olhos estavam mais claros agora, mas a sua pele ainda estava pálida. Ele olha nos meus olhos fixamente, tampando a minha boca. Estávamos perigosamente perto, e sua mão estava gelada. Seus dedos finos e esguios apertaram um pouco minha bochecha e ele cheirava a perfume masculino misturado com coisa de hospital e soro.
-Se você gritar ou reclamar... Eu não vou te ajudar. -ele sussurra- Silencio o.k?
Mordo a mão dele. Ele franze a testa, apertando mais a mão contra a minha boca. Sinto o sangue novamente em minha boca e me arrepio quando o corpo dele fica mais perto do meu. Ele iria fazer o que eu estava pensando? Meu coração acelerou com a ideia. Isso não poderia estar acontecendo.
-Me solta, seu problemático! -tentei falar contra sua mão, o que com certeza não deu certo.
-Para... -a voz dele estava um pouco mais rouca- Por favor, Alice. -ele me solta, um pouco irritado- Eu só quero te ajudar. Colabore um pouco.
-Então me fala a verdade! Coisas que existam! Nem demônios nem ursos, porque não tem ursos em Londres.
-Você tem que prometer que não vai gritar. -a sua expressão era de medo e raiva ao mesmo tempo. Seus punhos estavam cerrados e ele estava um pouco encolhido.
-Não vou, já disse isso. -reviro os olhos — Agora, antes de tudo, eu ia gostar muito se você saísse de cima de mim. Está me esmagando. E se não lembra, sou claustrofóbica. — Ele engole seco, se afastando e arrumando a blusa e o cabelo. -Obrigada... Pode falar.
-Você pode não acreditar em mim, mas o animal que te atacou era um demônio. -ele sussurra- E você vai se tornar um... Deles. -ele engole seco.
-Mas... Eu... -coloco as mãos no rosto — Eu não consigo acreditar. Sério, não consigo. Demônios não existem!
Depois desse comentário ridículo que saiu da minha boca sem passar pelo meu cérebro antes, o enfermeiro me lançou um olhar ameaçador. Em minha mente começaram a passar imagens de pessoas com olhos negros e apenas a íris da cor normal, bocas grandes que rasgavam as bochechas, como o "Gato de Cheshire", dentes afiados e garras. Pessoas morrendo, criaturas se reerguendo. Por um momento achei que fosse o inferno.
Era como se ele quisesse que eu visse isso, como punição por não acreditar nele, parecia que queria me ver sofrer.
-Sabe a dor que você esta sentindo entre as suas costelas? -ele senta na beira da cama- Vai piorar. O ritmo dos seus batimentos vai mudar o tempo todo, principalmente quando estiver irritada, feliz, com vergonha etc. -ele falava de um modo tranquilo, como se isso fosse normal- Você precisa da minha ajuda. Eu sou um dos únicos que posso ajudar.
-E... Posso saber por quê?
-Porque... -consigo escutar a respiração dele um pouco ofegante- Porque eu entendo disso e sou o único nesse hospital que não tento matar todos os futuros demônios que chegam aqui.
Fico parada o encarando. Minha cabeça lateja e eu me lembro da noite que fui atacada. A única razão de eu não ter morrido, era porque outro demônio tirou aquele que me atacava dali à força. Lembro- me de ver um corte de cabelo militar e um brilho esverdeado nos olhos da criatura.
-Você... — Ele fica me olhando, esperando eu falar. -Você é um deles. -falo e meu coração acelera. Ele só podia ser um deles. Era impossível não ser. Era ele aquela noite, me salvando. Ele olha pro chão, sem expressão alguma. -Como eles ainda não te descobriram? -continuo o olhando, mais me encolhendo discretamente pro canto da cama.
-Porque eu sou discreto. -ele me olha- Aprendi a me controlar.
-Tem como eu reverter isso? Tipo, antes de "me transformar" — faço as aspas, um pouco mais calma. Ia ter um jeito. Sempre tem um jeito... Espero.
-Não. -ele suspira- Eu achava que você tinha sorte por estar viva. Mas agora eu entendi o motivo de você continuar respirando. O seu organismo apenas absorveu o "veneno". E graças a isso esta começando a metamorfose demoníaca. -ele faz aspas também.
-Fala na minha língua, por favor? Obrigada.
-Você não morreu porque o veneno chegou ao seu coração rapidamente. -ele suspira- Basicamente isso. Não tem volta.
-Ah, que legal isso. O que acontece agora? Todos os ossos do meu corpo quebram?
-Como você sabe? -ele franze a testa. Uma linha aparece no meio de seus olhos, o deixando... sexy. E preocupado.
Fico séria o olhando. Me arrepio ao imaginar a dor de um osso quebrando se multiplicando por dez, e depois vinte, trinta...
-Fala que isso é brincadeira... Eu chutei. Mas fala que isso não vai acontecer, por favor.
-Vai. -ele suspira- Mas com a minha ajuda, você não vai sentir tanta dor e os seus ossos não vai rasgar a sua pele. -ele sorri. -Sério, eu sei como te ajudar.
Arregalo os olhos e meu coração acelera ainda mais. Como ele iria fazer isso? Demônios são mágicos agora?
-Tem certeza que não da pra pular essa parte?
-Tenho. -ele olha nos meus olhos- Sinto muito.
Fico em silêncio olhando o nada. Ótimo. Vou virar uma assassina estranha e sobrenatural, com garras no lugar de unhas, presas no lugar de dentes e olhos negros. Meu status vai de solteira para condenada. E minha faculdade, família, amigos, trabalho? O que acontece com a minha vida? Vou passar o resto da vida em um hospital impedindo que mais pessoas percam suas oportunidades talvez por minha culpa por que estava com fome?
-Não é culpa sua, eu espero — falo, mais seca do que queria — Não se desculpe. — Escuto ele suspirar. Evito o olhar por medo de me arrepender. — Eu... Vou dormir um pouco
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