The Haunted
20 Capítulo 19
Notas iniciais
"A promessa quebrou
A solidão que restou
No corpo caído
Coração sem sentido
Que quisera sonhar
Que quisera amar
Que ousou se entregar"
—Francene Arnaut
Melody Heartblood
Depois de dois dias estranhamente calmos, chegamos em Londres, simplesmente exaustos. Sean quase desmaiou no meio da rua, querendo dormir. Alice não parecia diferente, na verdade, parecia ainda mais fraca.
-Vou ficar sem andar para sempre agora... -ela murmura.
-Eu vou pra casa. -bocejo- Você vem comigo ou vai pra casa do Harry?-olho para Alice, que brincava com o pingente do colar, calmamente.
-Eu... Acho que vou com você. Acho que assim, a mãe deve estar pirando já... Faz um bom tempo que ela não me vê. -ela sorri fraquinho
-Harry... Você vai para sua casa? E você, vai pra onde Sean? -respiro fundo, cruzando os braços.
-Eu vou pra... Sei lá, dormir um pouco em algum lugar e acho que já vou voltar pra casa, em Mulligar. -Sean sorri fraquinho, com certo tom de nostalgia, com certeza saudades de casa.
-Eu vou pra casa. Preciso dormir. -Harry sorri de canto — Então... Tchau para vocês.
-Tchau... -Alice sorri de canto, colocando o cabelo todo para um só lado. A marca da mordida estava lá, totalmente exposta em seu ombro descoberto pelo moletom largo, uma cicatriz sem forma do tamanho de uma mão.
-Tchau Ali... -ele sorri e abraça ela pela cintura- Dorme bem, tá?
-O.ok... -ela revira os olhos, sorrindo — Acho que agora as bonecas não vão mais me incomodar, ou pelo menos assim espero...
-Tomara. Qualquer coisa me liga e a gente fica conversando até você conseguir dormir. -ele da um selinho nela, sorrindo de canto.
-Você também, não que eu ache que você vá ter pesadelos, mas... -ela começa a falar rápido, como fazia quando estava nervosa ou com vergonha, e começa a ficar vermelha. -Mas... É, isso ai...
-Tchau Harry... -falo, sorrindo de canto.
-Tchau, Melody. -ele sorri também e Sean me abraça forte, como se não quisesse me soltar. Geralmente ele fazia isso quando sabia que uma hora ou outra, algo de ruim ia acontecer. Tentei ignorar isso.
Beijo a bochecha dos dois, assim como Alice (mesmo ela tendo quase beijado Harry, mas isso é detalhe). Eu e ela saímos dali.
Ela começa a chutar as pedrinhas no caminho, com as mãos no bolso. Ela andava sobre alguns degraus, tentando se equilibrar, e continuava em silêncio. A bolsa dela estava meio suja, e pude ver uma pequena rosa dentro da mesma, que estava aberta. Sorrio de canto. Não entendo o vicio que ela tem por rosas.
-E ai... -suspiro, tentando falar sem demonstrar minha preocupação, ou o que quer que eu esteja sentindo- Você e o Harry estão... Namorando?
-Ahn... -ela quase cai — Não... Quer dizer, eu não sei. É, acho que sim. Sei lá! -ela coça a nuca — Eu estou realmente muito confusa sobre isso, como sempre. Geralmente quando têm meninos envolvidos eu fico confusa.
-Por que está confusa? Você gosta dele, não é? -sorrio de canto
-Porque eu sou confusa. -ela sorri de canto, tentando andar sem pisar nas linhas — Eu... Gosto dele sim. Por quê?
-Por nada. Eu percebi que você gosta dele. -rio baixinho- Ele é legal. E acho que ele também está gostando de você. Conheço o Harry, ele só fica daquele jeito quando está gostando de alguém.
-Ou ele bebeu meu sangue sem eu saber. Vai que... -ela ri e faz careta — Esquece. É... Deve ser. Acho que ainda estou meio bêbada. Aquele sangue que Tony nos deu estava velho, não?
-Estava... E ele não bebeu o seu sangue, okay? Fica calma, Lice.
-Sabia que aquele gosto não era de sangue novo. Hm... Acho que se ele tivesse me mordido, eu teria notado. Mas não aconteceu.
Concordo com a cabeça, rindo um pouco mais alto. Ela sorri e me abraça, continuando a andar. O cabelo dela estava um pouco mais acinzentado do que antes da transformação, e os olhos estavam mais escuros. Como acontecia com todos os demônios. Porém, as veias em seu pescoço e braços estavam mais escuras. E isso sim, não era normal.
Pouco depois, chegamos em casa e encontramos Mattew sentado nos degraus que ficavam na frente da mesma, olhando o nada e abraçando os joelhos com aquelas roupas gays dele (camisa xadrez justa, calça justa e botas).
-Hey, gayzão... -Alice sorri, parecendo aqueles filhotes de cachorrinho que mal sabem andar, mas já tentam destruir a casa — Oi.
-Oi Mattew... Tchau Mattew. -falo e entro em casa, sem o olhar. Nunca achei que ele fosse uma boa influência para minha irmã, sempre ficando bêbado, saindo com qualquer um etc.
-Oi Melody, que saudades que você estava de mim. — ouço a voz extremamente afeminada dele e a porta fecha, deixando os dois do lado de fora, conversando de um jeito animado sobre Harry. Típico.
Vou pro meu quarto, jogando a bolsa no chão, tirando a roupa e indo pro banheiro. Ligo o chuveiro, entrando de baixo do mesmo. Tomo um banho rápido, lavando o cabelo e tudo mais. Logo depois termino o banho e saio dali, me enrolando na toalha. Me seco e coloco sutiã, calcinha e uma regata larga. Me jogo na cama e sorrio de canto.
-Finalmente... -sussurro- Senti sua falta cama...
Fiquei olhando o nada por um tempo, revendo os acontecimentos dos últimos dias. Há apenas algumas semanas, recebi a noticia de que minha irmãzinha tinha sido internada após ser atacada por algum animal. Soube na hora que havia sido um demônio, e apenas depois de uma semana pude ir vê-la. E então, descobri que o médico que havia cuidado dela era meu ex-namorado. Ele confirmou que um demônio a atacou, mas ela já sabia disso. Então, meu outro ex-namorado, meu protetor e o homem pelo qual sei que ainda sinto alguma coisa apareceu no hospital, com mais ameaças. E naquele momento soube que ele não estava mais sobre o próprio controle, e que seria melhor se eu continuasse não confiando nele. Um ou dois dias depois, ela poderia ir embora, e foi de fato. Porém, não voltou comigo para casa, resolveu ficar sobre cuidados de seu "médico". Mais um ou dois dias se passaram e fomos em direção à casa de um dos demônios mais poderosos. A espécie dos "magos", como os chamam. Lá, ela faria toda a iniciação e seu colar, aquele que a iria impedir que humanos a matassem, seria feito. No caminho, encontramos meu antigo protegido, que também precisava de outro colar. Além disso, alguém tentou me sequestrar e meu protetor apareceu para me proteger, e novamente senti medo do que me aguardava em meu futuro. Minha irmã fez a iniciação, quase morrendo, e soube que ela e seu enfermeiro estavam ficando, nada sério. Agora, estávamos de volta em casa, mas eu sabia que ainda não haviam acabado os acontecimentos que irão mudar nossas vidas para sempre.
Com esses pensamentos e a mente cheia, consegui pegar num sono. O que, infelizmente, foi um grande erro.
Eu estava em um apartamento realmente velho, ou que aparentava ser. As paredes estavam arranhadas, a iluminação vinha apenas de fora, da lua cheia; sangue estava em todo canto, assim como garrafas de vodka e tequila. Uma jaqueta de couro estranhamente familiar estava jogada sobre uma poltrona de couro preta rasgada.
Respiro fundo, tomando coragem para andar por ali. O lugar era pequeno, então andei reto, em direção a uma porta que estava entreaberta. Ali parecia ter o dobro de garrafas, sangue e... Remédios. Alguém estava sentado de frente para uma janela, a única do quarto, com dois papéis na mão esquerda e uma arma na direita. Um dos papéis estava meio amassado e havia alguma coisa escrita. O outro era uma foto, de um casal. Eu não conseguia ver direito. Mordo o canto do lábio, me aproximando da pessoa.
Então o reconheci. Seu cabelo castanho claro não estava arrumado no pequeno topete de sempre, estava simplesmente... Bagunçado. A barba por fazer estava ainda maior, e suas veias e cicatrizes apareciam ainda mais. Suas mãos tremiam, e seu rosto estava encharcado de lágrimas. Ele mordia o lábio inferior com tamanha força, que o mesmo estava com vários cortes, sangrando. Ele murmurava coisas para si mesmo, alegando que a culpa era toda sua, por não ter chego a tempo e não ter conseguido se controlar.
-Ei... Oliver... -sussurro, colocando a mão em seu ombro, sentindo meus olhos encherem de lágrimas. Mas ele não me sentia ali, não me ouvia... Era como se eu não existisse.
-É minha culpa... Ele a conheceu por minha causa, e a matou por minha causa... -ele sussurrava muito baixo, a respiração e a voz falhavam. Ele ergue a arma, tremendo ainda mais, apontando a arma para sua cabeça.
-Oliver! -grito, desesperada. -Para!- começo a chorar — Não seja idiota... Não faça isso! -tento puxar a arma, mas era como se eu nem estivesse tentando. -Por favor... Oli...
Ele abre os olhos, pegando a foto, como se fosse à última coisa que ele quisesse ver. Seus olhos estavam vermelhos por conta do choro, mas a íris estava clara, cor de mel, como no dia em que o conheci.
-Oliver... Gra-Graywolf... -gaguejo — Solta essa arma agora! Não faz isso comigo... Não me abandona...
Ele tenta respirar fundo, voltando a fechar os olhos.
-Eu já estou indo para você, Blondie... -ele aperta o gatilho.
Sinto como se o tiro tivesse sido em mim e vejo ele caindo no chão. Minhas pernas ficam bambas e caio de joelhos, o puxando para mim. O chão estava cheio de sangue e eu podia sentir que ele não estava mais vivo, como acontece quando o protetor de algum demônio morre. Eu sentia que sua alma não estava mais ali.
No bilhete que ele havia deixado, estava escrito com uma caligrafia tremida, quase que ilegível: "Mate-o por mim e por ela... Eu te falei como. Boa sorte. Eu prometi que não deixaria sua irmã sozinha, e não vou deixar, onde quer que ela esteja. XxOliver Graywolf"
Como assim? Minha irmã? Ele fez isso por causa da Alice? Ela estava bem. O que aconteceu?
Meu corpo inteiro tremia e eu estava ficando sem ar. Isso não podia estar acontecendo... Eu não poderia perder ele. Nunca. Por mais que eu negasse, ele ainda era o homem pelo qual eu havia me apaixonado.
Pego a foto com cuidado, olhando para a mesma. Ali estávamos eu e ele abraçados. A última foto que tínhamos tirado juntos. Ela ficava guardada de baixo de meu travesseiro desde o dia que foi tirada.
Olho para ele, acariciando sua bochecha, ainda chorando. Sua pele estava gelada e molhada por causa das lágrimas. Passo a mão em seu cabelo, arrumando o mesmo e mordendo o lábio, tentando parar de chorar.
Alguém se abaixa ao meu lado, me abraçando pelos ombros, fazendo com que minha cabeça encostasse no ombro da pessoa. O perfume... Eu conhecia esse perfume... Era o que estava pela casa toda, misturado com o cheiro de sangue fresco e álcool.
Eu estava com medo de olhar. Não queria estar certa. Se fosse quem eu pensava ser... Eu olho para a pessoa.
Era Oliver.
Como isso era possível? Eu tinha acabado de ver ele se matando e estava o segurando. E agora, ele estava ao meu lado também, me abraçando. Só tinha uma razão para isso. E eu queria estar errada. Começo a chorar mais ainda, soluçando alto.
-Shhh... Hey. -ele beija o topo de minha cabeça — Vai ficar tudo bem, Blondie... -ele ainda tremia muito. -Eu... Eu só... Não acredito que agora estou com você.
-O quê...? Por quê? -sussurro, negando com a cabeça. -Isso não está acontecendo. Você morreu. Eu vi... -olho para o corpo dele, que estava na minha frente. -Olha... Você se matou, Oliver. Eu estou imaginando, não estou? -passo a mão no rosto dele, franzindo a testa e negando com a cabeça novamente.
-Eu... Não... Eu não sei mais de nada, na verdade. -ele coloca uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. -Talvez ainda seja imaginação e você esteja tendo uma visão. Sempre conseguiu fazer isso... -ele sorri de canto. Seu sorriso era nostálgico. -Meses antes de Alice se transformar, sonhou que ela estava sendo atacada. Mas se isso for uma visão sua... Quero que saiba que ele voltou, e quer que todos nós; principalmente eu, Anthony e Alice, mortos... -a voz dele começa a ficar distante, como se eu estivesse começando a acordar. -Me desculpe.
-Não... — falo o abraçando. -Ninguém vai morrer. Isso é mentira. Você não morreu. Eu não morri. Eles não morreram. -mordo o lábio — Oliver, fica comigo...
-É tudo o que eu mais quero... -a voz dele agora era um sussurro. Tudo a nossa volta começa a se desintegrar. Assim como ele.
Tento segurá-lo junto a mim, sem sucesso. Não queria perder ele... Não podia perder ele. Vejo a porta sendo aberta brutamente e ouço a voz de Alice em um grito distante.
Tudo fica escuro novamente, e quando abro meus olhos, estava em meu quarto novamente, jogada na cama. Já era noite, pelo que parecia. Sento, olhando o espelho. Eu estava pálida e suando, meu rosto estava todo molhado por causa das lágrimas e do suor. A janela do quarto estava aberta e minha cama toda bagunçada. Minha respiração estava descontrolada, assim como meu coração. Era apenas um pesadelo. Não queria que fosse uma visão, como ele falou que era. Minha irmã, meus melhores amigos... Oliver... Eles tinham que ficar bem.
Eles iriam ficar bem.
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