The Haunted
19 Capítulo 18
Notas iniciais
“Você me fazia sorrir quando tudo que queria era chorar.”
— Capacitadora.
Harry Stormblood
Já fazia duas horas que Anthony tinha levado Alice para a última sala. E desde que eles saíram, eu não conseguia parar quieto. Andava pela casa, olhava o relógio, mexia nos amuletos e correntes de Anthony, lia algumas paginas de alguns livros, socava as almofadas... E irritava Melody fazendo tudo isso. Sean havia dormido, mas ela estava quase me matando.
-Você pode parar com isso? -Melody joga o tênis em mim. -Eu já estou nervosa por ela estar lá, e você ficar assim não ajuda em nada.
-Já falei que não consigo parar. -a olho, sério. -Se eu conseguisse, estava igual a você.
-Senta antes que eu faça você "dormir"... -ela fala, fazendo as aspas no ar. -Sério.
Ouvimos uma porta abrindo rápido de mais, e logo as coisas que estavam sobre a mesa de centro voam longe. Anthony entra correndo na sala, com sangue escorrendo pelo canto da boca e ainda mais pálido, carregando Alice que ainda parecia inconsciente. Ela estava mais branca que papel, e eu podia ver uma mancha de sangue no exato lugar de seu coração. Ele a deita ali cuidadosamente e começa a procurar algo nas prateleiras.
-O que aconteceu? -me aproximo, preocupado e passando a mão no braço dela. -Anthony... O que aconteceu lá dentro?
-Se eu soubesse, ela não estaria assim. -ele volta com um livro e alguns frascos. -Era o último medo dela e eu estava controlando tudo normalmente quando senti alguém me esganando e me espancando. Não conseguia mais saber o que ela estava vendo e sentindo. Quando consegui recobrar os poderes, havia um bisturi no chão e ela estava assim.
Ele começa a folhar o livro rapidamente. Eu não entendia nada o que estava escrito ali, mas as páginas estavam manchadas de sangue fresco. Em seguida, pega um dos frascos, abrindo-o e erguendo a blusa dela até podermos ver o corte profundo que estava ali.
-Posso ajudar? -sussurro, mordendo o lábio. -Eu quero ajudar...
-Eu sei que você quer, mas isso aqui é meio delicado de mais. -ele começa a cuidar do corte.
-Mas eu posso...
-Não. Harry, você não pode. -ele respira fundo, colocando a mão sobre o corte, fazendo o mesmo fechar um pouco.
-Posso... Eu sou médico, esqueceu? Eu que cuido dela. Eu sou o protetor dela. — empurro ele não muito fraco, limpando o corte com cuidado.
-Harold Jonathan. -ele me empurra. Os olhos dele estavam negros. -Isso não é só um corte ou nada que você possa cuidar! Eu sou um dos escolhidos, eu sei cuidar disso. Você é um normal. Não sabe. O fato de você ser médico não tem nada haver com isso. Então sai daqui, vai tomar um ar, e me deixe fazer meu trabalho antes que ela morra! Você cuida de novatos, humanos transformados há pouco tempo. Eu cuido daqueles que já são considerados demônios.
Meus olhos enchem de lágrimas e saio da casa, batendo a porta. Sento nos degraus na frente do chalé, colocando a cabeça entre as mãos.
-Idiota... -murmuro. -O que ele acha que pode fazer de melhor? -respiro fundo, limpando as lágrimas. -Ele não entende como as coisas funcionam. Só fica trancado nessa casa de merda. Sozinho. -cerro os punhos.
Fico olhando o nada. E se ela não sobrevivesse? Era muito sangue... Eu não suportaria perde-la. Seria de mais.
Mordo o lábio, ficando um pouco sem ar.
Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando a grama, pensando em todas as piores possibilidades. Já estava amanhecendo e eu estava quase dormindo quando a porta se abre.
-Ela quis ficar no seu quarto... -ouço a voz do Sean. -Acho que está dormindo agora.
Levanto um pouco aliviado, porém ainda preocupado. Arrumo o cabelo, erguendo as mangas e coçando a nuca.
-Ela está bem? -falo meio baixo.
-Está meio confusa e não lembra o que aconteceu... Mas sim. Ela está bem.
Concordo com a cabeça, entrando na casa olhando apenas para o chão. Melody estava dormindo no sofá, dava para ver o cabelo azul cacheado encostando-se ao chão. Não sabia se Anthony estava ali, mas as coisas ainda estavam no chão e o livro com os frascos na mesa. Sean senta no chão e eu vou para o "meu" quarto, entrando no mesmo.
Alice estava sentada na minha cama, abraçando as pernas e olhando o nada. Estava com um moletom possivelmente do Anthony, azul e grande de mais para ela. O cabelo loiro estava preso num coque.
-Oi... -sussurro, indo até ela.
-Oi. -ela me olha, sorrindo de canto e indo um pouco mais para o lado, me dando espaço na cama estreita e dura.
-Você... Está bem? -sento do lado dela.
-Confusa. E com dor. Mas bem. E você? -ela sorri, me olhando nos olhos. Parecia cansada, acabada na verdade. Noto que as veias no lado direito de seu pescoço estavam roxas e ela tremia um pouco. Parecia que ia desmaiar a qualquer segundo.
-Preocupado. -suspiro, segurando a mão dela. -Você lembra o que aconteceu lá?
-Eu só lembro-me dos três primeiros medos... Não lembro o que aconteceu depois que o cara da cerra elétrica sumiu. Eu tento lembrar, mas é quase impossível. Minha cabeça começa a doer e parece que tem alguém esmagando meu coração. O pingente começa a esquentar... -ela segura o pingente de rosa.
-Hey, vai ficar tudo bem. Você tem que descansar.
-Não quero descansar... Toda vez que fecho os olhos sinto como se estivesse sendo "esfaqueada" de novo. -ela deita a cabeça no meu ombro.
-Mas você precisa, Ali... -abraço ela. -Você quase morreu agora pouco. E parece que vai desmaiar a qualquer momento.
-De novo. Já é a segunda vez que quase morro em apenas uma semana! -ela fala, revirando os olhos. -Que útil eu, não?
-Calma... -rio baixinho. -Já acabou.
-Alguém me matou. -ela me olha, começando do nada. -Eu... Eu acho que estou começando a lembrar do que aconteceu. Por mais que isso doa.
-Alguém? Quem? -franzo a testa. -Homem ou mulher? Humano ou...?
-Homem, demônio... Não era muito alto, tinha a altura do Tony, acho.
-Se lembra como ele era? -mordo o canto do lábio, começando um desenho da pessoa em minha mente. Talvez eu conhecesse, talvez nem existisse.
-Olhos azul esverdeados, moreno, tinha barba... Parecia ter uns... Vinte e cinco anos, mais ou menos. Tinha tatuagens estranhas, e os olhos dele estavam totalmente brancos na maioria do tempo. E a única e última coisa que ele disse foi... "Estou chegando".
-Estou chegando?—rio baixinho. -Acho que essa pessoa não existe.
-Ou talvez exista. -ela me olha, séria, como se falasse "Isso foi você insinuando que sou louca e imagino psicopatas?".
-Não sei, Ali... Mas agora você precisa descansar. Para de pensar no que aconteceu, isso vai só te desgastar ainda mais, o.k?
Ela concorda e deita do meu lado, encolhendo-se um pouco. Os primeiros raios de sol atravessavam a janela, fazendo o cabelo dela parecer feito de ouro, e as bochechas corarem um pouco. Deito também, mexendo no cabelo dela, fazendo com que ela se aninhasse em meu peito, espalmando a mão na minha barriga.
-Depois disso, a gente vai para casa? -ela sussurra, fechando os olhos.
-Sim... -sorrio de canto. -E quando isso acontecer, eu vou tomar um banho de banheira que vai demorar um dia inteiro.
-E eu vou dormir pelo resto da minha vida. -ela sorri ainda de olhos fechados.
Rio baixinho, a abraçando e fazendo carinho em seu braço. Pouco depois, a respiração dela suaviza e sua expressão relaxa. Sorrio, dando um selinho nela e fecho os olhos, não demorando muito para dormir também.
* * *
Acordo um bom tempo depois com os raios fortes do sol no meu rosto. Parecia ser meio dia. Alice estava jogada, com uma perna sobre as minhas pernas, e o moletom enorme que usava estava pouco acima de sua cintura. Sorrio e mordo o canto do lábio. Meus pensamentos foram... Inapropriados o bastante até mesmo para mim. Ou não.
-Ali... -sussurro, passando a mão no braço dela. -Acorda.
Ela faz careta, coçando os olhos com as costas das mãos, arrumando a blusa em seguida. Um lado de seu rosto estava mais vermelho e com a marca de suas pulseiras (as quais ela parecia nunca tirar do pulso). Ela se espreguiça, respirando fundo e colocando as mãos sobre o rosto.
-Que horas são? -a voz dela estava rouca.
-Não sei... Mas acho que já deve ser perto do meio dia. -rio baixinho, ainda a olhando fixamente.
-Okay... -ela sorri de canto e me olhando. Seus olhos estavam meio vermelhos e inchados, e a íris estava mais escura, com um arco negro em volta da mesma. -Dormiu bem?
-Uhum. E você? Está melhor?
-Estou. Muito melhor, parece que dormi uma década. Deve ser porque a iniciação acabou.
Sorrio e ela retribui. Me aproximo um pouco, colocando uma mão na lateral do rosto dela. Ela morde o canto do lábio, arqueando uma sobrancelha do jeito que apenas ela conseguia. Sorrio mais ainda, colocando uma mecha do cabelo totalmente bagunçado dela para trás de sua orelha e ela coloca a mão sobre a minha. Colo nossas testas, a olhando profundamente nos olhos.
-Você não faz ideia de como eu me senti ontem quando você quase morreu... -sussurro, a fazendo olhar para baixo. -Pensei que perderia você, não consegui cogitar a ideia. E nem nos conhecemos há tanto tempo.
-Você é tão clichê, Jonathan... -ela sorri fraquinho. -E uma das poucas pessoas que acha que a vida seria um fracasso sem mim. Sou invisível, você sabe.
-As pessoas que não te veem não sabem o que estão perdendo. -rio baixinho e ela me olha, sorrindo. -Piadas simplesmente horríveis, caretas bizarras, vozes estranhas, imitações bizarras... -ela arqueia as sobrancelhas e eu sorrio. -Não falei em nenhum momento que estou reclamando, falei?
-Novamente, você é tão clichê, Jonathan... -ela ri e me beija.
Sorrio sem descolar nossos lábios e coloco a mão que não estava em seu rosto em sua nuca, a puxando um pouquinho mais perto. Ela morde meu lábio inferior e ficamos assim por um bom tempo, apenas aproveitando o momento sozinhos. Bem... Até sermos interrompidos por uma batida na porta. Paramos o beijo e ela arruma o cabelo, murmurando um "entra" em seguida.
Sean entra no quarto, vestindo jeans e uma jaqueta de couro fechada, com o cabelo descolorido despenteado e um sorriso enorme. Ele tinha dois casacos em mãos, e os joga para nós, na outra cama do quarto.
-Arrumem as coisas... Já vamos comer e ir para casa.
Sorrio, olhando Alice que agora estava ainda mais radiante. Ela levanta em um pulo, pegando a mala dela que provavelmente Melody deixou ali e começando a guardar as coisas ali. Rio baixinho e começo a ajudá-la.
Melody Heartblood
Era mais ou menos três da tarde e todos já havíamos arrumado as coisas para irmos para casa. Harry havia conversado com Anthony sobre este trabalhar no hospital com ele facilitando para os novatos. Como a caverna onde achamos as pedras (além de outras duas) era apenas um dia de trem e três de caminhada de Londres, ele aceitou e disse que daria um jeito de colocar sua casa, a fonte de seu poder, discretamente em algum bairro abandonado.
Todos estavam animados, mas ninguém como Alice. Mal parecia que ela tinha quase morrido essa madrugada. Ela havia feito Anthony prometer que a ensinaria a lutar com espada, ficou fazendo piadas idiotas com Sean, me ajudando e sendo a pirralha mais irritante e bipolar que eu tanto amo. E... Nessa viagem, outra pessoa também começou a amá-la, pelo jeito.
Harry a olhava com um brilho especial nos olhos. Aquele brilho que você tem apenas quando está apaixonado. O brilho que me lembro de Oliver uma vez ter tido, ao que pareciam séculos atrás.
Balanço a cabeça, afastando esse tipo de lembrança. Sento em um dos sofás, ao lado de Sean e nossas malas, vendo três idiotas cantando "Chasing Cars" do Snow Patrow, enquanto andavam pelo longo corredor, trancando as nove portas. Um pensamento repentino me vem à mente então. E se Harry não fosse tudo que minha irmã achava ser?
-Sean... -sussurro tão baixo que quase não consegui ouvir- Você acha que Harry possa decepcionar a Alice?
-Eu acho que não... Por que acha isso? -ele me olha, arqueando uma sobrancelha — Tipo, ele parece realmente gostar dela, mais do que eu gosto de batatas ou que Anthony gosta de... Ser estranho.
-Você não se lembra da época que ele gostava de mim? E olha no que deu... -dou de ombros- Estou com medo que ela fique magoada, assim como eu fiquei. Não quero isso para ela, ela não merece.
-Hey, calma... Talvez vocês só não deram certo porque não era pra ser. -ele sorri de canto — Mas como ele era contigo? Ele geralmente era pessoas diferentes com cada um de nós.
-Não sei explicar... Ele era muito infantil. Mais infantil do que você naquela época. -rio baixinho- Mas a sua infantilidade era fofa. -bagunço o cabelo dele. -A dele era irritante.
-Aww... -ele me abraça — Para alguém ser mais infantil que eu, é muito foda, e você sabe disso.
-Era difícil aguentar às vezes. Parecia que eu era mais homem que ele.
-Ás vezes você é mais homem que o Harry. Sua irmã é... -nesse momento, ele é interrompido pelo grito fino que Alice deu quando bateu o pé na quina do armário — Esquece. Eles estão empatados em quesitos de... ser assim.
-Mas ela precisa de alguém maduro. Que possa estar lá para ajudá-la quando for preciso. E eu não vou estar com ela sempre. Então fico preocupada. Simples assim.
-Ela vai aprender a se cuidar, e ele já está mais maduro. Harry já não tem mais 16 anos, Mel...
-Ele parece igual para mim. Fora a aparência, claro. Mas a mentalidade me parece à mesma de uma criança de três anos que descobriu a genitália.
-Tenta dar uma chance pra eles. Não era você que ficou falando a viagem toda "deixa eles sozinhos um pouco, eles precisam disso"? -ele imita minha voz, fazendo careta e mexendo no cabelo.
Rio, dando um soco fraquinho na coxa dele. Ele ri e Anthony se joga no outro sofá, com as pernas sobre o mesmo, respirando fundo, parecendo exausto. O cheiro de vodka e sangue misturados emanava dele, assim como o de cigarros.
-Do que tanto falam, loiros?
-Sobre a sua bunda... Redonda e durinha. -rio alto, revirando os olhos e escutando alguma coisa cair. Provavelmente minha irmã.
-É uma delicia, não é? -ele ri alto — Eu sei, faz parte de mim, tinha que ser perfeita e gostosa. Meio óbvio.
-Posso pegar nela? -pisco com um olho só- Se for igual a do Sean, vou ficar apertando sempre, sem parar.
-Minha bunda cansou de ser apertada, está fazendo greve. -Sean ri alto, ficando com as bochechas rosadas.
-Agora é serio, do que vocês estavam falando? -Anthony ri, ajeitando o cabelo e coçando o pescoço.
-Sobre a minha preocupação "exagerada" com a Alice. -reviro os olhos- Nada de mais, o de sempre, na verdade.
-Ah, você está preocupada porque acha que Harry continua um crianção babaca, e acha que ela precisa de um cara maduro para quando você não estiver junto? Óbvio que era, devia saber... Fica tranquila, eles estão assim porque dei um sangue velho pra eles. Tive que fazer isso, me desculpe. As coisas são tão pouco animadas aqui, então quando tenho a chance...
-Anthony... Eu estou falando serio. Eu tenho planos e não posso ficar me preocupando com o que ela esta fazendo ou se ela ta chorando, se está tendo ou não pesadelos com bonecas, ou me preocupar em saber se ela se afogou... -suspiro
-Harry é médico. Ele tem que ter amadurecido pelo menos um pouco. Ele não vai olhar para o paciente e fazer tipo... "Putz, o cara ta morrendo HAHAHAHA SE FODEU, POSSO FAZER NADA AMIGO, BOA SORTE COM ESSE SEU CORAÇÃO PODRE". Ele não pode fazer isso, entende?
-Você bebeu também, né? -rio meio alto, encostando a cabeça na parede branca cheia de prateleiras atrás de mim.
-Não, ele fazia isso com as pessoas antes. Agora não deve fazer mais. Bebi, mas só um pouquinho. Ainda sei o que estou falando. Bem, mesmo bêbado eu sei sobre o que estou falando.
-Mudando de assunto... -abraço o Sean- A gente vai embora hoje mesmo?
-Vamos sim. Quer dizer, eu vou depois, vocês vão daqui a pouco... Quando o efeito da bebida passar. -Ele olha para os dois no corredor, deitados no chão. -Já deve estar passando. O sangue nem era tão velho assim.
Concordo com a cabeça, arrumando o cabelo.
Um tempo depois, Alice e Harry chegam à sala, parecendo bem sóbrios... Ou pelo menos, quase isso. O cabelo de ambos estava bagunçado, e eles ainda sorriam para o nada.
-O que acham de irmos? -Harry fala meio tonto ainda pela bebida.
-Acho que vocês demoraram de mais. -Sean ri, levantando e pegando a mala e o violão dele. — Vamos logo, seu gigante.
Ele sorri e pegamos as coisas. Nos despedimos de Anthony, que disse que iria nos ver logo. Saímos do chalé, começando a andar tranquilamente na direção em que viemos. Não parecia tão ruim agora. Mas tudo que é tranquilo de mais uma hora piora.
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