The Haunted
18 Capítulo 17
Notas iniciais
"O medo está apenas em nossas mentes, tomando o lugar o tempo todo" -Evanescence
Alice Heartblood
O quarto era inteiramente branco, como o de um hospital. Os únicos móveis ali eram uma maca, uma pia e uma mesinha; na qual havia uma bandeja toda manchada de sangue e dentro da mesma, a fonte de todo aquele sangue pulsava. Cheguei mais perto para ver o que era aquilo, que com certeza fazia parte de meu "desafio". E, ao olhar dentro da bandeja ensanguentada, minha respiração falha e eu fico sem reação. O que estava ali dentro era...
-Um coração humano. -Anthony termina a frase que eu comecei mentalmente, olhando-me e sorrindo de canto. -A primeira etapa da iniciação é comê-lo. Sem hesitar, sem vomitar.
-Sério mesmo? -fico olhando o coração ainda ativo pulsar na bandeja. Eu amo carne, sou do tipo que come mais carne do que vegetais (até porque odeio qualquer tipo de salada), como todo o tipo de carne. Menos fígados e corações. -Inteiro? Tipo em “Game of Thrones”?
-Inteiro. Não é tão ruim quanto parece. Só... Faz mais sujeira. E é mais musculoso, óbvio.
Sento na maca e fico olhando Anthony colocas as luvas cirúrgicas calmamente, pegar o coração e sorrir do mesmo modo macabro que sorriu quando chegamos à casa. Engulo em seco e ele chega perto de mim, esperando que eu pegasse o coração. Demorei alguns minutos para finalmente pegá-lo, com as mãos tremendo. Parecia ainda pulsar, por mais que fosse impossível. Era bem leve.
"Poderia ser pior..." penso comigo mesma "Eu poderia ser vegetariana".
Depois de concluir o pensamento fechei os olhos e dei a primeira mordida no coração, sentindo o sangue explodir em minha boca. Aquilo era puro músculo, o que apenas piorava as coisas. Tentei mastigar sem ter ânsia de vomito. Acho que eu iria vomitar se tentasse não fazer isso.
Engoli o primeiro pedaço com dificuldade, sentindo minhas bochechas rasgarem e as presas aparecerem. Rasgar os pedaços ficou mais fácil, assim como deixar o sangue sujar tudo também ficou. Em questão de segundos; minhas mãos, pescoço, boca e braços já pingavam sangue sem parar.
Cada mordida era uma tortura. Mesmo o sangue melhorando o sabor, o tecido musculoso se destacava. Eu tentava pensar em coisas aleatórias para me distrair. Pensava na faculdade, em como Mattew estaria agora, no que Sean e Melody e Harry estariam fazendo agora, em minha mãe, em minha vida antes daquela infeliz noite no parque... Mas não importava no que eu pensasse. O gosto do coração me trazia novamente para a realidade a cada mastigada.
Quando abri os olhos para ver quanto faltava -mais ou menos metade do coração- acabei vendo Anthony parado ali, encostado na porta, me observando. Seus olhos estavam negros e as veias, saltadas. A expressão era a mesma de Harry quando mordi seu braço a o que pareciam décadas atrás. Desvio o olhar e fecho os olhos, tentando terminar aquilo o mais rápido possível.
Os minutos pareceram séculos, e pouco depois eu terminei a primeira etapa. Olho para baixo, sentindo o gosto amargo e metálico do sangue descer pela minha garganta. Eu não podia vomitar ou cuspir. O gosto era horrível, pior que a primeira mordida. Minhas mãos estavam sujas de sangue até o pulso, mas algumas gotas escorriam até meus cotovelos. Minha blusa estava totalmente suja, assim como meu pescoço e com certeza minha boca.
Olho para Anthony novamente, sentindo o pior enjoo de todos. Essa era a parte mais fácil?
-Pronto. -minha voz sai rouca e baixa. -Acabei.
-Eu vi... -os olhos dele estavam normais novamente. Ele sorria de canto enquanto andava em minha direção. -A segunda etapa será ainda mais difícil, você sabe... Antes de começá-la, pode ir se lavar. Vou chamar Melody e estaremos te esperando na sala ao lado dessa.
Anthony sai da sala e eu fico olhando minhas mãos. O gosto da carne começava a deixar minha boca lentamente, e começo a sentir o gosto de bile. Se não cobrisse o gosto do coração, vomitaria. Em consequência disso, levantei-me da maca ainda tonta e fui até a pequena pia que tinha ali.
Apoio-me na mesma e ligo a torneira. Lavo o rosto, pescoço, mãos e braços, tomando um pouco de água em seguida. Prendo meu cabelo e respiro fundo, saindo da sala.
Olho para a cozinha e meu olhar encontra o de Harry. Forço um sorriso para indicar que eu estava bem, o fazendo começar a levantar. Faço sinal para ele ficar ali, mesmo que eu precisasse da ajuda dele.
Antes que eu mudasse de ideia, fui em direção à quinta porta a direita. Esta era inteiramente preta, com o trinco dourado. A porta deveria ser lisa, mas estava cheia de marcas de arranhões e chibatadas. Respiro fundo e entrei ali, tremendo. As paredes eram pretas e sem nada — nenhuma janela, arranhão, nenhum material-. Se não fosse pela pilastra branca exatamente no meio, a sala teria apenas a porta.
Num canto, Melody e Anthony estavam parados. Ela parecia querer voltar atrás e negar o pedido para ficar ali. Já Anthony tinha um sorriso assassino no rosto e um chicote em mãos. Fecho a porta atrás de mim, sentindo o coração acelerar e o sangue correr mais rápido em minhas veias. Uma agonia horrível toma conta de mim, de modo que poderia ser comparada a agonia de ser possuído. Não que eu realmente soubesse como era a sensação. Eu só sentia isso quando alguma coisa estava prestes a dar muito errado. Então, olhei o chicote na mão de Anthony e sua expressão.
-Vamos direto ao ponto... -ele começa, andando lentamente em minha direção. -A segunda etapa será para vermos se você cicatriza rapidamente como nós. Comer o coração humano foi uma prova de bem... Você vai precisar se alimentar de sangue pro resto da vida, nada mais justo que comer a fonte do sangue. -Ele faz uma pausa, deixando-me ainda mais nervosa. -Nessa parte, você irá dar-se chibatadas nas costas. Mas tem que sangrar, fazer um corte profundo. Como não irei ficar aqui, já que irei refazer o colar de Sean, Melody ficará, okay?
-Eu... Acho que sim. -minha voz sai em um sussurro.
Ele sai da sala, dando o chicote para mim no caminho. Vou em direção à pilastra e sento-me de frente para a mesma. Melody estava agora do meu lado. Tiro minha blusa, ainda em silêncio e quando Mel abriu a boca para falar alguma coisa, acerto minhas costas pela primeira vez o mais forte que consegui. Senti uma dor agonizante espalhando-se pelas minhas costas e depois corpo, foi simplesmente uma das piores que já senti. Pude sentir o corte sendo feito, o sangue começando a sair. Encosto a cabeça na pilastra, sentindo os olhos marejarem.
Melody tapa a boca, como se sentisse a dor. Suas mãos tremiam e ela estava pálida. Até porque deve ser muito bom ver a irmã mais nova se chicoteando até sangrar.
Respiro fundo e abaixo o chicote, recuperando um pouco as forças. Minhas mãos também tremiam, mas tentei ignorar isso, e pouco depois acertei minhas costas pela segunda vez, mais forte ainda. Engulo em seco e cerro os punhos. Mordo o lábio com força, fazendo pequenos cortes no mesmo, sentindo o gosto metálico e amargo do meu sangue. Pude ouvir Melody murmurando alguma coisa, algo como "não precisa ser tão forte". Ignoro seu conselho e jogo o chicote para trás, fazendo mais um corte profundo em minhas costas.
Quando abaixei a mão para dar mais uma chibatada, Melody segura meu pulso, fazendo-me a olhar.
-Chega. Já está espirrando sangue. -ela tremia. -Desse jeito, mesmo que cicatrize, vão ficar as marcas.
-Eu só queria que acabasse logo... -sussurro e largo o chicote.
Ela se ajoelha ao meu lado, jogando o chicote para longe, pegando minha blusa e usando a mesma para limpar o sangue. Passo as pontas dos dedos sobre os cortes, sentindo os mesmos cicatrizarem. Ficamos em silêncio até ela terminar. Depois disso, coloco a blusa e Mel me ajuda a levantar. Saímos da sala e vamos em direção à cozinha, que era de onde estavam vindo as vozes.
Chegando lá, encontramos Sean almoçando, Harry e Anthony conversando e dois lugares vagos. Parecia que Harry iria ter um ataque de nervosismo. Melody o olha séria, me ajudando a sentar e indo até ele, dando-lhe um tapa na cabeça, fazendo ele a olhar confuso.
-Você sabia qual seria a etapa de agora. -ela cruza os braços sobre o peito.
-Sim, Anthony falou ontem. Por que fez isso? -ele coloca a mão na cabeça.
-Por que falou para eu ir? -ela cerra os punhos e ele murmura alguma coisa extremamente baixo. -O quê?
-Porque eu não iria aguentar ver ela daquele jeito, e assim ela ainda estaria lá, já que não deixaria se chicotear. Satisfeita? -ele murmura alto o bastante para eu ouvir.
A expressão dela suaviza e ela o puxa para um ponto mais longe na cozinha. Dou de ombros e começo a almoçar junto com Sean. Ele me olha pelo canto do olho, sorrindo e eu retribuo o sorriso, sentindo o enjoo causado pelo coração passar graças aquele pedaço de pizza. Ficamos em silêncio, ouvindo a briga sussurrada entre Melody e Harry. Tive a leve impressão de que ela havia descoberto sobre eu e Harry (não que tivéssemos alguma coisa, mas... O que quer que fossemos).
Um tempo depois, Harry senta do meu lado em silêncio. Ele coloca a mão sobre a minha, fazendo-me o olhar. Ele parecia preocupado.
-Você está bem? -ele sussurra, me olhando nos olhos.
-Melhor agora, que comi a pizza. -sorrio de canto. -E você, está tudo bem?
-Eu... -ele começa, mas é interrompido por Anthony erguendo minha blusa.
Arregalo os olhos e seguro a frente da blusa antes que mais do que um pouco do meu sutiã preto aparecesse. Sean olha rapidamente, Melody bate na própria testa, Anthony ri se desculpando e Harry demora um pouco para desviar o olhar. Sinto meu rosto esquentar e olho para Anthony.
-Por que fez isso?
—Para ver as cicatrizes. Bem, você passou por essa etapa também. E Harry... não faça essa cara. Sei que você está me agradecendo muito internamente por ter feito isso. -ele sorri, fazendo Harry revirar os olhos. -Bem, essa é a penúltima etapa e uma das mais longas. Algumas horas de duração. Vou arrumar as coisas e já venho te chamar.
Assim que ele sai dali, arqueio uma sobrancelha, empurrando o prato para um pouco mais longe. Eu estava com medo do que poderia acontecer, e tinha medo também porque ninguém podia me contar... Já que, segundo Anthony, as etapas nem sempre eram as mesmas. Pelo menos, as duas últimas não eram.
Minha cabeça girava, eu estava tonta. Precisava dormir, precisava deitar... Precisava voltar para casa, voltar a minha rotina que eu tanto odiava. Queria ver minha mãe, ir visitar meu pai, passar as tardes no parque com Mattew, ir à faculdade todos os dias e sair com minha irmã aos finais de semana. Ficar sentada nos degraus na frente da pequena casa que morávamos, olhando os meninos passando. Envergonhar-me quando me notavam.
Queria voltar a ser humana.
-Ali... Está tudo bem? -Melody senta do meu lado, preocupada.
-Eu só... Estou cansada. -forço um sorriso — Não é nada de mais, juro.
Ela, Sean e Harry trocam um olhar preocupado e Anthony surge na frente da mesa, sorrindo de canto. Ele estava sem o casaco pela primeira vez desde que chegamos aqui. Pude notar sua pele levemente bronzeada e os braços totalmente tatuados. Ele era magro, mas forte ao mesmo tempo. Usava uma regata branca e as mãos agitadas mexiam nos colares em volta de seu pescoço. Seu rosto -que sempre ficava escondido- era como o de um modelo (sinceramente... Ele já trabalhou na Vogue?) Os olhos não eram muito grandes e sua íris era cor de mel com um anel dourado em volta. Os lábios dele eram finos, e quando ele sorria algumas rugas apareciam no canto de seus olhos. Tinha pequenos brincos e um piercing na língua (notei assim que chegamos, já que parecia que ele tinha o hábito de ficar o mordendo).
-Bem... Está tudo pronto... -ele sorri de canto, estendendo a mão para mim. -Vai ficar tudo bem, o.k?
Seguro a mão dele e Harry nos olha pelo canto do olho, sério. Mordo o canto do lábio, prendendo o piercing entre os dentes, concordando com a cabeça. Aperto a mão de Harry antes de ser levada por Anthony até outra sala.
Esta tinha uma porta branca, como a de um ginásio. Nenhum detalhe, assim como a primeira. Porém, assim que ele ameaçou abrir a porta, o cheiro de cloro invade meus pulmões, fazendo meu coração acelerar.
No meio da sala, que não era grande, havia uma piscina razoavelmente grande. E possivelmente bem funda. Um monte de toalhas estava ao lado da porta, e na beirada da piscina havia uma bolsa com pedras dentro, amarrada a uma corda. Paro de andar, respirando com dificuldade.
-Bem... Ahn, o desafio é simples. Vou amarrar aquilo no seu tornozelo e você vai pular. Como as pedras te manterão abaixo d'água, você terá que desamarrar do seu tornozelo e voltar à superfície. Aqui veremos sua agilidade e raciocínio.
-Eu... Eu não sei nadar... -minha voz sai num sussurro.
Desde pequena tenho pavor de me afogar. Não é bem uma fobia, é mais um medo. Simplesmente... Assusta-me o fato de, se ninguém te salvar você morrer lentamente, sentindo a água entrar em seus pulmões e te sufocar. E agora isso.
-Eu... -ele parecia não esperar. -O.k. Vou dar um jeito, o.k? Iremos ficar de olho. Sei que é proibido, mas não quero que você morra. Então, caso aconteça alguma emergência, iremos te ajudar. Eu prometo. -ele suspira — Você vai ficar bem, o.k?
Engulo em seco, indo até a mochila, sentando ao lado da mesma, olhando a água. Ele senta do meu lado, pegando uma ponta da corda. Ele segura meu tornozelo, prendendo a extremidade da corda. Cerro os punhos, respirando fundo. Ele levanta e eu lentamente escorrego para dentro da piscina.
A água estava gelada, fazendo-me arrepiar na hora. Não tive tempo de pensar, já estava sendo arrastada para o fundo. E o pânico começa a tomar conta de mim. Eu não conseguia prender a respiração por muito tempo, batia os braços de qualquer jeito, já querendo ir para a superfície. A corda apenas parecia se apertar em volta de meu tornozelo. Minhas roupas atrapalhavam tudo, tapando meu rosto e não deixando com que eu me mexesse muito O sangue que estava em minha blusa estava se espalhando em volta de mim. As pedras alcançam o fundo da piscina e meus pulmões começam a arder. Eu precisava de ar.
Meu tornozelo doía. Precisava me acalmar. Pensar.
Começo a lembrar de coisas boas. Um lugar ensolarado, meu quarto, minha família. Se isso desse errado, nunca mais iria os ver. Harry... Se eu morresse, todo o esforço dele seria em vão. Melody... Passamos tão pouco tempo juntas. Sean. Eu queria conhecê-lo melhor. Minha mãe... Tudo o que ela já fez por mim.
Dei impulso, conseguindo deixar os dois pés perto do piso, agarrando a corda e a puxando. Depois de uns segundos, que pareceram décadas, precisava desesperadamente de ar. Meus olhos ardiam, meus pulmões pareciam fazer mais que todo o esforço possível para me manter ali. Precisava de oxigênio.
Tentei me impulsionar para cima, sem sucesso. Vi uma fina linha vermelha, escura de mais começar a subir. Havia cortado meu tornozelo. Tento nadar de novo, sem sucesso. Volto à atenção para a corda. Se eu demorasse, iriam me tirar dali. Eu não ia morrer. Pelo menos, não agora.
Devia ter passado apenas dois minutos, mas eu estava praticamente morta. Não conseguia pensar, sentia-me tonta. Meu tornozelo e mãos estavam arranhados. Minha cabeça iria explodir, meus olhos quase não ficavam abertos.
Fechei os olhos, lembrando-me de tudo que aconteceu nas últimas semanas novamente. Até que a imagem do demônio que me atacou veio à tona. Uma característica bem aparente além dos olhos, veias, dentes, boca... Eram as garras.
Era isso! Sou muito lerda mesmo, porra.
Abro os olhos rápido de mais, e me concentro. Não sabia como me transformar, mas teria que descobrir agora. Tento pensar em coisas irritantes, tristes... Então fiz um pequeno filme em minha cabeça. Pensar nessas coisas me irrita.
As meninas de minha faculdade. As três, com as mesmas roupas, falando de mim com a voz irritante que tinham. Rindo, apontando para mim, me expondo ao ridículo. Tudo que elas já fizeram para mim e Mattew, até mesmo para Melody. Coloco os dedos sobre minha cicatriz causada por elas, sentindo minha cabeça latejar.
E então, aconteceu. Senti minhas bochechar rasgando lentamente, deixando os dentes à amostra. Minha visão fica primeiramente turva, melhorando muito em seguida. Senti meus ossos dando uma leve alongada, e logo as unhas crescendo, o que causou mais sangue subindo a superfície, deixando a água ao meu redor avermelhada. Sorrio de canto, pegando a corda e cortando a mesma pela metade. Senti meu corpo boiar um pouco e tirei o resto da corda de meu tornozelo. Com os pés no chão, dei o máximo de impulso que consegui, para cima. E, me apoiando nas "paredes", consegui ver uma silhueta correndo em direção à piscina.
Finalmente emergi, respirando fundo e desesperadamente. Meu corpo doía, e eu devia ter voltado ao normal. Me apoio na beira da piscina, cuspindo água, quase vomitando. Minhas mãos tremiam e eu sentia que ia desmaiar, não tinha mais forças. Fiquei algum tempo respirando, até conseguir erguer a cabeça e olhar a pessoa que estava ali.
Harry estava descalço, sem camisa e com uma expressão realmente muito preocupada. Os olhos estavam arregalados, a boca meio aberta e eu podia ouvir o coração acelerado dele. Parecia confuso também, como se não esperasse que eu fosse voltar. Parecia querer falar algo, mas não conseguia.
-Não consigo me mexer... -minha voz quase não sai. Minha garganta arranhava, como se eu tentasse engolir vidro ou areia.
-Eu... Você... -ele parecia tremer um pouco. Harry me ajuda a sair da piscina, me olhando como se fosse à primeira vez em anos. -Vem aqui... Consegue respirar?
-Não... Não sei... Acho que engoli água. -me apoio nele, tossindo e sentindo minha garganta arranhar novamente. Senti água salgada em minha boca e percebi que estava chorando. -Eu... Eu não quero mais continuar com isso.
-Não, Ali... Só falta uma coisa. Uma coisinha e eu juro que vai acabar. Se você não passar, Anthony não vai poder deixar você continuar viva.
O abraço, fechando os olhos e respirando fundo, tossindo mais um pouco de água. Minhas pernas tremiam, e se Harry não tivesse aparecido, eu ainda estaria na piscina, sem forças para sair, possivelmente teria afundado novamente. Precisava dormir.
-Eu estou cansada.
-Eu sei que isso cansa. Já passei por isso. Mas já vai acabar, só aguenta mais um pouco, por favor. -ele me abraça também, mexendo no meu cabelo e sussurrando. -Vai ficar tudo bem.
Ficamos assim por longos minutos, o bastante para eu tossir toda água intrusa em meu corpo e começar a ficar com frio. Em seguida, ele pega uma toalha, colocando-a em meus ombros. Saímos da sala e vamos em direção a cozinha novamente. Lá, encontramos Anthony jogado em uma cadeira, Sean andando e Melody olhando fixamente para um guardanapo. Assim que percebe nossa presença, ela levanta rapidamente.
-Alice... Eu estava preocupada. -ela vem até mim, me abraçando. -Você conseguiu se soltar ou ele teve que te ajudar?
-Eu soltei. Quase morri, mas fiz isso sozinha. -sorrio fraquinho.
-Você está bem? -ela arruma meu cabelo. Fecho os olhos, encostando a cabeça no ombro de Harry.
-Não muito... Não consigo ficar em pé.
-Senta. -ela puxa uma cadeira — Come alguma coisa, o.k? Depois que terminar, vai dormir um pouco, porque a última parte é hoje de noite só. Vai ser melhor se você estiver descansada.
Concordo com a cabeça, pegando um pedaço de bolo de chocolate que estava ali. Como em silencio, assim como Harry. Melody e Sean conversavam e Anthony se intrometia às vezes. Depois que termino, levanto lentamente, sentindo as pálpebras pesarem. Eu não lembrava qual era meu quarto, não conseguia me concentrar.
Começo a me arrastar pelo corredor, entrando em um quarto não muito claro. Tinha duas camas, e me joguei na que era do lado da janela. Se não era minha, que pena. Vou dormir aqui.
Pouco depois a porta se abre e sinto o perfume de Harry.
-Oi... Vai querer dormir comigo de novo, é? -ouço a porta se fechando e os passos dele se aproximando da cama.
-Não. Só estou aqui porque sua cama é melhor que a minha e eu entrei no quarto errado. -falo meio chapada, com o rosto contra o travesseiro dele.
-Ah... Pensei que você ia dizer sim. -ele ri.
-Eu não falei sim? Eu não sei o que estou falando. Estou falando alguma coisa? Só sei que estou cansada.
Ele ri um pouco mais alto, deitando ao meu lado. Pude sentir a pele nua da barriga dele encostando-se ao meu braço e sorrio de canto. Harry Stormblood sem camisa. Ah, se eu não estivesse quase morta agora...
-Eu estou mais acabada do que quando cheguei ao hospital? -murmuro, abrindo apenas um pouquinho meus olhos.
-Não. -ele começa a mexer no meu cabelo. -Você só está parecendo muito cansada.
Concordo com a cabeça, abraçando-o e fechando os olhos. Ele me abraça também, ainda mexendo em meu cabelo, enrolando as mechas e desenrolando. Sua pele estava quente e seu carinho me deixava ainda com mais sono.
-Me acorda na hora da ultima etapa?
-Acordo. -podia ter certeza de que ele estava sorrindo — Bons sonhos, baixinha.
Sorrio e pouco tempo depois, eu estava dormindo, aninhada no abraço dele, finalmente descansando tranquilamente.
* * *
Tive a impressão de que apenas alguns segundos se passaram desde que fechei os olhos, até sentir alguém passando a mão em meu braço. Demorei a lembrar de que estava na cama de Harry, o abraçando.
-Ei... Acorda. Você tem mais ou menos meia hora para ficar pronta para a última parte. -a voz dele estava rouca. Parecia ter dormido um pouco também.
-Só mais meio ano... -murmuro, respirando fundo.
-Acorda antes que Anthony venha e te jogue no chão. -ele solta o abraço. Harry tinha um jeito muito "delicado" de terminar as coisas, ou de acordar pessoas. Com uma ameaça. O problema era a voz dele, que sempre estava tranquila de mais,
-Ele é do mal. -sento na cama, esfregando os olhos com as costas das mãos. Já era noite, a marca de meu colar e meu cabelo estava no peito de Harry, eu fedia a cloro. Mas estava mais descansada. Não totalmente, mas bem melhor.
Ouço Harry rir baixinho e levanto, pegando uma toalha qualquer que estava jogada ao pé da cama. O olho e ele revira os olhos. Sorrio, indo para o banheiro, tomando um banho rapidamente, mais para tirar o cloro de mim. Depois disso, vou para meu quarto (o certo dessa vez) que estava vazio e coloco um blusão preto e uma calça de moletom cinza. Pego uma escova azul que estava na cama de Melody, escovando meu cabelo e tiro os fios que ficaram presos ali em seguida. Respiro fundo, saindo do quarto e indo até a sala.
Lá, encontro os quatro de pijama, conversando. Melody usava uma blusa que ia até pouco acima da metade da coxa e uma calça de pijama, Sean usava uma calça de moletom e uma blusa branca, Anthony estava com uma calça de moletom preta e novamente o casaco preto e Harry vestia uma calça de moletom e um casaco (também de moletom).
Sorrio de canto, sentando entre Melody e Harry.
-Está melhor? -ela me olha, preocupada.
-Uhum... Ainda cansada, mas melhor.
A expressão dela pareceu suavizar. Harry também parecia melhor. Sorrio de canto e Sean me dá um tapinha na perna, (ele estava sentado no chão, na frente de Melody) sorrindo.
-Desculpa interromper o momento alegria... Mas você ainda tem que fazer a última etapa. -Anthony me olha, fazendo com que eu sentisse um arrepio na nuca e meu sorriso sumisse. -Bem... Não vou falar para você ficar tranquila, porque não adianta. Essa parte da iniciação, por ser a última, é a pior das quatro. Vai fazer você querer comer trinta corações, passar dias se chicoteando e pular diversas vezes na piscina. -ele levanta, colocando o capuz. De repende, sua pele fica quase branca e seus olhos ficam dourados. Apenas os caninos crescem, mas sua boca fica roxa e as veias pretas. Ele parecia sorrir, como se suas bochechas tivessem sido rasgadas. -Afinal, agora iremos ver o quanto você aguenta de seus próprios medos. Eu irei fazer você vê-los e senti-los como se fossem reais. Não um por um, mas todos juntos. Não todos, afinal ainda somos meio humanos, e humanos temem tudo que não conhecem... Mas aqueles que você mais teme. Suas fobias, seus traumas... E só irá parar quando você começar a dar indícios de desmaios. Sinto muito, Victoria—ele coloca a mão em meu rosto e percebo o tempo em volta de nós totalmente parado. -Mas fui treinado para isso...
Meu coração estava acelerado e eu estava arrepiada. Melody, Harry e Sean estavam congelados com expressões de terror, como se estivessem frente a frente com o pior pesadelo.
-Temos que terminar antes que amanheça, porque de dia meu poder é mais fraco. -ele sorri de canto — Afinal, sou um demônio nascido... Sou totalmente das trevas, flor. Queria não ter que fazer isso com você. -ele me olha diretamente nos olhos. -Me acompanhe.
Começamos a andar pelo corredor completamente escuro. Eu e Anthony paramos na frente da última porta. Aquela parte do chalé emanava um frio estranho, como se a pior coisa do mundo me esperasse ali. Como se meus maiores medos estivessem guardados ali, me esperando... Bem, isso era verdade.
Tony tira um dos colares, pegando o pingente em forma de rosa (exatamente igual o meu) e encostando-o na fechadura. A porta se abre, revelando uma sala não muito grande e inteira branca, com uma maca no meio. Engulo em seco e ele faz sinal para que eu me deite na maca. Faço isso e a porta se fecha. Anthony pega a corrente, cujo pingente havia usado para abrir a porta, e começa a esticá-la até ela ficar num tamanho bom para ele me prender ali. O metal frio contra minha pele quente parece ainda mais sufocante, fazendo com que eu sentisse o espaço diminuindo.
Ele segura meu rosto entre suas mãos, fazendo-me o olhar nos olhos. Ele começa a recitar algo baixinho, e sinto pela segunda vez a sensação de que minha cabeça ia explodir. Os olhos de Anthony ficam inteiramente brancos e suas bochechas se rasgam, mostrando seus dentes. Tento me soltar, fechando os olhos e sentindo-me tonta.
Em seguida, a dor passa e eu abro os olhos. Tony não estava mais ali. Nem ele, nem a porta. Eu estava sozinha em uma sala branca, que parecia estar diminuindo a cada segundo. Minha respiração falha e eu, novamente, tento me soltar desesperadamente.
"Afinal, agora iremos ver o quanto você aguenta de seus próprios medos. Eu irei fazer você vê-los e senti-los como se fossem reais. Não um por um, mas todos juntos."-Anthony havia falado. "Não todos, afinal ainda somos meio humanos, e humanos temem tudo que não conhecem... Mas aqueles que você mais teme. Suas fobias, seus traumas... E só irá parar quando você começar a dar indícios de desmaios. Sinto muito, Victoria. "
A sala branca diminuindo cada vez mais, deixando-me sufocada. Claustrofobia.
Tentei ficar lembrando que era apenas uma ilusão, mas quando vi o teto abaixando, entrei em pânico. Podia sentir o ar cada vez mais pesado, era como se o lugar já me esmagasse. Eu suava frio e meus pulmões trabalhavam o triplo para que eu continuasse respirando. O teto estava cada vez mais baixo, e as paredes cada vez mais perto. Se eu conseguisse levantar, bateria a cabeça. As paredes já encostavam-se às quatro extremidades da maca. Eu sentia o frio das paredes contra meus dedos.
Cerro os punhos, sufocando um grito e fechando os olhos, tentando parar a tontura. Era a primeira "camada" daquela etapa, não poderia desistir agora. Ou eu acabava com isso, ou morria.
Ao abrir os olhos, vi tudo parando. As paredes voltam ao lugar, assim como o teto, fazendo-me soltar o ar lentamente. O quarto agora estava preto, cheio de prateleiras vazias. Arregalo os olhos, já sabendo o que estava por vir. Lentamente, viro a cabeça para a esquerda, encontrando uma multidão de bonecos de porcelana. Todos quebrados, sorrindo e andando em minha direção.
Novamente, meu coração dispara e eu sufoco um grito ao sentir uma mão minúscula agarrando-se em meu tornozelo, me arranhando e subindo em mim. Logo meu rosto, braços, pernas, barriga... Eu inteira estava sendo arranhada por pequenos projetos de demônios, que me olhavam diretamente em meus olhos, com suas órbitas vazias e risadinhas. Gritavam cada vez mais alto, pedindo para que eu brincasse com eles. Às vezes as cabeças giravam em 360º.
Começo a gritar de pavor, tentando chutá-los e tirá-los dali. Consegui afrouxar as cordas, mas logo eles desceram e as apertaram novamente. Olho para onde devia estar à porta e no lugar, vejo uma espada. A lâmina era longa, e o cabo negro era cheio de rosas talhadas.
Os bonecos se penduravam em meu pescoço, rindo e desviando minha atenção. Cerro os punhos, tentando me soltar, quase conseguindo. Grito e fecho os olhos.
Quando os abri pela terceira vez, eu estava de pé. Minhas mãos estavam presas às minhas costas e eu estava em uma sala escura. Eu me lembrava daquele lugar. Caveiras na parede e um cara bizarro e bem maquiado ao lado de portões. Eu me lembrava desse dia.
No ensino médio fui a um parque de diversões com duas amigas. Elas, de algum jeito, conseguiram me levar para o brinquedo de terror, no qual andaríamos por dez minutos, atravessando corredores. Não parecia tão ruim, mas aqueles dez minutos resultaram em um ataque de pânico.
Dessa vez, eu estava sozinha.
O homem a minha frente sorriu e o portão se abriu. Eu não devia mais temer isso, olha o que sou agora? Com esse pensamento comecei a andar. O lugar era escuro e apertado e eu comecei a passar mal quando o sangue começou a realmente escorrer pelas paredes. O cheiro era de morte e coisas em processo de putrefação. Engoli em seco e continuei andando. Virei no corredor e vi o corpo se contorcendo na cama. Quando me aproximei reconheci os olhos azuis e o cabelo descolorido.
Mattew estava com os órgãos pendurados pra fora, mas e algum jeito estava vivo.
Minhas mãos se soltaram e eu cobri a boca, andando para trás. Esbarrei em alguém e senti um metal gelado em meu pescoço. Ao ver a enfermeira maníaca sorrindo pra mim eu gritei. Arranhei seu rosto e corri. O próximo quarto era escuro e tinha uma cama no centro.
Uma voz grossa e fina ao mesmo tempo, totalmente errada começa a rir. Um feixe de luz acende sobre a cama e a menina do exorcista tenta avançar sobre mim, sendo detida apenas por suas correntes. “Alice!” ela gritava. Eu não conseguia respirar. Meus pulmões doíam e eu suava frio. Eu apenas corri. Me lembro de coisas batendo atrás de mim. Sentia as lágrimas escorrendo pela minha bochecha. Sangue pingava do teto, corpos reais estavam caídos no chão. Eu murmurava coisas baixinho, querendo sair dali.
E então eu vi a saída. Corri até a porta, mas esta não abria. Eu estava realmente trancada. O barulho de uma motocerra atrás de mim era alto. E quando me virei, o cara não parou. Caí no chão e fechei os olhos.
Voltei a abrir os olhos quando senti minhas mãos presas novamente. Estavam presas sobre meu peito, como se eu estivesse cruzando os braços. Percebo também que eu não estava sozinha e que a sala. O lugar continuava branco, mas não estava praticamente vazio. A luz no teto piscava e as paredes estavam sujas de sangue. Ao lado direito da maca, uma mesinha de metal com um pano, e utensílios médicos sobre o mesmo. Ao meu lado esquerdo havia um homem alto, com roupa de hospital, como se fosse fazer uma cirurgia.
Por uma fração de segundos sinto meus músculos relaxando ao achar que o homem era Harry. Abro a boca para chamá-lo, e então vejo seus braços descobertos. As tatuagens... Não eram as mesmas. Era como se as veias tivessem sido tatuadas, juntamente com símbolos. Procuro pela tatuagem de rosa e não a acho.
Ele se vira para mim e pude ver seus olhos inteiramente brancos. Não era Anthony, era alguém nenhum pouco familiar. O rosto era pálido e podia ver o cabelo liso e castanho claro aparecendo por baixo da touca que usava. Os olhos vão de brancos para azul esverdeado por um curto período de tempo. Ele parecia não saber controlar aquilo, e eu me sentia ameaçada ao extremo. Ele dá a volta na maca, pegando um bisturi e uma seringa, olhando-me por cima do ombro, tirando a máscara para que eu pudesse ver suas bochechas rasgadas em um sorriso macabro.
Ele crava o bisturi no exato meio ponto onde meu coração estava sem mesmo olhar para ter certeza. Sinto a ponta da pequena lâmina raspar em minhas costelas, confirmando que o bisturi inteiro estava em mim. Minha visão fica turva e acabo soltando um gemido de dor, sentindo o sangue subir por minha garganta. O pingente de rosa começa a queimar em meu peito e sinto o sangue escorrendo lentamente. Ouço meu coração parando e a respiração falhando. A última coisa que consegui ouvir e enxergar foi o rosto do homem e seu sorriso satisfeito, a sua voz fina e rouca falando com prazer.
-Estou chegando.
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