The Haunted
2 Capítulo 1
"São dos melhores anjos que surgem os piores demônios."- Iann Gabriel Domingos.
Não me lembrava de muita coisa após o "ataque". Tudo que senti naquele momento foi uma forte dor em meu ombro se espalhando por todo lado esquerdo do meu corpo. Era como se flechas atravessassem meu corpo e fincassem ali, girando em minha carne. Lembro-me também do sussurro fraco que era a voz de Mattew ao meu lado, pouco depois daquela criatura -que no começo pareceu tão humana, mas depois desenvolveu presa, pele quase transparente com as veias se sobressaindo negras, garras e olhos grandes e famintos com órbitas negras, como os de um tubarão- sair dali arrastada por outra igualmente assustadora. Matt implorava para que eu não "fosse para a luz". E depois disso, apenas a escuridão e silêncio.
No primeiro momento, pensei que estivesse morta. Mas mortos pensam? Logo minha audição começa a voltar e ouço a sirene da ambulância, a voz fina de Mattew e uma voz grossa de um homem. Contudo, as vozes pareciam estar distantes. Eu me sentia dentro de uma piscina e podia sentir minha cabeça explodindo. Tentei abrir os olhos, mas eles pareciam colados. Tentei me mover, mas parecia que eu estava presa à maca. Queria gritar, e sentia minha boca costurada. Era algum tipo de tortura?
-Mas ela vai ficar bem, não? -Mattew perguntou.
-Meu jovem... Nós precisamos entender o que aconteceu. Precisamos fazer alguns exames... -o homem respondeu. Deveria ser médico ou enfermeiro.
As vozes começam a parecer mais distantes e então tudo fica em silêncio novamente. Sentia o movimento de tudo a minha volta. O cheiro de hospital, morte, soro, choro, sangue, tristeza... Tudo isso invade meus pulmões, engasgando-me. Novamente quero me soltar, me mexer, gritar, e não posso. Sentia o perfume doce de Mattew em algum lugar ali perto. Começo a ouvir passos ao meu redor, conversas sussurradas, respirações calmas. Maquinas que marcavam as batidas de meu coração, que estavam realmente muito fracas. O pânico toma conta de mim. Eu não estava morrendo.
Não podia morrer.
Minhas mãos começam a tremer. Mas meus batimentos cardíacos não aumentam. Eu podia sentir minha pele esfriando, suor escorrendo por minha nuca... E dois dedos quentes em meu pescoço, medindo a pulsação. Os dedos deslizam do meu pescoço para meu queixo, e então pelas minhas bochechas, parando sobre as pálpebras, um em cada. Por algum motivo, consigo abri-las.
Primeiro veio o clarão. Uma sala totalmente branca, prateleiras de metal, painéis com exames, máquinas ao redor de mim, três pessoas usando roupas de hospital. O médico procurava desesperadamente algo em uma das gavetas, uma enfermeira ligando o cano do soro na bolsa do mesmo e o enfermeiro que examinava meus olhos com uma lanterninha. Quando foco em seu rosto, ele tinha uma expressão de surpresa. Sua pele era pálida, contrariando o castanho escuro de seu cabelo curto em um estilo meio militar e bagunçado. Seu rosto parecia uma pintura, com os olhos verde escuros e os lábios não muito grossos. Um brilho negro como piche passa por seus olhos e ele olha para o médico, fechando minhas pálpebras.
As abro e ele se vira para mim, revirando os olhos e fechando-as novamente. Sinto a respiração dele em meu pescoço e uma voz rouca e baixa, provavelmente a dele, fala em meu ouvido, fazendo-me arrepiar:
-Não abra seus olhos. Será pior se o fizer.
Senti meu corpo ficar tenso. Mantive as pálpebras fechadas e os punhos cerrados. Sinto uma agulha perfurando a pele de meu braço e um líquido entrando, e então novamente, a escuridão e o silêncio me abraçam.
* * *
Quando abri os olhos novamente, estava em um quarto escuro com paredes cinza, luz fraca e apenas uma janela. Me sento e minha cabeça começa a latejar ao mesmo tempo em que tudo começa a girar, fazendo-me colocar a cabeça entre as mãos, fechando os olhos com força. Ouvi a porta abrindo. Se entrou alguém, com certeza não era Mattew. O cheiro não era de seu perfume, e a pessoa era silenciosa demais.
-Deite, ou irá vomitar. -era a voz rouca e baixa daquele enfermeiro ou médico que me mandou fechar os olhos ontem. Ou da ultima vez que estive consciente de algo. -Você vai conseguir abrir os olhos. Inclusive... Preciso examiná-los de novo. Ver se ainda estão daquele jeito.
Deito-me, sem forças para perguntar como meus olhos estavam. A tontura passa. Antes de abrir meus olhos, sinto um perfume agridoce, uma mistura de cheiro de hospital, perfume de homem e algo amargo e metálico como o cheiro de sangue. Como o cheiro da criatura que me atacou. Meu coração disparou e eu abri os olhos novamente.
Olhei pelo quarto de novo, e agora pude perceber detalhes que antes não havia visto, como quadros em preto e branco nas paredes, detalhes em cinza claro por todo o quarto, os aparelhos que estavam ligados a mim. Meu olhar parou no médico, que estava no canto do quarto, mexendo em coisas de uma mesinha. Seu uniforme tinha a cor dos detalhes do quarto, cinza claro. Quando ele se virou para mim, notei que de todo o quarto eram seus olhos a única fonte de cor viva dali. Fiquei analisando seus olhos por um longo tempo.
-Precisa de ajuda? -ele arqueia uma sobrancelha e me olha rapidamente, voltando à atenção para os materiais médicos espalhados pela mesinha. Não consegui ver muito do que tinha ali. Suas costas eram largas, e seus músculos estavam bem marcados pela camiseta pouco apertada. Seus movimentos eram curtos e rápidos, pegando e guardando coisas ali. Ele fica de lado e eu pude ver que ele mantinha os lábios entreabertos.
-Onde eu estou? O que aconteceu? Quanto tempo eu estou aqui? -comecei sem perceber o tanto de perguntas que saiam pela minha boca.
-Nossa! -a risada ele era irônica com um pouco de surpresa. Se eu não estivesse tão mal, eu teria rido com ele. -Calma ai, senhorita Heartblood... Eu já respondo. Primeiro... -ele vem até mim com uma lanterninha — Olhe diretamente para a luz, o.k?
Fiquei quieta, olhando para a luz. Ele movimenta a lanterna de um lado para o outro e eu sigo a luz com os olhos. Ele desliga e guarda a lanterna dentro do bolso da calça.
-Pode me responder agora? -falo depois de um tempo, ainda o olhando. Por causa da luz, haviam pontos pretos e brancos em minha visão. Tentei me sentar de novo, sem conseguir.
-Uma coisa de cada vez. -ele coloca a mão no meu queixo, abrindo a minha boca rapidamente- Você esta com dor em algum lugar? -ele solta o meu queixo, olhando para um aparelho, que parecia medir os meus batimentos cardíacos.
-Pulmão, coração e costelas. -reviro os olhos, coçando os mesmos com as costas da mão esquerda e gesticulando com a direita, continuando a falar, meio atrapalhada — Suponho que vá demorar muito para me responder. Certo?
-Não... -consigo perceber um sorriso fraco em seu rosto- Eu só quero saber se você está bem. -ele olha para outro aparelho, franzindo a testa- De 0 a 10... Quanto é a sua dor?
-O.k... Ahn... Oito. -faço careta. Ele tinha covinhas, pude perceber quando ele sorriu mais cedo. Seus dedos eram longos e parecia não conseguir parar quieto. Hiperativo, talvez? Acho que não.
-Eu já volto. -ele me olha rapidamente, como fez todas às vezes até agora. Era como se ele não quisesse me olhar. Meu estado estava tão... Ruim assim?- E irei te responder quando voltar. -ele vai até a mesa, pegando algumas coisas e saindo do quarto.
Olhei pro lado e vi minha bolsa preta em cima da mesinha. Sorrio e tento alcançar a mesma, quase caindo da cama e derrubando um travesseiro que estava aos meus pés. Sinto uma pontada no coração e coloco a mão sobre o peito, desistindo de pegar minhas coisas. Seria melhor não me arriscar sem nem saber o que aconteceu. Aliás... Há quanto tempo eu estava ali?
Escuto um barulho na porta e deito como estava antes. Olho para porta, e era o cara. Ele segurava um pote branco e um par de luvas. Arqueio uma sobrancelha, olhando para o pote e em seguida para ele, que pareceu notar o travesseiro que eu havia derrubado. Ele segura a risada, colocando o pote sobre a mesa, fechando a porta e vindo até mim.
-Você não podia ficar parada não? -ele ri baixinho, pegando o travesseiro- Da próxima vez eu não te deixo sozinha. -o moreno coloca uma mão na minha cintura, me puxando para frente e colocando o travesseiro atrás da minha cabeça- O que quer saber?
-Quanto tempo eu estou aqui? -tiro a mão dele ta minha cintura — Por que estou aqui? O que está acontecendo? Esse tipo de coisa que uma pessoa que acabou de acordar num lugar estranho quer saber, entendeu?
-Fez uma semana ontem. -ele sorri de canto, pegando uma seringa de dentro do pote, batendo de leve na mesma — Você... Foi atacada por um animal. -ele segura um frasco, que estava pendurado na cabeceira da cama- Isso aqui vai tirar a sua dor. -ele injeta o liquido da seringa no frasco e eu sinto alguma coisa queimar no meu braço.
-Uma semana? -arregalo os olhos — O que me atacou? Um demônio? -eu tentava não me concentrar na dor.
Demônios... Dá onde eu tirei isso? Realmente, até existe uma lenda que fala sobre humanos que eram mordidos ou arranhados por terríveis demônios, e se transformavam em um deles. Um pouco pior que lobisomens, porque demônios não se controlavam e atacavam não só em lua cheia, com mais frequência em lua nova, blá blá blá... Mas isso era apenas um mito que mães contavam aos filhos, e estes repassavam para que suspeitassem de tudo que os seguisse e que não saíssem tarde da noite. Ridículo, na minha opinião.
-Nã... -ele para, me olhando um pouco assustado — O que?
-Calma, eu estava só brincando. -sorrio — Todos sabem que isso não existe. O que me atacou?- eu tinha ficado realmente surpresa com a reação dele. Ele pareceu tão surpreso e assustado... Bem, devia ser porque eu havia desenterrado essa lenda.
-Na verdade... -ele olha para a porta, de um modo estranho- É uma longa história. Podemos falar sobre isso mais tarde? Acho que seria melhor se eu fizesse meu trabalho antes para depois você poder me perguntar o que quiser. -ele sorri de canto- Mas... Você vai ter que confiar em mim, o.k?
-Ahn... Certo, mas o que você vai fazer? -o olho nos olhos novamente. Não estava entendendo nada, mas era melhor que ele não percebesse isso. Alguém não rir sobre demônios era realmente estranho. A menos que ele acredite neles. Como os velhos do asilo de minha avó... Eles com certeza acreditam.
-Eu preciso que você faça alguns exames daqui a pouco. -ele olha pra mim- Quero refazer todos os exames que já fizemos em você pra ter certeza se não tem nada quebrado. -ele olha nos meus olhos- Só sente dor? Ou algo mais?
-Ainda estou com dor de cabeça e tontura, mas fora isso só dor... -respiro fundo — O que eu quebrei?
-Na verdade, nada. -ele fala, normalmente- Eu achei que você tinha fraturado alguma vértebra, mas não... Você não quebrou nada.
Após ele falar isso, assenti com a cabeça e tentei mexer as pernas. Só tentei. Porque, mesmo que não doessem, elas não se moviam. Era como se elas estivessem coladas na maca ou até mesmo que não estivessem ali.
-Calma... o que? Eu não quebrei nada? Então por que não consigo mexer as pernas? Não faz sentido.
-Não consegue? -ele franze a testa, tirando a minha coberta- Olha pra mim. -ele fica me olhando fixamente- Não olha pra mais nada, só pra mim, o.k?
Faço isso, ainda confusa. Por que eu tinha que olhar pra ele? Não que eu não estivesse gostando, mas... Não, eu não entendi. Tentei esquecer o resto do quarto, me focando novamente apenas em seus olhos, como havia feito momentos antes. E deu certo. No segundo seguinte, tudo a minha volta fica preto, e só ele estava ali. Até que eu senti alguma coisa em meu joelho. Era a mão dele. Estava gelada e os dedos compridos apertavam de leve. Me arrepiei. Desviei o olhar pra porta.
-O que você ta fazendo? Não mexer não é a mesma coisa de não sentir... Ou é?
-Normalmente se você não mexe você não sente. -ele ri, ficando um pouco vermelho. Sim, ele tinha covinhas. A esquerda aparecia mais que a direita — Que bom que esta sentindo. -ele olha pra minha perna- Só sentiu agora?
-Sim... -o olho de novo — O que eu tenho? Tipo... Eu ainda não entendi. Um ataque não faz tudo isso. Era só um animal, não era?
-Calma. -ele ri mais alto- Você é curiosa. Eu já disse que vou te contar depois. -ele franze a testa- Só sentiu no joelho?
-Eu só não gosto de não saber as coisas que acontecem comigo... E sim, só no joelho. Onde você encostou. E ainda não consigo mexer a perna.
-Eu mexi na sua perna quase inteira. -ele me olha, colocando a coberta sobre as minhas pernas novamente- Espera um pouco, o.k? -ele vai até a mesa, olhando alguma coisa- Você tem um exame daqui... Uma hora. E vamos descobrir porque você não consegue mexer a perna.
-O.k... Última pergunta... Alguém veio enquanto eu estava inconsciente?
-Só um amigo seu, Mattew. Ele que chamou a ambulância. -ele sorri- Ele... Deu em cima de mim. -ele ri, fazendo careta.
-Muito a cara dele... -reviro os olhos — Me desculpe por isso.
-Não precisa pedir desculpas. Ele ajudou bastante até. -ele ri- Vocês devem ser muito amigos. Ele sabia o número do seu RG e cor. Eu pedi que ele falasse com a sua família, mas até agora ninguém pode entrar, porque você estava na UTI. Mas a partir de amanhã as visitas vão estar abertas para você.
-Não esperava tudo isso dele, mas depois eu agradeço. Prevejo minha família toda aqui -suspiro -O que é ótimo... Lugar apertado, cheio de pessoas, quase nenhum espaço livre. Que pessoa claustrofóbica não amaria?
-Você é claustrofóbica? -ele sorri- Sorte sua que são três visitar por dia no máximo.
-Graças a Deus -rio -Sou sim... Eu estou trabalhando nisso.
Ele começa a mexer nos aparelhos, sem me olhar. Olho o teto, pensando se falei alguma coisa idiota que teria sido melhor não ter dito. Outra coisa que preciso resolver é esse sentimento de que sempre fiz algo de errado.
Pouco depois de duas horas, eu já tinha ido fazer os exames e voltado. Os resultados ficariam prontos em algum tempo, e o enfermeiro (cujo nome ainda não sabia) mexia em alguns remédios numa prateleira do quarto. Tentei não prestar atenção nos músculos ressaltados pela blusa que ele vestia. E, pelo jeito... Quem cuidou de mim enquanto eu estava inconsciente havia sido ele. Nenhum médico ou outro enfermeiro pegou o lugar dele, e eu sinceramente não me incomodo.
Meia hora depois, um médico baixinho e careca entra no quarto, com um envelope na mão. Meu enfermeiro vai até ele e eles começam a conversar em voz baixa. O médico sai e o enfermeiro pega os exames os olhando com atenção. Ele nega com a cabeça, sussurrando alguma coisa.
-O que foi? O que eu tenho? Se é que eu tenho alguma coisa... -me sento, ignorando a dor agonizante que passa pelo meu corpo — Fala...
-Alice. -ele me olha, um pouco pálido- Sinto muito. Eu... Queria poder fazer alguma coisa. -a voz dele soava um pouco triste- Me desculpe. Eu não sei o que eu posso fazer para te ajudar. -seus olhos estavam um pouco mais escuros- Acho que você não vai gostar muito de como a sua vida vai ser a partir de agora.
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