The Haunted

12 Capítulo 11


Notas iniciais
Enjoy ;)

"Diferente não denota ruim nem bom, mas certamente significa" não é o mesmo '. "
—Cheshire Cat; Alice Madness Returns

Alice Heartblood

Meu telefone começa a tocar. Eu tinha chego tão perto... Merda de celular. Faltavam uns cinco centímetros. Minha boca já estava formigando. A raiva foi grande. Mas me controlei. Não iria quebrar nada, nem gritar, por mais que fossem minhas vontades. Não iria ignorar o celular e o beijar mesmo assim, até porque Harry já tinha tirado uma das mãos de minha cintura.

-Não acredito nisso... -fecho os olhos e suspiro, ainda com nossas testas coladas. -Eles esperam esse momento para ligar. Sempre. — ele ri, deitando na cama novamente, enquanto eu atendia -Alo?

—Alice... —era Melody — Eu mudei de ideia. Vou junto.

—Sério? O.k... Mas por que a mudança rápida de ideia?

-Eu pensei melhor... E acho que é mais fácil assim. —ela suspira.

-Hm... O.k então.

-Vocês vão amanhã de manhã, né?

­ -Acho que sim... Não sei que horas, já que vamos ter que passar na faculdade antes.

-Me manda uma mensagem avisando o horário e eu vou ai. —ela ri

-O.k. -rio baixinho também

-Tchau. Não demora para dormir.

-Vou tentar. Boa noite. -ela desliga e eu olho para Harry — Ela mudou de ideia. Que horas vamos?

-A hora que você quiser... Mas precisa ser de manhã.

-O.k. Depois das nove. Não vou conseguir acordar antes disso. -faço careta. Ele ri e arruma o cabelo enquanto eu deito na cama — Sobre os sonhos... Sabe se é só coincidência?

-Acho que não. -ele ri baixinho — Por que você acha isso?

-Não sei. Foi estranho sonharmos com a mesma coisa. -rio o olhando.

-Exato. É estranho. Não é normal isso acontecer. Claro que a transformação envolve sonhos, mas...

-Deve ser o sangue. Espero que não, mas...

-Não. O sangue não faz isso.

-Então eu não sei. -olho para baixo e ele suspira — Eu... estava querendo fazer mais um desenho. Não tem nada com a faculdade, mas pra tirar o tédio. -levanto, pegando a prancheta, papel, lápis e borracha. Graças a briga mais cedo eu havia terminado todos os trabalhos acumulados e os levaria amanhã, mas estes só seriam considerados se meu atestado médico estivesse junto, explicando minhas faltas. No caso, vou levar o médico mesmo.

-Quer ajuda? -ele sorri, sentando.

-Para pensar no que desenhar sim. -sorrio de canto. Harry fica me olhando. -Alguma ideia do que eu posso fazer? -sento do lado dele.

-Não sei... -ele ri- O que você gosta de desenhar?

-Depende do dia... Hoje eu não faço ideia – rio

-O que você desenhou por ultimo?

Pego o desenho que fiz de tarde e dou pra ele. Agora que o pouco de tinta que usei estava seco, o desenho tinha ficado ainda mais escuro, realçando a menina e as rosas.

-Isso ai. — Harry fica serio, olhando o desenho. -Está... Muito ruim? -olho pro desenho, já ficando desanimada. Ótimo. Ele odiou. Eu sabia que eu não desenhava bem, mas não sabia que provocava isso nas pessoas. Quer dizer, eu desenho bem, mas não sou nenhuma artista. E o desenho foi feito até que rápido... Merda.

-Você tem problemas? -ele ri- Ficou ótimo. -ele me olha, mordendo o lábio- Não sabia que você desenhava tão bem assim. Fiquei... Chocado?

-Isso eu percebi... -rio baixinho –Design Gráfico sempre foi minha segunda opção da faculdade, depois de psicologia, claro. Então acabei aprendendo um pouco a desenhar. Aprender lá me atrapalharia bastante.

Ele ri, olhando para o desenho novamente. Sorrio e começo a rabiscar algumas coisas, linhas aleatórias no papel. E os rabiscos ganham formas. Olhos não muito grandes, nariz certinho e simétrico e boca grande com finos lábios.

-O que você esta desenhando? -ele tenta olhar o desenho

Olho pro desenho. O começo de um rosto. O rosto dele. Com quase todos os detalhes sendo começados. Pego a borracha e começo a apagar

-Idiotices. Não é nada não...

-Fala... Por favor.

-Alguém. É tudo que vou falar.

-Fala logo quem era.

-Ninguém em especial. Você não precisa saber. — rio e ele revira os olhos, deitando. Volto a desenhar murmurando — Já que você não me ajuda, vou desenhar a Alice.

-Você vai se desenhar, Victoria? -ele ri.

Rio baixinho, amando o comentário. Eu sempre gostei quando as pessoas faziam comparações entre mim e a menina do livro. Me sentia especial. E Harry... Bom, ele deveria saber muita coisa sobre mim, ele é meu médico. Mal sabia ele que também sabia algumas coisas sobre ele. Melody já falou o nome inteiro dele em uma briga, por exemplo. Era Harry Jonathan Stormblood. Eu amava o nome “Jonathan”, então o fato de ele se chamar assim foi bem... Interessante.

—Não. A Alice legal. -rio -Meu nome estava inteiro naquela ficha de hospital, não?

-Também... Mas a Melody tinha me falado.

-Imagino... -sorrio — Eu queria que fosse só Alice Heartblood. Sem o “Victoria” depois do meu primeiro nome. Fica estranho.

-Por quê?-ele ri alto — Eu gosto... Victoria. É o nome da rainha, não é?

-É... Mas eu gosto de Alice — rio e o olho — Quando você fala em Alice você lembra de um monte de coisas. País das Maravilhas, coelhos, chá, livros, uma menina incrível. Quando você fala em Victoria... Não se lembra de nada. A menos que seja a rainha. Ou seja, qualquer outra é uma mera cópia.

-Lembro de você... Única. -ele sussurra. Sinto o rosto esquentar e continuo desenhando.

—Ou não... – dou de ombros e ele ri negando com a cabeça. O olho, sorrindo de canto — Por que ri tanto, Jonathan?

-Você é engraçada, Victoria... -ele ri mais alto. Logo Harry boceja se espreguiçando.

-Dormir? -rio. Ele concorda com a cabeça, sorrindo. Mostro o desenho. Era a Alice (a melhor Alice) com o queixo apoiado na mão. Estava toda tatuada e com piercings e um alargador. Ainda era só a base. -Só fala se está bom.

-Está ótimo. -ele sorri, levantando — Termina isso ai e vai dormir ou então você não vai acordar amanhã cedo -ele me dá um beijo no topo da cabeça -Vou tomar banho e dormir.

-Vai lá. Boa noite.

Ele sorri e sai do meu quarto, indo para o banheiro e ligando o chuveiro. Volto a desenhar, às vezes olhando para a porta do banheiro. Depois de um tempo ele sai do banheiro, com uma blusa preta e uma toalha azul enrolada na cintura.

Droga. Ele levou uma blusa.

Harry me olha, sorrindo de canto e vai para o quarto dele. Suspiro e vou tomar banho. Depois que terminei, voltei para o quarto, coloquei o pijama, terminei o desenho e fui tentar dormir.

Péssima ideia.

Quando abri os olhos, eu estava em meu quarto na casa da minha mãe. Tinha alguma coisa estranha ali. Eu sabia que era meu quarto. As paredes ainda tinham desenhos e a cama ainda estava com minhas coisas em cima. Mas não parecia.

O quarto parecia estar maior e as paredes que antes eram azuis estavam brancas. A tinta descascava e sangue parecia escorrer do teto, nas rachaduras. As prateleiras não tinham mais os bichinhos de pelúcia e livros pequenos -como "Branca de Neve", "Pequena sereia" e "Bela e a Fera".-, estavam cheias de bonecas de porcelana. Todas quebradas, algumas sem os olhos, outras sem alguns membros e outras ainda, me observando. Muitas tinham pregos na cabeça, outras pareciam se mover.

Levanto, respirando fundo. A porta estava longe então comecei a ir à direção da mesma. Estava chovendo e tinha apenas um feixe de luz que entrava pela janela. De vez em quando, tudo se iluminava com os relâmpagos.

Comecei a ouvir sussurros. Eu estava sozinha, mas ouvia meu nome sendo repetido junto com risadinhas e o barulho de coisas se arrastando. Tentei andar mais rápido. Era só um sonho.

Vultos se mexiam nas sombras, cada vez mais perto. As bonecas pareciam sorrir de um jeito ainda mais maligno, virando as cabeças para me ver andando.

Sinto alguma coisa agarrar meu tornozelo. Acabei gritando e pulando. Um braço de boneca se solta do meu tornozelo e cai na minha frente, quebrando. Eu já estava tremendo e deveria estar pálida.

Quanto mais me aproximava da porta, mais alto ouvia os sussurros chamando meu nome. Comecei a prestar mais atenção nas bonecas que pareciam se aproximar. Eram idênticas a todos que conhecia. Melody, minha mãe, meus avós, minha família, Harry, os médicos, Mattew... Eu mesma.

Tentei correr, mas as bonecas se agarraram em meus calcanhares, rindo e me derrubando. Eu tentava me arrastar, a ponta dos dedos já sangravam.

Não era apenas meu nome que elas sussurravam. Eram coisas como "vamos brincar?", "quem morrer por ultimo ganha". Eu tentava me soltar, tirando-as de cima de mim e as jogando no chão. A cada uma que quebrava, três novas e piores apareciam. Eu já não conseguia me mexer. Gritava por ajuda.

Gritava por Harry.

E elas pareciam se divertir com isso.

Nunca gostei de bonecas, sempre tive medo delas. Tentava não ter, mas era impossível.

A boneca que parecia minha mãe -alguns fiapos de cabelo castanho claro e olhos de cores diferentes- pula em meu pescoço, rindo e falando.

-Pare de ser problemática, Alice! São só bonecas.

As mãozinhas dela arranhavam meu pescoço, rosto, puxavam meu cabelo. Tentei gritar, só que nenhum som saiu de minha garganta. Era como se eu estivesse engolindo terra.

-Meu maior erro foi não ter te colocado num hospício quando ainda era pequena. Criatividade e determinação nunca funcionam juntos, principalmente com uma maluca. -a boneca/mãe fala de novo.

Quando consegui olhar para baixo, quando as bonecas saíram de cima de mim, eu estava com uma camisa de força. O quarto agora era todo branco, ainda manchado de sangue, sem a janela ou a porta. As bonecas continuavam ali, rindo de mim. Elas seguravam coisas como bisturis, facas, serrotes e agulhas. Uma das bonecas, que parecia um psiquiatra que já frequentei, começa a falar.

-Temo que o único jeito de saber o que se passa nessa cabeça é abrindo-a. Então é isso o que vamos fazer agora, querida.

A boneca que parecia Harry ri alto. Não era a mesma risada, fofa e divertida. Uma risada monstruosa, fria... Ruim.

-Não vai doer nada. Eu prometo.

Novamente tentei gritar por ajuda e nada. Elas começam a rir, se aproximando. Tentei me arrastar para longe, mas mal conseguia me mexer com a camisa, que parecia estar mais apertada. Eu estava ficando sem ar.

A primeira boneca que pulou na minha frente não lembrava ninguém que eu conhecesse. Tinha alguns fios de cabelo castanho e olhos azuis gélidos. Era a que mais sorria. E foi essa quem enterrou a faca em meu pescoço, me olhando diretamente nos olhos.

* * *

Acordo suando frio. As cobertas estavam no chão. As rosas nas paredes pareciam escorrer sangue. O que tinha me acordado havia sido meu exemplar de "Alice no Pais das Maravilhas" caindo da prateleira.

Coloco o rosto entre as mãos, respirando fundo. Estava tremendo. Eu não ia conseguir dormir de novo. Eu mal conseguia respirar, estava tendo um ataque de pânico.

Geralmente eu ia para o quarto da Melody quando isso acontecia. Mas eu não estava em casa. Então fiquei uns dez minutos pensando na possibilidade de ir para o quarto dele. Quando o lápis rolou para fora da mesa e eu ouvi um trovão, decidi.

Sai do quarto, encolhida, ainda tremendo, e abri a porta do quarto dele. Era grande e azul, com uma janela não muito grande e prateleiras cheias de livros. A cama era de casal, logo abaixo da janela, e ao lado da porta tinha uma escrivaninha toda bagunçada. Na parede haviam alguns desenhos. Harry estava jogado na cama, coberto até o pescoço.

-Harry? -minha voz saiu num sussurro e eu fechei a porta atrás de mim. Ele se mexe um pouco, ainda dormindo. -Harry... Jonathan... -chego um pouco mais perto da cama.

Ótimo, não bastasse você acordar ele por um pesadelo, você ainda chama de Jonathan e fica parecendo uma criança.

Ele abre um pouco os olhos, me olhando. Harry se espreguiça, fazendo um barulho engraçado.

-Eu... Desculpa te acordar...

-O que aconteceu? -ele boceja — Está tudo bem? Quebrou alguma coisa?

-Não... É normal que eu tenha pesadelos juntando todos meus medos e deixando o mais real possível?

-Sim... -ele me olha nos olhos. -Foi isso? Você teve um pesadelo?

-Foi. E eu pareço uma criança, mas... Posso... Ficar aqui?

-Claro. -ele vai para o lado, levantando a coberta. -Tudo bem, Ali. Você não está parecendo uma criança.

-Quando o pesadelo inclui bonecas de porcelana... Você é uma criança. -deito do lado dele e me cubro.

-Para. -ele ri — Não vai acontecer nada, o.k? Eu disse que ia cuidar de você. -ele coloca o braço em volta da minha cintura. Sorrio e me encolho um pouco, me aproximando.

-Tempestades não ajudam muito...

-Calma. Não vai acontecer nada.

-Eu sei... Do mesmo jeito... -bocejo.

-Eu estou aqui. -ele suspira, fechando os olhos — Qualquer coisa, me chama. -ele ri baixinho — Eu vou te proteger de tudo, Victoria.

Rimos baixinho.

-Boa noite...

Ele sorri, me abraçando. O abraço também, fechando os olhos e pegando no sono.

* * *

Escuto alguém chamar meu nome. A voz era rouca e calma. Eu tinha quase certeza de quem era.

-Mais cinco minutos... -murmuro.

-Alice, acorda... -escuto Harry falar.

-Estou acordada... -sento na cama, ainda de olhos fechados. Me espreguiço -Hm... Que horas são?

-Dez da manhã. -ele ri baixinho — O que vai querer comer?

-Bacon. -rio e abro um pouco os olhos. -Bom dia.

-Bom dia... Só bacon?

-Sim... -sorrio ainda com sono. Por que tantos sorrisos? Ah é... Dormi abraçada com ele. Não me lembro de termos nos separado, ou nos chutado. E espero não ter falado nada. Ele ronca um pouco... Mas ronca baixinho.

-Então fica deitada mais um pouco, te chamo quando ficar pronto.

-Eu tenho que me arrumar — falo levantando. O quarto dele era mais claro do que eu me lembro de ter visto ontem à noite, e pude ver os desenhos de rosas, pessoas, coisas aleatórias nas paredes.

-Então toma banho enquanto eu faço o café da manha, porque a viagem vai ser longa.

-Que divertido. -faço careta e levanto.

Ele sai do quarto rindo e eu vou para o banheiro, me despindo e tomando banho. Volto para o quarto, coloco uma calcinha e um sutiã e fico um tempo parada na frente do armário. Depois, peguei uma blusa meio rosa de mangas compridas, jeans preto, coturnos marrons e minha jaqueta verde-militar. Escovei o cabelo e fiz a melhor trança que consegui, com o cabelo ainda molhado. Já tinha arrumado a bolsa de noite, com só duas mudas de roupa e obviamente roupa íntima e coisas necessárias. Passo apenas rímel, faço a sobrancelha e vou para a cozinha.

Harry estava sentado na mesa, olhando pela janela. A rua estava silenciosa, mas podiam-se ouvir dois gatos brigando em algum lugar lá embaixo. Sorrio, sentando na frente dele.

-Heey... -ele sorri — Quanto tempo a viagem vai demorar?

-Não faço a mínima ideia. -ele ri alto — Mas demora bastante.

-Que lindo. -rio e ele levanta, colocando algumas fatias de bacon no meu prato e colocando um pouco de suco de uva no meu copo. Sorrio o olhando. — Valeu.

Ele senta na minha frente novamente, sorrindo.

-Desculpa ter te acordado ontem. -começo a comer.

-Tudo bem... -ele ri — Foi engraçado e fofo.

-Fui lá só porque acho que esse foi o pior pesadelo da minha vida. -rio.

-Sempre que você tiver pesadelos, me acorda... -ele sorri — Eu gosto de cuidar de você.

-Então é mais fácil eu me mudar para o seu quarto... -sorrio e o olho, sentindo o rosto esquentar — Eu... Falei isso mesmo?

-Acho que seria meio difícil para mim... -ele ri, olhando para a mesa — Teria que me segurar mil vezes mais para não te beijar.

Ele fica um pouco vermelho e eu rio, terminando de comer. Escutamos alguém bater na porta. Levanto, colocando as coisas na pia e sorrindo de canto.

-Eu atendo... -abro a porta.

Era Melody. Ela usava um casaco grande e preto, calça preta e um coturno vermelho escuro. O cabelo dela estava pintado de azul agora e estava preso em um rabo de cavalo. Ela usava a mesma maquiagem pesada de sempre e segurava uma mochila cinza no ombro.

-Oi. -sorrio a olhando.

-Oi... -ela retribui — Dormiu bem?

-Sim, e você? -fecho a porta quando ela entra.

-Bem... Estou um pouco cansada, mas bem.

-Oi, Melody. -Harry aparece ali.

-Oi, Harry... -ela sorri de canto. Eles estavam... sendo legais um com o outro? O que eu perdi?

-Nós já vamos? -olho para ele.

-Você queria passar na faculdade, não? -ele ri — Acho que seria bom você levar uma bolsa pequena, só com coisas básicas como roupas íntimas, umas duas mudas de roupa, outro sapato e mais alguma coisa que você queira. -ele sorri — Não é bom levarmos muita coisa.

-Eu já arrumei isso ontem. -rio — Falta só pegar os trabalhos da faculdade.

-Eu não tinha visto você arrumando. Desculpa — ele ri, sentando no sofá.

-Acho que você já tinha ido dormir. — rio também.

Vou para o quarto, colocando só mais um sapato na bolsa, junto com o carregado portátil do celular. Uma viajem sem música tende a ser uma merda. Pego a bolsa que estava na cadeira e os relatórios e pesquisas que estavam na escrivaninha e volto para a sala.

Melody me olha, sorrindo e eu retribuo.

-Na faculdade é rapidinho. Vamos?

Harry concorda com a cabeça, pegando uma mochila pequena que estava ao lado do sofá. Ele arruma o cabelo e vai até a porta, abrindo a mesma. Vamos andando em silencio.

-Nós vamos de trem... -ele fala, me olhando. Eu andava entre ele a Melody, me sentindo ainda mais baixinha — O.k?

-O.k... -sorrio de canto.

Como a faculdade era bem na metade do caminho para a estação, depois de alguns minutos estávamos parados na frente do prédio antigo com várias escadas e janelas enormes. Já que era sexta feira, alguns alunos estavam sentados nas escadas. Era intervalo, ou seja, as pessoas que eu mais odiava estavam ali. E Mattew também. Ele corre até nós.

-Alice! -ele grita, todo animado — Sua vaca, não me ligou nenhuma vez. -ele ri — Oi Melody... Oi Harry. -ele sorri maliciosamente. Rio revirando os olhos.

-Oi, Matt. Desculpa não ter ligado... Ahn... Eu só vim deixar os trabalhos. Já estamos indo, na verdade.

-Por quê? Para onde vocês vão? Por que estão com mochilas?

A expressão dele estava me dando muito dó. Estava franzindo a testa, fazendo uma linha de preocupação aparecer entre seus olhos. A boca estava meio aberta, confuso. Ele nos olhava como um cachorro faz quando os donos vão viajar e ele não vai junto.

-Mattew. -Melody começa — Chega de perguntas. Nós vamos viajar.

-Depois explico. -me apresso ao ver mais uma vez a cara dele — Desculpa, Matt.

-Tudo bem... -ele sorri fraquinho — Só me mande notícias, o.k?

-Claro... Ahn... Me diz que as vadias não vieram hoje.

-Vieram. -ele ri — Mas não estou vendo elas por aqui, então aproveita e corre entregar isso. Estão ainda piores com seu sumiço. Tem muitos boatos do tipo que você está grávida. Estou dando um jeito nisso.

-O.k, obrigada... –aquela idiotice nem me incomodava mais, realmente. Elas sempre inventavam boatos sobre mim. E criar um falando que estou grávida não é nada original. — Eu vou lá entregar, vocês esperam aqui fora. -começo a subir as escadas meio correndo, ignorando os olhares e sussurros. Escuto alguém logo atrás de mim. Olhei para a pessoa pelo canto do olho, sorrindo. -Harry... Por que não fica lá esperando?

-Porque não vou te deixar sozinha. -ele ri — Eu levo a sério o meu trabalho de guarda costas de loirinhas.

-Você não é meu guarda costas — rio alto, chegando na frente das portas abertas que revelavam um grande e largo corredor com paredes beges, chão de granito branco e vários armários verdes. Meu inferno.

-Eu estava brincando, idiota. -ele nega com a cabeça, rindo baixinho. -Não é bom você ficar andando sozinha durante o processo de transformação... Ainda mais com Oliver nessa cidade.

-Desculpa, mas acho que ele não sabe onde estudo.

-Você não sabe do que ele é capaz de descobrir.

-Ele é o "senhor fodão". -faço careta — Mas enfim, melhor irmos logo. -entramos finalmente no prédio, indo na direção da sala dos professores. Ficamos andando em silencio até que comecei a ouvir o barulho de saltos-agulha e vozes irritantes. -Ah, merda...

-O que foi? -Harry olha em volta.

-Vadias. -começo a andar mais rápido, segurando os trabalhos mais perto de mim. -Sabe as meninas da história da minha cicatriz? Então, elas cresceram e ainda estudam comigo. Faculdade de Design de Moda, ou algo do gênero.

-Posso socar elas? -ele sorri de um modo maldoso e eu rio baixinho.

-Se quiser... Eu só não queria encontrar elas.

-Olha só quem resolveu voltar! -ouço a voz aguda de Samantha. "A líder". Ela deveria ter uns bons cinco centímetros a mais que eu, e ainda usava sapatos com salto agulha de vinte centímetros. O cabelo moreno dela era totalmente cacheado e a pele pouco morena sempre contrastavam com as roupas dois números abaixo que ela usava. Os olhos eram castanhos.

Tinha duas amigas. Mary e Leonna. Ambas mais baixas, mais magras e mais estranhas que aquela que seguiam. Mary era totalmente sem forma, usava roupas brilhantes e coladas, devia ter feito no mínimo treze plásticas. Também era morena com olhos castanhos e era bem pálida, com o nariz torto, bochechas e lábios inchados.

Já Leonna era a mais bonita das três. E a mais burra. Seu cabelo cor de mel era perfeitamente encaracolado, pele morena sem nenhuma imperfeição, nariz empinado, olhos negros e boca grande. Tinha corpo, era alta e usava roupas muito curtas.

Me sinto um lixo obeso perto delas.

-Olha só quem ainda não morreu. -murmuro olhando para trás, para elas. -O que querem?

Eu poderia muito bem ignorar. Mas digamos que não estou mais com paciência, nem num bom tempo. Tenho medo de atacá-las, mas apenas por expor o segredo dos demônios. Mas não iria deixar mais nada quieto. E mesmo que não as ataque... Elas precisam ver que não tenho medo de responder elas.

-Nada, ficamos preocupadas. -Leonna ri alto -Sentimos tanto sua falta, gnomo.

Elas me chamavam assim por minhas orelhas serem um pouquinho mais pontudas, meu nariz arredondado na ponta, ser loira e sardenta. Além, óbvio, de ser baixinha e um tanto invocada. Um apelido justo, admito.

-Então, ótimo. Já viram meu rosto de novo. Se não se importam, e sei que não, estou com pressa. -viro para frente, dando de cara com Mary. Olho para cima, a olhando nos olhos. -Você fez mais uma plástica no seu nariz, ou levou um soco?

Ao meu lado, Harry segura a risada. Isso foi o suficiente para elas finalmente o notarem. Foi como jogar um pedaço de carne fresca no meio de três piranhas famintas. Todas desviaram o olhar de mim e pararam nele, que estava encostado na parede, com um pé na mesma e os braços cruzados.

-O que um cara como você faz aqui? Acho que não nos conhecemos, Sou Samantha. -ela anda até ele, o devorando com o olhar. Reviro os olhos.

-Samantha? Ah sim. Alice deve ter comentado sobre três cobras que estudavam no mesmo lugar que ela. Hm... Gosto de manter distância de animais venenosos. Tipo uma vaca mutante como você.

Foi minha vez de segurar a risada. Harry me olha nos olhos, sorrindo de canto. Retribui o sorriso, mordendo o lábio onde estava o piercing em seguida. As meninas revezam o olhar entre nós, confusas.

-Como se conhecem? -Leonna pergunta. -E por que anda com um gnomo?

-Não conheço vocês, ela é mais bonita, com certeza mais interessante em todos os aspectos... Nos conhecemos porque... Somos... -ele faz uma pausa curta como se pensasse no que falar. Eu já estava vermelha, fazendo sinal para ele parar. -Somos namorados.

Depois dessas duas palavras, eu quis sumir, gritar, beijá-lo, dar um tapa na cara dele, perguntar o que ele estava pensando, e então beijá-lo de novo. Como assim, namorados? Da onde ele tirou isso?

-Alice Heartblood namorando? Por favor, lindinho. Uma piada melhor na próxima vez. -Mary ri.

-Não é uma piada. Seria se alguma de vocês falasse que está namorando sério. -ele me olha e elas também.

-Uma gnomo como você, com um cara desses? -Samantha ri alto -O.k, até parece. Ele não pode ser tão cego e burro, quando a pessoas melhores por perto...

-Porque não acredita, querida? -falo, entrando no joguinho de Harry, indo até ele meio tremendo — Está com inveja porque ainda não teve um namorado fixo que te amasse por quem você é e não pelo que você faz na cama? Desculpe se a desapontei.

Ela fica vermelha por conta da raiva, e as amigas dela tentam a ajudar. Harry ri baixinho, envolvendo minha cintura com uma das mãos, me puxando um pouco mais perto e me olhando como se pedisse desculpas. Elas iam falar alguma coisa, mas então desistem, saindo dali com os saltos batendo contra o mármore. Olho nos olhos de Harry e falo, após elas se afastarem o bastante para não nos ouvirem.

-Namorados, Stormblood?

-M.Me desculpa, foi a primeira coisa que passou na minha cabeça. Eu já estava ficando tonto com o perfume delas misturados.

-Tudo bem... Mas ninguém precisa saber disso.

-O que aconteceu será esquecido. -ele concorda e voltamos a andar, rindo em seguida.

Chegamos à sala dos professores, entreguei os trabalhos para o sr. Johnson, ele os olhou e elogiou -sorri muito, claro- e nós explicamos. Harry agora passou de namorado para médico, explicou minha situação inventando algo como "ela não apenas foi atacada por alguém, mas bateu a cabeça muito forte. Iremos viajar agora para ela poder fazer alguns exames.". Eles perguntaram se ele não era muito novo para ser médico. Harry apenas riu e falou que não. Depois disso, saímos da escola.

Melody e Mattew conversavam sobre alguma coisa quando chegamos. Depois de me despedir dele e prometer ligar assim que pudesse, nós três voltamos o caminho para a estação de trem.

Depois de comprarmos as passagens, sentamos em um único banco vazio perto dos trilhos e esperamos. Eu continuei no meio deles e ainda estávamos em silencio. Eu estava entediada, Harry parecia quase dormir e Melody parecia um pouco nervosa e preocupada, ela ficava olhando para os lados, certamente procurando alguém.

-Para onde exatamente estamos indo? -suspiro, arrumando o capuz da minha jaqueta.

-Você já não me perguntou isso, não? -Harry fala, me olhando — Iremos à vários lugares até acharmos a pedra. Depois vamos para ainda mais longe, achar o cara que vai fazer aquela coisa toda de deixar a pedra sua.

-Eu perguntei? Ah... Desculpa então. Foi à primeira coisa que me veio à cabeça agora. -rio meio cínica, lembrando-me da mentira que ele inventou mais cedo.

Ele ri, olhando para o chão em seguida e eu encosto-me à parede, rindo também. Melody nos olhava confusa, já que não sabia da história.

Pouco depois nosso trem chega e nós entramos no mesmo. Estava quase cheio, os bancos eram bem separados e compridos. Dava para umas quatro pessoas em cada. Harry nos puxa para o fundo do trem, sentando no último banco. Rio e nos jogamos no lugar. Eu estava ao lado da janela, Harry do meu lado e Melody ao lado dele. Olho pela janela enquanto o trem começava a andar ainda lentamente.

-Se você sentir dor... -Harry sussurra, perto de mais da minha orelha — Me avisa.

-O.k. -sorrio de canto e olho. Ele retribui o sorriso, mordendo o canto do lábio. Volto a olhar pela janela antes que eu tentasse me aproximar. Melody estava ali. A olhei a tempo de a ver colocando os fones e fechando os olhos. Coloco os pés em cima do banco. -Acha que vamos achar a pedra rápido?

-Não. -ele ri — Não é fácil achar. Até porque agora tem as falsas.

-Bosta. -rio — Mas acho que é melhor assim do que se eu fosse procurar sozinha.

-Sim... Até porque os lugares não são muito... Seguros. -aquilo havia soado mais como uma pergunta. Ele tenta segurar a risada.

-Mais mensagens. Mattew me ama. -olho o celular. Harry ri, olhando para frente. -Ele está perguntando se estamos namorando.

-Por quê? -ele me olha, confuso.

-Porque provavelmente elas já contaram para meio mundo sobre a mentira. Amam fazer isso.

-Elas têm problemas muito sérios. -ele sorri — Tudo bem. Talvez elas parem de te encher o saco por causa desse boato.

-Vou te amar para sempre se elas pararem. -sorrio. Harry ri baixinho, olhando para baixo em seguida e ficando um pouco corado. Rio e pego os fones, fazendo-o me olhar pelo canto do olho. Estendo um fone para ele. -Quer um?

-Não precisa. -ele sorri me olhando nos olhos.

-Tem certeza? -faço biquinho. Geralmente meu biquinho derrete as pessoas por eu ter um pouco de cara de bebê ainda.

-Eu... -ele sorri, franzindo a testa e olhando para minha boca -Ah, isso não vale, Alice. -ele faz biquinho também,

Rio, olhando para os lábios dele. Senhor, o que é isso? Como alguém supera meu biquinho? Ele estava com as sobrancelhas levemente arqueadas, o biquinho e a cabeça um pouco baixa, de modo que seu cabelo cobrisse um pouco o rosto. O que pensei no momento? Simples. "Preciso beijar ele".

Se recomponha, Alice.

-O meu vale. O seu não.

-Nenhum dos dois vale — ele ri baixinho.

-O meu vale... Tem certeza que não quer o fone?

-Tenho! -ele ri — Estou com um pouco de dor de cabeça, então fones não são uma boa coisa, sabe... Mas obrigada.

-Hm... Dormir é uma boa coisa. Tenta dormir um pouco. -sorrio de canto, colocando "Famous Last Words” do My Chemical Romance. Me encolho um pouco, ainda olhando para o celular.

-Não. Preciso prestar atenção... -ele olha para Melody e depois para mim. -Vocês duas tem que dormir e eu fico acordado para ter certeza que nada vai acontecer, principalmente com você.

-Não estou com sono. Você que precisa dormir.

-Para de insistir. Se não quiser dormir, não dorme. Mas se você reclamar que está cansada eu vou te dar um soco. -ele arqueia uma sobrancelha — E eu não vou te levar no colo.

-Nossa, que droga. Meu plano foi estragado. -falo irônica, revirando os olhos e apertando o play. Ele ri, negando com a cabeça e desviando o olhar. Começo a cantarolar baixinho, pegando o livro na bolsa e começando a ler.

-Licença... -escuto um homem de voz grossa falar. -Harry?