Notas iniciais
Então, tenho muito medo e tal mas aqui está. Postando apenas para ver se alguém se interessa pela história, idk.

Segundo as leis naturais, tudo neste mundo está em um grande processo evolutivo. Assim, dizemos que um dia todos morrerão e tudo se desfalecerá diante da próxima geração, mais vivaz e feroz que a anterior, esquecendo o que se passou em um ciclo sem fim e relativamente normal. Lembro-me de desejar um final feliz, uma história fictícia que se tornasse realidade, o que pelo destino e os acontecimentos de minha curta vida, era óbvio que os sonhos de uma garotinha não se revelariam em uma reviravolta verdadeira ou supostamente fantástica como um clichê de contos de fadas. Observando a monótonidadecom que a vida é tratada, não é surpreendente ver alguém tentar escapar do mundo frio e vazio, procurando algo como virtudes e atos sinceros, algo… Diferente.

O senhor Danshov me levou ao aeroporto com as janelas do carro absolutamente fechadas, apesar de minha constante claustrofobia. Fazia menos cinco graus em Moscou, o céu nublado e coberto de nuvens acinzentadas, como eu sempre gostara, quase como um sinal divino de despedida. Minha ida do querido refúgio. Minha mãe decidira que assim acontecesse, esperando que morar com meu pai amenizasse minha condição emocional e física. A famosa duquesa de Tula, Catarina Romanov, convencida de que me afastando de qualquer resquício de minha vida social e passado recente seria mais fácil. Um pouco depois de meu aniversario de dezesseis anos acontecera o acidente. O barulho de metais se chocando penetrara meus ouvidos como um paralisante contagioso, fazendo-me acordar somente de ouvir os gemidos de minha tia, Anastasia. Suas mãos ensanguentadas segurara as minhas, tentando me acalmar enquanto sua face empalidecia. A ambulância a tirara de mim com o corpo já sem vida e tudo ficara escuro. Eu acordara três meses depois. Ergui a cabeça, os olhos grudando de sono depois de doze horas de voo constantes, procurando por meu pai. Seu motorista, Bill, sorriu acenando com a mão e suspirei, surpreendentemente aliviada. É claro que ele não viria, ocupado demais era o que me dizia. Encarei a janela enquanto percorríamos as ruas de Los Angeles, em rumo a área rica e mesquinha da cidade, onde eu gostava, apesar da vizinhança.

—Senhorita Romanov?— ouvi Bill, virei a cabeça devagar e encontrei sua expressão preocupada.

—Chegamos.— voltei-me para a janela e arqueei as sobrancelhas surpresa. Esgueirei-me para fora do carro e tomei posse das bagagens de mão

—Está tudo bem, senhorita Romanov?— sorri, disfarçando meu desconforto de estar ali.

—Sim… Ótimo, obrigada por perguntar, Bill…— respirei fundo e forcei-me a dar mais um passo. A mansão continuava a mesma desde a última foto mandada, o que era estranho, contando que a namorada de meu pai a reformava a cada troca de estação. Meu coração acalmou ao ver o rosto conhecido da senhora Roots, a governanta que mantinha a casa em ordens desde sempre.

—Senhorita Romanov! Como cresceu…— meu sorriso se alastrou devido a formalidade, em minha opinião descartável. Abracei-a fortemente e a segui para dentro, até minhas acomodações.

O quarto cheirava a rosas frescas e cravos, meu perfume. Eu não o via há quatro anos e consequentemente me alegrei de vê-lo, as prateleiras de livros metodicamente arrumados, a colcha verde alinhada e as almofadas coloridas macias. Abri a janela, sentindo a brisa fresca entrar e fechei os olhos, aspirando o ar hostil em meus pulmões. Enfiei-me no chuveiro e tranquilizei instantaneamente, as tensões em meu corpo se desfazendo a medida que a água me atingia, suave e refrescante. Atravessei o banheiro e parei, encarando-me involuntariamente no espelho. A garota era de altura mediana, pele clara amorenada, esbelta e altiva, as maçãs do rosto levemente coradas, nariz fino, lábios delicados e grandes olhos castanhos claros, as madeixas escuras caiam em um liso profundo até a base das costas. Vesti-me com a primeira roupa de minha mala e desci as escadas.

—Anja?— meu nome ecoou pela sala, a voz de meu pai contente e hesitante. William Van Wood envolveu-me em um abraço paternal, parecendo interessado ao perguntar da viagem, os olhos brilhando ao me ver comer faminta minha pizza preferida, pepperoni, e assentir ao me ouvir dizer que estava cansada

—Se quiser conversar sobre a escola, não quiser ir essa semana, não há problemas…—

—Não! Na verdade, eu gostaria de ir, distrair-me um pouquinho.— ele sorriu, concordando. Beijou-me na testa carinhosamente e me seguiu com os olhos até o quarto. Concentrei-me em não pensar em nada e mergulhei na escuridão de cansaço.