“Você é mais forte do que pensa, mas só se quiser. Você ainda vai chorar, ainda vai ter momentos em que vai achar que não consegue continuar. Mas você tem que agir como se fosse conseguir.” Noites de Tormenta.

— Quem é o diretor da escola? — perguntei distraída, os olhos estavam focados no corredor, nas pessoas pelas quais passavam, no lindo chão, no teto, nas paredes, nos alguns quadros nas paredes e nos armários azuis-marinhos. Lizzie sorriu, divertindo de minha curiosidade.

–É diretora. Elinor White– assenti, a observando pelo canto do olho. Sempre havíamos sido ligadas mais do que primas normalmente eram, mesmo assim eu não há via há quase um ano e ela com certeza mudara. Seu sorriso brilhava, os dentes completamente alinhados, o nariz menor e os cabelos louros ligeiramente cacheados. Segui-a até a primeira porta do corredor do segundo andar, tentando me concentrar na aula, escolhendo as matérias alternativas. Escolhi teatro, o professor me dissera que eu poderia trocar os turnos quando eu quisesse. Teríamos que escolher monólogos, mas antes teríamos uma demonstração de um dos veteranos para nos familiarizar com a interpretação.

–Entre senhor White– A porta se abriu e meu coração parou de bater tempo suficiente para identificar um ataque cardíaco. Ele era alto, um e oitenta talvez, cabelos negros despenteados e olhos de um impressionante azul safira. Sua voz preencheu o grande auditório ao som de Hamlet, primeiro ato com Desdemona, me perdi em suas palavras, flutuando por algo infinito e irreal. Ele percorreu os olhos pela classe e os fixou em mim. Senti um tremor profundo. Ele sorriu, tocou os lábios e soprou o beijo se curvando. Aplaudi hipnotizadamente, com os olhos ainda presos nos seus, pisquei, desviando desconfortavelmente. Abri o primeiro livro que achei e tentei me concentrar, forçando a tirar da cabeça aqueles terríveis olhos azuis... Dispensei Bill, querendo pensar um pouco. O som da buzina alcançou meus ouvidos antes do carro, perdi o ar, paralisada. O freio foi puxado a centímetros de mim, respirei fundo ainda chocada. A raiva subiu por minha garganta, tomando o lugar do desespero. Joelhei seu para-choque instantaneamente, sem nem mesmo pensar e parei, estagnada. Eu acabara de agredir uma LaFerrari vermelha. Ele desceu do carro, a postura arrogante e esnobe e me fitou. O garoto do teatro sorriu ceticamente, tirando os óculos escuros para alcançar meu olhar.

–Acho que temos um problema não é?– bufei, balançando a cabeça descrente.

–Claro que sim. Você quase me atropelou com um carro!– ele arqueou as sobrancelhas, surpreso e por um minuto tive medo de sua reação. Ele se apoiou no carro, gargalhando melodiosamente.

–É nova aqui não é? Agradeça por ser assim, tão linda, com esse rostinho delicado, ou não estudaria mais aqui– bufei e arqueando as sobrancelhas.

–Sério?– ele sorriu debochado.

–Gracinha, quem sabe eu não perdoo você e te convido pra sair?– eu ri secamente

–Boa sorte com isso– me virei, dando-lhe as costas e voltei-me para a rua movimentada em direção ao ponto de ônibus, ainda podendo sentir seus olhos atrás de mim, misteriosos... Cortei os cubinhos de tomate simetricamente e os joguei na panela, preparando o delicioso Beef Stroganov. Meu pai se apoiou na bancada da cozinha e sorriu

–Que cheiro maravilhoso... –

–Gostou? Se fizermos um trato posso quem sabe, deixar um prato pra você... – seu sorriso se alastrou

–Estou ouvindo–

–A ultima temporada de Down Town Abbey, pipoca e chocolate quente–.

–Anja, você tem que fazer algumas atividades–.

–Ver tevê é uma atividade–

–Filha, não pode ficar o dia inteiro trancada aqui. Faça amigos, saia... –

–Se quer que eu aja igual a uma adolescente, me dê uma carteira de identidade falsa e me deixe ir pra Las Vegas–.

–Anja...– suspirei, sorrindo.

–Sim?–

–Sete horas temos que sair para o aniversario de seu primo, Richard lembra?– bati palmas, me jogando em cima de seu corpo para um abraço caloroso e me afastando a passos largos e animados, com uma longa sessão de seriado antes de entrar no banheiro, pela primeira vez sorrindo ao me aprontar. Esgueirei-me para dentro da limusine ao lado de meu pai e quase enfiei os fones de ouvido antes de reparar em sua postura. Caminhei ao seu lado, sorrindo ao passar e acenando, sem reconhecer a maioria de meus familiares. Percorri os olhos pela grande área reservada do restaurante e arqueei as sobrancelhas, surpreendida com o destino sarcástico e provocativo. O garoto sorriu ainda me encarando, fazendo-me dar conta o que verdadeiramente significava contato visual. Desviei lentamente e voltei-me para a mesa aperitiva, escolhendo uma das taças de bebida colorida. O garoto se levantou, andando em minha direção com um sorriso divertido e malicioso estampado no rosto.

–Você... – murmurei – O que faz aqui?–

–Minha família trabalha com a de Richard. A proposito sou Daniel White– assenti sem o menos interesse e ele riu -Não vai me dizer seu nome?–

–Não– respondi, fitando-o – Não acho necessário, já que não vamos ter outra conversa novamente– ele sorriu tentando desvendar meus olhos

–E o que faz aqui?–

–Richard é meu primo, por parte de pai–.

–É filha de William Van Wood?– ele perguntou, parecendo surpreso até que algo em sua expressão mudou, curiosa – Você é a filha de Van Wood com a duquesa de Tula–

–Mais algo que sabe de mim?– falei provocativamente. Daniel abaixou a cabeça, aproximando-me de meu ouvido.

–Sei que não conseguiu resistir meu charme– gargalhei alto, levantando as mãos em sinal de rendição.

–Você venceu. Anja Czarina Romanov– seu sorriso se alastrou convencido

–Anja? Seu nome é... –

–Diferente–

–Eu ia dizer bonito– sorri sincera e beberiquei a soda azul

–É nova no colégio, não é?–

–Sim, em Tula normalmente não se atropelam as pessoas assim– Daniel revirou os olhos. Lizzie sorriu do lado oposto da sala, chamando-me fervorosamente, ele acompanhou meu olhar e suspirou.

–Até mais Romanov– sorri, desviando de sua feição perfeita e segui a direção oposta, escondendo o sorriso ridiculamente bobo que enfeitava minha expressão.