The Gwaed Code
5 Capítulo 5
Notas iniciais
— Onde estamos indo? — perguntei pela quinta vez. O que tive como resposta foi um suspiro impaciente. Vanessa guiava-me em meio a densa floresta que cobria toda a região em volta do campus. Estávamos caminhando em silencio à quase 10 minutos, e toda as vezes que a interroguei com o objetivo de descobrir nosso destino, ela respondia com frases vagas como "vocês vai ver..." ou então "você é curioso de mais..."; mas na maioria das vezes ela preferia não se dar ao trabalho de falar nada, até que desisti de perguntar.
Talvez não fosse a melhor ideia do mundo andar por ai com uma suposta assassina que realiza supostos rituais "satânicos" a meia noite, mas me sentia mais seguro junto a ela do que na companhia de Max. A garota do refeitório — a loira com quem tive um incidente constrangedor — e agora Luke, um insano domador de fogo, estavam atrás de mim.
Vanessa não fizera nada que pudesse me prejudicar até o momento, e isso já estava de bom tamanho. Quer dizer, antes correr um risco que possa ser 'irreal' do que ficar longe dela e realmente ser atacado. O que se resumia a: Segurança. Estar com ela, é o mesmo que usar repelente anti-insetos. Se os insetos fossem seres mutantes com habilidades inumanas...
— Deveríamos ter pego a esquerda naquela trilha... — Sussurrou para si mesma — Vamos ter que...
Ela dobrou a esquerda subitamente. Parecia conhecer o lugar como a palma da própria mão, apesar de estarmos em uma floresta onde todas as arvores pareciam ser iguais, além de não existir qualquer tipo de sinalização em lugar algum — pelo menos, nada que meus olhos de pessoa normal pudessem enxergar.
Tudo contribuía para minha incredulidade ficar mais forte.
Passaram-se cerca de cinco minutos, e então, ela abriu um sorriso empolgado no rosto. Eu estava a ponto de perguntar do que se tratava, quando dei de cara com um enorme rochedo.
Mas o que de fato me fez ficar impressionado foi a gigantesca placa de bronze que estava a minha frente, que estava nela fixada. Era completamente detalhada com escrituras antigas que contornavam toda sua forma circular. Dois lagartos gigantes — que mais pareciam dragões ao estilo oriental — estavam gravados em alto relevo; como se ambos fossem uma estatua que fora forjada do mesmo bronze da enorme placa, cada qual em uma extremidade. Arfei com a beleza daquele monumento. Os dragões chegavam ao ponto de parecerem reais de tantos detalhes. Para ser sincero, aquilo me dava arrepios.
- Chegamos — anuncia Vanessa, claramente admirada com a imagem de bronze no rochedo — Cara, faz tempo que não venho aqui...
- Aqui... Aqui onde, exatamente? — pergunto.
Ela me observou de forma calma e interessada, como se eu fosse um enigma que ela estivesse tentando decifrar. Após um instante revirou os olhos, como sempre fazia.
- Este é o ponto Cardeal do Sul — disse, como se explicasse tudo.
- Ponto carde... — foi então que lembrei do que ocorrera mais cedo. O belo chafariz onde srª Sophia nos levara. Ela o chamara de Ponto Cardeal do Oeste... Ou algo do gênero. Teriam algum tipo de ligação esta escultura com o chafariz? — O que são exatamente estes pontos cardeais?
Ela demorou um pouco para me responder. Seus olhos passaram a mirar o chão, voltando-se pouco depois para o céu. Observei ela morder o lábio inferior como se estivesse em devaneios mentais profundos.
- Sabe que eu... Não sei?
- Como assim "não sabe?" — Só podia ser piada. Ela era quartanista pelo o que me informaram, como não saberia o que parecera para mim algo tao importante?
- Não sabendo oras. Não sou oniciente. — respondeu, rispidamente, mas logo pareceu voltar atrás — Não que eu não saiba, mas é algo complexo que não tenho muito saco para explicar.
Eu a encarei, com o olhar pidão. Eu era um colecionador de informações, não ia deixar algo do gênero escapar.
Por fim, ela revirou os olhos e prosseguiu:
- Os quatro pontos cardeais são a representações física da origem dos quatro elementos.
- Como aquele chafariz? — a imagem das águas cristalinas e límpidas que jorravam do alto da pedra pontiaguda para a construção branco-azulada do chafariz voltou a minha cabeça.
- Sim. — confirmou — Aquele é o ponto cardeal do oeste, a fonte de água. O pessoal dessa escola diz que aquela água vem direto da nascente que deu origem a 'H20' de todos os rios, lagos, mares e afins do planeta.
- Algo assim é possível?
- Cara, você perguntou isso a pessoa errada. Particularmente, acho isso tudo nada mais nada menos que crença, mas não faz diferença...
Vanessa novamente me confundia com seus pensamentos tão céticos.
- Então, isso aqui é...
- O ponto cardeal do Sul, — interrompeu ela — o dragão de fogo.
-Você não quer me dizer que...
- Não só estou dizendo, como vou provar — interrompeu-me novamente — atrás desta porta esta a primeira chama que surgiu no nosso planeta, ou pelo menos, o que sobrou dela.
- Isso... isso é impossível. — anunciei, certo de que era loucura algo tao antigo assim, além de se tratar de uma chama que poderia ser facilmente apagada, caso existisse — O homem descobriu o fogo a eras atrás, na idade da pedra, e mesmo assim há indícios de que o fogo propriamente dito já existia até mesmo antes da origem dos primeiros seres vivos no planeta.
- É até sem noção dizer que algo assim exista.
- Mas existe. — reafirmou ela, impaciente — E está bem atras desta porta — ela direcionou o olhar para a estupenda construção de bronze — "Nós" também somos ditos como irreais.
Provavelmente ela se referia aos "Newis" e suas habilidades inumanas. Concordei com a cabeça.
- Vocês. — corrigi — Ao que tudo indica, eu sou uma pessoa normal, não um Newi. — minha voz soara firme, evidenciando o quão convicto de ser uma pessoa normal eu estava.
- Você também é um de nós. — retrucou ela — Se não fosse, como poderia ter ouvido a melodia da donzela?
- O que...? — como um trovão, aquele som magnifico e melancólico voltou a minha cabeça — O que isso tem a ver?
Ela não me respondeu de imediato, apenas virou o rosto como que para informar um "ponto fina", mas eu ainda não havia acabado.
- Além do mais, aquelas pedras comprovam. — ela me olhou torto — As tais pedras que determinam o elemento que a pessoa controla, ou algo assim.
- Você diz os quartzos que evidenciam o elemento matriz?
- Deve ser isso... Tanto faz! Segurei mais de dez pelo tempo exato, nada aconteceu, nenhuma alteração na estrutura de nenhuma delas. Isso mais que prova que sou normal.
- Você não é normal...
Tentei, sinceramente, não levar como uma ofensa.
- Certo. — dei-me por vencido. Discutir com Vanessa era no minimo ilógico — Digamos que eu realmente seja um Newi. O que estamos fazendo aqui?
- Não é obvio? — ela falou como se realmente fosse uma coisa que qualquer criancinha pequena devesse ter percebido — Vamos conferir se seu elemento não é o fogo.
- Mas... Como? Mais pedras ou algo assim?
Ela negou com a cabeça.
- Nada de pedras.
- Então....
- Espere e verá.
Vanessa se afastou alguns passos de mim, direcionando-se a porta de bronze.
Ela estende seus braços, cada qual para um lado, e nas palmas de suas mãos, chamas vermelhas e tremulantes surgem.
Com a agilidade típica dos Newis, ela lança as chamas das mãos em direção as bocas semi-abertas de ambos os dragões, cada qual direcionada a um diferente.
Em instantes, o que parecia morto, parado, como uma estátua, agora mais pareciam animais vivos que dançavam sob a placa de bronze, percorrendo o caminho que a chama guiava.
Cada vez que deslocavam-se, um estalo metálico ecoava pelo bosque. As criaturas, antes inanimadas, mais pareciam um certo tipo de chave-código, como a senha de um cofre.
Noto que Vanessa havia acabado quando ouvi um alto e sonoro "click," onde a grande placa redonda de bronze elevou-se da pedra, se dividindo em oito partes, cada qual se retraindo para um lado oposto da outra. Era quase uma porta — muito estranha por sinal — se abrindo no rochedo.
- É isso. — ela abaixo os bracos, sem nem ao menos parecer cansada.
- Mas o que exatamente... — não consegui formular a frase. Estávamos parados em frente a uma enorme entrada escura e sombria para o desconhecido — pelo menos para mim.
- Vamos — ela começou a caminhar para a escuridão, sem nem ao menos esperar para ver se eu iria assentir.
Tratei de acompanha-la.
Na verdade o interior do rochedo não era tao incrível quanto a porta de entrada, e o fato de que eu mal conseguia enxergar o chão aos meus pés, contribuía para que achasse isso.
Tudo o que consegui ver, foi a silhueta da Vanessa pegando algo da parede e em seguida, uma chama iluminou o local. Ela repetiu o feito, iluminando as outras tochas, uma por uma. Foi então que consegui enxergar a estreita escadaria de pedra.
Como esperava, Vanessa desce, vez ou outra olhando para trás — provavelmente verificando se eu não haveria fugido. Ao fim da escadaria, seguimos por um corredor estreito que, mesmo com o fogo iluminando o caminho, ainda era difícil enxergar por onde andávamos.
Continuamos no mesmo ritmo, silênciosamente, até que eu notasse onde havíamos chegado: uma caverna bem ampla com espaço para umas 150 pessoas. Pela caverna estavam espalhadas vigas e pilares de rocha queimados e desgastados, sem falar em algumas "portas" feitas do mesmo material em diversos locais aleatórios das paredes. Não demoro a reparar que a caverna não possuía um teto, sendo aberta de uma forma que a luz do sol — ou em outro horário, a luz da lua — iluminasse o lugar perfeitamente bem. O que explicava o fato de poder conseguir enxergar tudo isso mesmo depois de Vanessa já ter apagado a tocha que tinha em mãos.
- Que lugar é este? — pergunto, estonteado.
Ao ver meu espanto, Vanessa da um meio sorriso, então responde.
- O salão da chama eterna. Sabe... Onde os domadores de fogo podem treinar sem causar grandes acidentes, entende?
- Claro, mas... — observo ela arquear uma sobrancelha assim que digo o "mas," porém, nada diz — O que eu estou fazendo aqui mesmo? O que você pretende?
- Não é da sua conta. — responde de forma sarcástica.
Uma irritação repentina preenche todo o meu ser.
- Se tem relação comigo, é claro que é da minha conta. — falo, elevando o tom de voz. Antes que pudesse pedir desculpas.
Vanessa suspira.
- É, parece que você ganhou esse round. — declara, como algo que não possuía a mínima importância para ela. A garota da de ombros, e continua — O diretor me falou da sua condição especial.
- Ãh... Como é? eu estou em uma situação especial desde quando?
- Que garoto retardado... — mais um suspiro impaciente — O fato da Srª Sofia não ter conseguido identificar com qual elemento você tem afinidade é um verdadeiro mistério e eu...
- Ah, isso? — interrompo — Eu verdadeiramente não sei o que estou fazendo aqui, isso só pode ser um engano... — sorrio. Vanessa possuía uma expressão curiosa e ao mesmo tempo irritada. Mas esperava que eu terminasse, sem interrupção — Eu não tenho nenhum tipo de poder especial. Sempre fui um garoto média A, mas só isso. Já tentei aprender violoncelo e até sei algumas coisas no mesmo mas não sou um talento. Sou uma pessoa normal e nada mais que isso.
Observo Vanessa fechar a mão em um punho, e temi de verdade que ela viesse me bater. Mas ela apenas começa a contar em um quase sussurro:
- 5... 4... 3... 2... 1... — suspirou profundamente, e me encara — Isso, autocontrole... Você é idiota mesmo ou só se faz?
- Ah...
- Você lembra do desfiladeiro da donzela? — sinto um leve tom de impaciência na sua voz.
- Ah, sim. — confirmo, e automaticamente as imagens do lugar vem a minha mente — Mas o que isso tem a ver?
- E você conseguiu ouvir a melodia da donzela?
- Sim, nunca ouvi algo como aquilo em toda minha vida. — respondo, inevitavelmente maravilhado.
- Essa é a prova de que você é um Newi. — declara, triunfante.
- Como algo assim poderia ser provado com uma música? — nada que tivesse um sentido vinha a minha mente.
- Aquela melodia só pode ser ouvida por Newis. Sabe... — ela parecia buscar as palavras exatas na mente — A frequência daquele som é tipo... Microscópica. Apenas pessoas como nós, que são mais 'sensíveis' a tudo que nos cerca, seriam capazes de ouvir. Apenas se fosse um Newi ou... Um cachorro. Se não me engano, eles podem ouvir também. — com um meio sorriso contendo uma leve pontada de ironia, pergunta — Você não é um cachorro, não é?
- Claro que não! — respondo indignado — Mas você poderia me explicar como vocês conseguem fazer essas coisas? De dominar os elementos e afins.
- Não tenho paciência pra explicar as coisas a gente leiga. — Vanessa revira os olhos — Por que não pergunta a Echo ou ao Ryan?
Ela realmente esperava que eu fizesse isso? Eu não tinha amizade com nenhum dos dois, e além dos mais, a segunda opção parecia me odiar.
- Ah, é verdade... Parece que o Ryan não vai com a sua cara, não é mesmo? — diz, com um olhar malicioso me encarando. Algo me dizia que ela havia tocado no assunto propositalmente.
- Talvez eu pergunte mesmo... — finjo não me importar. Afinal, com psicopatas não se brinca — Acho muito intrigante vocês conseguirem ter estas habilidades, mesmo que eu não.
Em um segundo, encarava uma Vanessa furiosa; no outro, uma rajada de fogo alaranjado vinha na minha direção.
Então era assim que iria acabar tudo isso? Esse seria o meu fim? Morrer carbonizado tão jovem sempre fora o meu destino?
- Como você consegue ser tão irritante? — Vanessa interrompe minha linha de raciocínio, me fazendo perceber que ainda estava ali, vivo.
O fogo não havia me atingido, mas sim uma das rochas próxima a mim que, fumegante, irradiava um calor que podia ser sentido pela minha pele.
Eu, definitivamente, preciso sair daqui. Para o mais longe possível de Vanessa. Mas... Se eu correr com certeza ela vai acabar me alcançando.
Precido arrumar um jeito de fugir desta psicopata. Eu devia distraí-la enquanto penso em algo.
- Então... O que viemos fazer aqui mesmo?
- Descobrir se você é um domador de fogo.
- Ah? Eu já disse...
- Quieto, da próxima vez não vou mirar na pedra. — a garota falava sério, e isso me assustava — Olha aqui, você não é normal. Isso pode se provar pela sua sensitividade que, apesar de ser tão lerda quanto você, existe. Com certeza, não é um domador comum.
- E... O que exatamente você pretende fazer? — pergunto, confuso. A essa altura, minha curiosidade estava vencendo o meu medo da morte.
- Simples: descobrir se você é um domador de fogo.
Seguro o riso.
- E como você pretende fazer isso? — pergunto, de maneira irônica.
— Eu vou jogar você num vulcão cheio de lava. — seus olhos brilhavam enquanto ela parecia visualizar a cena em sua mente — Se você sobreviver é sinal de que é domador de fogo. Se não... Bem, não foi exatamente um prazer te conhecer.
Por um momento fico verdadeiramente assustado. Se eram quatro elementos, eu tinha setenta e cinco por cento de chance de morrer; mas, quando Vanessa começa a rir, entendo que ela tinha dito aquilo apenas para me assustar.
O pior é que ela parecia saber exatamente o que eu sentia, e ainda achava graça.
Instantaneamente, me dá uma vontade louca de agarrar o pescoço dela e só soltar quando já tivesse morrido asfixiada.
Novamente parecendo notar, ela para de rir e, voltando ao tom sério, começa a explicar:
- O fato de este lugar se chamar Salão da Chama Eterna, é por conta do fogo azul.
- Fogo azul? — interrompo.
- Você sempre tem que fazer uma pergunta? — pergunta, impaciente. Não esperou uma resposta minha, então prosseguiu — A chama eterna tem uma idade pré-histórica, e foi a primeira descoberta pelo homem.
- Isso realmente é possível?
- Não sei. — dá de ombros — Deve ser, já que ela está bem ai né... — séria, me encara — E não faça mais nenhuma pergunta, antes que aconteça um assassinato aqui.
- Si-sim, claro, se-sem perguntas. — sinto um arrepio percorrer meu corpo. Vanessa não parecia o tipo de pessoa que hesitaria em matar alguém.
- Vamos. — ela chama, e caminha até uma das "portas" feita de rocha.
Encosta levemente nela — de forma semelhante a dar um "tapa" na porta — e escuto um leve rangido. Um barulho baixo de engrenagens se movendo é audível no ambiente por alguns segundos, e a pedra em que ela havia encostado começa a descer ao solo. Pouco depois, não tinha um sinal sequer de que estivera ali em algum momento.
- Entre. — Vanessa ordena, e literalmente corro para dentro do novo recinto. Ela vem logo atrás de mim e, com os mesmos sons, a rocha volta a seu devido lugar.
Eu me encontrava nervoso e suando frio em um salão escuro, apenas na companhia de Vanessa, uma suposta psicopata assassina. Pelo som da sua respiração, era perceptível que estava bem próxima, à alguns passos do meu lado direito.
O ambiente era iluminado apenas por uma fraca chama azul que queimava em um galho de arvore, posicionado em um tipo de mesa de centro feita de pedra. Fora isso, não se via nada mais ali.
- O que devo fazer? — pergunto, nervoso.
- Calma... Sabe aquela chama ali? — não espera resposta novamente — Por ser tão antiga, ela se desenvolveu e faz mais que esquentar. Esse fogo reage quando um domador está próximo, como se sentisse suas moléculas a uma certa distância, e tipo... Ah, você vai ver. — sinto sua mão segurar no meu ombro por trás — Encosta ali atrás.
Obedeço, enquanto Vanessa caminhava sem cêrimonia até a chama crepitante.
Engraçado era que, a cada passo que ela dava, o fogo azul parecia aumentar de tamanho. Quando ela estava ao seu lado, as labaredas chegavam a alcançar o teto do recinto, parecendo dançar. O fogo selvagem fazia sombras engraçadas na parede, que pareciam tomar a forma de várias coisas diferentes. Mas deixou de ser engraçado quando jurei ter visto um par de olhos vermelhos me encarando.
Vanessa começa a se afastar, andando em direção à mim, e e as chamas foram, aos poucos, voltando ao estado de quando entramos ali.
- Isso geralmente é usado para descobrir o potencial do domador.
Então ela deve ser estupidamente forte, ou não sei o que foi aquilo que presenciei. E isso tornava ainda pior a situação: eu, aqui, sozinho com ela. Será que é agora que ela puxa uma faca e me mata?
Pelo reflexo da luz, vejo-a sorrindo — sem sarcasmo ou ironia, por incrível que pareça.
- Sua vez. — declara — Se aproxime.
- Certo.
Obedecendo, começo a caminhar lentamente. Passo por passo, como se a maneira como pisava no chão pudesse salvar ou destruir minha vida.
Ouço um bufo impaciente as minhas costas.
Sinto um par de mãos enconstar levemente por trás de mim.
- Vai logo! — grita, e me empurra com mais força do que julgava necessário.
O impulso me faz tropeçar, o que me levou a cair de joelhos no chão, próximo a mesinha de centro. Me apresso a levantar, ficando cara à cara com a chama azulada.
Nada aconteceu.
Olho decepcionado para a sombra de Vanessa. Ela se aproxima alguns passos, me analisando intrigada. Como se eu fosse uma espécie estranha no planeta que precisasse ser estudada.
- Não é fogo, então... — sua expressão muda para pensativa. Ela se afasta, e em instantes pouco o barulho de engrenagens; em instantes, a saída estava livre — Vamos.
Vejo sua silhueta saindo da sala, e trato de caminhar até lá — mas não sem antes olhar para trás uma última vez. Ao perceber o que pareciam um par de olhos vermelhos me encarando por trás das chamas, desvio o olhar e corro para fora da sala.
***
Saímos de lá apressados, e Vanessa só volta a falar qualquer coisa quando nos afastamos da placa de bronze — que se moveu da mesma maneira sinistra quando ela o fechou pela última vez.
— Bem, — começou Vanessa — pode-se considerar sortudo por não ter que levantar as 6 da manhã todos os dias.
Eu estava prestes a perguntar do que se tratava o assunto quando recordei-me dos horários das aulas que srª Sophia nos explicara.
- Eu ainda não entendi o sistema de ensino desse colégio — admiti, um tanto quanto interessado em descobrir o porque de separarem as turmas de acordo com o elemento que controlam.
- Eles dizem que influência na conexão das nossas moléculas elementais predominantes. — Explicou. Em sua voz um tom sarcástico prevalecia — É como se a "ligação" e controle do elemento fosse mais fácil em determinada hora do dia.
- Mas como...?
— Não me pergunte como ou por que isso é assim. — completou ela, interrompendo-me — Para ser sincera, eu penso que tudo isso é história para tapear otário.
- Então...
- É tudo um sistema. — interrompeu-me novamente — Algo que existe para impor a ordem entre as classes.
- Impor... Impor a ordem?
- Sim. Imagine se todos os alunos assistissem as mesmas aulas ao mesmo tempo. Em escolas comuns, existem vários conflitos entre eles normalmente, nao é mesmo? Sempre teremos o "valentão", os "populares" e os "subalternos". — enfatizava cada uma das palavras imitando aspas com os dedos — Apesar de eu achar tudo isso uma perda de tempo de pessoas desocupadas, não posso negar que também exista aqui, de uma certa forma. — a imagem do Luke ordenando que tirássemos a roupa voltou a minha mente. O fato de que todos os anos ele deveria fazer o mesmo com os novatos fez meu estomago revirar — Agora imagine se um condutor de ar arranjar briga com um domador de fogo em horário escolar? Seria um verdadeiro caos. — a cena que imagino vem a cabeça como um flash: Vanessa brigando com alguém de outra classe. Foi então que entendi onde a conversa iria parar.
- E separando cada classe com seu respectivo elemento ainda se poderia ter controle da situação. — suponho.
- Exatamente — concluiu.
- Isso significa que pessoas de classes distintas não podem interagir com outras?
Vanessa não respondeu de imediato. Continuamos caminhando lentamente. Foi então que percebi que não sabia para onde estávamos indo, mas antes que eu pudesse sequer pensar nos riscos de estar sozinho com uma assassina psicopata, a mesma retomou a conversa.
- Não pense que sua vida aqui vai se resumir a identificar e aprender a despertar seu elemento matriz. — sua voz assumiu um tom serio. Por um instante, ela parecia uma pessoa responsável — Temos tanto este treinamento quanto as aulas de materias comuns que se dão nas escolas. Mas claro, — por um instante sua voz voltou ao velho tom ironico — matérias avançadas. Lembre-se: isso pode parecer um Resort de vez em quando, mas continua sendo uma escola. E respondendo sua pergunta: alguns dos estudantes optam pelas aulas extras no tempo livre, e essas costumam ser misturadas. Não existe distinção das classes nas aulas extras. — ela revira os olhos, como se achasse aquilo inútil — E fora isso, todos os anos a academia promove eventos para incentivar a união das classes — ela repete o gesto e colocou o dedo na garganta, fingindo que ia vomitar — Se eles quisessem união, para inicio de conversa, não iriam nos separar em "Classes".
- Hum... Entendo. — visto de outro modo, Vanessa realmente parecia ter razão quanto a seus comentários opositores.
Um clima pesado formou-se logo em seguida, o que me fez ficar nervoso. Quando menos percebi, meus lábios moviam-se.
- Mas que tipo de eventos são esses?
- Eventos... — diz, como se esclarecesse tudo — Você verá. Por enquanto, devemos nos concentrar em descobrir seu elemento matriz.
- Sim... Isso SE eu possuir um...
— Não vou falar mais nada a respeito disso — anunciou, irritada — Mais um comentário sobre isso e eu vou dar uma de Luke. Juro que não vou me controlar e partir para a violência.
Meu sangue gelou. Talvez fosse realmente melhor não irritá-la.
De qualquer forma, não andamos muito depois daquilo. A visão que tive realmente me surpreendeu.
Estávamos parados em frente a uma enorme mansão com um chafariz a frente. Eu já vira casas realmente grandes, mas aquela sim merecia ganhar o prêmio de moradia do ano.
Claramente, Vanessa notou o quão admirado eu estava, pois quando fez menção de entrar, eu ainda permanecia estático, boquiaberto.
- Se você parasse de babar, eu realmente ficaria grata. — anunciou, sarcástica. Minhas faces coraram.
Logo eu estava a seu lado, passando pelo arco de entrada do terraço.
O interior da mansão era tão deslumbrante quanto sua fachada: tapeçarias e quadros, vasos e estatuetas, todos dispersos pelo que me parecia ser a sala de visitas.
Seguindo Vanessa, passamos por vários corredores e cômodos, cada um mais encantador que o outro.
- Fique aí. — diz, quando paramos no meio de um corredor.
Nele não havia nada que o diferenciasse do resto da mansão. Era apenas mais um corredor com portas uniformemente distribuídas.
- Tudo bem.
Sem bater, ela abre a porta mais próxima e entra, fechando tão rápido que não houve tempo para que eu visse qualquer coisa dentro.
Minutos se passam, e tudo que observo de notável é uma placa colada na porta, onde estava escrito "Reitor" em letras douradas.
Sem demora, Vanessa abre a porta e me chama.
- Ele quer bater um papinho contigo. — não reajo. O reitor queria falar comigo? Impaciente, revira os olhos — Isso quer dizer que você tem que entrar.
- Ah, claro. — nervoso, entro e fecho a porta as minhas costas.
Vanessa estava em pé, recostada a parede ao lado da porta. Mantinha uma expressão entediada, observando a sala nos mínimos detalhes.
- Sr. Nicolas, não é? — um homem alto, de pele morena e cabelos raspados levanta de uma cadeira e caminha até mim com a mão estendida.
- Sim. — confirmo, apertando a mão estendida, ainda meio assustado com a altura dele.
Ele oferece uma cadeira, onde me sento sem demora. Logo volta a seu lugar — e Vanessa não move um músculo.
- Sou o reitor da Academia Natch e ex fuzileiro naval da marinha Brasileira, Edilson Pereira. — declara, visivelmente orgulhoso de si mesmo.
- A Srª Sophia relatou a mim sua situação. — prosseguiu, calmamente — Então pedi que Vanessa o levasse ao ponto cardeal do Sul, o único que temos aqui na Natch, além do ponto cardeal do oeste. Mas, pelo relatado, não houve resultado...
Agora era compreensível o por que de tanto mistério da parte dela... Aquele deveria ser considerado algum tipo de local "sagrado" por eles. Será que todos os estudantes sabiam da existência disso?
- Eu... Posso ser um humano comum. — arrisco. Já era tarde quando lembrei da promessa de Vanessa sobre quando eu dissesse isso novamente.
Apenas evito olhar para trás.
- Não, isso não é possível. — em sua voz estava expressa a convicção em relação ao que dizia — Só ter passado pela segunda guarita é prova de que você é um Newi. — um bufo de irritabilidade é ouvido as minhas costas. Sr. Edilson lança um olhar censurando, e continua de forma paciente — Olha só, não trazemos ninguém aqui por engano. Antes de sequer ser considerada a entrada de alunos aqui, fazemos toda uma análise do histórico escolar e, caso existente, criminal. Em acompanhamento, uma série de exames de sangue é feita, e só então pode-se ter certeza de que se trata de um Newi.
- Isso quer dizer que...
- Quer dizer que — interrompe — tudo em você aponta para isso. A quantidade de adrenalina no seu sangue é até maior do que a maioria dos da sua idade.
- Isso quer dizer que... Meus pais sabiam de tudo? — ele confirma com um gesto de cabeça — Mas eu não fiz exame de sangue!
- Lembra-se daquela série de exames que você fez para entrar no time de vôlei? Nos baseamos naquilo. Tudo aponta para apenas uma coisa...
- Então por que até hoje nunca apresentei nenhum sinal de ser um Newi? Digo, os poderes...?
- Não sei... — seu olhar vago mostrava que andara pensando sobre isso — Talvez... Você só não tenha tido um acesso ainda.
- Acesso?
- Isso. É quando um Newi aumenta os níveis de adrenalina do próprio corpo, voluntariamente ou não, à um nível que permite a existência das habilidades de dominação. — ele bufa — geralmente, o primeiro é involuntário. A partir daí que começam a desconfiar se a pessoa é Newi. O seu é apenas... Um caso a parte.
- Entendo...
- Então, o que foi decidido? — pergunta Vanessa com um leve toque de impaciência, fazendo com que me lembrasse de sua presença na sala.
- Sim, ficou decidido que... A partir de amanhã você, sr. Nicolas, terá aulas especiais com tutores particulares dos elementos água, terra e ar. — ele sorri com a ideia, voltando em um piscar de olhos à expressão rígida — E deverá ter aulas com eles até que descubra seu elemento matriz.
- Tu-tudo bem, acho... — realmente espero que minha insegurança não fosse notada pela minha voz.
Uma risada debochada foi ouvida atrás de mim, cessando rapidamente.
- Leve-o até o dormitório. — diz o Sr. Edilson por fim — Podem se retirar.
***
— Acorda, princesa — ouvi a voz de Max, ao longe — vamos, bela adormecida — senti meu braço ser empurrado de um lado ao outro.
Um frio repentino correu por meu corpo, quando tentei puxar as cobertas a altura da cabeça, descobri que elas não estavam la.
— O que é...? — minha voz ainda rouca. Abri os olhos e dei de cara com um quarto embaçado e uma montanha de músculos que era meu colega de quarto.
- Esta na hora de levantar! — anunciou, jogando os braços para cima, alongando-se.
- Que horas são? — perguntei, a visão voltando ao normal.
Olhei de canto de olho para o despertador em cima da comoda.
Os números em vermelho piscavam, dizendo que nem ao menos eram seis da manha. Fui tomado por fúria.
- Por que você me acordou as 5:50?! — acabei levantando a voz um pouco. Peguei os cobertores do chão. Max repreendeu-me com o olhar.
- Faça silêncio, o James ainda esta puxando um ronco — ele olhou para uma montanha de cobertores azul bebê em cima da cama de solteiro. — ele chegou tarde. Cara! O sujeito é bem falado pelos cantos da escola! Deve ser bem disputado viu?
— Responda minha pergunta. — se James fosse ou não popular, isso não me interessava no momento.
Ele parou um pouco, me encarando com um olhar de choro, temi que tivesse, talvez, exagerado na grosseira, mas logo ele sorrio.
- Não esta claro?! — ele começou a correr no mesmo lugar — Deus ajuda quem cedo madruga!
Joguei meu travesseiro nele.
— Tchau, Max — voltei a me deitar, puxando as cobertas até a cabeca, me posicionando em posição fetal.
Mas antes de se quer entrar no nrem, a primeira fase do sono, senti aquele mesmo friozinho desagradável, em quanto ouvia o som de meu cobertor sendo puxado.
- Max, eu... — estava tomando folego para outro round contra meu amigo, quando, para minha surpresa, deparei-me com Ryan em frente a minha cama, segurando minhas cobertas.
— Levante. — Ordenou. Seu rosto era uma máscara inespressiva. — vá se organizar, espero vê-lo em frente ao lago em uma hora.
- Para que? — minha Intenção não era ser tao hostil quanto a minha voz soou.
- Acredito que o senhor Edilson tenha comentado que você irá precisar de tutores especiais. Bem, o que achas então que estou fazendo aqui?
- Hm... você é quem...?
- Isso. agora... — ele levou a mão ao bolso de onde tirou um papel azul sobrado diversas vezes e atirou em cima de mim — seu horário. Espero não ter motivos para lhe dar uma observação por atraso.
- Fazendo um cumprimento com a cabeça para Max, Ryan saiu porta a fora sem dizer mais nada.
— Cara... — Max olhava para mim, boquiaberto — você terá aulas particulares com o presidente do concelho estudantil! — ele parecia querer saltitar de alegria, e bem que poderia compartilhar este bom humor comigo, afinal, não via motivos para me alegrar com isso.
— é... — levantei bruscamente, Indo em direção a comoda de onde tirei roupas intimas, uma camisa vermelha e um jeans preto.
- Espere um pouco, já volto.
Fui até o banheiro, onde me despi. Evitei ao máximo olhar para meu corpo nu quando passei em frente ao grande espelho que estava fixado a parede, mas de nada adiantara, Aquela coisa horrenda ficou totalmente a visível no momento em que meu reflexo aparecera.
Passei a mão pelas linhas vermelho sangue em minha pele clara, começando da cintura, contornando cada detalhe, até chegar aos quadris, onde a imagem tomava forma.
Balancei a cabeça, como que para me deshipnotizar das linhas escarlates gravadas em minha pele.
Eu realmente não tinha tempo para mais lamentações sobre aquilo. Depois de uma bela ducha gelada, eu e Max estamos estáticos, em frente a porta de nossa cabana.
Ele olhava para mim, nervoso. O que deixava claro que
nervosismo de primeiro dia de aula atingia também os matutões musculosos extrovertidos.
Como não movi um músculo sequer, Max, suspirando, girou a maçaneta.
- Então vamos! — Disse, sorrindo. Já não demonstrava insegurança alguma.
Não pude deixar de sorrir também, ele mais parecia uma criança daquelas que te contagiam com o bom humor.
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- Realmente, não me parece tão complicado assim — Sorri olhando para meu horário de aulas. Entreguei o papel a Max, que devorava uma montanha de comida. Ele passou os olhos pelo papel e, com uma expressão de horror, devolveu-me.
- Cara... — Começou, entre garfadas — É muita coisa. Como você vai aguentar ter mais aulas que os primeiranistas?
Dei de ombros, eu realmente não me preocupava com aquilo. Minha carga horaria seria longa, para dar conta de tantas aulas extras, seria cansativo, mas, me manteria ocupado. Ocupado o suficiente para não pensar nas coisas que deixei para trás no momento em que subi aquele ônibus. As coisas... e as pessoas.
- De qualquer forma, é bom você correr.
- Por que?
- Ele olhou para o relógio de pulso que carregava consigo e, levou mais uma garfada de panquecas para a boca. — Você vai se atrasar.
- O que?! — Levantei com tudo, derrubando o copo de suco de laranja que estava pela metade em meu prato — Por que você não avisou antes?!
- Desculpe, — Ele fez cara de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança — É que estava tão gostoso — seus olhos foram atraídos para as panquecas em seu prato — Eu me distrai! Desculpe mes...
- Certo, certo, depois conversamos. — Comecei a correr em direção ao lago, sem nem se quer olhar para trás. Tudo o que pude perceber de canto de olho foi Candy e Justin olhando para mim, sussurrando algo inaudível mas que me pareceu pouco amigável pela risada maliciosa que escutei em seguida. Balancei a cabeça e me concentrei em chegar a onde meu tutor estava.
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— 1... — ele levou a mão a um cronometro preso em seu pescoço — 2... 3... — provavelmente fora reflexo porque no mesmo momento em que Ryan pronunciara "três" eu já estava ao chão, fazendo as malditas flexões.
- 1... — comecei a contar — por que isso é necessário? 2...
- 3... — continuou ele — 4.. Isso é para você aprender a ter disciplina.
- 7... Como assim? É o meu primeiro dia! 11... Como você acha que já posso chegar sendo o aluno modelo, o aluno que todos admiram?
- Você não age como o superior? — sua voz assumira um tom terrivelmente irônico, o que me assustou, apesar de não ser a primeira vez que escutara alguém dizer aquelas mesmas palavras — agora você me mostrará se é ou não.
- Mas... 15... Isso é injusto! 17...
Ryan deu uma risada debochada
- Você vai aprender, nem tudo é justo no mundo.
Depois de vinte minutos tentando argumentar com o Ryan, desisti e acabei passando o resto da aula dando voltas pelo lago, fazendo polichinelos e abdominais. Segundo ele, eu ainda era imaturo para aprender sobre a modelação de água e deveria fortalecer meu corpo e minha mente.
Obvio que estes comentários foram totalmente desnecessários.
Como "me comportei" durante a serie massante de exercícios, meu tutor decidiu me liberar dez minutos mais cedo, os quais usei para tomar outra ducha — eu realmente adorava as gotas geladas de água caindo sobre meu corpo — e me preparar para as próximas aulas.
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- Bem, estamos esperando você ocupar seu lugar, sr Nicolas — O tom brincalhão do sr. McMillian disfarçava o qual rude havia sido. Mas, eu não o culpava. O sinal já havia batido e eu estava lá, obstruindo a entrada principal do laboratório de química. Caminhei lentamente — Como em uma marcha fúnebre — e sentei ao lado do que parecia ser minha parceira de laboratório. Ela me deu um sorriso torto, provavelmente reconhecendo-me.
- Oi... — Saudei, sem graça, a garota magra de cabelos castanhos mel ondulados e olhos igualmente castanhos a meu lado. A mesma garota que vira a minha cena trágica no refeitório com a Rachel. A mesma garota que chegou ate nos, e tirou-a de meu pescoço. Engoli em seco. Eu faria dupla com a colega de quarto da garota que jurou minha morte.
- Olá — Ela sorriu, também sem jeito — Sou Bianca...
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O resto do dia seguiu normalmente, sem surpresas estranhas como na aula de química.
Eu andava vagarosamente pelos terrenos da academia Natch rumo ao dormitório masculino. Aquele dia fora realmente muito cheio, e caminhar um pouco observando a paisagem deveria ser no mínimo relaxante.
Minutos depois, vejo aquela garota do cabelo castanho alaranjado — Echo, se me lembro bem — sentada recostada a uma árvore, com um bloco de desenhos apoiado nas pernas. Desenhava algo concentrada, até o momento em que nota que eu a observava.
A garota sorri docemente, e retribui meu olhar. Nos entreolhamos por algum tempo, até o momento em que ela me convida a sentar ao seu lado com um gesto da mão, sempre sorrindo docemente. Ela põe o caderno de desenhos de lado, com a parte desenhada virada para baixo.
- Você... Lembra de mim? — pergunto, ao me aproximar dela.
Ela confirma com a cabeça.
- Então, deu tudo certo lá com Vanessa?
- O que deu certo? — pergunto, assustado. Será que ela se referia a noite passada? Como ela poderia saber?
- Você sabe. O salão do fogo eterno e...
- Como você ficou sabendo? — pergunto, por fim, interrompendo-a. Como isso poderia ter se espalhado por ai? Vanessa não parecia fazer o tipo fofoqueira, então teria sido o sr. Edilson o responsável por espalhar a notícia.
Echo ri de maneira doce — o que não me irritou — ao perceber meu nervosismo.
- Eu também faço parte do conselho da escola. — declara.
- Ah, você é uma...
- Sigma, isso. — ela sorri — Então, de onde você veio?
- Ottawa. Nas áreas próximas ao centro. Conhece?
Ela confirma com a cabeça.
- E você? De onde veio?
- Bridle Path, Toronto.
- Claro, Bridle Path. — digo, meio por estar sem saber o que dizer. Echo morava simplesmente no bairro mais rico de todo o Canadá.
- Pois é... Mas prefiro estar aqui, na academia sabe? Lá em casa é tão... Grande e vazio. — ela baixa o olhar por um instante, voltando-o para mim quase imediatamente — Sempre fico sozinha com os móveis e os empregados, que me evitam a todo custo enquanto meus pais estão por aí viajando a negócios.
- Imagino... Por que os empregados te odeiam?
- Ah... Por coisas. — ela repete aquele gesto de desviar o olhar por um instante, e quando seus olhos voltam a mim ela muda de assunto — Mas passei esse verão na casa de uma amiga, no Chile. Foi bem legal. — Echo sorri, radiante — Mas você ainda não falou da sua família.
- Bem... Meus pais são bem legais. Meu irmão é um fofo. Deixe-me mostrá-los a você. — dizendo isso, tiro a carteira do bolso e deixo aberta onde coloquei uma foto de mim com o resto da família. Entrego a ela.
- Sim, seu irmão é realmente muito fofo. — comenta, arqueando uma das sobrancelhas. Algo a intrigava.
- O que foi?
- Nada. — mas sem dúvida não era nada.
- Sério, o que foi?
- Você não se parece nem um pouco com seus pais.
- Como é? — agora quem estava de sobrancelha erguida era eu.
- Sério. Só para começar, você tem essa covinha no queixo e nenhum dos seus pais tem. — por reflexo, levo minha mão ao queixo para senti-la — Você sabe o quanto isso é difícil, raro, impossível de acontecer?
- Acontece oras... Casos raros existem não é mesmo? Nos somos o que? — sorri.
- Claro... Mas não para por aí. — ela analisa a foto em silêncio por uns segundos antes de prosseguir — Seus olhos por exemplo. Nenhum deles tem esse azul. O formato do seu rosto também, não lembra nenhum dos dois e muito menos seu irmão.
- Bem, eu sou parecido com eles em outros aspectos.
- Diga dois deles.
- Eu tenho... Tenho... — pego a carteira da mão de Echo e começo a me comparar com meus pais. Inutilmente, por sinal. — Já começou a escurecer, não dá para ver direito.
Echo ri, apertando o caderno de desenhos contra o peito.
- Deixa então...
- Sim. — sorrio, me levantando — Já vou indo. Preciso descansar um pouco.
- Claro, primeiro dia de aula sempre é cansativo.
Me afastando, olho para trás por mais um momento.
Ela continuava desenhando concentrada e aparentemente feliz, como se eu nunca tivesse interrompido sua arte.
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