Notas iniciais
Demorou² Mas chegou! Boa leitura =))

–Vocês não podem fazer isso! — meus gritos de objeção ecoavam pela enésima vez aquela manhã — É injusto!
– Injusto? — perguntou meu pai, incrédulo. Nos já havíamos tido essa mesma discussão dezenas de vezes nessa última semana, mas sua expressão era a mesma desde que fora me buscar na delegacia: puro ódio, muita raiva, além de um traço de desapontamento — Injusto é você estragar todos esses anos de boa criação! Injusto é você ter que me fazer busca-lo em uma delegacia de polícia as duas da manhã de uma terça-feira! Injusto é ter de pagar pelo conserto de todos os estragos feitos naquela noite por um grupo de jovens vândalos e vagabundos! Isso é injusto!
Ele bufou e bateu com a palma da mão na mesa, derrubando sua xícara e deixando vários cacos de porcelana e um pouco do liquido escuro, ainda fumegante no chão.
–Mas pai... Vocês não podem me mandar para lá. Por favor... – De meus olhos mareados, transbordou a primeira lagrima. Mas afinal de contas, o esforço não valia a pena. Eu sabia que por mais que eu suplicasse, a resposta seria a mesma.
– O que está feito, está feito, Nicolas – anunciou minha mãe, friamente, fixando um olhar sem emoção em mim, enquanto terminava de limpar piso e varria os cacos — Agora você deve enfrentar as consequências.
– E não importa o quanto você implore, a decisão já foi tomada — completou meu pai — Agora vá se arrumar, seu ônibus vai chegar daqui a dez minutos.
Bufei irritado, levantando bruscamente da mesa, deixando um pai de olhar furioso e uma mãe com um ar de extrema tristeza para trás, na cozinha.
– Pais idiotas — resmunguei, subindo as escadas para o segundo andar — Sempre acham que sabem tudo o que é de melhor, mas eles não entendem nada. Que ódio, que ódio, que... Ah! Oi. – Alec, sentado na escada, impedindo minha passagem, fixou seus olhos banhados com lágrimas cintilantes em mim — O que há com você? –mas eu, na verdade, conhecia a resposta.
Ele fungou e limpou o rosto com a manga do suéter azul. -Eu não quero que você vá. — seis simples palavras, que pesaram em minha consciência. Ele parecia tão triste, e isso era de partir o coração. Passei minha mão por seus cabelos levemente mais claros que os meus e os coloquei para trás, mas logo em seguida a cascata negra caia sob sua testa novamente.

– Campeão — minha voz soava solidária, triste, talvez até melancólica — Eu volto nas férias para te ver. Prometo.
Ele arregalou os olhos, se enchendo de esperança. O leve choro transformou-se em soluços, que faziam seu corpo tremer.
Não pude evitar sorrir.
– Promete?
– Prometo — um sorriso iluminou seu rosto, e Alec já não era mais o garotinho infeliz chorando, sentado na escadaria, e sim uma criança de olhar travesso e sorriso maroto.
Ele levantou-se, me deixando subir para o segundo andar.


***

Já do lado de fora, aguardava a chegada do ônibus que levaria ao inferno na terra. Podia parecer exagero da minha parte, mas era exatamente isso que eu pensava desse reformatório.
Vindo do outro lado da rua estava Vini, provavelmente para me ver antes que partisse.
– Eu não acredito que vai dar nisso – disse meu amigo ao se aproximar de mim. Ele usava óculos de sol em um dia claramente nublado — Você vai mesmo, não é?
Concordei com a cabeça.
– Infelizmente... — minha voz era desprovida de qualquer emoção que fosse. Eu ainda não conseguia acreditar que meus pais estavam me mandando para um colégio militar, me deixando apodrecer em um reformatório qualquer — É melhor você ir antes que meus pais voltem — preveni Vini — Eles não querem me ver perto de você.
Ele inspirou e cada curva de seu rosto ficou tensa. Ele tirou os óculos escuros, me surpreendendo por dar de cara com olhos verdes opacos e sem vida, emoldurados por escuras e profundas olheiras.
– Sinto muito por ter te envolvido nisso.
– Você já disse isso — minha atenção foi tomada pela buzina de um grande ônibus verde água, que ia se aproximando ao final do quarteirão.
– Eu sei. Eu só queria...
– O que já foi feito não pode ser modificado. — as palavras saíram mais frias do que jamais pretendi que fossem — Não adianta se lamentar.
– Desculpe — seus olhos demonstravam extrema tristeza. Seus lábios, que casualmente levavam um sorriso convencido consigo agora estavam murchos.
– Vini, eu já disse que... -antes que eu pudesse concluir, o grande ônibus parou a minha frente, abrindo as portas. Olhei para trás uma última vez. Para tudo: minha casa, minha família, meu velho e melhor amigo. Minha vida estava prestes a ser virada de ponta cabeça. — Vou sentir saudades... — cochichei, e antes mesmo que ele pudesse dizer algo, segurei minha bagagem com firmeza e saltei para dentro do ônibus. Para minha nova vida.

***

Passaram-se cinco minutos que eu havia entrado no ônibus, mas ainda não me movimentara a procura de um lugar. As pessoas que ali estavam não eram exatamente as mais simpáticas do mundo.
Todos me encaravam de maneira... Nem um pouco amigável.
Depois de um muxoxo rouco vindo do motorista, apressei-me para encontrar um lugar e acabei indo em direção à terceira poltrona à direita, na intenção de sentar, mas logo repenso minha decisão. A garota que ali estava — razoavelmente bonita, por sinal — me encarou de um jeito tão "sente ao meu lado, e você morre" que preferi continuar andando pelo corredor.
Nenhuma das outras era diferente, e até mesmo os garotos me encaravam dessa forma. Talvez fosse melhor evitar conflitos logo de primeira, afinal, o novato aqui dessa vez era eu. Não demoro a encontrar um par de poltronas vazias, onde sento recostado a janela, com minha mochila aos meus pés – a única bagagem que pude trazer nas mãos.
Com o ônibus já em movimento, tudo que me restava era observar a paisagem lá fora — o que eu estaria deixando para trás por conta dessa decisão ridícula dos meus pais.
As vastas florestas dos limites da cidade, em sua maioria de pinheiros, pareciam harmoniosas com meu humor, já que iam se tornando cada vez mais escuras e densas à medida que o veículo avançava.
Eu não queria ir até lá. Apesar de ter alguma esperança de encontrar pessoas comuns, como eu, que foram injustiçadas por decisões cruéis de parentes, eu me sentia meio desanimado só por esse pessoal que encontrei no ônibus, juntamente com uma imensa vontade de voltar o mais rápido possível. O lado realmente ruim é que eu não tinha essa opção.
É claro que a estadia lá não deveria ser de todo ruim. Teria tempo suficiente para pensar na minha vida, nas minhas atitudes, e o mais importante: tentar esquecer a Cassandra.
Pensar no futuro sempre era uma boa ideia. Como seria minha vida no colégio militar? Talvez fosse apenas um colégio comum, com algumas regras a mais, porém comum.
Como dormiríamos por lá, sem duvidas deviam acontecer algumas festas durante a noite, para diversão dos alunos — os coordenadores não devem se importam com esse tipo de coisa, não é mesmo?
Acho que teria colegas de quarto. Provavelmente ficaríamos acordados até altas horas após o toque de recolher, conversando sobre uma besteira qualquer. Quem sabe até...
Minha linha de pensamentos é totalmente interrompida quando alguém se senta ao meu lado. Quem quer que fosse não diz absolutamente nada, mas apesar disso, era perceptível sua chegada.
Viro-me um pouco, a fim de ver meu companheiro de viagem.
Ao meu lado estava sentada uma garota de pele cor de pêssego, com cabelo castanho escuro liso — sem uma curvinha sequer — que desciam uns centímetros abaixo dos ombros. Ela estava concentrada na leitura de um livro, com seus atentos olhos castanhos totalmente voltados para o ele.
– Oi — digo, depois de um intervalo de tempo onde esperava que ela me cumprimentasse.
– Oi... — responde, sem emoção nenhuma na voz. Não desgrudou os olhos do livro nem por um segundo.
Provavelmente não havia nem prestado atenção às próprias palavras, respondendo ao cumprimento automaticamente.
Passo a encará-la, inconformado. Que tipo de garota normal, sentada ao meu lado e me vendo, lindo como só eu consigo ser, não tentaria puxar papo desesperadamente? Aquela ali mal parecia notar a minha presença, e isso de certo modo me irritava. Que tipo de gente não se importa com a presença de alguém como eu? Eu deveria ser aquele tipo de garoto novo, diferente, por quem todas ficam loucas e desesperadas querendo conhecer.
Afinal, eu estava indo a um colégio militar ou a um mundo completamente diferente, onde pessoas bonitas não são populares?
Observo-a atentamente, quase que a examinando de cima a baixo. Tento captar cada detalhe, cada defeito ou qualidade em sua aparência, qualquer coisa que pudesse me dizer um pouco mais sobre ela – até mesmo um traço mais ou menos definido poderia me dizer algo crucial sobre a garota.
E então, como que por instinto, minha atenção é voltada para seu rosto. Deparo-me com ela estreitando os olhos, com certa indignação e ao mesmo tempo curiosidade no olhar.
– É impressão minha ou... — a garota começa a falar, pausando por alguns instantes, provavelmente procurando as palavras certas para dizer — Você estava olhando para os meus seios?
De repente o clima ficou meio pesado no ônibus, e eu sentia como se todos os olhos do mundo estivessem em cima de mim. Antes alguns cochichos eram audíveis, mas agora reinava ali apenas o silêncio absoluto. A tensão aumentava mais a cada segundo, e antes que eu explodisse de nervosismo, comecei a falar:
– N-n-nao. E-eu nã-não estava... — tentei me justificar, mas a gagueira repentina me atrapalhou, fazendo com que não falasse nada que fizesse algum sentido.
Onde segundos atrás havia apenas silêncio, após minhas confusas palavras, gargalhadas irromperam por todo veículo. Era possível ouvir coisas como "esse garoto não vai chegar vivo ao colégio" ou então “foi olhar os seios da pessoa errada, coitado...”
Que pessoal mais... Sem noção. É claro que parte da culpa era minha, já que eu não deveria ter sido tão estúpido a ponto de ficar olhando a garota dos pés a cabeça sem a mínima discrição. O que mais poderiam pensar?
Ela me olhava com extrema curiosidade. Era como se estivesse tentando ler a mim, da mesma forma que estivera lendo aquele livro momentos atrás.
Como que conseguindo o que queria, a expressão dela se suavizou, seguido de um sorriso meio torto, como se estivesse decidindo se riria ou não.
– Já entendi. A propósito, sou Vanessa. — Não sei por que, mas me pareceu estranho ela não ter ficado brava comigo.
Eu sabia que não tinha feito nada com más intenções, e, apesar de tudo naquela situação apontar que eu fosse culpado, ela parecia saber da verdade tanto quanto eu.
– Sou Nicolas, mas me chame de Nick.
– Certo... Nicolas. Primeiro vez no colégio?
– Sim — digo, já totalmente recuperado da gagueira repentina. O ônibus agora não estava mais barulhento, porém, não tão silencioso. A tensão parecia ter se desfeito totalmente, e todos ali pareciam ter esquecido o acontecido — É o seu também?
– Não, não... Já estou aqui a um bom tempo. – ela desvia o olhar por um momento, como se estivesse lembrando-se de algo repentinamente. Percebendo novamente minha presença, perguntou: — Mas o que você sabe sobre onde estamos indo? – ela muda de assunto tão rapidamente que fico tentado a perguntar sobre o tempo que ela passou nesse lugar. Antes que pudesse cometer mais um erro, respondo.
– Pouco... Sei que é um colégio militar. – tento recordar a maneira exata como meus pais haviam dito aquilo – “Um lugar onde as jovens mentes corrompidas vêm para recuperar sua boa índole.” Bla bla bla...
– Como você veio parar aqui mesmo?- apesar de não rir ou demonstrar que estivesse achando graça, notava que ela se divertia com a situação, apesar de eu não conseguir encontrar motivos para tal.
– Me meti com um pessoal meio... Barra pesada. – suspiro, arrependido — Meus pais acharam que me enviar aqui seria uma boa solução para consertar o que eu havia me tornado — dou de ombros — Apesar de não ter me tornado nada.
– Apenas um conselho de veterana: cuidado com suas amizades. – ela estava séria, como se tivesse me dado uma informação muito crucial para minha sobrevivência.
– Ãh? Como assim?
– Acontece – Vanessa respira fundo, com uma leve pontada de impaciência — Que aquele lugar é quase como uma selva. Apenas os mais fortes e inteligentes sobrevivem. Cuidado com quem você anda, com suas amizades. Faça as escolhas certas, e tudo ficará bem. Tente modificar a situação e será caçado. Apenas isso.
Não sei como descrever o que senti quando ela disse isso. Medo? Vontade de saltar daquele ônibus pra nunca mais voltar? Ou nada mais que medo? Acho que pânico devia ser a palavra que eu procurava.
Sou pego de surpresa pela risada baixa de Vanessa. Por que ela riria depois de dizer isso?
– Isso foi algum tipo de piada? — pergunto, praticamente rezando para que a resposta fosse sim.
– Não, não foi mesmo. Mas tenha calma, logo você se acostuma — meu espanto devia estar estampado em meu rosto, julgando pela maneira que ela me olhava. Qualquer tipo de traço de divertimento havia desaparecido, e ela continuou — Ocupe sua mente, tente não pensar muito nisso. Tome, leia algo.
Ela me entrega um livro, não muito grosso, intitulado de "Como controlar a raiva", mas ao ler o título guarda-o, entregando outro a mim. "Guerra e Paz."
Vanessa volta a se concentrar na sua leitura, me deixando apenas com aquele livro como opção para passar o tempo.
Começo a ler, com pouco interesse, e então uma luz ilumina minha vida – não no sentido literal do termo. A vibração do meu celular anuncia a chegada de uma sms. Rafaela, e uma centelha de felicidade brota em mim de repente.
A sms dizia:
"Nick, ja to c saudads \"\" tdb c vc?"
Respondo:
"Na vdd nao. Ficou sabendo que a Cassandra me traiu?"
Apesar de demorar mais que o esperado, outra mensagem chega:
"Na vdd, eu ja sabia disso ants"
Subitamente, uma fúria indesejada me invadiu, mas tento não demonstrar. Não com a Rafa, pelo menos.
"Pq vc nunk me falou?!?!??"
Depois de um grande intervalo de tempo, sua resposta chega:
"Pq eu nao queria te ver infeliz.. Nao era a hora de contar e..."
Antes que pudesse sequer terminar de ler o que Rafa tinha dito, o ônibus acelera de repente, e como eu estava despreparado, meu celular cai com tudo no chão e sou jogado com força– batendo de cara na poltrona da frente como brinde. A que velocidade devia estar esse ônibus, em? Eu mal conseguia me manter sentado em meu lugar.
Com dificuldade e me apoiando a poltrona da frente como a um salva-vidas, consigo me manter um pouco mais abaixado, na intenção de pegar o celular caído. Tateando o chão, não demoro a senti-lo, e então o pego, voltando a minha posição anterior.
Suspiro, satisfeito por estar confortável novamente. Recosto-me a janela, a fim de me distrair olhando o caminho até o inferno, talvez assim o nervosismo repentino passasse. Mas ai que começava o novo problema — eu não via absolutamente nada através de onde elas deveriam estar.
As janelas, antes abertas e iluminadas, agora estavam cobertas com um tipo de revestimento fumê escurecido, tornando impossível enxergar além do vidro. Para piorar, estavam travadas, ou seja, praticamente impossível abri-las.
Isso não devia ser comum. Estaríamos nos sendo sequestrados, no lugar de indo ao reformatório? Nossos pais foram enganados, e agora seriamos direcionados a um campo secreto de tortura?
Olho ao redor, a fim de ver o que os outros estariam achando de tal acontecimento.
Eles estavam... Normais, praticamente da mesma maneira que estavam antes do ônibus acelerar, antes mesmo até da confusão com a minha companheira de viagem. Ninguém achava estranho o fato do ônibus estar totalmente fechado para mundo, muito menos de estar a no mínimo 200km/h.
Meu medo é misturado a uma dose de confusão quando Vanessa começa a gargalhar ao meu lado. Ela me encarava com curiosidade no olhar, apesar de rindo, dizia algo que soava como "Não consigo ler você..."
– Ãh? – foi o máximo que consegui dizer. Não foi nem exatamente uma palavra, estava mais parecendo com um grunhido qualquer de um garoto nervoso.
A velocidade em que estávamos era tão incrível que não conseguia nem ouvir direito o que Vanessa estava falando com clareza, apenas reconhecendo o som de objetos caindo no chão.
E então... Subitamente o ônibus para. Um aviso é ouvido, saindo das caixas de som por todo o veículo "Parada no posto de gasolina, permitida a ida ate a loja de conveniências e ao banheiro, retorno em no máximo vinte minutos."
Uma grande movimentação começa no interior ônibus, onde a grande maioria dos estudantes começava a se locomover para fora.
– Já volto – Vanessa fala rapidamente, levantando e saindo do meu campo de visão em poucos segundos.
Então agora eu estava desacompanhado no ônibus? Que coisa de emo, isso não ia pegar muito bem pra minha imagem.
Levanto rapidamente, e, por um minuto olho para trás, visualizando uma garota ruiva – quem tem cabelo laranja é considerado ruivo, certo? — sentada na ultima poltrona – duas atrás da minha — que rabiscava algo distraidamente em um caderno apoiado em suas pernas.
Percebendo que eu a encarava curioso, a garota levantou os olhos do que quer que esteja fazendo, devolvendo-me o mesmo olhar até com certa meiguice.
– Você é novato – diz, apenas. Segurei-me para não responder com um "E você deve usar drogas", mas não ia pegar muito bem no caso dela ser uma veterana. Para minha surpresa, já que não havia motivo para tal, a garota começa a rir — Pode me chamar de Hayley. — Não digo nada sobre isso. Não entendia por que, mas simplesmente não conseguia encontrar nada que pudesse falar para ela. Nervosismo talvez? Ser o novato era tão chato... — Pelo visto você já esta amigo da Vanessa, certo? – Observou ela. Isso demonstrava que ela estivera de olho em nós a viagem toda ate agora. Eu não a culpava, e sim a minha imensa beleza.- Se eu fosse você, não tentaria contrariá-la de maneira alguma...
–Oi – Saudei-a, por fim – Obrigado, pela dica. Pode me chamar de Nick. — agora quem ficara em silêncio é ela, apenas me encarando da mesma maneira que fizera da primeira vez. Na tentativa de quebrar o silêncio, pergunto — Como é lá no colégio?
– Ah... Você verá Nick – Sua atenção é voltada ao caderno. Agora não tinha mais duvida, ela estava realmente desenhando.
Provavelmente não voltaria a conversar. Será que nesse colégio só teria gente estranha? Na certa os alunos eram uns viciados em maconha.
Olha só onde fui me meter: entre aberrações lunáticas, viciadas em drogas baratas.
Sem pensar duas vezes, desço do ônibus, dando de cara com um posto de gasolina no meio do nada.
Era limpo e não parecia estar abandonado, mas por que teria um posto de gasolina assim tão no meio de uma floresta?
Sem querer pensar no assunto, praticamente corro ao banheiro masculino.
Saindo de lá, noto um garoto, aparentando ter minha idade, ou talvez um ou dois anos mais velho, recostado a parede mais ao final do banheiro.
Ele me encara de um jeito tão odioso que um medo desconhecido me invade. Esforço-me ao máximo para não demonstrar o quanto estava assustado, saio do banheiro a passos largos, voltando rapidamente ao ônibus. Era bem melhor estar com a garota perturbada de cabelos alaranjados do que correr o risco de ser esfaqueado no banheiro masculino.
Subindo lá, noto que Vanessa já tinha voltado. Ando até lá e, antes de sentar no meu lugar, dou uma última olhada para trás. A ruiva estava sentada lá, sozinha, ainda desenhando.
– Quem é aquela garota ali atrás? E por que Hayley? — pergunto a Vanessa, com notável curiosidade.
– Hayley? — Vanessa não ao menos olhara para a garota e uma luz parecera acender-se em seu olhar — A Echo? Ela ganhopu esse apelido por ser uma garota muito viciada em Paramore. Assim que ela chegou, há dois anos, vivia arranjando confusão com todo mundo por escutar os discos no último volume até tarde da noite — diz, e sorri — Bons tempos aqueles...
– Então vocês são amigas? — pergunto, claramente sabendo a rersposta.
Ela faz um sinal afirmativo com a cabeça, e diz:
– Gosto muito dela. É bem imprevisível, além de ótima ouvinte.
– Entendo...
Nisso, Vanessa coloca fones de ouvido e volta a ler. Pelo que via, não era o mesmo livro que lia antes de descer no ônibus.
Pego novamente o livro que Vanessa havia me oferecido. Não devia ser tão ruim, e era bem melhor que passar o resto da viagem sem fazer absolutamente nada.
Leio cerca de 10 folhas sem interrupções, até uma nova sms chegar ao meu celular.
Eu tinha esquecido da Rafa! Devia ser uma sms dela reclamando que foi ignorada... Mas eu me distraí, não foi minha culpa, não é mesmo? Para minha surpresa, quando o display se ilumina vejo o nome de outra pessoa: Vini.
"E ai cara? Já chegou na prisão?"
Reviro os olhos. Bem incentivador esse comentário. Respondo:
"Ainda no onibus. E eu não to indo pra prisão, seu amigo fdp : @"
Não demora muito até uma nova mensagem chegar:
"Oq eu te fiz? Pq ta c raiva d mim?"
E ele ainda pergunta? Se não fosse por ele e seus amiguinhos ridículos, agora eu não estaria nessa situação. Não estaria sendo forçado a ir a um local que não quero. Não estaria me sentindo tão renegado quanto estava agora, um idiota que estava no lugar que menos queria estar com as pessoas que...
– Guarde isso. Chegamos — diz Vanessa, arrumando duas coisas numa bolsa preta cheia de correntes distribuídas aleatoriamente.
– Já? — digo. A viagem tinha sido muito longa, o que mais queria era descer daquele ônibus, mas não descer no colégio. Não ainda — Mas o ônibus nem parou. Como você sabe?
Para minha surpresa, então, o ônibus para de se movimentar.
– Apenas sei — diz, com um sorriso no rosto. Ela parecia realmente feliz por enfim termos chegado — Recomendo que não demore muito. Aqueles ali — fez um gesto rápido com a mão direita, apenas para mostrar de quem falava — costumam fazer um tipo de barreira na porta. Digamos apenas que... Não é tão fácil passar. Para novatos, claro.
Terminando, põe a mochila nas costas e sai rapidamente, sem sequer olhar pra trás.
A cada minuto que se passava aquele colégio que dava mais medo.
Mas não tinha tempo pra pensar nisso, ou ficaria preso entre uma barreira humano e as janelas totalmente lacradas de um ônibus.
– Vanessa, me espera! — praticamente grito, pegando tudo que me pertencia.
Com tudo que me cabia em mãos, corro pra fora daquele veículo.


***


Só então tenho tempo de reparar onde estávamos.
Como a maior parte do caminho que eu ainda consegui ver, era rodeado de densas florestas. A diferença deste local para o trajeto percorrido era um vasto estacionamento, onde mais três ônibus estavam estacionados, além de mais um que se aproximava.
Olho para os lados, procurando a razão pela qual estávamos desembarcando ali e não demoro a ver que o destino de todos era uma pequena guarita um pouco a minha frente. Comecei a andar entre a multidão, procurando por Vanessa que havia desaparecido de minha vista.
À medida que eu ia me aproximando do grande galpao foi possível ouvir alguns gritos e reclamações vindos de uma mulher. Quanto mais perto eu chegava, mais tumultuada ficava a situação.
Uma fila indiana estava sendo formada próxima a entrada. Sem demora me encaixei nela.
Alguém atrás de mim pigarreou, fazendo um barulho totalmente desnecessário. Viro-me de costas e acabo dando de cara com Vanessa. "Graças a Deus" foi só o que consegui pensar. Esse lugar está cheio de marginais delinquentes e Vanessa poderia até ser uma serial killer, mas ao que parece ela é muito popular neste lugarzinho, além de ser veterana.
Colar nela nos primeiros dias aumentaria meu ibope na escola de uma maneira que em poucas semanas, minha coroa estaria polida, pronta para o uso.
Em pouco tempo, estávamos em frente ao grande galpão que era uma guarita.
Uma pequena mulher de meia idade com uma expressão nada amigável, guardava a entrada em frente a um muro de pedra extremamente alto. Provavelmente a construção de grandes blocos de concreto cinza possuía uns 10 metros de altura, talvez mais. Acho que a única maneira de pular aquilo deveria ser... Voando.
– Você está nervoso — Vanessa diz, de repente, com um ar de divertimento em sua voz. Olhei espantado para ela. Meu nervosismo estaria assim tão evidente? — Aquela baixinha ali só vai comer seu cérebro para que você não consiga ser independente e único em um lugar onde não se pode expressar seus pensamentos ou extravazar seus sentimentos. — ao notar minha expressão de clara confusão, ela bufou impaciente e completou — Isso quer dizer que ela vai confiscar algumas coisas que não são permitidas a entrada no colégio.
– Eles vão pegar meu celular? — pergunto, em um tom de desespero. Eu tinha noção de como é o sistema de ensino de uma academia militar, mas não imaginava que os supervisores fossem tão severos ao ponto de cortar minhas relações com o mundo exterior. Sem celular, minha vida aqui ia ser bem pior.
– Vão sim. – respondeu, indiferente. Finalmente a expressão "prisão para jovens" ficou explicita em minha cabeça. E eu não havia gostado nem um pouco de ter entendido.
– Eles não deixam nem os professores entrarem com celular. Por isso... — ela esfregou uma de suas quatro malas de formatos e cores diferentes — É que não se deve trazer quais quer que forem os Itens proibidos. Mas se você souber falar com a pessoa certa, você consegue sempre o que quer. — malicia dançava nos seus olhos, como se ela soubesse de uma piada muito engraçada e estivesse com pena de mim por não entender.
A fila andava rapidamente. Os gritos da velha senhora haviam diminuído relativamente, mas ainda era possível ouvir reclamações. Aparentemente alguém tentara passar pela senhora carregando uma pistola de paintball, e insistia para permitirem sua entrada.
– No ano passado ele tentou a mesma coisa... — reclamou Vanessa, com visível impaciência.
Naquele momento, eu poderia der dito qualquer coisa, por mais sem noção que fosse, mas minha cabeça estava a quilômetros do meu corpo.
Faziam mais ou menos dez minutos com os quais eu só conseguia lembrar da minha mãe, seu beijo indiferente e seu olhar gélido de despedida antes de voltar para seu quarto e me deixar no quintal sozinho, esperando meu ônibus.
Eu ainda não conseguia acreditar no fato de ela ter permitido que minha matricula fosse realizada em uma academia militar.
Me sentia traído, esquecido, como se um dia eu fosse tudo no mundo dela e no outro eu não significasse nada mais do que alguma mancha que precisava ser removida da casa dela.
Não foi uma surpresa para mim quando meu pai chegou em meu quarto anunciando minha ida para um colégio militar que me "colocaria na linha", mas minha mãe, minha defensora...
Vanessa pigarreou trazendo-me de volta a realidade. Aparentemente o garoto da pistola havia desistido de insistir, e então as coisas voltaram a normalidade fazendo com que a fila andasse novamente.
Não demorou muito até chegar em minha vez. Olhei sem jeito para Vanessa, com as bochechas em brasa.
– Ahn... Você pode ir na frente. Se quiser... — digo, abrindo um sorriso amarelo. Ela arqueia as sobrancelhas, mas logo da de ombros e passa a minha frente na fila.
A garota leva sua bagagem para a fiscal onde a mesma abre as malas sem cerimônia, olha rapidamente, e as coloca em um carrinho ao estilo daqueles de mini-golfe onde estavam outras malas também.
A velha senhora movimenta seu rosto, claramente se esforçando para sorrir.
– Muito bem. Como sempre tudo em ordem Vanessa. Cabana três, agora pegue — diz, lhe entregando uma chave — Pode ir, querida. — era perceptível que o tom ríspido de sua voz sumira e um tom mais fraternal enchia as paredes do galpão, causando eco em toda parte. Não demorou muito até que ela cravou seus olhos em mim e fuzilou-me. — Você, garoto, o que esta esperando, venha logo.
Apressadamente, dou alguns passos a frente, aproximando-me da mesa da senhora. Sem olhar em seus olhos, jogo minha bagagem em cima da mesa com a qual ela fazia a ronda, e aguardo em silencio.
Ela checa cada um dos bolsos e qualquer espaço de minhas bolsas, fuçando até que pudesse encontrar algo suspeito. Minhas mãos suavam frio e meu pior medo se concretizou quando ela abre um meio sorriso e então tira da mochila o meu celular, segurando-o como se fosse um pedaço de lixo toxico com o qual ela não queria se contaminar.
– Ora, ora, mas o que temos aqui? — sua voz assumiu um tom irônico que particularmente, achei muito irritante. — Vou ficar com isso. Ao final do semestre, será devolvido — conclui, guardando em um compartimento da mesa — cabana sete, tome – à contra gosto, me entrega uma chave, com um grande chaveiro de madeira onde estava entalhado em alto relevo o numero sete, contornado por linhas grossas de um incomum tom de azul anil. A velha senhora me encara como se eu fosse nada mais nada menos do que a escória da terra e em seguida faz um gesto com as mãos, me dispensando — Próximo!
Ela joga minhas coisas junto a outras, e me apresso para me juntar a Vanessa, que caminhava lentamente pela única saída visível do galpão.
Apesar de haverem outras pessoas andando pela enorme ponte de aço que liga a guarita a outra do outro lado, ela estava totalmente sozinha.
Sempre que passava perto de alguém, o mesmo a cumprimentava, e ela seguia seu caminho silenciosamente.

Notas finais
Taa ai *u* Reviews 4ever ♥ kaka Thanks for Ready e ate a proxima!