The Gwaed Code
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Espere! — grito, talvez um pouco mais alto que o necessário.
Ela não foi a única no desfiladeiro a olhar pra trás. Meu rosto corou, mas logo balancei a cabeça e sorri.
Vanessa para onde estava, esperando minha aproximação. Nesse meio tempo, ela tenta arrumar os longos cabelos, jogando sua franja castanha para o lado, que cobriu quase toda a parte esquerda de seu rosto.
As fortes rajadas de vento gélido fizeram seu cabelo dançar sob seu rosto de feições finas.
Não demoro para chegar a seu lado. Ela me encara com seu olhar desprovido de emoção e volta a andar.
Tentei acompanhar o ritmo com o qual ela andava, mas a garota caminhava rápido demais, como que ansiosa para chegar ao outro lado.
Eu realmente não conseguia entender como alguém em sã consciência poderia estar feliz por estar em um reformatório isolado da humanidade – isso parecia apenas surreal. Mas o fato é: se Vanessa precisa mesmo vir para cá, ela não é uma pessoa comum.
– O que acontece agora? — pergunto, apenas tentando quebrar o silencio incomodo que se formou.
– Você não sabe ficar quieto? — retrucou, sem paciência — Apenas ouça...
Eu estava prestes a perguntar do que ela estava falando, quando finalmente notei uma densa e escura floresta do lado esquerdo. A copa das arvores farfalhavam formando um som agradável de se ouvir.
As fortes rajadas de vento ecoavam pelo desfiladeiro, e mais pareciam vozes cantando ao meu ouvido, sussurrando palavras tristes e melancólicas. O barulho das quedas d'água e o som da correnteza feroz do rio onde as cachoeiras deságuam incrementavam a melodia, em um tom quase mágico.
De repente, o ar ao meu redor começou a ficar mais pesado, e minha única vontade era de chorar por tudo o que acontecera até agora: Cassandra; Vini; meus pais; Tudo.
– Parece... Uma musica...
– Sim — concordou Vanessa, também estonteada com os sons ao nosso redor. — A canção da donzela...
– O que é a canção da donzela?
–É uma historia muito longa — disse ela, para minha surpresa, calma. — reza a lenda... — sua voz soou doce e relaxada, como de quem conta historia de ninar — ...que uma garota de alma pura ficou apaixonada pelo reflexo da lua nas águas cristalinas. Ela visitava este desfiladeiro todas as noites de lua cheia e ficava admirando a paisagem. Até que, um dia, ela não aguentou ficar longe de toda aquela beleza prateada.
" Queria a lua do céu,
queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar..."
– Você esta citando Alphonsus de Guimarães! — eu reconheceria aquele poema em qualquer lugar: Ismália, um clássico da escola simbolista. Literatura sempre fora o meu forte.
– Sim. — afirmou ela, indiferente. — As estrelas, o rio, as árvores, as nuvens e até a própria lua, ficaram tristes com a perda da linda donzela. — continuou reassumindo o tom anterior — E desde então, todo o desfiladeiro canta por sua perda...
– Nossa... Que história triste...
Vanessa deu uma risada debochada e sua costumeira expressão de tédio voltou a seu rosto.
– Uma bela lenda. Nada mais que isso. Sabe... — continuou — Acho engraçado em como alguém poderia criar uma historia ridícula dessas só para explicar o obvio.
Seu tom deixou claro que aquilo o que dissera era o ponto final para essa conversa. Decidi não tocar mais no assunto, ou provavelmente, ela me jogaria ponte a baixo. E com certeza não era o que eu queria.
– Já estamos chegando — sussurrou. Um sorriso incomum abriu-se em seu rosto, demonstrando as feições mais bonitas que eu já vira em uma garota em toda minha vida.
Realmente, quando menos esperei estávamos atravessando a segunda guarita nem um pouco diferente da primeira, com exceção de que não havia uma senhora mal humorada de olhos malvados pronta para pular em seu pescoço e sugar seu sangue até a ultima gota.
O que eu vi depois que cruzamos o galpão realmente me surpreendeu.
Assim que passamos pelo arco de ferro, demos de cara com um grande jardim decorado com diversas petúnias, lírios, cravos de diversas cores, além de muitas outras flores irreconhecíveis para mim. O aroma era inconfundivelmente doce e cítrico e empesteava o lugar, enchendo minhas narinas.
Varias fontes jorravam água para o alto, formando arco-íris ao redor dos passarinhos que gorjeavam, felizes. Abelhas e borboletas voavam por toda a parte, pousando nos arbustos metricamente podados e em cima de grandes mesas de piquenique. Lonas verdes de plástico eram sustentadas por arcos de ferro que produziam sobras sobre as mesas que estavam agrupadas sem um padrão lógico, mas de forma que todos que estivessem nelas pudessem ter uma visão aprimorada de um palanque mais a frente.
– Esse... — começa Vanessa, com os olhos brilhando — É o refeitório.
Esse era um dos jardins mais lindos que eu já vira em minha vida, e o fato de ele ser o local onde comeríamos me agradou bastante. Eu finalmente conseguia entender por que Vanessa estava tão ansiosa para chegar aqui.
– E aquilo... — ela apontou com o queixo para o palco de madeira. — É usado para algumas aulas ao ar livre. E às vezes para apresentações de dança ou teatro.
– Que tipos de aulas ao ar livre? — pergunto ainda distraído pela beleza do lugar. A única coisa que me vinha à mente ao se pensar em aulas ao ar livre de um colégio militar deviam ser quilômetros de corrida pela manhã.
– Aulas bem interessantes... -diz, como se esclarecesse todas as dúvidas do universo e caminha até uma mesa vazia bem próxima de onde estava o palanque, onde se senta em uma parte do enorme banco de madeira. Sem demora, eu a segui, repetindo o gesto e me sentado ao seu lado.
Eu não havia reparado ainda, mas já haviam pessoas em mesa próximas, todas entretidas com conversas aleatórias.
Não demorou muito até que mais e mais estudantes chegassem, enchendo o lugar com vozes alegres e rostos sorridentes. Estranho. Muito estranho mesmo. Como poderiam estar todos sorrindo? Tudo bem, até aqui a escola se mostrava de beleza extraordinariamente mágica, mas não deixava de ser um colégio militar.
Tem algo muito errado aqui.
Voltei o olhar para nossa mesa, onde estavam sentadas mais quatro pessoas que eu não vira em nosso ônibus.
Cerca de quinze minutos depois, um homem de cabelos prateados penteados para trás com muito gel, com um bigode grosso e espesso no rosto e de ótima postura sobe no espaço a nossa frente, pigarreando pelo microfone.
Todos, sem exceção, se calam. E o mar de vozes foi substituído por um estranho silencio incomodo.
– Bem vindos a mais um ano letivo! — começou. Sua voz grossa e firme arrepiou os pelos de minha nuca, fazendo-me estremecer. — Eu sinceramente espero que possamos desfrutar de mais um ano de muita gloria e paz, aqui na academia. Certamente que contarei com vossa ajuda para que o que vos digo seja realizado. Para os que não me conhecem, eu sou o general Parkinson, o diretor da academia. — Ouviram-se alguns sussurros inquietos, mas logo homens e mulheres de estaturas e idades diferentes, reuniram-se com o diretor sob o palco, e fez-se silencio novamente.
– Continuando... Este ano teremos algumas mudanças na equipe de professores, mas vocês vão conhecê-los muito brevemente. Assim espero. Mas agora, Vamos ao básico — o homem pega um papel de dentro de seu paletó, e continua — O horário das aulas permanece o mesmo: Fogo das quatro as seis da manha e das dezesseis e trinta às dezoito e trinta. Água: das dezessete horas à meia noite. Ar: das sete as nove da manha e das quatorze as quinze horas da tarde. Terra: das nove e meia ao meio dia. Fui claro? — apesar de ter feito uma pergunta, não espera respostas e prossegue — Caso haja qualquer tipo de dúvida, procurem seus horários na coordenação. Lá a senhorita Sophie poderá auxilia-los. — uma senhora de idade avançada com os cabelos grisalhos presos em um coque e trajando um vestido azul piscina muito elegante balançou a cabeça em sinal de aprovação.
O diretor pigarreou novamente e continuou com o mesmo tom assustador
– Prosseguindo, quanto às aulas extras, tornou-se obrigatório para segundanistas ou acima assistir duas ou mais a sua escolha. Para se escrever em uma, a partir de amanha na sala da senhora Mathias. — o diretor guardou o papel em seu bolso, fazendo uma leve pausa, mas logo continuou — Certo, para os veteranos, isso é tudo. Agora podem se organizar. Fiquem Ryan, Vanessa, Echo, Khandal e todos os novos estudantes.
O pessoal começa a sair, ainda em silencio. Não sei se era impressão minha, mas parecia que eles temiam o senhor de bigode. Quer dizer, não todos, mas a maior parte do pessoal tinha as mesmas expressões assustadas no rosto.
– Hum... — levanto a mão esperando permissão para poder falar, e logo o faço quando o diretor acena a cabeça para mim — Por que as turmas têm nomes de elementos? – pergunto, curioso. Nada nessa escola parecia fazer algum sentido. — Não devia ser por ano como nos colégios normais?
– Você logo vai descobrir meu jovem, que este não é um colégio normal. – diz, indiferente — Mas respondendo a sua pergunta, nosso sistema de ensino é similar ao de colégios normais, mas as turmas existem para facilitar a divisão das classes.
– Que legal — falo, sem disfarçar a ironia em minha voz.
Logo restavam apenas cerca de vinte alunos ali, entre eles os quatro veteranos que logo foram chamados à frente. Vanessa foi a primeira a subir ao palanque, com sua eterna expressão de tédio ainda mais intensificada. Não demorou muito ate que a garota de cabelos ruivos e olhos verdes que se apresentou para mim no ônibus como Hayley, juntou-se a Vanessa, seguida de mais dois garotos que nunca havia visto antes.
– Creio que ninguém deva saber o real motivo de estar aqui, certo? — começa o diretor, com a voz um pouco mais amena — Seus pais devem ter dito milhões de desculpas para vocês. Mas o motivo real é um pouco mais complicado. — suspirando, prossegue. Eu nunca tinha visto alguém tão dramático assim em toda minha vida, fora, claro, eu — Vocês nasceram com uma mutação nas glândulas suprarrenais que altera a produção de adrenalina em sua corrente sanguínea, além de produzir uma nova substancia anormal ao organismo.
Uma garota levantara a mão assim como eu fizera anteriormente, e todos presentes fixaram os olhos nela, deixando-a um pouco corada e provavelmente, também sem graça.
– Com licença senhor diretor... Mas glândulas do que? — perguntou. Obviamente aquela era uma das duvidas da maioria dos novatos, inclusive a minha.
– Glândulas suprarrenais — respondeu o garoto de cabelos castanhos que estava ao lado direito de Hayley, em um tom gentil. – São glândulas existentes na região dos rins de todos os seres humanos. Elas são responsáveis por muitas coisas, mas a função que realmente nos interessa no momento é a que ela regula a produção de adrenalina no corpo.
– Bem... — um garoto de cabelos castanho claro e de olhos em um mesmo tom levantou a mão. — Eu já ouvi falar disso em aulas de biologia. Quando elevados a situações extremas, como estar correndo perigo ou algo assim, dá aos humanos coisas como força ou agilidade anormais.
– Exatamente — interrompeu o diretor. — Agora imaginem essas habilidades multiplicadas por mil. Pois bem. É raro um ser humano possuir essa alteração nas glândulas, mas vocês... — ele passou os olhos lentamente pelos alunos que restaram. Eu não era o único a encara-lo, incrédulo com tudo aquilo. Provavelmente era algum tipo de piada com novatos. — Possuem esse poder. A aceleração do metabolismo por conta do excesso de adrenalina permite que vocês sejam mais rápidos, fortes e ágeis, muito mais que uma pessoa qualquer. — falou, sorrindo. Esse velho devia ser muito biruta, por que ele estaria falando essas coisas? Os outros novatos a minha volta pareciam tão confusos quanto eu, e um deles até ria.
– Além disso – uma mulher começa, estando a alguns passos atrás do diretor — Depois de um indeterminado tempo de pratica, vocês conseguirão evoluir suas habilidades, podendo sentir e ler as ondas cerebrais ao seu redor, através de um principio básico o qual estudarão brevemente — veio-me a imagem de Vanessa no ônibus falando algo como "não consigo ler você", e então tudo repentinamente pareceu fazer sentido.
–E claro, — continuou o diretor — o mais importante: vocês possuem uma habilidade realmente inumana e muito desejada por muitos, a dominação elemental.
O garoto que antes ria baixinho, agora passava a ter uma verdadeira crise de risos.
Todos o encaravam com notável desaprovação. Aquilo chegava a ser ridículo de ser dito, mas não era necessário um ataque desses.
Então, em um piscar de olhos, sua camisa começou a pegar fogo. A primeira centelha surgiu na ponta das mangas e ia subindo cada vez mais, agora já cobrindo o seu braço.
O garoto gritava desesperado, batendo nas roupas tentando apagar o fogo. Quando as chamas estavam quase na gola de sua camisa, uma voz sem emoção soou, em um tom de autoridade:
–Não ria seu idiota — não era necessário olhar para Vanessa para saber que ela estava seriamente irritada.
Ao terminar de falar, todo o fogo que estivera ali há segundos se extingue, deixando apenas uma camiseta completamente chamuscada.
Todos os novatos, olhavam uns para a cara dos outros, perplexos. Eu não os culpava, já que particularmente não conseguia acreditar e eu havia assistido a cena de perto. De onde surgira aquele fogo? Ótima pergunta. Todos nós queríamos a resposta.
–Esse foi um exemplo — começa o diretor, voltando ao tom duro e amargo — do elemento fogo. Fico muito agradecido Vanessa. — fala, acenando com a cabeça para a garota, que apenas revirara os olhos — Também podemos... — começa, antes de ser interrompido pelo garoto da roupa queimada, que agora se aproximava vorazmente do palanque.
– Espera ai! Ela fez isso? — diz, apontando da camisa para Vanessa, visivelmente incrédulo com a situação.
– Não, não, sua a avó saiu da caverna escura de onde vivia cuspindo fogo por ai, e então acidentalmente o atingiu. — diz, claramente sarcástica. — Claro que fui eu seu idiota. E ao menos que queira outra amostra do que posso fazer é melhor ficar quieto. — ela estala os dedos e seu punho direito incendiou-se como se fosse uma vela, crepitando em chamas vermelhas que dançavam no ar. O garoto olhou pasmo para ela e calou-se rapidamente. Uma atitude inteligente.
Murmúrios inquietos encheram o refeitório.
Aquilo tudo era simplesmente inacreditável, impossível, mas lá estava ela, com a mão em chamas e sorrindo, como se fosse uma brincadeira muito engraçada.
– Você me deve uma camisa nova. — é tudo que diz o garoto, controlando o tom de nervosismo na voz.
– Que seja – Vanessa fala, dando de ombros.
– Prosseguindo... — diz o diretor, com a voz reverberando pelo lugar praticamente vazio – Echo, demonstre-nos um pouco do elemento ar.
Hayley acena com a cabeça para o diretor e da alguns passos a frente. Seus olhos faíscam quando fica na ponta do pé e com os braços esticados, começando a girar levemente.
Com saltos baixos, ela dançava por todo o palanque, em movimentos graciosos e lindos. Não me surpreendia nada que uma garota de aparência frágil e delicada soubesse ballet. O que na verdade me deixara intrigado era a maneira como massas de ar acompanhavam o movimento de suas mãos, espalhando uma brisa refrescante que banhou meu rosto, trazendo todos os aromas do jardim.
Por um minuto jurei ouvir a melodia do desfiladeiro da donzela, como se estivesse em sincronia com a dança majestosa da Hayley e de seu cabelo ruivo, suave e esvoaçante.
Seus passos encantadores só duraram por pouco menos de um minuto ate que a garota, nem sequer suar ou ofegar, retornou graciosamente para o lado de Vanessa. Não demorou muito até que a brisa refrescante que percorria o jardim cessasse.
Todos ao redor pareciam deslumbrados, e mais uma vez murmúrios surgiram, quebrando o silencio.
Vanessa apertou o ombro da ruiva e a mesma sorri, demonstrando aparente afetividade. Hayley virou o rosto para o lado e seus olhos verdes fuzilaram os olhos castanhos do garoto gentil, a esquerda de Vanessa. Ele retribuiu com um olhar gélido e hostil.
Os lábios do garoto moveram-se em um sussurro inaudível. Hayley deu de ombros e voltou a encarar o céu.
– Seguindo com as apresentações. — continuou o diretor – Ryan, — ele fez um gesto com a mão, indicando o garoto de cabelo castanho e olhos de um tom mais escuro ainda, que a pouco trocara olhares com Hayley.
Ele deu alguns passos a frente e esticou os braços, um para cada lado. Por alguns segundos, nada aconteceu. Todos encaravam Ryan, vidrados, esperando algo acontecer, e então ele se moveu. Seus braços, ainda retos, foram jogados para cima e dois grandes jarros posicionados as pontas do palco, tremeram ate expelirem um liquido incolor.
Ryan deslocou o tronco em movimentos circulares, saltando para trás. A água acompanhava o movimento que suas mãos, traçado formas abstratas no ar ao nosso redor. Ele pousou bruscamente no chão, em seguida correndo a frente.
O liquido formou duas linhas paralelas que se transformavam em mini-redemoinhos vorazes. Água salpicava em todas as direções. Não de uma maneira com a qual ficássemos encharcados, e sim leves pingos que ora ou outra entravam em contato com a pele quente do meu rosto. Um lindo arco-íris se formava logo sob nos, o que deixava os movimentos de Ryan ainda mais belos.
Todos assistiam encantados com a precisão dos movimentos do garoto e como a água parecia simplesmente dançar em movimentos circulares ao redor de seu corpo. Ryan para com sua apresentação repentinamente e traça desenhos no ar com a ponta dos dedos indicadores, fazendo com que a agua voltasse a seu lugar de origem.
Ele faz uma reverencia completamente desnecessária para a frente, ao mesmo tempo em que os professores, os novatos e ate o diretor aplaudiam calorosamente.
– Muito bom, muito bom. — comentou o diretor — Muito obrigado, Ryan. — o garoto abaixou a cabeça, levantando-a para em seguida voltar ao seu lugar. O diretor pigarreou — pelo visto ele adorava fazer isso — e prosseguiu — Por favor, Khandal, — ele virou-se para encarar o garoto de pele morena logo ao lado esquerdo de Ryan. O garoto sorriu esnobemente, deixando a mostra dentes incrivelmente brancos, e balançou sua cabeça em aprovação, fazendo seus dreadlooks castanhos mel balançarem de um lado a outro.
Ele serra os punhos e posiciona seus braços próximos ao corpo.
Caminha até a extremidade do "palco" em que eles estavam. Então, ele salta — mas não foi um simples salto. Além de ter chegado a cerca de dois metros acima do solo, quando seus pés entraram em contato com o chão uma grande cratera foi aberta em meio ao refeitório.
Com isso, uma grande quantidade de areia foi levantada me obrigando a por a mão em frente aos olhos. Quando sinto que a nuvem de areia havia se dissipado, volto a observar o refeitório. Mas o que tinha acontecido aqui? Quer dizer, eu vi a cratera sendo formada ao longo do impacto do garoto contra o solo. Mas olhando agora... Não havia uma rachadura sequer no chão. Sem falar que não tinha sinal do garoto ali.
–Mas o que... — uma voz em meio aos novatos começa, mas é abafada pela grande explosão.
Ou acho que se tratava de uma explosão... Mais poeira e pequenas pedras voaram pelo lugar, onde em seu centro uma forma parecia se mover em meio à tempestade.
Um tipo estranho de monstro de areia se levantava violentamente do solo seco, levantando um pouco mais disso consigo. Com um rápido movimento da cabeça, desvio antes que uma lasca de pedra me acertasse em cheio.
O diretor pigarreia novamente, dizendo de maneira ríspida:
–Já e o suficiente.
A criatura de areia começa a se desintegrar e diminuir consideravelmente, assumindo uma forma quase humana. Logo em seu lugar estava Khandal com areia ainda caindo de seu corpo, sem fazer esforço algum para se mover — o solo por si só fazia esse trabalho.
Ele sorria de maneira esnobe, como se estivesse em uma exibição de halterofilismo. O chão treme levemente a meus pés e, com um solavanco, a terra dá um bom impulso e o joga pra cima — apenas o suficiente para que ele um salto mortal. O garoto cai de pé, voltando ao lado de Ryan.
Ao meu redor, novatos e professores aplaudiam, assobiando ruidosamente.
O que havia de errado com essas pessoas? Como elas poderiam acreditar nessas coisas? Não podia ser verdade. Com certeza era algum tipo de brincadeira ou pegadinha dos superiores para saber se os novatos se deixariam iludir facilmente e esqueceriam-se da razão para acreditar em uma fantasia. Isso seria a cara de uma academia militar.
Uma garota entre os novatos ergue a mão, e com um aceno de cabeça, o diretor da à palavra a ela.
– Então todos nós temos um elemento, como eles? — ele confirma, gesticulando — E vamos poder fazer essas coisas? — ele confirma novamente, e um sorriso radiante se abre no rosto da garota.
–Agora, aguardem as instruções da senhora Sophie. Ela os guiará para que descubram qual será o elemento de vocês. — sua expressão volta a ficar séria e, após pigarrear uma ultima vez, prossegue — Vocês quatro estão liberados.
Ele desce rapidamente do palanque, e pouco depois, quando já estava afastado a cerca de cinquenta metros, os quatro que fizeram as demonstrações começam a se mexer.
–A senhora vai precisar de alguma ajuda? — pergunta Hayley à Sra. Sophie, poucos passos afastava de onde ela estava.
– Não, minha querida. Pode ir se organizar. — ela responde, num tom quase fraternal.
– Você ouviu. — diz Vanessa, séria — Não repita a mesma coisa do ano passado...
– Eu não tenho culpa de ter tido uma guerra de lama antes que pudesse salvar minhas roupas. – reclama, visivelmente transtornada. Só o que estava faltando para ela ficar mais fofa era que fizesse um biquinho.
– Dessa vez não vou ajudar a limpar... — declara Ryan, como quem não quer nada.
Antes que Hayley pudesse rebater, Khandal entra na conversa, mudando totalmente o rumo da coisa.
– Ei, Vanessa, o Luke disse que quer falar com você. — ele sorria, com um pouco de divertimento enquanto aguardava qualquer resposta.
– Bom pra ele — ela responde, com profundo desinteresse.
– Garotos, vocês, estão atrapalhando – Madame Sophie intervém, interrompendo a conversa — retirem-se o quanto antes, por favor.
– Quanta gentileza... — Khandal resmunga, e com um salto, desce dali e se afasta quase correndo.
–Eu me senti super bem vinda agora — diz Vanessa, sarcasticamente — Também adoro estar com você tia Sophie.
– Logo! — ela reclama por uma última vez, impaciente.
Apesar disso, o primeiro a descer é Ryan, silencioso e trazendo uma expressão tranquila, seguido por Vanessa, carregando uma expressão de puro tédio. As suas costas veio Hayley, feliz e sorrindo.
– Muito bem — a voz da senhora faz com que a atenção de todos ali se volte pra ela, que só então prossegue – Como já devem ter notado, sou a Sra. Sophie e vou explicar para vocês como funciona a identificação dos elementos. Por favor, me acompanhem.
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