The Great Historia

14 Para o fundo de muitas coisas


…

—Eu preciso me mudar, cara. Não tem jeito.

Essa conversa era minha com Nemo. Após minha decisão de bater de frente com Grandark, precisava treinar como despertaria algo poderoso para vencê-lo. Se despertasse algo, obviamente.

Se o Duplo Planeta for o “poder lendário”, acho que será difícil despertar outro, mesmo que eu tenha. Então pensei: “se me mudar para o mar, os danos serão menores. Assim me prepararei para o embate sem muitos danos!”

—Tá, tudo bem – Nemo responde. — Se cuida lá.

Isso teria um preço, porém: teria que me afastar de todos da Fundação (exceto Marluna e Poseidon, que serão meus supervisores), e treinar embaixo d’água. Marluna disse que não seria embaixo d’água, mas estávamos indo para o fundo do Pacífico. Então, onde é?

—Espere um pouco, Inkaylor – ela disse, após terminar de se despedir com o Nemo. — Está pensando alto demais.

—Eu realmente estou fazendo isso muito ultimamente – eu disse. — Desculpe.

—Isso é normal. Afinal, não é todo dia que vai para o mais baixo dos oceanos.

—Pensei que o mais baixo fosse o Mediterrâneo.

—É verdade. Mas é melhor falar depois. Já se despediu de todos?

—Sim. Wreckers, Fundadores, Nemo e Lynn, enfim, todos.

—Ok. Acho que podemos ir.

Nova Yalie ainda estava no Pacífico, e deveria permanecer lá para meu retorno. De uma das extremidades da ilha, um buraco na água se forma. E de forma quase indistinguível, uma escada se estende para o fundo do mar. Eu olhei de novo para trás, achando que tinha alguém esperando que eu voltasse, mas todos acenavam minha ida ao fundo do mar.

—Bom, acho melhor irmos logo – Marluna disse. — Desça as escadas e logo estará no palácio de meu pai.

A essa altura do campeonato, eu não estava mais surpreso com o fato de Poseidon ter um palácio. Decidi descer alguns degraus. Quando começaram a sumir de vista, olhei para trás alguns segundos, enquanto a porta de água fechava, bloqueando de vez a vista dos meus amigos, deixados na superfície para o meu retorno, e para o embate iminente que se aproximava.

…

Fui descendo as escadas até descer em um corredor aparentemente sólido. Tudo ali parecia ser feito na superfície, mas aí está: não foi. Pois em uma das janelas, peixes nadavam em uma velocidade aparentemente comum, como se estivesse tudo normal. Resumindo: era realmente um palácio debaixo d’água. A estrutura do palácio inteiro era construído por algo parecido com cobalto, indo do piso ao teto.

—Bonito, não?

Marluna chega atrás de mim, chegando pela escada, assim como eu.

—É sim – eu respondo. — Mas acho que seu pai exagerou um pouco.

—Sério? Para um deus como ele, as oferendas conseguiram adquirir um palácio assim, de cobalto.

—Entendi.

Continuamos a caminhada pelo palácio, e passamos pelo corredor. Mas percebi que na sala de jantar (sim, uma sala, não um salão) haviam duas portas e um simples elevador que levava para o alto. O elevador talvez seria para Poseidon, e uma das portas para Marluna, mas de quem era a outra porta?

—Venha – ela disse -, vou mostrar seu quarto.

Apesar da outra porta talvez ser o quarto de visitas, nós passamos reto, e fomos para o elevador. Nós subimos, e o deus do mar olhava fixamente para sua gigante reinação, de costas para nós, em sua gigante sacada.

—Boa tarde, pai – Marluna disse. — Retornei.

Ele olha para trás e nos vê. Na Reunião, não consegui ver ele direito, mas agora vi uma cara jovem, com uma barba marrom cuidadosamente enrolada.

—Boa tarde, minha filha. — Sua voz era suave como o mar tranquilo que retratei de Marluna na Mesa dos Poderosos. — Como está hoje?

—Muito bem, papai – Marluna responde. — E trouxe um convidado para cá. Ele ficará com o senhor.

Quando me apresentei a Poseidon, ele se assusta. Ele tem razão, afinal… ele ainda se lembra do ocorrido na Reunião.

—Oh… É você – diz ele, com uma oculta repulsa a mim. Por um instante, a barba enrolada foi bagunçada pela surpresa. — Espero que tenhamos uma boa experiência juntos. — E ele estende a mão.

Eu, como achava que ele era justo, estendi minha mão desprotegida. E ele apertou-a sem truques, nem nada.

—Parece que já estão se dando bem – disse Marluna. — Melhor deixar vocês conversando.

E ela desce o elevador. Quando escutei o barulho de que ele tocou o chão, eu viro novamente para Poseidon, que tinha a ponta do seu sagrado tridente no meu pescoço.

—Me dê… uma boa razão… para eu não te matar. – Ele falou isso com toda a raiva que sentia de mim. A barba enrolada agora permanecia firme, ereta, tensa, furiosa.

—Como, como assim? — perguntei, sem entender. — Se você está falando da Reunião, eu não sei o que houve com o senhor para pedir--

—SILÊNCIO! — Se ele não tomasse cuidado com a voz, Marluna escutaria.

—Eu não--

—SILÊNCIO! — Agora, toda a sacada tremeu. — VOCÊ NEM MERECE FALAR PELO QUE FEZ! DECLAROU GUERRA AOS VOIDERN, CONSEGUIU QUEBRAR O JURAMENTO DAS 12 CADEIRAS, ENVOLVEU MINHA FILHA NA GUERRA, E O PIOR É QUE… — ele começa a chorar — VOCÊ ME FEZ LEMBRAR DA ÚNICA COISA QUE ME PRENDE AQUI: O MEU PIOR!

Eu, naquele momento, estava atônito. Alguém tão tranquilo pode dar um ataque de raiva desses? Enquanto pensava nisso, Marluna deve ter escutado o estardalhaço que houve.

—O que aconteceu aqui? — ela perguntou. — Alguém me explica?

Poseidon ainda estava em lágrimas quando disse a situação que houve. Eu complementei o que ele disse, sem que ele desse outro “silêncio” para mim.

—Então quer dizer que estavam conversando sobre o que houve na Reunião, e o meu pai se descontrolou pelo que você fez, Inkaylor? É isso? — Marluna finalmente conclui.

—Sim – respondemos em uníssono.

—Ah. Mas eu disse para não se exaltar, papai.

—Desculpe – ele disse, a voz ainda marcada pela tristeza.

—Agora se entendam como bons homens que são. E não quero ver mais nenhum estardalhaço aqui em cima, entenderam?

—Sim – respondemos mais uma vez em uníssono.

E ela desce o elevador mais uma vez. Quando virei, Poseidon não assumiu a mesma postura, escutando a filha. Talvez ela seja seu contrapeso para seus momentos de raiva.

—Inkaylor – ele diz, sem nenhuma fúria no rosto -, desculpe. Eu não queria perder o controle com você. É que meu passado é um pouco conturbado.

—Eu sei – respondi. — Eu acho que tenho uma dica do que seja esse tal passado. Lá na reunião da escolha de quem iria para o embate contra Grandark, Marluna assumiu uma postura rancorosa sobre algo que disseram. Acho que era… o…

—Primeiro Ataque Voidern, certo? — Poseidon fala em voz alta esse nome, sem assumir a postura de personalidade de um detentor de um Pior.

—É, isso mesmo.

—É difícil controlar a fúria quando escuto essa palavra. Só me lembro de Simílua...

—Então é ela? O motivo do seu Pior?

Ele pareceu assustado com essa fala, e diz:

—Sim. TGH diz isso no Capítulo 1: O primeiro e a Declaração.

“Diz exatamente o que houve para a guerra começar, e todo o plano que fez o que seria 10 anos de guerra. Nós ganhamos os primeiros 7 anos graças a ajuda nórdica e suas crenças parecidas com as nossas. A ajuda deles foi de muita importância. Além que foi deles que saiu Nova-Kai.”

—Então estava duvidoso sobre os nórdicos.

—Sim. Apesar dos aesires serem um povo de guerras, eles só se manifestaram algum tempo depois, onde algum stratano ou stratana recorreu a ajuda deles. Acho que era uma stratana, que está viva até hoje.

—Minha mãe, que é a mãe do Nova—Kai também. Milerina Estine.

—Essa mesmo. Ela recorreu ao marido, Odin, e os dois panteões – os aesires e os vanires – vieram ao encontro da guerra. Os vanires, porém, prezando pela paz que mantinham por milênios, deixaram o campo de batalha. Isso me deixou com preconceito por eles, já que não sabia a diferença entre vanir e aesir na hora.

—Tá, mas eu só quero saber onde o seu Pior entra na história.

Ele suspira, percebendo que a hora da verdade se aproximava.

—Ele é dito como algo que nem no submundo reencontrará. Mas eles estão errados, pois meu irmão Hades disse que ela entrou no Elíseo no mesmo dia que ela foi morta. Mas alguém teve a grande ideia de contar a outra versão.

“Kio”, pensei.

—Então mataram ela no Primeiro Ataque Voidern?

Eu não pensei que a palavra escaparia da minha boca mesmo. Mas Poseidon não disse nenhum “silêncio” após eu ter dito isso.

—Sim. Ela foi morta no PAV, para abreviar. Acho melhor assim, para não causar muita confusão.

—Se você pode falar abertamente o nome do ataque que matou ela, por que quase enlouqueceu na hora que eu disse algo de proximidade ao ocorrido?

—Porque até aquele momento, você era um ninguém para mim. Mas agora, vejo que é um bom amigo.

Finalmente, viramos amigos.

—Acho que não consegue falar o que houve naquele dia, no PAV – eu disse.

—Falar, até consigo – ele responde. — Mas não consigo parar de chorar depois.

—Tudo bem, pode se abrir. Afinal, uma lembrança ruim só termina com sua vontade e a amizade de alguém.

—É, acho que sim. — Um bom tempo se passa com Poseidon olhando para sua reinação, até que ele pergunta: — Eu devia falar algo?

—O seu Pior – eu respondi.

—Ah, sim. Tudo bem. Lá vai…

…

22 anos atrás…

—Sinceramente, Seido, não dá para parar?

Eu nunca vi resistência maior na minha imortal vida. Os humanos ficam meses deitados após terem um filho, mas com stratanos parece que nada acontece após ter um filho, ou filha, no caso.

—Silu – eu respondo -, eu apenas estou lavando ela.

—Encobrindo ela de água? Ela nem sabe respirar direito, como ela respira debaixo d’água?

—Ela é uma filha minha. Ela não vai se afogar, pois todos os Três Grandes, me incluindo, têm uma benção para ela se proteger contra os elementos deles.

—Mas eu não sou filha sua, então por que sou sua protegida?

—Isso não é óbvio? — E eu sussurro no ouvido dela: — Porque te amo.

—É. É óbvio sim.

E ela me beija. Após este pequeno momento, nós voltamos aos nossos afazeres. Uma explosão do lado de fora, porém, nos chama a atenção. Naquele momento, os stratanos atiravam, sem sucesso, para uma nave negra gigantesca no céu. Era tão tal que conseguiu ocultar a esfera luminosa que era o sol deles.

Da parte de baixo da nave, um feixe de luz sai, batendo no solo. Então uma criatura sem membros conectores sai da nave, chegando no chão em um minuto. Assim que chegou ao chão, ele disse:

—Bom dia! Não tenham medo, eu não quero briga com nenhum de vocês. Eu sou Grandvoid, rei dos Voidern, meu povo. Nós somos 500, e nos integraremos muito bem a vocês, se me deixarem ficar.

Eu me aproximo daquele ser e pergunto para ele:

—Como sabem nossa língua, e como chegaram aqui?

—Nós sabemos sua língua porque uma de nós conseguiu a interpretar, e passou seu conhecimento a nós. Mas como nossa língua é herdeira “greco-romana”, como o povo da Terra chama, parece que essa língua já era nossa. Nós chegamos aqui pois queremos seu planeta para a recuperação de Vazileya, o nosso planeta destruído por nosso avô.

—Por que querem o nosso planeta, se podem ficar com o espírito dele vivendo aqui?

—Como assim, “o espírito”?

—Aqui é uma terra onde espíritos e corpóreos vivem juntos. Se integrar o espírito do seu planeta a superfície do nosso, ele viverá como se tivesse um corpo, e não um planeta.

—É, isso parece funcionar. Talvez não precise mesmo desse planeta inteiro.

Grandvoid parecia uma criatura calma, bem-humorada, enfim, alguém respeitável. Nós íamos fazer um aperto de mão, selando o acordo entre nós. Mas quando ele estava para apertar minha mão, ele coloca as mãos na cabeça, evidenciando uma dor de cabeça. Então, escuto palavras dele sussurrando, com uma grande fúria:

—Não… ngh… sai de mim… sai daqui… não faça isso… pare… pare… eu não quero… eu… preciso… de… paz… não… — então ele grita: — PARA, PARA, PARAAAA! VÍVIOOOOON!

Então ele parece ter perdido a consciência, com a cabeça recaída. Todos prestaram atenção nesta situação estranha. Até que Grandvoid, após alguns segundos, retoma sua cabeça no lugar. Sua voz agora saía como se uma outra voz estivesse tentando a imitar:

—Eu sou Grandvoid e…

Eu não perdi tempo. Com meu poder exato de dedução, tirei meu tridente do meu bolso como pingente, e ele logo se transforma no meu sagrado tridente, colocando sua ponta no pescoço dele.

—Você não é Grandvoid – eu digo, convicto. — Quem é você?

Aquele que estava no corpo dele responde:

—Temos alguém inteligente aqui. Bom, eu sou Vívion, a letra V de N.A.I.O.M.E.V.U.L.G, um dos 10 Reis-Almirantes. Vim do mesmo sistema de seu amigo, Grandvoid.

—Que sistema é esse?

—O mesmo lugar que acabei de dizer: N.A.I.O.M.E.V.U.L.G. O Mundo dos 100 planetas, o Mundo de meu pai que, como já bem sei, o considerado “Primordial”: Caos.

Eu, ao escutar aquele nome, comecei a me aterrorizar. Filho de Caos? O Primeiro?

—Está blefando – eu disse, já com ódio daquele que estava na minha frente. — Está blefando e esta é a verdade!

—Pelo contrário. Estou contando a verdade. E para provar o que digo, despertarei sua fúria.

—E como pretende fazer isso, Vívion?

Meu tom era debochante. Não sabia do que ele era capaz.

—Será assim: pegar alguns do povo – ele estala os dedos, e um quinto da vila fica de frente para ele, incluindo Simílua – e eu irei MATÁ-LOS!

CHAMAS NEGRAS DO VAZIO!

Suas mãos foram para trás, enchendo-as de chamas negras. Eu percebi, depois de ver a aura que emanava daquelas mãos, que aquilo não iria ser um ataque comum. Eu consegui correr para o que poderia ser um desastre de proporções jamais imaginadas em Strat. Consegui chegar lá antes que ele lançasse seu ataque, e ergui meu tridente para a rajada do ataque.

Mas nem mesmo meu tridente conseguiu o parar. Eu fui afastado para trás, tentando empurrar o ataque de volta. Até que nem mesmo as pernas deram, e eu cedi. Fui lançado para trás, enquanto tentei segurar a mão de Simílua, até que apaguei.

…

Quando voltei a mim, me deparo com a seguinte cena: todo o vilarejo estava queimando em chamas negras. Os stratanos corriam, impotentes contra aquele ser poderosíssimo. E na minha frente, via a pior situação que já vi na minha imortal vida: todos que tentei proteger com a ponta do meu tridente, agora não estavam mais lá, exceto Simílua. Mas ela já estava sem vida, pois no lugar de pernas, agora havia nada, nada além de sangue. Meu olhar se paralisou por causa de todo sentimento negativo possível: tristeza, ódio, vingança, terror. Tudo isso em uma passada só de toda a situação.

—Por favor…

Ninguém me escutava naquele campo de guerra.

“parem...”

Nenhum stratano depositava a sua confiança em mim…

“parem...”

E além disso, muitas mortes ainda aconteciam ao meu redor. Descontrolado, gritei:

—“PAREM DE MATAR TODO MUNDO! PAREM! PAREM! PAREEEEEEEEEEM!” — Naquele momento, enfiei meu tridente no chão, e disse, com todas as forças:

“Ptósi se aftón pou miseí tin aiónia dystychía tis orgís ton theón, kathós kai i timoría tha tou dóso ton eaftó mou. (Caia sobre aquele que odeio a desgraça eterna da fúria dos deuses, assim como a punição que eu mesmo lhe darei.)

THÁLASSA TIS AIÓNIAS KATAIGÍDAS!

(MAR DA TEMPESTADE ETERNA!)

Tudo que era ou tinha água agora estava vazio. Pois toda a água foi usada em um redemoinho que criei, que girava violentamente e batia com tudo em Grandvoid/Vívion. Apesar de ser imune ao ataque, ele decidiu recuar, pois estava finalmente terminado o que faria. Embarcando na nave, ele disse:

—Até mais ver, Poseidon! Eu retornarei!

Então, após ter dito isso, ele foi embora.

...

Os stratanos, ainda aterrorizados com essa ameaça, rumavam a mim. Eles olhavam meu rosto acabado, sem esperança.

—Stratanos – falei, com a firmeza que ainda me restava -, todos vocês viram. Viram o que enfrentamos. Viram o nosso próprio terror. Somos impotentes sozinhos. Avisem o Olimpo, que avisará a todas as raças:

“Estamos em guerra.”

…

De volta ao presente…

—Foi assim que ganhou seu Pior?

Eu perguntei, mas Poseidon, que agora chorava um mar de lágrimas, falava por si.

—Sim. Eu declarei guerra aos Voidern, e desencadeei o que agora chamamos de Guerra do Vazio.

—Putz. Pesado, cara.

—E pensar que essa era a verdade…

A última voz era de Marluna, que pareceu ter escutado, pelo mar que ela também chorava.

—Eu só ia avisar que o jantar estava pronto – ela continuou -, mas acabei escutando a história toda. Isso tudo é verdade, papai?

—É sim – ele responde. — Palavra por palavra.

—Tá – ela enxuga o mar de lágrimas dela -, vamos jantar.

E descemos pelo elevador, para jantar e discutir um pouco.