The Good, the Bad and the Egg
4 Capítulo 04
Os dias que se seguiram à confusão na Granny’s foram um tanto ruins para a família. Quando Lily estava chegando na lanchonete, Regina estava na rua, avaliando os buracos na via principal. Era muito mais complicado lidar com a destruição neste mundo do que na Floresta Encantada. Um caminhão de cimento estava a postos e alguns empreiteiros, comandados por Leroy, já organizavam como fariam para preencher as crateras e depois cobrir de asfalto. Vendo a jovem, a Prefeita se distanciou e foi até ela, um sorriso simpático, que imediatamente ligou o alerta de Lilith para más intenções, em especial depois de ter sido a mesma mulher que havia roubado o seu sangue para a criação de um universo paralelo.
— Bom dia — Regina falou.
Mas a outra ainda a observava, calculando cuidadosamente como agir até responder:
— Dia.
Ao final, havia decidido por ser minimamente educada. Sabia que sua mãe gostava bastante da Prefeita, então a trataria bem no limite que esta não a incomodasse. Continuou andando e foi para dentro da lanchonete.
Pelo horário, o estabelecimento deveria estar mais cheio. Os poucos fregueses olharam em direção a porta e Lily podia sentir que eles a observavam com aquela maldita curiosidade fora do normal, como se ela fosse um alien. Pelo visto, a conversa havia se espalhado mais rápido que as suas chamas na floresta da cidade. Era como uma coceira sobre a sua pele, queria desaparecer dali. Foi quando Regina, que vinha logo atrás, pegou-a no braço com delicadeza e a conduziu para os banquinhos diante da linda atendente com um sorriso de dentes muito brancos:
— Em que posso ajudar? — Ruby perguntou.
— Café — Lily foi sucinta.
— Mais dois — a Prefeita pediu.
A jovem dragoa então a olhou, questionando para quem seria o segundo copo, porém não exprimiria tal pensamento com palavras.
— Emma — a outra respondeu ao entender o que se passava.
Após pegar os pedidos, a loba se afastou, o que permitia às duas clientes alguma privacidade para poderem conversar, exatamente o que Regina pretendia. Lily não pareceu se importar muito com a bebida ser de Emma, em verdade, deu de ombros, mas nem por isso deixou de ser ácida:
— Ela é sua amiga, né? Muito amiga…
A Prefeita reconhecia aquele tom, ao que estreitou o olhar. A dragoa estava desafiando, mas não compraria aquela briga. Respirou fundo e manteve a postura soberana, mudando um pouco para o assunto que precisavam abordar:
— Vocês ainda não terminaram o livro. Achei que seria uma boa ideia levar café para a delegacia, poderiam continuar lá.
Antes que tivesse a chance de continuar, chegaram as bebidas, ao que Lily pegou a sua e foi saindo da lanchonete, dando as costas para a outra como se não tivesse escutado nada do que houvesse dito. Aquele comportamento fez Regina revirar os olhos, definitivamente não era digno de nenhum dos três pais, mas reuniu em si toda a paciência que poderia, lembrando o quanto a jovem era amada por Mal, antes de se levantar com os seus copos e ir atrás.
— Pode fugir de mim, mas vai ter que ler o livro em algum momento — disse já enquanto andavam pela calçada.
— Desculpa pelos buracos — a dragoa ignorou a conversa mais uma vez. — Minha mãe me fez prometer que pagaria pelos danos.
— Isso não é pelo asfalto, todo mundo já destruiu esta cidade ao menos uma vez, eu tenho que reconstruir a cada seis meses, não poderia me importar menos.
A forma desapegada de Regina falar foi o que fez com que Lilith finalmente parasse no lugar e se virasse para olhá-la. Tomou um gole de seu café como se não fosse nada e disparou:
— Você está dormindo com a minha mãe, não é? Por isso que não se importa.
A Rainha reconhecia aquelas chamas no olhar, eram exatamente os mesmos olhos de Malévola quando estava enfurecida. Precisava medir bem as palavras, não que tivesse qualquer medo da besta, pois dragões não lhe assustavam, mas por respeito a Mal, vez que este assunto lhe era referente.
— O que sua mãe faz na vida pessoal é problema dela — respondeu finalmente.
— Você levar café pra Emma também — Lily não deixaria passar.
Uma ideia atingiu Regina quase de imediato, iluminando-a com a compreensão, porém questionando a certeza de sua própria hipótese: parecia que a jovem estava com ciúmes, ou melhor, que estava tomando para si o sentimento de ciúmes ao se colocar no lugar da mãe na relação com a Prefeita. Era uma situação compreensível, o que demandava uma determinada postura da parte da Rainha.
— Nós duas podemos levar café para a sua irmã.
Foi um movimento arriscado, citar o parentesco com a Salvadora daquela forma, mas o fizera da maneira mais natural possível. A dragoa riu:
— Isso é uma estratégia sua para lermos aquele maldito livro.
— Sua mãe deseja que você leia — e ainda acrescentou -, é algo importante para ela.
Lily revirou os olhos com uma clara expressão insatisfeita, ao que se aproximou de Regina e tomou um dos copos de café de sua mão:
— Eu entrego isso. E não entro em seu carro. Não se engane achando que confio em você ou que estou fazendo isso porque está me pedindo. Não basta tudo, ainda quer que eu fique lendo sobre sexo de dragão, ok, mas não finja que eu não sei que você aqui deve ser quem mais entende disso.
Não era a coisa mais agradável do mundo, mas a Rainha engoliu qualquer traço de orgulho e disse de uma forma fria apenas:
— Justo.
Não valia a pena discutir, tinha objetivos maiores naquele momento. Balançou as mãos e logo as duas sumiram numa nuvem de fumaça roxa, surgindo diante da delegacia. Quando adentraram no local, Emma estava atacando uma rosquinha coberta de açúcar cor de rosa, cheia de granulados coloridos. A loira as olhou com a maior cara de cachorro culpado enquanto Regina erguia uma sobrancelha de forma a julgá-la.
— Você ainda come como uma criança — a Prefeita disse.
Mas Lily não desejava participar disso, tinha outra coisa em mente. A dragoa colocou o copo de café de Emma diante da loira, ao que se sentou diante da mesa da mesma e colocou ambos os pés para descansar na superfície. Parecia muito confortável e, antes que a xerife pudesse reclamar e mandar que tirasse, a irmã disparou com o tom mais trivial do mundo:
— Adivinha quem está dormindo com a mãe? — E apontou para Regina rindo. Então tornava a falar com a Salvadora. — Bom já avisar antes que as coisas fiquem “confusas”.
Enquanto Emma parecia não entender o que estava acontecendo, o motivo de tal advertência, a Rainha sabia muito bem e não gostava que desconfiassem de suas intenções ou de sua lealdade:
— Não preciso lhe dizer que somos pessoas adultas.
Finalmente parecia que a ficha da xerife caía:
— Malévola? — Ela perguntou olhando para Regina.
Emma estava confusa, surpresa, sempre achara que a Prefeita se interessasse apenas por homens, ainda que pudesse ter percebido certos olhares para si própria e até para Ruby há alguns anos, achara que era sua imaginação.
— Nós costumávamos sair na Floresta Encantada — a Rainha explicou por cima.
Agora a Salvadora se sentia ainda pior. Estava tudo virando uma teia de acontecimentos muito confusa, muito intrincada, não conseguia nem ao menos acompanhar direito a expansão de sua família. Amava Regina, era sua melhor amiga, mas não conseguia vê-la como sua madrasta, considerando que foi madrasta de sua outra mãe, considerando que matara a ex-namorada de sua amiga… Muitas conjunturas a fizeram abrir a gaveta da mesa e tirar uma garrafa de rum com dois copos, cortesia de Hook.
— Melhor, né? — Lily comentou.
Regina cruzou os braços, compreendia a atitude, embora preferisse que a recepção tivesse sido mais positiva. Emma tomou um gole e depois foi capaz de respirar fundo e dizer:
— Certo… — Agora estava pronta. Se voltou para a irmã. — Podemos continuar a leitura do livro?
A dragoa tomou um longo gole de café e então jogou o copo vazio no lixo. Serviu-se do rum e respondeu:
— Que jeito?
O serviço da Prefeita estava concluído, ao que desapareceu e deixou as duas irmãs terem a sua privacidade. A xerife levantou alguns papéis sobre a sua mesa e debaixo de todos estava a enciclopédia.
— Achei que seria uma boa trazer.
A verdade era que já tinha planos de ir atrás de Lily em algum momento, ou imaginava que esta viria até ela quando estivesse pronta. Em ambas hipóteses era melhor estar com o livro, visto que não era um instrumento que pudesse ser convocado através de magia. Abriu o objeto numa página que estava marcada com uma bonita fita lilás, algo que a Rainha havia deixado lá dentro havia muitos anos, em seu período de estudos, mas que agora as duas filhas de Malévola utilizavam como marcador.
Lá estava o capítulo que nenhuma delas se sentia exatamente confortável em enfrentar, mas que sabiam que precisavam ler, pois guardavam todas as respostas para as milhares de perguntas que dominavam suas mentes.
Capítulo 13: Reprodução
Dragões são criaturas perfeitamente intersexuais, ou seja, possuem tanto um sistema reprodutor feminino funcional quanto um masculino. Desta forma, não podem ser classificados como “machos" ou “fêmeas”, mas apenas como "dragões" ou “dragoas" de acordo com a vontade de cada um se auto-determinar. Em sua forma natural, tal fator possui pouca ou nenhuma relevância, porém, quando decidem assumir aparência humana, tendem a escolher a anatomia que lhes é de sua preferência, geralmente optando por um dos sexos sem, no entanto, deixar por completo o outro. Devido ao fato de serem intersexuais e da própria magia que lhes é inerente, possuem diversas formas de reprodução: auto-fecundação, na qual os gametas feminino e masculino do mesmo dragão fecundam um ao outro; utilizando um parceiro de sua espécie, hipótese que irá garantir filhotes puros; ou um parceiro humano, que irá gerar descendentes mestiços; além de poderem ainda se reproduzir através da mais poderosa magia de todas, o Amor Verdadeiro, situação em que o dragão sente-se tão feliz e pleno em seu amor que simplesmente brota dentro de si uma nova vida através de partenogênese. Não há registros de nenhuma outra forma de reprodução para a espécie ou relatos de casos que sejam diferentes dos citados acima.
— Demais… — Lily comentou tendo dificuldades para compreender.
Mas não era apenas ela. Emma precisou ler muitas vezes, repetir mentalmente os períodos para conseguir absorver alguma coisa. Como uma criatura poderia ser tão complexa? Claro que a parte referente ao Amor Verdadeiro havia chamado a sua atenção, mas ainda explicava bem menos do que gostaria.
— É bem mais difícil do que as aulas de biologia do colégio — a xerife comentou.
Eram tantos detalhes e possibilidades de uma única vez, todas as informações dadas sem qualquer preparação. Necessitava saber ainda mais, então foi passando a página.
Capítulo 15: Ovos
Sendo criaturas ovíparas, todos os dragões necessitam se reproduzir através de ovos. Estes não diferem muito dos de outras espécies. Tão logo ocorre a fecundação do filhote, o ovo não irá demorar mais do que duas semanas para crescer dentro do corpo até ser posto, e então começar a nutrir uma nova vida. A casca é extremamente dura, feita de material semelhante às escamas, podendo desta forma ser eficaz na proteção do filhote. As cores variam de acordo com as raças, bem como o aspecto e os desenhos sobre as superfície. Assim, cada ovo é completamente único.
— Parece ser bonito — Emma comentou.
A loira virou para o lado e notou que Lily, involuntariamente, segurava algo entre os dedos. Aquele era o colar que usava desde que se entendia por gente, aquele pelo qual fizera a amiga perder um bom lar adotivo.
— Essa era a única lembrança de minha mãe durante um bom tempo — a morena falou. — Eu achava que era apenas uma coisa qualquer, sei lá, uma pedra, mas ninguém sabia dizer que tipo de pedra era. Aí ela me falou, é um pedaço de casca de ovo, meu ovo. Ela disse que isso deve ter sido Úrsula, em algum momento de consciência, pensou em deixar só essa lasquinha comigo, já que ela e Cruella utilizaram todo o resto para se manterem jovens.
Quando terminou, fechava a mão com tanta força ao redor da peça que chegava a tremer, até que soltou. Seus dedos foram para trás da nuca e então abriu o colar e entregou a Emma:
— Não pense que estou te dando, mas o ovo era seu também. Quero de volta amanhã.
Essa era o primeiro momento em que as duas realmente criavam um laço tal qual uma família. A Salvadora mal sabia o que dizer, seus olhos se enchiam de lágrimas, ao que apenas conseguiu sorrir e aceitar com um fraco dizer:
— Obrigada.
Lily a ajudou a colocar a joia no pescoço e, com esta pequena felicidade, retomavam a leitura.
Capítulo 18: Filhotes Puros
Para as crias de um dragão serem consideradas puras devem ter sido geradas através de auto-fecundação, de partenogênese advinda de relacionamentos que contêm Amor Verdadeiro ou de reprodução envolvendo dois indivíduos puros. Nos dois primeiros casos, por se tratar de reprodução sexuada, os gametas sofrem variabilidade genética, além de estarem sujeitos a mutações. O resultado disto é que os filhotes diferem dos pais geneticamente, ainda que muito pouco. As crias puras não são estéreis, podendo se reproduzir de todas as formas existentes, pois são indivíduos diplóides, uma vez que a magia em seu sangue replica os cromossomos nas ovogônias, antes de dar início ao processo de formação das células germinativas. Desta forma, novamente, a variabilidade genética é assegurada. No caso da reprodução envolvendo sexo entre dois dragões puros, um deverá atuar como receptor dos gametas do outro, ao que, desta forma, no interior de seu corpo, os gametas de ambos irão se encontrar, ocorrendo a fecundação. O receptor irá colocar o ovo filho de ambos. Esta é a situação com maior variabilidade, gerando descendentes que misturam as características de ambos os pais, podendo, inclusive, dar origem a novas raças. Os filhotes puros são sempre intersexuais.
— Eu sabia que deveria ter prestado mais atenção em embriologia… — Emma comentou.
— Acho que não se aplica muito a gente — Lily falou passando novamente os olhos pelo texto. — Veja, ele fala de Amor Verdadeiro, eu acho que seria o seu caso, mas meio que não seria o meu, já que eu fui feita pelos Charmings? Sei lá, acho que isso anda meio confuso. O que disso daqui da pra aproveitar? Não fala nada sobre o que aconteceu com a gente. Pra começar, nós temos nosso sexo muito bem definido e não quero nem pensar que minha mãe é hermafrodita…
Muita coisa para processar, muita informação que Emma não gostaria de ter. Talvez dragões tivessem uma noção bastante diferenciada de pudor, nenhuma preocupação em falar sobre si próprios e sua fisiologia.
— Calma, vamos para o próximo capítulo — a Salvadora disse.
Capítulo 19: Filhotes Mestiços
A única outra espécie conhecida com a qual dragões podem ter filhos e misturar a sua genética é a espécie humana. Os filhos de dragões e humanos são chamados de mestiços por não serem puramente nem um e nem o outro. A forma de serem gerados é completamente distinta daquela com a qual os humanos estão acostumados e envolvem uma grande quantidade de magia no processo, no entanto, pode ocorrer não só de forma planejada, como também por acidente quando se trata de um relacionamento em que haja Amor Verdadeiro. Há duas formas disso acontecer, do ponto de vista dos dragões: ativa ou passivamente. A forma passiva é a mais simples, na qual o dragão terá relações sexuais com um humano do sexo masculino e, uma vez que ele deposite seus gametas, a nova vida será gerada dentro do dragão e o ovo será posto. Já na forma ativa, o dragão terá relações com uma humana do sexo feminino. Diferente do que se possa imaginar, o dragão não deposita nela os seus gametas, pelo contrário. Ao chegar ao orgasmo, o líquido expelido funciona como uma espécie de teia ou canal condutor que procura pelo óvulo humano e o puxa para dentro do dragão. Desta forma, o corpo do dragão será o depósito, pois é nele que ocorrerá a fecundação e é nele que se formará o ovo a ser posto. O motivo é totalmente evolutivo, pois dragões possuem corpos muito mais resistentes do que os humanos, estando aptos a proteger suas crias efetivamente, especialmente quando se considera a caça desta espécie. Os filhotes mestiços podem ser do sexo feminino ou masculino, nunca intersexuais. A miscigenação é desencorajada, pois os filhotes nascem com forma humana, criaturas frágeis e débeis. Recomenda-se que sejam mortos imediatamente após os ovos chocarem.
— É, acho que esse autor não gostava tanto assim dos humanos — Lily pontuou.
— Mas dá pra entender, não? — Emma ponderou. — Quer dizer, são duas raças que sempre lutaram. David… Meu pai… Ele falou que o irmão, Príncipe James, matava dragões e que ele próprio foi chamado para matar um dragão. Mas lendo agora…
Era até absurdo pensar que as duas espécies pudessem lutar tanto uma contra a outra, visto que dividiam o mesmo espaço. Os dragões eram milenares, poderiam ajudar tanto os seres humanos em sua evolução científica e cultural. Será que os humanos sabiam amplamente da inteligência dos dragões, que possuíam magia e poderiam assumir a forma de pessoas? Não, talvez este conhecimento fosse restrito a apenas algumas pessoas, alguns magos das trevas, como Gold e Regina, afinal, eram vistos como feras vis.
Capítulo 20: Morte e Renascimento
A morte nem sempre é o fim. Ainda que dragões sejam considerados imortais, este título apenas se aplica quando considerado o seu tempo de vida. Nada impede de virem a pegar uma doença fatal ou de serem assassinados de forma violenta em batalha. Em quaisquer dos casos, uma vez que encontre a morte, existe a possibilidade de nem tudo estar acabado. Os dragões versados em magia de luz ou magia neutra tendem a partir desta vida de forma pacífica, o que não lhes garante uma segunda chance. Já aqueles que deixam o mundo envoltos em magia negra e rancor, a eles é permitido tentar de novo. Quando um dragão morre, seu corpo explode em chamas e ele se torna cinzas, consumido pelo próprio fogo de seu coração. Sua existência física pode deixar de existir, mas o seu espírito, atuando como menos do que uma consciência animal, continua na forma de Fúria. Alma e corpo podem voltar a se unir através de magia negra, mas apenas se, em vida, o dragão foi imensamente poderoso e versado em feitiçaria das trevas avançada. O feitiço de ressureição se dá com o sangue de seu maior inimigo sendo derramado sobre suas cinzas mortais. Apenas este pequeno gesto garante a segunda chance para a vingança.
— Emma…
Lily chamou a loira, olhando bem para ela. A Salvadora nem notava, mas estava chorando, lágrimas rolando pela sua face de uma forma um tanto discreta, mas perceptível. Não conseguia olhar para a morena naquele instante, seu peito doía tanto, aquela memória estaria com ela para sempre, repreendendo-a, ferindo-a. Tratou de passar uma mão no rosto e limpar logo o estrago, não queria se sentir tão fraca e vulnerável.
— Acabou.
Com essas palavras, mudava de assunto e fechava o último capítulo da enciclopédia. Não queria conversar, não agora, talvez nunca. Olhou para o relógio, era horário de seu intervalo:
— Vou pegar meu almoço na Granny’s, quer alguma coisa?
— Não, obrigada — Lilith ainda parecia um tanto desconfiada das atitudes da outra, mas não iria se meter. — Vou pra casa. Hoje é noite de minha caça, então tenho que deixar tudo preparado pra quando trouxer o jantar.
As duas então foram se levantando e tais palavras apenas fizeram o coração da Salvadora se afundar mais. Talvez a dragoa tenha percebido, pois ela acrescentou, enquanto chegavam na porta da delegacia, de uma forma um tanto delicada, algo que não lhe era muito comum:
— Você pode aparecer pra jantar um dia desses, sabe? — Falava de uma forma que a fazia parecer desinteressada, com as mãos nos bolsos como quem não quer nada.
O rosto de Emma pareceu se iluminar neste instante, como se não acreditasse na sorte do que ouvia:
— Sim, obrigada!
Para acabar com aquele momento constrangedoramente familiar, as duas se separaram em seus caminhos. A xerife pegou o seu carro e seguiu em direção ao centro da cidade, rumando para a lanchonete.
Estacionou o fusca junto a calçada, agora já recuperada pelas obras da prefeitura, ao que seguiu para dentro do estabelecimento e tomou seu costumeiro lugar no balcão enquanto esperava pelo seu pedido de sempre. Podia sentir os olhares, eram como pequenos raios que apertavam a sua mente e lhe davam vontade de atacar alguém, como costumava a fazer em seus tempos de perseguir pessoas. Fechou os dedos várias vezes lentamente, formando um punho e então soltando. Estava ficando nervosa, queria ir embora dali.
Quando Ruby chegou com duas sacolas de comida e colocou diante da loira, foi rápida o bastante para pousar a mão carinhosamente sobre a dela. Com seus grandes olhos, mirava Emma diretamente, ao que disse em um tom baixo, chegando mais perto para que ninguém as ouvisse:
— Quem você descobriu ser não muda quem você é. Lembre-se disso.
A ruiva poderia falar bastante sobre o assunto. Não foi fácil saber que era uma loba, foi pior ainda quando recuperou suas habilidades e viu as pessoas da cidade, seus amigos, clientes, aqueles que conviviam com ela sempre, os sorrisos virarem gritos de ameaça, a perseguição à sua vida. Mas, ao final, Mary Margaret estivera com ela e a fizera ver que jamais deixaria de ser a mesma Ruby de sempre, a garçonete que todos amavam.
Emma também estivera lá e se relacionava com a história. Sorriu de volta e então deixou a lanchonete com as suas compras. Não havia motivo para sentir vergonha, para ter medo. Os habitantes da cidade sabiam quem ela era, a conheciam muito bem nos últimos anos, tudo que fora capaz por eles. O fato de se descobrir filha de uma vilã não deveria mudar nada do que eles sentiam por ela e, ainda mais, do que ela sentia sobre si mesma.
Foi então seguindo o seu caminho, de volta para dentro do carro.
Enquanto isso, na Prefeitura, Regina estava trabalhando diante de algumas pilhas de pastas, relendo relatórios, tentando terminar a tempo o orçamento mensal, embora não fosse exatamente um dever, visto que não eram uma cidade de verdade, muito menos vinculados ao Estado. Ainda assim, ela gostava, fazia tudo parecer normal. Estava tão ocupada que não notou quando entraram em sua sala, até que despejaram mais uma pequena pilha de papéis diante da Prefeita, fazendo com que se assustasse e levantasse a cabeça.
— Todo o relatório mensal, incluindo despesas de materiais e pessoal.
Regina piscou algumas vezes sem acreditar. Era impressionante como Malévola era eficiente com qualquer coisa que envolvesse números, burocracia e, mais ainda, dinheiro. Se recostou em sua poltrona, abandonando o próprio serviço. As vezes esquecia como era bom contar com alguém que a ajudasse com a administração pública.
— Rápida. Contratei a pessoa certa para o cargo de Secretária de Finanças.
— Mas ainda acho que devia demitir um dos xerifes, é inútil haver mais de um — a dragoa pontuou.
— Deixe eles, estão só se divertindo — a Prefeita respondeu sem se importar muito.
Levantou-se de sua mesa, merecia ela também algo de diversão. Foi até o carrinho de bebidas do outro lado da sala e colocou dois copos de uísque, uma das melhores coisas deste mundo.
— Você merece um prêmio por tornar minha vida mais fácil — disse a morena. No entanto, quando se voltou de novo para sua mesa, Malévola já havia se sentado na cadeira da Prefeita, o que fez com que esta erguesse a sobrancelha de forma a questionar. — Ninguém senta em meu trono.
Mas a dragoa não parecia nem um pouco preocupada com aquela ameaça, pois olhava Regina diretamente, de uma forma que seria incômoda para a maioria dos seres humanos.
— Diga isso a sua irmã ou a Snow White, mas não me venha com essa conversa — sua voz era uma notável provocação. — Não é sequer a primeira vez que fico aqui.
Um a zero para Malévola, a Rainha precisava admitir. De fato, quando Zelena tomara o seu castelo, ou quando Snow White o conquistara, foram ocasiões bastante irritantes de ter outra pessoa ocupando o seu lugar. Porém, quando precisou sair da cidade para procurar Lily, fora exatamente a dragoa quem deixara em seu lugar, no seu “trono”. Ela era diferente, ela podia. Por que podia? Foi então se aproximando com os dois copos e parou atrás da mesa, estendendo a bebida para a loira:
— Você gosta desta, foi uma das que tomamos quando furtamos a Granny’s.
— Bebemos coisas demais naquela noite para lembrar de tudo — Malévola falou aceitando e tomando um gole.
Seus olhos azuis miravam Regina e então, numa fração de segundos, se acendiam verdes e voltavam ao normal, ao que ela continuava:
— O gosto está um tanto diferente. Deve ser o lugar em que estou bebendo.
— E onde você bebeu da outra vez?
Tanto o comentário quanto a pergunta eram provocações. Estava claro para a Rainha o que a outra queria implicar com suas palavras, bem como a morena desejava que a dragoa dissesse de forma explícita, se fazendo de desentendida pelo simples prazer de seu pequeno jogo. Mas Malévola sabia disso e, sem hesitar, levantou-se, chegando muito perto. Regina recuou, mas logo estava encostada na mesa, ao que a loira, sendo mais alta e intimidante, a tinha como sua presa, acuada e incapaz de fugir, não que fosse querer escapar.
Não era tão diferente da noite em que a loira retornara à vida, quando invadiram a lanchonete e furtaram as bebidas, fazendo o verdadeiro caos na cidade e queimando viaturas. Aquela havia sido uma noite louca, na qual relembraram os velhos tempos, acenderam chamas, mas depois ficou esquecida, ainda existia Robin Hood. Existia. Não mais. Passado, como Daniel. Malévola era passado também, mas tão vivo quanto o presente, ali, diante dela, o mesmo cheiro e mesmo toque de décadas atrás. Tão gostoso quanto, tentador, delicioso, e seria injusto falar que não a desejava.
A feiticeira mais velha então levantou a mão desocupada e levou-a para o queixo da Prefeita, ao que o ergueu enquanto aproximou os lábios de seu ouvido:
— Aqui…
Então decidiu demonstrar, ao que foi virando lentamente o conteúdo do copo sobre o decote do vestido, derramando as gotas de uísque sobre os seios. Em seguida, pousou o vidro sobre a mesa e então se afastou apenas um pouco, o bastante para olhar nos olhos da Rainha mais uma vez antes de continuar e afundar o seu rosto naquele peito, beijando cada gota de álcool. Claro que Malévola tinha muito apreço por bens materiais como o vestido, pelos seus relatórios de trabalho sobre a mesa, mas nada ultrapassava a importância que dava a obter o seu tesouro mais precioso. Para isso, não mediria esforços, atacaria com todas as armas, especialmente quando sentia Regina gemer baixinho. Levou as duas mãos para a cintura desta e a sentou sobre a mesa, beijando a morena nos lábios com o calor dos mil sóis que habitavam em seu peito.
— Regina, eu trouxe al… mo… ço…
A voz de Emma morreu logo após passar a porta da sala da Prefeita. Esta era a primeira vez que via Malévola, ao menos em sua forma humana, desde que havia tomado conhecimento de sua origem genética. Foi algo bastante desconfortável, estava dando um nó em sua mente, mesmo que já soubesse da informação, agora estava de fato vendo: sua mãe estava tendo um caso com Regina. O destaque para “sua mãe” era gritante. A morena afastou-se de imediato e desceu da mesa ao notar a visita e, com um passe de mágica, já limpava o vestido e parecia muito mais apresentável.
— Emma… — Regina sabia que não precisava se explicar, mas o apreço que tinha pela Salvadora lhe dizia que devia, embora não encontrasse as palavras adequadas.
A única pessoa que não parecia se importar com nada era Malévola. Humanos tinham preocupações idiotas com manter aparências e esconder verdades. Se duas pessoas estavam juntas, os demais deveriam poder saber, não era porque ali se tratava de sua filha que ocultaria o que estava havendo, todos eram adultos e criados, capazes de lidar com qualquer situação. A dragoa se sentava mais uma vez na cadeira da Prefeita, com uma pose impecável e soberana.
Por sua vez, a xerife finalmente conseguia se mover, ao que chegava perto da mesa e colocava as sacolas de almoço sobre esta.
— Não sabia que teria visitas — tentava ser natural, mas o seu tom era duro.
— Emma, eu… — a Rainha tentava mais uma vez, ao que era interrompida.
— Na próxima, tranque a porta. Isso é bem desagradável, imagine se fosse Henry — a Salvadora pontuou, o que não era de todo uma má comparação, visto que estavam falando de filhos flagrando mães.
— Eu sei.
A resposta de Regina era de um jeito tão culpado que Malévola notou uma fina linha, algo que não estava sendo dito, mas passado de forma implícita, sutil.
— Você já sabia — a dragoa falou para a filha.
— Lily sabia. Ela me contou hoje de manhã — a resposta veio sem rodeios.
— Ótimo, todos já sabem.
A naturalidade de Malévola era um pouco irritante, mesmo que a Rainha fizesse esforço para se acostumar. Com as mãos na cintura, a morena ainda estava um pouco nervosa, se sentindo responsável pelo ambiente desagradável entre mãe e filha. Tentaria reparar isso:
— Lily percebeu e contou para Emma, eu estava na hora.
Mas a dragoa nem se mexeu. Ela apenas olhava para a Salvadora, analisando a reação, lendo cada linha de expressão facial. Sua espécie era muito boa em enxergar além do que aparentavam as situações.
— Não é o que você queria — ela disse.
— Nada é, mas tudo que aconteceu me deu o que tenho hoje, me trouxe até aqui — Emma respondeu. — Não tenho porque me sentir triste por nada disso.
— Não se sente mal? Por ser filha de quem é?
Aquela era a verdadeira pergunta. Malévola poderia estar muito calma por fora, mas, por dentro, era como um vulcão desejando eclodir. Tinha medo da resposta, muito, desejava tanto ser aceita, amada, e poder amar a filha de volta, porém, ao mesmo tempo, tinha medo da rejeição. Sua coragem era voltada para fazer a pergunta que agora externava e precisava saber para atrair a paz.
— Eu passei vinte e oito anos sem saber quem eram os meus pais e eu agora tenho mais do que um ou dois, tenho três. Eu não ligo para quem são.
“Eu só quero que sejamos uma família”, mas as palavras finais não conseguiram sair, pois, mesmo depois do recente choque e da cena que a pegou desprevenida, Emma agora possuía um novo sentimento, uma raiva. Ela via a dragoa como sendo tão fria e diferente da forma como tratava Lilith, o que não entendia, mas a deixava enfurecida. Ciúmes? Não poderia sentir ciúmes de Neal, ele era um bebê, mas ainda assim sentia, quanto mais de Lily que já era adulta e de sua idade.
— Me desculpe — acrescentou. — Independente de qualquer coisa, eu não disse antes e eu tinha que dizer. Me desculpe por… Ter te matado.
— Você não tem que me pedir desculpas — Malévola se adiantou antes que a outra continuasse. — No seu lugar, qualquer um teria feito o mesmo. Além disso, era apenas um dragão, não é como se alguém nos enxergasse como dignos de qualquer humanidade.
Isso fazia o coração de Emma doer. Talvez os seus pensamentos tenham passado de forma mais clara do que seria seguro, deve ter abaixado muito as suas defesas, as muralhas que construíra ao longo dos anos, pois, quando se deu conta, já falava:
— Eu tenho que ir.
A xerife deixou o gabinete da Prefeita sem dizer mais nada, tão rápida que nenhuma das outras foram capazes de impedi-la ou sequer tentariam naquele momento. Regina sentia todo o peso da responsabilidade que pairava sobre si, fosse quanto à dragoa ter sido morta sob a cidade ou da maldição que levou à troca dos bebês. Precisava corrigir este problema, consertar a família que fora quebrada por ela mesma. Mais do que a Emma e Lily, do que a Mary e David, devia a Malévola, devia muito, de muitos anos atrás, por todo o mal que causara a feiticeira desde que haviam se conhecido.
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