Notas iniciais
N.A. 1: Este capítulo pode parecer um pouco confuso ou estranho pela timeline ou pelos nomes escolhidos, então, se ficar com dúvidas e quiser uma explicação, vá para o final do texto e consulte a Nota do Autor 2.

O sol já avançava pelo céu, entrando delicadamente pela janela, passando sob as cortinas e iluminando uma nesga no chão. Nada disso incomodava Emma enquanto ela rolava na cama, tão cansada, se espreguiçando como um felino entre os travesseiros e lençóis de seda. Que dia era hoje? Não fazia muita diferença, só queria dormir um pouco mais. O tempo parecia tão igual quando se queria relaxar e esquecer, desanuviar dos problemas, ou simplesmente não havia nada de muito importante entre as suas ocupações naquele momento. Então a loira se sentou na cama imediatamente, ficando desperta com a simples lembrança.

— Dia de caça!

O seu dia favorito na semana havia chegado e não se deixaria perder nem mais um único minuto. Levantou de sua imensa cama de colunas e dorsel sem se incomodar nem um pouco de estar nua e pisando do tapete para o chão de pedra fria. Parou diante de um comprido espelho próximo a parede, olhando para si mesma, como era bonita bonita e jovem, ao que moveu os dedos brevemente e fez surgir calças de couro reptiliano, com uma jaqueta e botas, tudo em preto, apenas porque era uma cor que lhe trazia conforto e reconhecimento. Agora sim. Uma ave fez barulho em sua janela, ao que a mulher abriu finalmente as cortinas e o corvo entrou, pousando delicadamente em seu ombro.

— Crá! — Ele grasnou.

— Bom dia pra você também.

Ela foi afetuosa ao responder, tocando-o com carinho na cabeça do animal. O corvo fez um som de que o agradava, ao que depois voou mais uma vez, pousando no lustre de velas e olhando para a loira um tanto curioso e intrigado com a mera existência dela.
— Onde está minha mãe? Ela já acordou? — A moça perguntou.

— Crá! — Foi a resposta.

O animal então apontou com o bico para a porta do quarto, que imediatamente foi aberta por Emma. A ave então seguiu voando pelos corredores escuros do palácio, ao que a loira corria logo atrás, como aprendera a fazer desde criança. Ela conhecia cada uma daquelas paredes, cada pedra, cada quadro, tapeçaria, arandela. Passara toda a sua vida ali, apenas ela e sua mãe, as vezes alguma visita breve, um ou outro feiticeiro ou bruxa, ocasionalmente algum aldeão ou uma virgem sequestrada ou seduzida, depende de quem contasse a história. Mas era um local bastante tranquilo de se viver, longos acres de terra ao pé da montanha, embora sua mãe relatasse que nem sempre fora assim, que a paz apenas surgira após a queda da Rainha Má. Emma amava aquele lugar, era a sua casa, onde crescera com a sua família, um local que jamais pensaria em abandonar, pois corria em seu sangue, em suas memórias.

Parou diante de uma pesada porta de madeira e ferro, quando o corvo pousou em uma arandela com velas apagadas. A peça era de tonalidade escura, crua, com dobradiças antigas, mas bem conservadas. Via-se logo que era o cômodo principal daquele castelo devido a imponência, aos arabescos de metal que imitavam o desenho de chamas. Emma não bateu antes de entrar, não se importava, pois tais cortesias estavam fora de seu conhecimento social, ao que logo abriu a porta e foi entrando.

As cortinas do cômodo, um espaço amplo, com leve perfume de artemísia, estavam fechadas, porém a jovem podia ver os corpos de pele nua deitados sobre a cama, emaranhados de tal forma que era difícil contar quantos estavam ali. Mais uma coisa que sequer a incomodava, então chegou um pouco mais perto, a curiosidade aflorava, e olhava aquelas pessoas, todas mulheres, tão humanas, cheias de curvas finas, delicadas, tão belas, provavelmente virgens até a noite passada. Queria tocar, não tocava em muitas pessoas, mas se conteve, havia uma tarefa mais importante a ser desempenhada naquele dia.

— Bom dia, achei que já teria levantado a esta hora — ela falou com a maior naturalidade do mundo, sentando-se numa poltrona em um canto.

O som fizera uma das pessoas adormecidas acordar e, com a relva de cabelos loiros desgrenhados, se erguer da cama.

— Bom dia pra você também — respondeu.

A mulher desperta levantou da cama e foi, sem qualquer pudor ou vergonha, em direção a um biombo, sobre o qual pegou um bonito vestido negro, com um leve brilho dourado como o fogo. Com um floreio de mãos, a peça já estava em seu corpo, delineando cada linha sinuosa da maneira mais justa possível.

— Como foi a noite, mãe? — Emma continuou. — Não sabia que tínhamos companhia.

— Aldeãs — a outra respondeu enquanto arrumava os cabelos com uma escova. Então acenou mais uma vez e as jovens que ainda dormiam, possivelmente devido ao efeito de entorpecentes, sumiram em uma nuvem de fumaça negra. — Vão acordar em suas camas com a lembrança de um sonho.

— Como sempre — Emma parecia meio desdenhosa ou provocativa. Ela sentia uma pontada de inveja de não poder fazer o mesmo.

— Elas vieram por vontade própria. Sem consentimento não há graça — e virou-se finalmente para a recém-chegada. — Os homens podem me chamar de Malévola, mas as mulheres… — E riu. — Um dia você vai poder fazer isso também.

Emma achava isso engraçado. Não fora criada com pudores, tivera poucos contatos sociais com pessoas que não a sua mãe, então apenas achava tudo muito natural. Para ela, sexualidade, corpo, tudo isso era bastante comum e não via qualquer tabu como o restante da sociedade. Além disso, ansiava pelo dia em que a deixaria trazer pessoas de sua escolha para casa, mas, por hora, esta era uma prerrogativa exclusiva da soberana daquele local.

A feiticeira então afastou um pouco a cortina para olhar o mar. Os grandes olhos azuis miraram as ondas de cor igual e ela se perdeu por um instante.

— Hoje é meu dia de caça — a filha informou, trazendo-a de volta a realidade.

— Verdade — concordou. — Também é aniversário da batalha.

— Quer minha ajuda para pegar as flores? — Emma se ofereceu.

Malévola voltou-se para a filha e então se aproximou. Havia um certo pesar em sua expressão, misturado com carinho, com amor e tristeza, como se uma antiga lembrança a assombrasse naqueles olhos verdes. A outra sentia seu peito queimar com tanto afeto, como se ela fosse o centro do universo para alguém, "a coisa que mais se ama". A dragoa mais velha tocou no rosto da prole e esfregou o polegar de leve.

— Você é tão maravilhosa, Amber. Não sei o que seria de mim sem você.

Amber. Esse era o seu nome, como a pedra feita de brasas, criada a partir do fogo, o âmbar. Ela sempre fora a Amber, a sombra que cruza os céus na noite, a dragoa menor que habitava a Fortaleza Proibida e raramente era vista pelos humanos que transitavam pelo vale. Seu nome era parte de sua identidade, sua história, e ela o adorava, pois era seu, dado por sua mãe, seu único parente, um totem de amor.

As duas então caminharam para os jardins, não que houvessem muitos naquele castelo, mas as roseiras teimavam em crescer seus grossos ramos cheios de espinhos por toda parte. Malévola cortou algumas flores usando as unhas como garras afiadas, tinha preferência pelas vermelhas, ao que Amber acompanhava no gesto.

Quando já haviam colhido uma quantidade suficiente, seguiram mais uma vez para dentro da fortaleza, agora para outro cômodo. Subindo as longas escadarias, chegavam na torre, não a mais alta, mas certamente a mais bem protegida em toda a arquitetura. A porta não possuía trancas e só poderia ser aberta com magia de sangue, por isso Malévola a tocou e a mesma se moveu, revelando passagem. A janela estava aberta, exibindo o oceano e deixando entrar a brisa salgada da manhã. Numa comprida mesa, distante da incidência indireta de sol, no centro do espaço, estava deitada uma mulher em sono profundo. Ela usava um vestido branco, como uma noiva virginal, enquanto seus cabelos caíam negros ao redor do rosto. Parecia tão calma, até feliz, com os seus lábios vermelhos fechados para o que denunciava ser sempre.

— Bom dia, pequena — cumprimentou Malévola colocando rosas entre os fios de cabelo.

— Quantos anos são agora? — Amber perguntou.

— Trinta e dois — a outra respondeu. — Faz trinta e dois anos que a Rainha Má esteve aqui, em meu castelo, para roubar a Maldição das Trevas.

— E ela não conseguiu. Você a colocou pra dormir com a Maldição do Sono — recordava-se bem da história.

— Ela perdeu a batalha. Eu precisava fazer isso. Eu não ia perder você.

Havia algo sombrio naquelas palavras e Amber teve certeza que não eram ditas para ela, mas para a própria Malévola, como se fosse algo necessário para acreditar que fizera o que era correto, não que ela tivesse dúvidas, pois sempre deixara claro que a filha vinha primeiro, mas porque fora uma escolha difícil e que causara uma imensa dor.

Elas terminaram de arrumar as rosas, como se faria em uma espécie de altar mortuário, decorando ao redor da Rainha, entre suas mãos que estavam posicionadas sobre o estômago. Malévola ainda permaneceu ali quando Amber deixou a fortaleza para aproveitar a oportunidade, a única em toda a semana, de sair para caçar. A mãe não gostava que ela saísse sozinha, tinha medo dos caçadores, dos matadores de dragões, além de saber do que os heróis eram capazes com a sua espécie. Depois que Regina foi derrotada, os vilões haviam perdido bastante espaço e precisavam viver nas sombras, escondidos. Por isso criara a filha tão protegida, longe de tudo e de todos, mas permitia que ela saísse apenas uma vez na semana para caçar, pois nenhum dragão deve viver preso em um ambiente fechado.

Amber voou sobre a planície, sobre as montanhas, passou pelas copas das árvores e então avistou uma cachoeira e um gamo que bebia em sua água. Não hesitou e avançou como uma flecha, descendo dos céus em alta velocidade e cravando os grandes dentes no animal, quebrando os ossos de seu pescoço e patas com uma bocada. Então o pousou no chão, morto. Era uma boa primeira vítima, mas estava apenas começando.

Escutou um som, galhos se quebravam a certa distância. Amber sabia que não estava sozinha e escutava as palavras de sua mãe ecoando na mente: “Se achar que há humanos por perto, fique parecida com eles e se faça de indefesa, assim a deixarão em paz”. Sabia que devia evitar o conflito, então foi o que fez, assumindo a aparência da moça loira que comumente utilizava dentro de sua casa. Escondeu-se atrás de uma árvore, entre algumas moitas altas, espiando para constatar do que era aquele barulho.

Neste momento, viu um cavalo que se aproximava da mesma cachoeira lentamente. O seu cavaleiro desmontou e Amber sentiu um aperto no coração sem qualquer motivo. O cavaleiro chegou perto da água, sua capa era alta e o chapéu não deixava ver direito o rosto, até que sentou-se na grama, pegando o líquido em seu cantil, ao que o chapéu foi levado pelo vento para um pouco distante.

— Droga! — Reclamou a voz feminina.

Não era um cavaleiro, mas uma amazona. A mulher, de longos cabelos escuros, presos em uma trança que estivera escondida, levantou-se para correr atrás no item que fugia. Ela parecia um tanto chateada, preocupada, ao que o deixou escapar por metros. Não era o tipo de pessoa que deveria estar vagando sozinha, não com boas roupas, devia ser alguém de berço e estar perdida. Amber ficou observando, imaginando se deveria fazer como sua mãe, se aquela não seria uma melhor caçada, porém, quando notou que a outra chorava, todos estes pensamentos foram por água abaixo. O chapéu foi parar aos pés da loira, preso em pequenos galhos, e, sem refletir muito, algo lhe disse que deveria ser assim.

— Hey — falou se aproximando, ao que se aproximou extendendo a peça. — Acho que isso é seu.

A morena certamente não estava esperando companhia, pois, independentemente das lágrimas, levou uma mão até a cintura e de lá sacou uma bonita espada metálica, apontando-a para Amber enquanto se levantava do chão. A expressão era agressiva, furiosa, mas Amber podia perceber que havia algo a mais por trás daquilo tudo, um sentimento que apenas os olhos portavam: medo. De imediato lembrou-se das suas caças, dos pequenos animais silvestres, e sabia como deveria reagir, pois não havia tanta diferença entre os humanos e as demais criaturas, isto sua mãe lhe ensinara bem. Desta forma, a loira não reagiu de forma negativa e os seus olhos foram da arma para quem a erguia, demonstrando não estar intimidada, mas também sem avançar, o que poderia ser mal visto.

— Quem é você? — A garota perguntou. — Meus pais te enviaram para me seguir?

— Eu não sei quem é você, ou seus pais. Só queria devolver seu chapéu — as palavras eram repletas de simplicidade, buscando passar alguma confiança.

Levou algum tempo para analisá-la, bem como a verdade em tais proposições, mas então a morena misteriosa, sem guardar a arma, pegou o seu chapéu de volta e o colocou na cabeça, erguendo um pouco a aba de forma que não vedasse tanto o seu rosto como estava fazendo antes. Precisava de toda sua visão se ainda fosse preciso atacar.

— Quem é você? — Repetiu a pergunta.

— Eu moro por aqui — a resposta de Amber era uma mentira, mas ainda dito como antes.

O tom convincente, a postura de não se importar com a espada, tudo isso chamava muito a atenção da outra. Então, quando a loira se sentou na grama, como para apreciar a paisagem da cachoeira e do riacho a sua frente, a moça da espada a acompanhou, mas deixando a arma ao seu lado, sobre a terra, de forma que seria rápida o bastante para pegá-la de novo caso fosse necessária.

— Achei que ninguém vivesse por aqui. Como nunca te vi? Estas terras são dos meus pais — disse.

— Seus pais são senhores? — Amber perguntou.

— Reis — a resposta saiu um tanto amarga. — Rei David e Rainha Snow White — e logo acrescentou a ressalva. — Mas não conte isso a ninguém.

— Então você é uma princesa? Nunca conheci uma princesa — e sua mãe a instruíra muitas vezes a ficar bem longe da realeza, pois só traziam problemas, por mais de uma experiência própria.

— E eu nunca conheci uma plebéia, quer dizer, nunca parei para conversar com uma.

As duas riram de tais constatações, era como se um laço invisível as tivesse aproximado, como se simplesmente fosse para ser desta forma. A garota morena estendeu então a mão numa forma de cumprimento:

— Emma. Princesa Emma, mas pode me chamar só de Emma mesmo.

— Amber — a loira falou apertando a mão. — Prazer em conhecê-la, Emma.

E era para ser. Deveria ter sido assim o tempo todo, se os infortúnios da Maldição das Trevas, se o destino não tivesse sido moldado por Rumpelstiltskin e pelo maldito Autor para ser diferente.

As duas passaram algum tempo na margem do riacho, olhando a água, as aves, conversando sobre a vida e suas trivialidades. Amber pegou algumas frutas vermelhas, que dividiu com a nova amiga.

— Minha mãe quer que eu seja a princesinha de vestidos cor de rosa, quer que eu case com um homem, ela até me deixou escolher qual, mas não quero nada disso para a minha vida. Eu não quero assumir o reino, não é pra mim, sabe? Nem quero casar. Eu não estava mais aguentando tanta pressão dentro de casa, então eu fugi.

— E o que você quer? — Amber estava intrigada com tudo isso, era fascinante escutar sobre tais problemas, saber que as pessoas tinham essas vidas tão diferentes da dela.

Emma pareceu corar um pouco antes de responder:

— Tem uma garota… Ela mora em uma vila não muito distante do castelo. Dizem que, na lua cheia, ela se transforma numa loba, mas eu não me importo. Ela é tão linda, gentil, inteligente… Eu abriria mão da minha herança para ficar com ela.

— Ual! Você gosta dela mesmo!

— Só minha mãe não vê.

Havia bastante tristeza em tais palavras e Amber podia perceber. Então tocou uma das mãos da princesa com carinho e disse:

— Volte para casa. Converse com sua mãe e eu tenho certeza que ela vai te escutar. Mães são assim, elas só querem o nosso bem, mas as vezes acabam sufocando mesmo, mas é por amor. Minha mãe… — era um pouco estranho falar de Malévola para alguém, nunca fizera isto. — Ela não gosta que eu saia de casa, mas então eu a convenci, eu provei que era capaz de cuidar de mim mesma, e hoje ela me deixa sair de vez em quando. Ela me ama, eu sei que me ama mais do que tudo no mundo e eu a amo de volta.

— Sua mãe parece ser muito legal. Queria ter uma mãe assim — Emma não sabia que deveria ter.

— Converse com a sua mãe.

Emma então abraçou a nova amiga e havia tanto carinho no gesto, poderia falar até de amor fraternal.

As duas jovens finalmente se separaram, estava começando a ficar tarde e sabiam que ainda precisavam cumprir com compromissos. Amber ficou esperando que Emma desaparecesse de vista em seu cavalo para só depois se transformar e assumir a sua forma de dragão. Por mais que tivesse criado um elo com a garota, sabia que era um risco revelar sua identidade tão cedo. Ela então pegou sua caça de antes e voou de volta para a sua casa, na Fortaleza Proibida, feliz por ter feito uma amiga, mais ainda por ter a mãe que tinha.

Levou o gamo para a cozinha usando magia, preparou-o ela mesma, removendo a vísceras e a cabeça, amarrando as patas e colocando o corpo, já sem a pele, sobre um grande fogo que ardia na parede. Terminado o serviço, Amber usava um casaco feito de couro de gamo e que lhe cobria os cabelos com um capuz. Achou que assim ficaria bonito, mesmo sem ainda ter dado o devido tratamento ao couro.

— Você está radiante, já vi que a caçada foi boa — disse uma voz pouco atrás dela.

A jovem então se virou e estava realmente alegre.

— Foi um dia e tanto.

Com estas palavras, abraçou a mãe tão apertado que teria quebrado as costelas de um humano comum. Malévola não se incomodava com o cheiro de suor, do sangue ou da pele de gamo recém removida, só queria ficar segurando o seu bebê em seus braços para sempre.

Mais tarde, quando o sol já se pusera no horizonte, Amber havia terminado de estudar magia e se retirou para o seu quarto, ainda que fosse cedo demais para tanto. Deitou-se em sua cama olhando para o teto, mirando Diablo, que cutucava as próprias penas com o bico sobre o lustre em que gostava de dormir. Queria ficar lembrando, queria recordar cada minuto daquele dia que havia sido tão especial.

“Mas não foi assim”.

Foi quando se lembrou, algum lugar de sua mente, um gosto amargo na boca, alguma coisa a fez levantar. Havia uma dor, uma dor forte que tocava a sua alma e que a deixava inquieta. Sem levar qualquer vela consigo, caminhando na noite escura pelos corredores que conhecia como a palma de sua mão, os pés de Amber a levaram para a porta do santuário, cuja passagem estava semi-aberta.

O som chegou primeiro, era um choro baixo, contido, de quem já havia chorado por longos trinta e dois anos. Então a jovem, escondida pela parede, espiou para o lado de dentro do cômodo e viu a mãe. Malévola segurava a mão de Regina e as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela se abaixou e chegou tão perto da Rainha, como se fosse beijá-la, mas desistiu e se afastou de novo, impedindo a si mesma. Regina era o Amor Verdadeiro de Malévola, disso Amber sempre soubera pela forma como a mãe a tratava, ainda que adormecida, porém a recíproca talvez não fosse verdadeira. A dragoa não tinha coragem de testar se o Beijo de Amor Verdadeiro iria funcionar, não desejava fracassar e ter a certeza que não era amada de volta da mesma maneira. Então continuava ali, ano após ano, ferindo-se de uma forma masoquista, velando aquele corpo como se a Rainha estivesse morta, pois, de certa forma, era como estar.

“Mas ela te ama de volta! Eu sei, eu sei que Regina te ama de volta!”. A voz na cabeça de Amber ecoava e ela sabia que aquela era a sua própria voz em uma consciência quase onisciente.

Não podia ser assim. A jovem então deixou o castelo e foi voando, agora para muito longe, cruzando a cordilheira de montanhas e passando por uma floresta, numa pequena vila em outro reino. Aterrissou próximo a algumas árvores e seguiu o resto do caminho andando, uma pesada capa sobre os seus ombros para que ninguém pudesse olhar o seu rosto. Foi parar numa fazenda, diante de uma janela e, olhando para dentro de uma forma que não pudesse ser percebida, lá estavam Emma, que claramente fugira mais uma vez, e uma mulher bonita com uma capa vermelha.

— Não chore — disse a moça, tocando o rosto da princesa.

— Minha mãe nunca vai permitir, o reino nunca vai permitir… — a outra falava entre soluços.

— Não precisamos que eles permitam. Eu te amo da mesma forma e sempre vou te amar — seu tom de voz era doce.

— Ah, Red… — Emma a abraçou. — Eu só queria poder ficar junto de você. Vamos fugir!

— Você sabe que eu não posso, meu amor. Quem vai cuidar da fazenda? Quem vai cuidar de minha avó? Me desculpe, eu te amo, eu te amo muito, mas… — E se afastaram, ao que Red a olhava com ternura. — Eu não posso.

Então Emma chorava ainda mais e as duas ficavam abraçadas.

Finalmente Amber se distanciou com o coração partido.

“Vocês podem ficar juntas, devem ficar!”.

A loira via que a situação da princesa não era das melhores, nem havia como ser. Sendo assim, decidiu fazer uma última parada, só mais uma visita naquela noite, para um lugar que nunca fora antes, porém sua mente, suas asas tais quais pés sabiam onde ficava.

Foi até o castelo da Rainha Snow, aquele no qual a Princesa Emma nascera. Chegara aparecendo em uma nuvem de fumaça branca, pois não tentaria com a sua forma draconiana, ou certamente seria vista como uma ameaça e morta. Surgiu numa varanda, escondida pela escuridão, mas de onde ainda assim poderia ver e escutar o que se passava do lado de dentro do quarto da Rainha sem ser notada.

— Eu não sei, David… — Snow comentou abatida. — Ela é nossa filha e eu a amo de qualquer jeito, mas isso… E ela não quer nem assumir o trono quando eu me for!

— Eu sei, eu sei — ele concordava. — Você quer um neto, eu também, o reino precisa ter um herdeiro.

— Eu conheço Red há muitos anos, ela é uma grande amiga, mas ela é uma loba, é muito arriscado que tenha filhos. Como ela poderia ser esposa de Emma? Como poderíamos deixar o reino sob o governo delas?

— Como elas duas poderiam ter filhos juntas?

— Não poderiam.

Com essas palavras, Snow começava a chorar, ao que o marido a envolvia nos braços e Amber conseguia perceber toda a tristeza daquele momento.

Assim, a dragoa desapareceu na noite como uma sombra, sumindo para longe e reaparecendo nos céus. Desejava apenas voar e esquecer, mas as lágrimas caíam sobre o seu rosto escamoso. Por que isto estava acontecendo, por que isso estava machucando? Todos estavam tão tristes, por que estava vendo isso?

“Não era para ser assim”, a voz em sua mente falava.

Não, não era mesmo para ser assim, não era assim. Eles mereciam muito mais do que vidas melancólicas, vazias, moldadas por compromissos que jamais desejariam cumprir. Amber estava confusa. Então, quem era ela ali? Qual era o seu papel? Não poderia fazer nada por Emma ou Snow, não poderia fazer nem ao menos por sua mãe, então qual era a sua função além de assistir àquele espetáculo depressivo? Não poderia ser diferente? Sim! Ela poderia mudar!

“Você precisa despertar”.

Então, nos céus, pensava: "Eu não estou melhor do que a princesa. Ela também sofre, todos sofremos, eu, ela, Malévola, Snow e David. Todos. Todos estamos com os destinos entrelaçados e sofremos as mesmas dores. Eu e ela. Amber e Emma ou Emma e Lilith. Nossa vida não estaria melhor se nunca tivéssemos deixado a Floresta Encantada, também não está muito melhor em Storybrook, mas na cidade temos uma a outra. Somos irmãs, devemos ficar juntas e não brigar, não desejar mais atenção ou amor, pois nós duas estamos no mesmo barco”.

E ainda tem Regina e Henry.

“Você precisa despertar”.

Henry!

A dragoa sentiu um calor descomunal em seu peito com a lembrança daquele nome. Jamais teria Henry, pois foram todos os infortúnios que sofreu que lhe levaram a ter o seu filho, que fizera as provações valerem a pena. Ela ama sua família estranha, com mais pais do que qualquer pessoa poderia querer, mas ama a sua família fora do normal.

— Você precisa despertar!

A voz ecoou mais forte. A loira inspirou com força e abriu os olhos. Estava em um quarto bonito, entre lençóis azul claro, enquanto o seu despertador tocava frenético com os dizeres “você precisa despertar”. Apertou um botão e a gravação com o barulho cessou. Estava confusa, mas aos poucos ia reconhecendo o ambiente, tomando consciência. Levantou-se da cama e foi até a janela, abrindo as cortinas e vendo o sol sobre a rua suburbana de Storybrook.

Estava em casa, fora tudo um sonho.

Nem por isso significava dizer que o seu trabalho estava acabado, pelo contrário, aquela visão, sonho, ou seja lá o que fosse mostrara exatamente o que precisava ser feito, o que cabia a ela, enquanto Salvadora e filha de seus pais, fazer para unir de uma vez a sua família. Então tratou de trocar de roupa, colocando a tradicional calça jeans com o casaco de couro vermelho, assumindo a sua identidade de Emma Swan, aceitando o seu destino e sua realidade. Pegou as chaves do carro e, sem nem parar para tomar um café, já foi saindo da casa com o pensamento fixo.

Estava tão distraída que quase se esbarrou ao abrir a porta.

— Emma!

Regina estava ali, ou estivera pelos últimos cinco minutos, repassando mentalmente o que deveria dizer, o quanto deveria se meter, então fora pega de surpresa, algo que era comum acontecer em se tratando da família de Snow. A loira parou olhando-a e se perguntando quais eram a chances de encontrar exatamente a pessoa mais propícia a lhe ajudar naquele momento.

— Precisamos conversar — disse a Xerife sem rodeios.

— Sim, precisamos — a Prefeita concordou, já recuperada a compostura.

— Café?

— Café.

Era cedo demais para o álcool necessário para ter aquela conversa, então a cafeína teria que fazer o serviço e ser o elixir de coragem e força que as duas estavam necessitando antes de colocarem os seus respectivos planos em prática.

Notas finais
N.A. 2: Decidi já esclarecer dois pontos que podem ter causado estranhamento. Pergunta: Como isso tudo seria cronologicamente possível? Resposta: Regina foi derrotada com a Maldição do Sono durante a batalha com Malévola. Bem, a batalha aconteceu no dia do casamento de Snow e David, que foi depois do Príncipe esconder o ovo com a poção de Amor Verdadeiro na Dragoa. Sendo assim, é possível a filha de Malévola ter sido concebida dentro dela. As crianças também não foram trocadas, pois a troca só aconteceria depois da Maldição das Trevas ser roubada e, se ela nunca foi roubada, não tem porque os heróis e os vilões se unirem e Mal contar do ovo para que viesse a ser sequestrado. Assim, temos Lily e Emma exatamente onde deveriam estar desde o começo. Pergunta: Qual é a dos nomes? Resposta: Veja bem, eu não poderia manter como Emma e Lilith, sendo que quem escolheu o nome “Emma” foi Snow e o nome “Lilith" foi algum orfanato. Sendo assim, eu uso esses nomes apenas como breve referência para situar o leitor, logo trocando pelos que acho mais cabíveis. A filha de Snow se chamaria "Emma", não importando quem nascesse, então é coerente que este seja aqui o nome de Lilith. Da mesma forma, aqui Malévola pode escolher o nome da própria filha e por isso Emma se chama “Amber”, devido a sonoridade parecida com “ember" (brasa).