Mary Margaret chegou na delegacia naquela manhã levando uma cesta com tortinhas de chocolate. Não era o dia de David estar trabalhando, de fato, ele estava tentando dar a Emma mais espaço e por isso evitava ficar sozinho com ela na delegacia. Foi a oportunidade perfeita para a morena fazer a sua própria tentativa de reaproximação com a filha. Entrando no recinto, já via a mais nova sentada à sua mesa, comendo salgadinhos no almoço enquanto assistia vídeos engraçados de animais no celular.

— Eu sabia que você estaria a fim de comer besteira, então eu trouxe doce — ela falou tentando ser o mais simpática possível.

Imediatamente, sendo um pouco assustada pela presença repentina de alguém ali, a xerife tirou os dois pés de cima da mesa e arrumou a própria postura, escondendo a comida na gaveta. Falou um tanto constrangida:

— Achei que você fosse estar com Neal.

— Nah… Hoje David fica com ele, vim ver a minha filha.

Agora o momento, se possível, ficava ainda mais desconfortável. Emma desviou os olhos para o chão, para as paredes, para a torta, que parecia deliciosa. Como seria capaz de falar com aquela pessoa que tanto a acolhera, tratara bem desde que havia chegado em Storybrook, antes mesmo de saber que eram parentes, explicar como estava se sentindo? Ela queria, queria conversar, desabafar, mas estava difícil defender os seus pais depois de tantas decisões erradas. Mary pareceu perceber o que se passava em sua mente, ao que falou:

— Não há nada que eu possa te dizer e que vá mudar o que aconteceu. Eu estou tão… Eu também estou sofrendo com isso.

As duas se olharam um momento e Emma então percebeu, naqueles olhos tão claros, que ela não estava sozinha. Mary e David também foram pegos de surpresa, também haviam perdido algo e sido machucados pelos acontecimentos do destino. A mão da morena estava sobre a mesa e foi preciso muita coragem para que a Salvadora a cobrisse com os próprios dedos, dando uma apertada de leve.

— Eu estou fazendo o melhor que eu posso — ela disse.

— Eu sei, e eu e seu pai não pedimos mais do que isso — a outra respondeu. — Eu só quero a minha filha de volta, minhas duas filhas — não deixou de acrescentar. — Nós erramos com Malévola, erramos duas vezes e de forma muito rude. Não quero que as coisas fiquem desta forma, me deixe fazer o que eu posso para corrigir.

Quando Emma começava a sentir as lágrimas quentes que desejavam sair, escutaram um som, o inconfundível som de um rugido. Por um segundo, a Salvadora achou se tratar de algo como o Chernabog, mas logo um frio lhe correu pela espinha e lembrou a que deveria realmente pertencer. Mary deve ter chegado a mesma conclusão, pois ela foi a primeira a correr para fora da delegacia. No meio da rua, o dragão negro de muitos chifres batia a cauda de forma contínua no chão, abrindo um buraco no asfalto recém-colocado pela prefeita. Um lobo gigante estava defronte, latindo e uivando, tratando como um diálogo entre as feras. Pelo visto, Ruby estava tentando acalmar Lily, mas sem surtir muito efeito.

— Lilith! — Mary gritou não muito longe. — Por favor, vamos conversar!

Mas sua presença pareceu apenas fazer com que tivesse ainda mais raiva. A dragoa então atirou chamas contra a princesa, ao que coube a Emma usar de sua magia para conjurar um escudo de metal. A proteção não durou muito tempo, fogo de dragão também possui propriedades mágicas. Precisou que Ruby intervisse e mordesse a namorada em sua cauda para que parasse com o ataque, antes que as machucasse de verdade. Lilith rugiu de novo e foi para atacar a loba, sem haver percebido de quem se tratava, mas parou quando a viu. Foi o momento perfeito para Mary tentar de novo:

— É só conversar! Ninguém está pedindo mais do que isso! Só uma chance de sentar e conversar!

Lily abriu a boca e a bola de fogo começava a se formar. Emma desconfiava que suas habilidades não seriam o suficiente se fosse um ataque intenso e Ruby estava também correndo um grande risco.

Uma sombra caiu do céu tão veloz e pesada que fez o chão estremecer. Um segundo dragão negro, cujos olhos eram verdes como os de um gato, pousou derrubando o outro. O primeiro rosnou, claramente incomodado pela intervenção, mas o recém-chegado rugiu alto e feroz. Lily recuou o corpo. Elas estavam ali conversando, uma língua que apenas os seus ouvidos poderiam decifrar. Seja lá o que Malévola falou, fez suficiente efeito para que a filha desistisse, ainda que sua voz não parasse com ruídos guturais e silvos. A mais velha então ergueu o corpo, ficando apenas sobre as patas traseiras, ao que abriu as asas e parecia muito maior e mais assustadora. Emma se perguntava como ela pudera ser capaz de matar algo tão forte, tão belo.

Finalmente Lilith desistiu, ao que recobrou sua forma humana mais uma vez. Diante do dragão, ela parecia tão pequena, se passava até por indefesa. Malévola fechou as asas e pousou as patas dianteiras no chão, ao que balançou a cabeça em um aceno positivo. A morena fez um som de desdém, além de torcer o lábio bastante contrariada. Cruzando os braços, caminhou até Mary Margaret e Emma, ao que disse para a primeira:

— Tá.

Parecia que o natal da antiga princesa havia acabado de chegar, pois ela abriu um imenso sorriso com a notícia. Voltou-se então para a dragoa e disse:

— Obrigada!

Malévola acenou com a cabeça assentindo e depois voou para longe dali. Era a sua forma de falar que quem deveria assumir o comando naquele momento era Mary. Snow se via feliz e sabia que era a sua grande oportunidade de tentar fazer alguma coisa, não poderia errar. Enquanto pensava com cuidado em suas próximas palavras, Lily interrompeu seu raciocínio:

— Aceito ler o livro com vocês, ou sei lá o que.

Mary não entendeu do que se tratava, ao que olhou para Emma. A loira então explicou:

— Regina nos deu um livro, acho que Malévola deu a ela, eu não sei, é uma enciclopédia.

— Bem, então vocês duas devem sentar para ler, não? — Snow respondeu.

Não era exatamente o que tinha em mente, mas, se Lily estava ao menos se dispondo a algo e a iniciativa vinha dela própria, melhor agarrar o que a sorte lhe dava. Desta forma, acompanhou as duas filhas até a casa de Emma, onde o livro as esperava ainda na mesinha de centro da sala.

— Eu vou preparar alguma coisa na cozinha — tratou logo de deixar as duas sozinhas.

Emma olhou para a irmã, mas esta mirava tudo ao redor. Mesmo estando as duas morando na mesma cidade e sendo velhas amigas, nunca havia sido convidada para conhecer a nova casa e isto a irritava um pouco. Onde estaria a sua antiga relação? Não passou despercebido pela xerife, que logo se encaminhava para o sofá e posicionava o livro aberto diante de ambas, como num convite. Lily olhou para o livro, o móvel, então foi se sentar também, as pernas abertas só pelo prazer de incomodar com o gesto espaçoso.

— Estou fazendo isso por minha mãe — ela disse.

Não havia novidade alguma nesta informação. Lilith sempre fora uma mentirosa compulsiva, alguém inclinada a fazer tudo que pudesse ser errado, porém, em Storybrook, assumira uma nova face, a de dragão. Enquanto tal, tinha um apreço e um cuidado extremo, uma proteção com a única pessoa que sabia, até então, ser sua família. Malévola era tudo para a jovem e por isso ela faria qualquer coisa por sua mãe, até sentar para ler o maldito livro.

— Eu sei — Emma respondeu.

Foi a morena quem tomou a iniciativa de abrir a capa, passar a folha de rosto, o índice, seguindo para o primeiro capítulo.

Capítulo 01: Dracul

Dragões são criaturas místicas dotadas de capacidades sobrenaturais e inteligência acima dos humanos.

— Nenhuma novidade — Lily comentou rindo.

A forma desdenhosa de falar era a mais sutil que a dragoa conhecia para se colocar acima dos demais, especialmente da Salvadora. Esta optou por apenas ignorar e continuou lendo o capítulo, passando as páginas e admirando os desenhos feitos tão cuidadosamente a mão. Era impressionante o quanto uma espécie que ela até então achava não diferir em nada de animais poderia ser tão evoluída e organizada.

Capítulo 03: Raças

Os dragões dividem-se em tantas raças quantas é possível contar. Os diferentes dragões podem juntar-se e obter filhotes tais quais um dos pais ou diferentes de ambos, ou ainda formar uma identidade totalmente nova. Desta maneira, abaixo algumas das raças mais antigas e que merecem maior destaque, seja pela força, magia, agilidade ou inteligência:

— Agora sim! — Lilith se empolgou. — Passa tudo e vai para os negros.

Emma olhou para a irmã de uma forma a reprovar toda aquela ansiedade. Queria ler o livro inteiro. A dragoa fez uma cara aborrecida e teve que esperar enquanto a loira ia lendo cada uma das raças, observando as imagens, as particularidades de cada um.

— Não sabia que existiam tantos — ela comentou.

— Você não sabe nada. Não é a toa que ela quis que lesse o livro — Lily não deixou de alfinetar.

— Ela ordenou a leitura a você também — a xerife também era esperta.

Não falaram mais nada até chegar em uma das últimas categorias.

Dragão Negro:

Esta raça é particularmente versada em magias das trevas, sendo por muitos considerada a mais poderosa de todas neste ramo.

— Ela fez por merecer o título de Mistress of All Evil — a morena sorria enquanto comentava.

— Ela não me parece mais tão feliz com o termo — Emma pontuou. — Acho que ela mudou muito desde que você apareceu.

A expressão de Lily se tornou séria, observando a irmã detidamente, procurando se haveria ali alguma armadilha, porém não encontrou nada que devesse se preocupar, ao menos por hora. Era estranho, depois de suas recentes brigas, parecia que a loira estava cedendo ou reconhecendo algo a Lilith e este era motivo para desconfiar, especialmente quando a última tanto a atacava, tentando excluí-la de sua família de todas as formas possíveis.

Capítulo 04: Anatomia

A anatomia draconiana assemelha-se a dos répteis. O corpo é coberto de escamas praticamente impenetráveis, duras como diamantes. A cabeça conta com um focinho, dentes afiados que podem ter até três fileiras, grandes olhos de cores variadas e capacidade para enxergar com pouca a nenhuma luz, além de chifres que variam em tamanho e quantidade. O pescoço é longo, de tamanho também variável por espécie. O tronco é robusto e armazena fortes pulmões que contam com a capacidade de, além de inspirar e expirar ar, também expelir o sopro na forma de fogo, água fervente ou ácido. Outro órgão de destaque é o estômago, pois dragões não necessitam de comida ou água para sobreviver. Uma vez que se encontrem sem alimentos, é possível entrar num estado semelhante a hibernação ou permanecerem acordados com um custo mínimo de energia durante muitas décadas, até adquirirem novos nutrientes. Nas costas ficam as estruturas das asas, responsáveis pelo voo. Tanto as mãos quanto os pés possuem quantidade de dedos variantes e garras afiadas, cuja composição é semelhante às escamas. Por fim, a cauda, que o torna tão letal de frente quanto de costas, é totalmente maleável, como o corpo de uma serpente, perfeita para chicotear e destruir.

— Isso explica muita coisa — Emma deixou escapar.

— Tipo? — A outra quis saber.

Não era um tema que a Salvadora estivesse muito satisfeita em abordar, pelo contrário, adoraria esquecer. Acabou se vendo forçada a falar por alto:

— Como ela passou quase trinta anos sob a cidade.

Ainda que a culpa de tal fato devesse repousar inteiramente sobre Regina, Emma não deixava de se sentir mal cada vez que lembrava que fora ela quem assassinara a dragoa em busca do ovo com a fórmula de Amor Verdadeiro. Além disso, refletindo que fora tudo em vão e que apenas servira para ajudar Gold em seus objetivos torpes, a deixava ainda pior. O silêncio dominou o ambiente e as duas retomaram à leitura.

Capítulo 05: Chamas

As chamas deste capítulo são muito menos as assopradas e mais as que habitam a alma dos dragões. Em seu coração, movendo sua força de vontade, sua energia vital, está este fogo que queima de forma praticamente incessante. Quando utiliza de toda a magia de seu sangue de uma única vez, existe a possibilidade, numa tentativa do corpo refrear o impulso auto-destrutivo, o dragão pode acabar expelindo estas chamas em ato involuntário. Quando isto ocorre, ele se torna fraco, perde completamente toda a magia que houver em seu ser, sendo obrigado a mudar sua forma física para outra criatura, uma que não seja composta de feitiçaria. Geralmente acabam assumindo como salamandras, serpentes ou até humanos. Ficam impossibilitados de praticar qualquer mágica, inclusive voltar ao corpo original, enquanto não reabsorverem o fogo de seu coração. É também quando se tornam mais vulneráveis a caçadores, ainda que o traço da imortalidade persista.

Mary entrou na sala com uma bandeja de sanduíches e duas garrafas de cerveja já abertas, colocando tudo sobre a mesa de centro. Era bom ver que as duas moças estavam se dando bem, ao menos pareciam estar entretidas com a leitura. Precisava reconhecer que Malévola fizera algo muito certo ali. Acabou espiando por cima e lendo um pouco daquela página em que estavam.

— Então foi isso o que aconteceu — comentou.

Tanto Emma quanto Lily ergueram os rostos ao mesmo tempo, em gestos totalmente iguais, para olhar a mulher com expressões confusas. Mary ficou um tanto constrangida por ter atrapalhado aquele momento:

— Desculpem, não queria distrair vocês! — Tratou de dizer logo.

— Como assim “foi isso que aconteceu? — Lilith não deixaria de lado.

A relutância de Snow jamais seria superior a um pedido feito por sua filha, especialmente uma que havia acabado de recuperar e estava fazendo de tudo para construir laços:

— Bem… Quando Malévola foi derrotada pelo Rei Estevão, ela incendiou toda uma floresta próxima a Fortaleza Proibida, onde se deu a grande batalha entre os dois. O fogo era tão intenso que uma árvore permaneceu queimando por quase duas décadas e ninguém mais viu a feiticeira. Claro que depois ela retornou e as chamas da árvore sumiram, então eu acho que foi isso daí que houve, mas não tenho muita certeza. Eu era muito nova quando isso aconteceu, só sei o que me contaram. Do jeito como as coisas são, é capaz de ter muito mais nesta história do que pensamos saber.

Com esta reflexão, ela deixou as duas irmãs mais uma vez. Emma sentia como se tivesse engolido algo muito amargo. A expressão “impulso auto-destrutivo” estava queimando em sua mente, como a árvore. Algo muito sinistro haveria se dado naquela época e talvez nunca fossem capazes de descobrir.

Capítulo 07: Sociedade

A organização básica dos dragões em sociedade é a formação de ninhos. O termo “ninho" refere-se não apenas a família próxima, aos genitores, proles, consortes e irmãos, mas também significa aqueles com os quais se escolhe conviver. O conceito de “família" é muito fluido na sociedade draconiana, devendo ser considerado como algo pessoal. Desta forma, prefere-se utilizar “ninho” por ser entendido e avaliado por muitos da espécie como “a família que se escolhe ter”. Ainda assim, a maior parte dos dragões prefere viver sozinha devido a sua tendência natural de acumular riquezas pelo simples prazer de estocar. São criaturas que dificilmente compreendem o significado de partilha.

O relacionamento com os humanos é algo conturbado, devido ao contexto histórico. Há poucos relatos de dragões vivendo em forma humana ou entre humanos e, geralmente quando o fazem, é com o intuito de se esconder para sobreviverem. Tendem a evitá-los ou, em caso de necessidade, não hesitam em matar. Possuem tanto apreço pela humanidade quanto estes por ovelhas. Assim, o relacionamento com humanos nunca foi visto com bons olhos ou incentivado, pelo contrário, é recriminado, pois rebaixa aos dragões se envolverem com criaturas inferiores.

— “Criaturas inferiores” — Lily fez questão de frisar.

Mas a provocação não alcançava Emma. A loira estava bastante pensativa e a outra percebeu isso, deixando de lado a brincadeira de mau gosto. A verdade era que as duas estavam pensando a mesma coisa: havia mais nelas de dragão durante toda a sua vida do que jamais haviam cogitado. Enquanto pessoas que cresceram sem os seus genitores, vivendo em lares temporários ou famílias adotivas, tais experiências haviam contribuído para moldar toda sua noção de relacionamentos interpessoais, para pautar tais laços muito mais sobre o afeto do que no sangue. Depois disso tudo, era estranho saber que uma dragoa as queria juntas.

“A família que se escolhe ter” significava que elas poderiam decidir sobre serem irmãs ou não, desde que isto as fizesse felizes. No final, parecia que Malévola entendia muito mais a respeito de não colocar pressão na vida alheia do que Mary ou David.

Capítulo 08: Comunicação

O corpo dos dragões, tal qual répteis, não possui capacidade de fala como os humanos estão acostumados, ficando esta restrita apenas a quando optam por assumir forma humana. A comunicação não ocorre através de voz, mas de grunidos, como animais de grande porte. É uma língua própria e que possui significado apenas entre os de sua espécie, não sendo muito elaborada, mas suficiente para diálogos imprescindíveis a distância. Há, no entanto, uma segunda forma de comunicação muito mais eloquente, porém demanda uma certa abertura. Os dragões juntam as cabeças, fazendo com as testas se toquem, o que os torna capaz de conversar telepaticamente não apenas com os de sua espécie, como também com quaisquer seres vivos que possuam um cérebro suficientemente desenvolvido, pois as ondas mentais transpassam qualquer barreira de linguagem. Independente disso, uma vez que sejam versados no idioma humano, conseguem entender perfeitamente apenas de escutar.

— Você tem que aprender isso — Lily falou terminando a sua cerveja.

Era a primeira vez que a morena dizia algo que não só até era agradável, mas também significava estar aceitando, reconhecendo Emma de volta. Parecia que uma trégua estava sendo firmada ali. Ela olhou para a irmã e ergueu a garrafa vazia, ao que a Salvadora moveu a mão e estava cheia novamente. Não eram a melhor dupla do mundo, mas aquele já era um começo. A loira pegou também a sua bebida e as duas fizeram os vidros tilintar.

— Olha, sua parte agora! — A morena apontou.

Capítulo 09: Magia

Os dragões são criaturas eminentemente mágicas. É a magia que lhes dá vida, que lhes permite não apenas respirar, mas existir, sendo algo tão arraigado em seu ser que é impossível dissociar um do outro. Os relatos de viajantes que cruzaram as fronteiras entre universos e foram até Mundos Sem Magia tornam-se inconclusivos, pois enquanto alguns falam que os dragões são capazes de preservar um certo poder mágico nesses lugares, nada muito relevante, outros narram a total incapacidade de manter sua forma draconiana, sendo forçados a mudar, seja para humano ou qualquer animal, ou até mesmo casos de uma morte lenta e dolorosa pela falta do seu fator de vida. Outra questão que vale ser apontada é que, ainda que a mágica corra em suas veias e seja a base de sua existência, nem todos os dragões são capazes de canalizá-la e utilizá-la ao seu bem-prazer como os bruxos. De fato, a maioria dos dragões abomina e sempre abominou a espécie humana para desejar assumir sua forma e, assim, poder praticar feitiçaria.

— Nunca sair de Storybrook. Parece mais uma sentença — Lilith não ficava feliz com isso. — Ao menos você se deu bem, não perde muito atravessando a fronteira.

— Eu perco toda a minha magia também — Emma respondeu sem entender porque para ela seria menos pior.

— Minha mãe morreria se atravessasse.

Esta era uma possibilidade ainda incerta, mas que ninguém gostaria de testar. O que tornava possível a ambas irmãs poderem atravessar a fronteira e terem vivido no mundo sem magia era o fato de não serem dragões puros, uma vez que não era certo o que lhes poderia acontecer de outra maneira. Para tanto precisavam agradecer a descendência humana, que não era de todo um mal.

Capítulo 10: Sopro

O “sopro” é a forma como é chamado o produto expelido exclusivamente pelos dragões através de sua boca. Pode ser de três diferentes componentes, variando pela espécie: Fogo, água fervente ou ácido. Sua formação se dá nos pulmões, seguindo por todo o canal respiratório até a garganta e liberado pela boca. É possível assoprar pelo nariz, mas não é algo realizado por mero hábito. O sopro não se trata de materiais comuns. Seu poder de destruição é imenso comparado com os mesmos elementos em sua forma comum, por contar com um adicional de magia. A exemplo do caso do fogo, com uma mágica forte e temperatura inimaginável, pode queimar por anos, décadas, não sendo apagado até mesmo por água. Sua capacidade é tanta que pode, inclusive, destruir feitiçarias.

— Quem será que ganha num combate, eu ou você? — A morena brincou.

— Malévola — Emma respondeu acabando por rir com a pergunta. — Ela nunca deixaria que nos enfrentássemos. Além disso, ela tem magia e a forma de dragão.

— A grande mamãe dragoa não deixaria os bebês lutarem… Isso não tem graça — mas a frase tinha e as duas davam risada.

Mais sanduíches eram comidos e as garrafas de cerveja eram encerradas. Precisavam se concentrar na leitura.

Capítulo 11: Voo

Embora possuam corpo avantajado e músculos robustos, a estrutura óssea dos dragões não é densa, sendo semelhante às aves. Desta forma, contam com formidável habilidade para voo. A magia também possui papel importante neste aspecto, pois, presente em seu sangue, impede que os ossos sofram danos, bem como auxilia a se manterem no ar muito mais do que as asas.

— Chato.

Foi o único comentário de Lily sem ter mais qualquer interesse sobre as suas habilidades no ar. Passou logo para o capítulo seguinte.

Capítulo 12: Artemisia dracunculus

O estragão, cujo nome original é artemísia de dragão, é uma erva bastante apreciada pela espécie, contendo diversas propriedades. Seu uso mais comum é recreativo, causando uma sensação de alegria, até euforia, quando cheirada em sua forma natural ou ressecada. Pode ser também utilizada para a produção de perfumes ou como chá, associada com outras ervas, sendo um calmante eficaz para energizar um dragão esgotado ou triste.

— Quero! — A dragoa disparou de uma vez.

— Será que faria efeito em mim? — Emma se perguntou.

— Eu não sei, Regina deve ter, ela tem de tudo no cofre — Lily ia ficando empolgada.

— Mas vamos provar apenas o chá, parece ser mais seguro.

— A última vez que você me disse isso de “mais seguro” acabou dançando de blusa e calcinha sobre a mesa depois de fumar um baseado e encher a cara de cerveja.

— Ninguém precisa escutar esta história! — A Salvadora ficava bastante constrangida fazendo um gesto em direção a cozinha, onde Mary estava faxinando.

Entendendo a mensagem de que a loira pretendia manter a mãe sem conhecimento deste assunto, Lilith apenas riu enquanto virava a página mais uma vez e sua expressão mudava. Fechou o livro de imediato, fazendo um pouco de barulho.

— Não, não e não! — Ela disse, levantando-se do sofá.

— Por que não? Não quer saber como nós duas nascemos? — Emma ficava confusa. — Eu sei que não foi legal estudar educação sexual na escola e que não vai ser legal agora também, mas podemos descobrir algo sobre a gente, né?

— É, só que eu sei como eu transo, eu sei como todos os bilhões de humanos transam e fazem bebês — Lily argumentou. — É diferente quando só existem dois dragões em praticamente todo o universo, porque aí eu vou ler não é “como os dragões transam” é “como a minha mãe transa” e isso já é informação demais. Já basta eu ter saído de um ovo!

— O ovo era meu, na verdade — a xerife tentava ajudar com uma brincadeira. — Se te ajudar, pense que você foi originalmente concebida por Mary e David.

— Isso é pior! — A outra elevou a voz exasperada.

Enquanto isso, diante de um comprido espelho na casa da prefeita, Malévola ria assistindo às duas garotas enquanto tomava uma taça de vinho. Regina entrou no quarto e escutava aquele som, o que era um bom indicativo.

— O que estamos comemorando? — Perguntou, ao que logo mirava o espelho e entendia. — Espiando suas filhas?

— Elas estão tendo a mesma dificuldade que você teve quando te dei o livro.

— Não sei do que está falando — a voz da Rainha era séria, porém logo escondia o rosto fazendo surgir para si uma outra taça de vinho, ao que bebia um gole.

— Ah não? — A dragoa a desafiava erguendo uma sobrancelha de forma desafiante. — Como era que dizia mesmo? “Dragões são criaturas…”

Mas Regina avançou para perto da loira, cobrindo os lábios dela com um dedo.

— Shii… — Falou sorrindo, sentindo que as suas bochechas ficavam avermelhadas só de pensar como aquela frase continuava. — Eu lembro desta parte.

Malévola então removeu delicadamente aquela mão, envolvendo-a na própria, ao que respondeu:

— Claro, não bastou ler o livro, eu tive que te mostrar. Você era curiosa, queria saber tudo sobre dragões.

— E você foi tão amável em me mostrar.

A conversa aos poucos tinha o tom de voz reduzido, uma sensualidade que era característica da dragoa, a qual a Rainha recebia e correspondia muito bem. Os olhares se sustentavam, aquele azul tão forte e profundo, por vezes deixava escapar um lampejo verde, sinal que Regina sabia muito bem o que significava. A morena passou de leve a língua nos lábios cuidadosamente tingidos de vermelho.

— Você já bebeu demais — ela disse puxando a mão de volta.

Pegou então a taça vazia que Malévola segurava. Era melhor parar por ali, estava adentrando em um terreno muito perigoso, por um caminho que conhecera antes e não havia terminado nada bem.

Tão logo começou a virar o corpo, uma mão a envolveu pela cintura, puxando-a para perto. Foi automático para Regina se virar, ao que a loira tocou-a no rosto, seguindo com os dedos para nuca, até que a trouxe mais para si e a beijou nos lábios. Foi uma sensação quente, gostosa, que estremecia todo o seu corpo. A lembrança, a saudade a dominava, até que a Rainha cedeu. Seu corpo ficou mole e soltou os copos, ao que suas mãos levantavam, cobrindo as costas da dragoa até os ombros.

Havia cacos de vidro no chão, vinho espalhado pelo tapete, mas nada disto importava. Era o mesmo sentimento de poder respirar quando estava na Floresta Encantada, estava em seu porto seguro, em sua casa.