The Ghost Of The Day
6 Capítulo 6 - Bad nwes
Notas iniciais
Não me matem !
Espero que gostem e comentem.
Boa leitura !
- Então tá – ela se conformou. – O que aconteceu nessas duas semanas? Algum gatinho na escola? Um primeiro beijo....
Não a deixei terminar. Comecei a rir. Imagine se eu contasse: Mãe, eu estou praticamente namorando com um fantasma. Ela iria rir? Me matar? Ter um ataque? Mesmo querendo saber a resposta, eu nunca contaria.
- Não, mãe – eu ainda não havia a contado que eu tinha dado meu primeiro beijo há meses. Conhecendo bem minha mãe, ela iria querer conhecer o garoto e me implorar para namorar com ele, sabendo que meu pai nunca deixaria, então para evitar mais brigas entre os dois, decidi deixar em silêncio.
Sua expressão era de alívio e de tristeza ao mesmo tempo, ai que eu ri mais ainda.
- E você, mãe? – perguntei. – Alguma novidade?
Seu sorriso se alargou ao máximo, e aquilo me deixou feliz.
- Eu... – ela respirou fundo e recomeçou. – Eu vou casar! – ela falava baixo, mas com muita animação. Não consegui esconder por muito tempo minha infelicidade por este acontecimento, ver minha mãe casando com um cara que visivelmente não há queria, só o seu dinheiro. Tentei sorrir pela felicidade dela, talvez ele mudasse.
Não, eu sabia que aquilo não aconteceria.
- Tem certeza? – perguntei, tentando fazê-la desistir daquilo.
- É claro! Ai, já estamos aprontando tudo, e amanhã a tarde você vai sair comigo para tentarmos escolher o vestido. Só você e eu – ela tocou a ponta do meu nariz. Aquilo não estava certo, deixá-la casar com ele sabendo que seria infeliz, mas como minha mãe era, eu jamais conseguiria tirar aquela ideia maluca da cabeça dela. Era melhor deixá-la escolher e ver como sofreria. Aquele casamento não duraria muito, então ela não sofreria tanto. Vendo com seus olhos a dor que enfrentaria, ela desistiria fácil, talvez até antes de se casar.
Depois de um momento desconfortável de silêncio, senti-a me observar. Eu não poderia ficar tão pensativa enquanto ela estivesse aqui, ela arrancaria alguma coisa de mim, cedo ou tarde, pelo menos descobriria que eu estava apaixonada... e isso seria ruim, não conseguiria esconder muitas coisas da minha mãe.
Ela levantou meu rosto.
- Tem certeza que não aconteceu nada?
Balancei a cabeça e disfarcei com um enorme sorriso. Talvez ela deixasse de perguntar.
- E então, quer sair? Almoçar fora? Só nós duas?
Não queria mesmo. Só queria ficar trancada no meu quarto. Eu não queria pensar aquelas coisas, mas a vinda da minha mãe logo essa semana dificultou bastante minhas coisas.
- Ah, mãe... não sei se é uma boa ideia... – comecei. Por que eu não falava logo que não queria?
- Vai, filha, por favor – eu não queria estragar a animação dela.
Suspirei, derrotada.
- Tudo bem – disse por final. – Vou me arrumar.
Ela levantou, toda animada a caminho da sala. Peguei uma calça jeans preta e uma blusa azul escura de mangas curtas. Sai a caminho do banheiro, sem querer olhar ninguém, principalmente... deixa.
Minha mãe era mesmo maluca, quis por que quis me levar a um restaurante maravilhoso de comida italiana, a minha preferida. Sem querer reclamar, mas meu pai e eu quase nunca saímos juntos, por falta de tempo. O restaurante era mesmo lindo e... e grande! E também caro... muito. Eu não gostava de gastar dinheiro á toa, mas minha mãe insistiu tanto que não consegui mais dizer não.
Almoçamos alegremente, falando de coisas bobas e engraçadas. Descobri que minha mãe também não ia com a cara da mãe de Alice. Ela falou das lojas que abriu e São Paulo com as suas roupas, e que tinha muitas guardadas para mim em uma mala.
O namorado dela tinha ido para o apartamento em que eles ficariam, e meu pai... ah, depois eu teria que ligar para ele. Talvez ele tivesse saído. Não toquei em nenhum assunto envolvendo meu pai.
De tarde passamos no shopping, tomamos um sorvete e ela insistiu de novo para comprarmos mais coisas, e caras. Ela me deu uma linda bota preta com correntes pratas, e com um salto alto, uma coisa que eu usava raramente, mas que gostava. Minha mãe também comprou algumas coisas para ela, sem falar de mais roupas que comprou para mim.
A mesma pergunta que insistia aparecer em minha cabeça desde que meus pais se separaram voltou: Por que eu não morava com a minha mãe?
Não era por causa do dinheiro e nem pelos bens materiais que ela me insistia em dar que eu queria morar com ela. Eu queria simplesmente por que eu queria, queria ter o carinho dela, uma coisa que me fazia muita falta, diariamente. Mas seu namorado bloqueava isso, eu nunca iria querer ver a cara dele todo dia, morando comigo ainda por cima. E meu pai também, eu nunca iria deixá-lo, e indo morar com a minha mãe, ele ficaria mais sozinho em casa, o que me mataria por dentro. Era melhor da um tempo e ver como as coisas ficariam.
- Sabia que você está muito pensativa hoje? – comentou minha mãe, enquanto estávamos sentadas em uma mesa na praça de alimentação, tomando o segundo Milk shake do dia. – Você é tão animada e falante.
- Nada não, mãe. Acho que só estou com sono mesmo, ando estudando muito e dormido pouco – sorri, me sentindo esperta por mentir tão bem, mesmo que aquilo me deixasse incomodada por dentro. Mentir não era meu forte.
- Que bom, então. Mas pega leve, filha, não deixe de dormir para estudar não. Com certeza você já passou de série, não é? – perguntou, e eu assenti, até que feliz. Aquilo de passar de série ainda no terceiro bimestre me deixava orgulhosa.
Insisti para irmos embora, meus pés já estavam doendo dentro do tênis e eu já não aguentava mais carregar bolsas. Pegamos um táxi, que me deixou em casa. Minha mãe se despediu de mim e o táxi partiu para levá-la ao apartamento. Ela prometeu para mim que me levaria para conhecer.
Já estava escuro, mas as nuvens estavam carregadas no céu, e para confirmar, alguns pingos pingavam enquanto e me sobrecarregava de peso para conseguir subir as escadas com as bolsas. Acabei me molhando um pouco, antes de eu sentir o peso aliviar e sentir a presença de Pedro em algum lugar.
Consegui subir rapidamente as escadas, agora com praticamente metade do peso sem estar em cima de mim. A casa estava fechada e silenciosa, e Pedro estava agora atrás de mim, vendo que meu pai não estava em casa.
Deixamos as bolsas do lado da porta do meu quarto e encontrei outro bilhete em cima do outro, antes de ouvir a chuva cair de vez.
Filha, eu não queria mesmo ir, sem saber a hora de voltar e ameaçar deixar você sozinha em casa se chegar antes de mim, mas pensei que não ligaria de eu sair com Paula de novo hoje, né? Pensei que sim e aceitei o convite dela, prometo tentar chegar cedo.
Te amo, papai.
Eu realmente não ligava, mas se eu estivesse sozinha, eu estaria até com medo. Era mesmo bom meu pai estar saindo, eu teria mais tempo a sós com Pedro.
Então o nome de mulher era Paula...
Pedro me abraçou por trás e me senti com calor de novo. Virei-me e o beijei, ardentemente. Eu não queria saber de mais nada.
Já estava em meu quarto e tirei a blusa fina que ele usava. Aquilo iria se repetir, de novo e de novo, até eu consegui coragem para negar algo a ele. Ele não me forçou a nada, eu apenas o queria.
Joguei-me em cima de Pedro na cama. Dei-lhe um selinho e levantei. Eu não iria e pronto. Ele ficou me olhando enquanto eu retirava cada peça de dentro das bolsas de roupas.
- Vocês compraram isso tudo? – Pedro perguntou.
- Arrã – apenas respondi, tirando as blusas extravagantes que minha mãe insistiu em comprar para mim. Eu não era fã de blusas assim, mas usava-as de vez em quando.
- Ui, você está mesmo sexy hein... – dizia. Eu ri, sempre usei aquelas coisas, não era novidade.
Deixei as coisas de lado, e sentei-me na cama, ao lado dele, eu precisava muitas coisas.
- Pode me explicar agora sobre tudo?
Ele suspirou e deitou, preguiçoso.
- Você é mesmo curiosa... O que quer saber, exatamente?
Eu queria saber tudo, mas pelo jeito que ele havia dito, não era bom saber tudo mesmo.
- Então tá... – escolhi o que não saia da minha cabeça. – Sobre o apocalipse.
Ele arqueou uma sobrancelha pra mim e deu um meio sorriso.
- O que quer saber sobre o apocalipse?
Aquele tom de voz dele me deixou com medo.
- Tudo, que dia vai ser, o que vai acontecer – eu dizia tão facilmente que parecia a organização de uma festa. Por que eu não conseguia ficar assustada com o tão previsto fim do mundo ser verdade? Talvez ainda não tivesse caído a ficha.
Ele suspirou de novo e se sentou, me encarando, como se fosse a centésima vez que ele contava o que ia contar.
- Primeiro: a data será esse ano, mas não sei quando – ele estava calmo... Calmo! – O que vai acontecer? – ele riu. – Nem um filme e nem seus pesadelos mais assustadores e profundos são capazes de te dizerem a fúria que vai ser quando o meu amiguinho lá de baixo se estressar e resolver acabar com tudo.
Ele estava debochando... E fiquei muito, mas muito confusa.
- Espera aí, não vai ser Deus a destruir o mundo e só levar os bons? Aquilo que está na bíblia... purgatório... essas coisas... essas coisas não vão acontecer?
Um momento de silêncio e... ele caiu em risos.
- Do que está rindo? – perguntei, pasma com esse comportamento dele de rir de tudo que eu falava e por levar essa coisa tão naturalmente. Eu já estava ficando assustada, com ele e com o apocalipse. Se não era da forma que todos nós humanos temíamos, e se não seria Deus que terminaria com nosso mundo... já era horrível.
- Você acredita mesmo nessas coisas que vê em filmes e em livros, não é? É claro que não vai ser Ele que vai destruir tudo, Ele não o todo poderoso e bonzinho? Então pra que ele iria destruir tudo o que fez? O que mais ama?
Aquilo tinha colocado um pontinho de interrogação na minha cabeça. E se tudo que nós aprendíamos na igreja fosse errado?
- Não posso dizer errado, mas totalmente mudado. O que vocês aprendem é o que ela quer ensinar, não a verdade. Algumas coisas sim, algumas coisas não. Pensa, Luiza. Sei que você já se perguntou sobre essas coisas. Como Deus iria destruir o que fez e o que mais ama?
Eram totalmente verdade as palavras que ele dizia. Mas... Era a igreja! Ela devia falar as coisas mais verdadeiras que existem.
- Devia mesmo, mas não faz isso. Imagine como vocês ficariam quando soubessem que o mundo não seria destruído por Deus, e sim por aquele lá de baixo? Deus pouparia os bons, e ele não, pouparia ninguém. Imagine quando souberem que a bíblia é uma mentira?
A bíblia? Uma mentira?
- Sim. Os dez mandamentos também. Eu não sou puxa saco Dele não, mas você acha mesmo que Deus iria escrever aquilo? “Você tem que fazer essas coisas para entrar no céu” – ele imitou uma voz grossa, engraçada. – Isso não tem nada haver com a cara Dele, Ele é bom até demais... enjoa.
Ele levantou e ficou zanzando pelo meu quarto, mexendo em minhas revistas e livros. Ria toda hora que olhava alguma coisa mais... pessoal. Eu não estava nem ligando. Estava perdida em pensamentos e totalmente confusa. Parecia que tudo aquilo que conhecíamos estava caindo (ok, admito, momento escritora Paramore...), estava desmoronando em ruínas. Todo o conhecimento que tínhamos não... aquilo tudo era mentira! Tudo que aprendi na catequese, indo a igreja, nada daquilo era totalmente verdade.
Eu estava com medo, pois aquela frase dele havia me assustado mais que tudo: Imagine como vocês ficariam quando soubessem que o mundo não seria destruído por Deus, e sim por aquele lá de baixo? Deus pouparia os bons, e ele não, pouparia ninguém. Imagine quando souberem que a bíblia é uma mentira?
Tremi-me toda.
- Pedro, me explica mais coisas, por favor – se eu tinha ido tão longe, supostamente me apaixonando por um fantasma, eu não teria medo de enfrentar tudo aquilo que eu gostaria que ele falasse.
Ele virou para trás e deu um sorriso assustador, antes de se sentar de novo na minha cama.
- Só sei que o apocalipse vai ser esse ano, meu amiguinho lá de baixo não vai poupar ninguém, só aqueles que estarão do seu lado e... voltei mesmo pra salvar você – ele fingiu um bocejo.
Senti minha boca abrir sem querer e eu queria chorar de tanto medo, mas me segurei, não queria parecer frágil perto dele. Oops, ele riu. Ele não podia simplesmente sair da minha cabeça?! Ignorei e nem quis saber a resposta, mesmo se ele pudesse, ele não sairia. Uma coisa que eu não entendia: O que tinha de tão extraordinário na minha mente?
Ele ria enquanto eu me atrapalhava com os meus pensamentos, até voltar a me sentir assustada de novo.
- Como assim? Voltou pra me salvar? Voltou da onde?
- Como você me pegou em uns dias que eu estou bonzinho, salvarei você, Ó, que coisa fofa? Fui falar com o meu amiguinho, ora! – eu odiava quando ele dava uma de debochado, aprecia mesmo que eu era apenas um brinquedo pra ele. Cruzei os braços no peito, encarei-o e bufei, balançando a cabeça pra as suas atitudes infantis.
E como ele era rápido!
Derrubou-me na cama e me beijou, fazendo-me esquecer de tudo que pensei antes.
- Ainda sou debochado, infantil e ainda pareço não gostar de você? – perguntou ele, enquanto beijava-me.
- Mudei de ideia.
Ele riu e eu levantei, já indo tomar banho e trocar de roupa.
Arrumei minhas coisas para escola amanhã, já esperando que o pessoal lá da turma quisesse voltar lá.
Meu pai não chegou muito tempo depois. Disse que foi uma “saída rápida”. Arrã, eu sabia a “saída” dele. Nem disse nada, apenas ri e fui pra minha cama. Nem aguentei ver televisão, estava tão exausta – do shopping claro, e era muita informação – que logo peguei no sono.
Era raro eu me lembrar dos meus sonhos, mas desse me lembrei nitidamente. Eu estava em um beco escuro, perto da minha casa – era só isso que eu sabia. Eu parecia cansada e com fome, me via de fora, como se estivesse fora do meu corpo. Parecia também que eu tinha acabado de correr muito, fugindo de alguém... ou algo. Eu respirava pesadamente. A noite estava escura e muito fria.
De repente algo surgiu na minha frente, do nada, algo não, alguém. Um homem, de pele escura e careca, bem forte e com músculo a mostra, com roupas simples. Ele me olhava debochado – o que me fez lembrar o rosto de Pedro – e com raiva.
“Isso que dá não seguir as regras” – ele apenas disse, sua voz era parecidíssima com de Pedro, e estava ecoando, exatamente como se fosse o vento falando. Ele ergueu sua mão em minha direção e um raio branco me atingiu, só senti apenas a dor e depois mais nada, apenas escuridão.
Levantei, assustada. Pedro me olhava, sentado na ponta da minha cama. Olhei o relógio ao lado e eram ainda 3 horas da manhã.
Eu estava suando frio, e tremia. Pedro assistia tudo confuso e preocupado. Era engraçado vê-lo preocupado, e parecia comigo, o que deixava a situação ainda mais hilariante. Ele me empurrou carinhosamente para o travesseiro de novo e me obriguei a respirar. Por que eu não sabia, mas aquele sonho havia mexido bastante comigo.
- Sonhos na maioria das vezes não significam nada, mas ás vezes podem significar muitas coisas – ele sussurrou, me cobrindo com o edredom.
Nem respondi, eu não queria que aquele sonho representasse nada.
Acordei novamente assustada, com a música do despertador tocando alto.
- Ai, que merda é essa? – perguntou Pedro, se levantando do meu lado, tampando os ouvidos e se sentindo o dono da cama. Por isso em lembrei vagamente de alguém em beijando e me abraçando. Peguei o celular que ainda tocava a música da Avril Lavigne e coloquei no ouvido de Pedro, que o lançou longe, onde bateu contra meu armário.
Olhei para ele com um ódio mortal. Ele praticamente havia destruído meu celular, meu bebê. Do jeito que havia força, devia mesmo tê-lo destruído.
Ele levantou os braços, culpado, e sorriu. Olhei pro chão e vi meu celular espatifado e totalmente quebrado no chão. Meu bebê novinho em folha quebrado.
- Eu vou te dar outro – disse ele, com a voz culpada.
Peguei o aparelho agora pifado em minha mão e retirei o chip.
- Cadê o seu? – estendi a mão para Pedro, que foi de má vontade e pegou seu celular no bolso de trás da calça jeans e me entregou. – Obrigada – disse, sorrindo. O celular dele era mil vezes melhor que o meu, e era enorme.
Enquanto colocava o chip nele, ri com meus pensamentos.
- Você roubou esse celular, não foi? – perguntei, rindo. Ele franziu a testa e apenas assentiu.
Assim que o liguei recebi uma ligação da minha mãe.
- Oi, mãe – disse.
- Desculpe te ligar essa hora, mas achei que já devia ter acordado para ir a escola. Hoje o Marcos vai te buscar para te trazer aqui pra conhecer o apartamento, ta? Assim que chegar da escola se troca que ele vai te buscar ai, já falei com seu pai e ele deixou. Agora eu tenho que ir, beijos.
Ual, nem tempo de respirar tinha dado. Senti que não seria uma boa ideia Marcos vir me buscar, mas como ela já havia desligado, nem liguei de novo para discordar.
Pedro me olhou, com uma cara de malvado, aquilo me deu vontade de rir.
- Se ele aprontar alguma coisa... – começou a ameaçar Marcos, mas eu o calei com um beijo demorado.
- Já sei, já sei, você vai... blábláblá. Esquece isso. Nada vai acontece comigo, ai eu sei me cuidar sozinha – ele me puxou para seus braços.
Ele não disse mais nada, só me beijou.
Arrumei-me rapidamente para ir a escola, já meio atrasada, pois Pedro me distraia. Ele ficou observando-me colocar o uniforme brega e ria quando pensava nisso. Peguei minha mochila e Pedro puxou meu braço.
- eu não mereço nada não? – aquela carinha de cachorro abandonado na esquina derreia meu coração.
- Depois que quebrou meu celular? Acho que não.
Ele riu e me beijou.
- Depois você ainda pensa que não está apaixonada...
Eu ri e desci. Precisava encontrar Alice para irmos logo para escola. Pela primeira vez eu não queria ir, sabia que os curiosos iriam querer ir de novo a sala 7, e como eu iria sabendo que Pedro que estava lá e não iria voltar para assustar mais ninguém? Que desculpa eu daria de não querer ir mais a sala? Eu não era medrosa – o que estava mudando pouco a pouco – e não gostava de ser chamada de medrosa, mas dessa vez era preciso, e eles perceberiam, pois eu nunca recusava nada a dar medo, eu gostava.
Alice estava estranha no caminho a escola, quase não falava e estava assustada. Eu acho que ela estava chateada comigo.
- Alice, por que está assim?
Ela me olhou de lado e sorriu.
- Luiza, você sempre atende minhas ligações e sempre vai lá em casa sexta e sábado, mas esse sábado você não foi e não atendeu nenhuma das minhas centenas de ligações. Você sabe que eu não sou ciumenta, e... Por que está tão estranha? Desde sexta? – ela dizia, parava, sorria e pensava.
Eu nunca menti para Alice, nunca. Ela sempre sabia quando algo estava prestes a me incomodar e dava um jeito antes de acontecer. Mas nessa situação eu era obrigada a mentir, não queira assustá-la e nem colocá-la em perigo, nunca. E falar isso pra ela a colocaria em perigo, eu já estava, e não havia jeito de sair.
Sorri, disfarçando.
- É que minha mãe foi lá em casa ontem e... Ela vai casar – deixar a raiva toda pela minha mãe voltar e decidi demonstrá-la a Alice enquanto andávamos. – Eu não acho que Marcos goste dela e ao vai ser eu que colocarei na cabeça dela isso, decidi a deixar ver o que vai dar os dois juntos. Não vai durar muito.
Alice me abraçou.
- Desculpa, desculpa, desculpa. – pedia ela. – Eu nunca sei ver seu lado e nunca pergunto antes, sempre falo antes de saber o que se passa. Desculpa muito mesmo. Eu não sabia que ela ia casar, eu também nunca fui com a cara de Marcos, ele não nos olha de um jeito muito... respeitador.
- Concordo.
Caminhamos mais uns minutos até chegar na escola.
Todos estavam muito apreensivos com a história, aquilo ainda estava na cabeça de todos. Essa história havia mexido bastante com a sala, tanto que até quem não havia ido para aula sexta, já sabia da história e já estava com medo. Eu parecia a única normal, e me obriguei a sentir “medo”. Medo de alguém descobrir sobre Pedro.
Ao pensar nele, senti sua presença ao meu lado, e a sensação do vento tocando suavemente a pele do meu braço. Fechei os olhos, satisfeita, me senti protegida e sem medo de nada.
- Vamos voltar depois do intervalo, não é, pessoal? – insistia Filipe, olhando todos nós, assustado.
Todos assentiram, com medo, menos eu, que permaneci calada.
- E você, Luiza? – disse ele, encarando-me.
- Ahn... eu? Não, gente. Olha, aquilo foi coisa da nossa cabeça, vamos esquecer isso e nos concentrar na matéria porque já está chegando no final do ano, último bimestre e...
- Fala sério, né? Você? Preocupada com o último bimestre? Com medo? Quem é você e o que fez com a minha amiga? – Filipe debochava. Era verdade. Aquilo não era papo meu, eu nem estava nem ligando para as últimas provas, sempre passava de ano, me esforçando ou não.
- É... mas vamos esquecer, o.k.? – continuei, na tentativa de desistirem.
Ele suspirou e balançou a cabeça, com cara de nojo, e aparentemente pra mim.
- Você não é a mesma, desde sexta – murmurou, antes de virar a cara, igual a todos, tirando Alice, que me olhava confusa. Então era isso? Todos iriam me evitar agora por uma história ridícula? Se eu não tivesse visto, eu até que estaria do lado deles, mas eu vi, e acabei me apaixonando por uma coisa que eu queria, e que queria abandonar no momento.
Como nos apaixonávamos em dois dias?
Era impossível, e eu até ri sozinha, vendo Alice ficar ainda mais confusa e suspirar, desistindo e virando pra frente. Só haviam se passado dois dias desde sexta. Um final de semana era capaz de me mudar tanto assim? De mudar tantas coisas assim? De fazer uma pessoa se apaixonar por outra assim?
E esse pensamento voltava ao outro, que agora era o que mais me perturbava. Pedro gostava mesmo de mim?
Claro que sim, não duvide disso de novo, esqueci da presença dele na sala e sua voz despertou minha mente. Então tudo bem, eu acreditei a partir daquele momento. Não duvidaria mais, algo nele me fazia acreditar em tudo que dizia, e isso me fazia bem.
Depois conversaremos, pensei, tentando e vendo se podia mandar pensamentos para a sua mente também, e ri. Aquilo era surpreendentemente hilário, e ri, depois de ouvir sua risada também.
A aula passou rapidamente, e eu fiquei sozinha, sentada no canto, com Alice na minha frente, calada. Eu ouvia as pessoas falando que eu estava estranha, e pouco me importei, também por que Pedro pediu para eu não ligar. Era melhor assim, eles não sabiam de nada.
Tentei prestar atenção ao meu redor, mas não consegui, nada. Estávamos chegando ao final do ano, e... eu nem queria saber de estudar. Eu ia acabar levando bomba em matemática.
Alice e eu fomos para casa de transporte, e diferente de todos os outros dias, estávamos caladas.
- Pedro? – chamei quando encontrei a casa vazia.
- Estou aqui – disse ele, aparecendo atrás de mim. Mesmo assim não deixei de levar um susto.
- Preciso me arrumar, Marcos vai vir me buscar daqui a pouco.
- O.k., vou com você – disse ele naturalmente.
Olhei-o meio espantada e ri. Tudo bem.
Ele riu e eu segui para o meu guarda-roupa.
Tomei um banho e me arrumei. Pedro ficou vendo televisão. O tempo ainda continuava ruim e chovia muito. O noticiário estava repleto de tragédias por conta da chuva. Ele me olhou preocupado quando me viu entrar no quarto secando meu cabelo com uma toalha.
- O que foi?
- Dessa vez, nada.
Ele ficou me olhando e percebi que só estava com a calça jeans e o sutiã. Eu sempre esquecia alguma peça de roupa no quarto.
- Não, não, não. Pedro... – disse enquanto ela já estava me beijando.
- Já era, a culpa é sua – ele riu.
O empurrei e sorri, com uma careta. Eu precisava me arrumar. Acabei de colocar minha roupa e me arrumei, esperando por Marcos. Aquela ideia da minha mãe não ia dá certo. Por que ela não podia ver me buscar?
Não demorou muito pra eu ouvir a buzina tocar lá na frente de casa. Fechei toda a casa e Pedro me puxou para seus braços, de dando um beijo.
- Oi, Luiza – disse Marcos, quando entrei no carro, de uma forma amorosa... eca, aquilo me deu nojo e me obrigou a fazer uma careta.
Fechei a cara e cruzei meus braços no peito. Eu não falaria nada.
- Não fala mais com seu padrasto não? – perguntou ele, da mesma forma, enquanto não ligava o carro. Ele me devorava com os olhos e aquilo me deixava desconfortável.
Obriguei-me a virar e encará-lo. Depois ri.
- Primeiro: Você não é meu padrasto, e sim mais um namoradinho da minha mãe. Segundo: você não pode me obrigar a falar com você.
Eu sei que estava sendo infantil, mas eu estava com muita raiva dele; só queria Pedro aqui, aqui mesmo.
Marcos me olhou de lado e sorriu, o que me deixou com medo.
O caminho demorou, pensei que iríamos para um hotel bem mais... luxuoso do jeito que minha mãe era. Mas não. Não que o “hotel” fosse ruim, mas não era daqueles que minha mãe se hospedava.
- Tem certeza que é aqui? – tive que perguntar. E pela primeira vez me dei conta de que Pedro não estava ali, pelo menos, nos meus pensamentos.
Marcos sorria.
- sim, tenho certeza.
Dei de ombros e sai do carro, andando em direção ao hotel. A recepção não era muito grande, mas era bonita.
Marcos passou um na recepção e pegou uma chave, e seguimos para o elevador, que estava vazio. Algo estava muito estranho ali. Primeiro: minha mãe estaria com certeza me esperando lá em baixo. Segundo: Marcos sorria muito e me devorava com os olhos, o que não era novidade, mas estava muito... intensificado hoje. Terceiro: Eu ainda não estava sentido Pedro ali, logo quando ele fez questão de ir comigo.
Balancei a cabeça, só esperando que minha mãe estivesse no quarto.
O quarto ela estava hospedada era o primeiro de um longo corredor.
Marcos entrou primeiro, abrindo a porta pra mim. Fitei o quarto meio grande, com uma cama de casal no meio e uma porta que provavelmente era o banheiro a direita.
- Cadê a minha mãe? – perguntei para Marcos que ainda estava atrás de mim. Foi quando Marcos me pegou por trás e me levantou, jogando-me rudemente na cama.
Comecei a gritar, e ele riu. Onde estava minha mãe? O que ele estava fazendo comigo?
Ele me deu um tapa doloroso em meu rosto.
- Cadê a minha mãe?! – gritei ainda mais alto. Outro tapa que me fez virar o rosto. Ele puxou meus cabelos com a sua mão, e me deitou na cama. Eu gritei muito, desesperada. O que estava acontecendo? Eu só queria Pedro ou minha mãe agora, e as lágrimas desceram, pela dor que ele estava causando.
Marcos rasgou minha blusa por trás e me jogou na cama novamente. Eu gritei “para!”, mas ele não ouvia e ria, e então eu percebi o que ele estava fazendo. Para confirmação, ele me beijou, ECA! Eu queria sair correndo dali, não conseguia explicar a sensação que eu sentia. Eu sabia que algo ia acontecer, e estava acontecendo. Marcos estava abusando de mim. Quando me dei conta, estava gritando “Pedro!”.
Eu o empurrava para sair de cima de mim, batia nas costas dele, mas visivelmente ele era mais forte que eu. Ele tirou minha calça jeans, com muita violência, me machucando ainda mais. Eu já conseguia ver alguns hematomas em meu braço. O chutei e ele cambaleou pra lado, pois não esperava isso. Sai correndo, e antes de eu chegar a porta o senti puxando violentamente meu cabelo pra trás, me fazendo bater de cabeça no pé da cama. Gritei, aquilo havia doído bastante, minha cabeça agora pulsava. Ele me pegou pelos ombros e me jogou novamente na cama. Chorava muito, eu apenas queria sair dali.
Por que ele estava fazendo isso comigo?
Beijando-me – e eu nem gostava de pensar que ele estava mesmo me beijando, de tanto nojo – ele remexeu na alça da minha calcinha com seus dedos, e eu o chutei de novo, levando outro tapa na cara. Suas mãos subiram para as minhas costas e seus dedos procuraram a fechadura do meu sutiã. Foi quando eu apenas não senti mais ele em cima de mim e vi seu corpo voando para o chão. E avistei Pedro em pé em frente a cama. Ele correu e me abraçou. Eu estava tão... eu não me sentia. Eu... aquilo era um pesadelo, não era verdade. Eu queria me matar, sentia enjôos e meu estômago revirava. Aquilo não podia estar acontecendo, logo comigo.
Apenas abracei Pedro, deixando as lágrimas descerem. Ele me deixou sentada na cama por um momento e fitou Marcos deitado no chão, ainda consciente e com os olhos abertos.
Assim que ele estendeu a mão em cima dele, eu soube que ele iria matá-lo, Pedro parecia meio descontrolado. Eu gritei “Não!”. Eu não tinha pena daquele desgraçado, pra mim, era melhor ainda que ele morresse. Mas e depois? Como eu explicaria a todos?
Pedro parou na hora e me fitou, voltando ao normal devagar. Abraçou-me novamente e eu percebi que eu tremia. Eu não estava ainda no meu normal, estava paralisada.
Notas finais
Beijinhos pra vocês.
Fale com o autor