The Game

8 Parte 1 - Capítulo 7 - Caos


Ele corria. Mais rápido. Precisava correr mais rápido. O pânico crescendo. Estava sendo seguido, sabia disso. Virou à esquina, amaldiçoando aquele dia. Por que logo naquele dia havia deixado suas coisas em casa? Sempre fora precavido. Sempre tinha um plano. Mas justo hoje... Não. Não adiantava se lamentar. Precisava continuar correndo. Conhecia a região. A rua em que estava agora era uma das áreas mais desertas do bairro, um amontoado de residências das quais os donos provavelmente estavam no trabalho àquela hora. Mas mais a frente... Logo no final da rua chegava à uma área comercial. Pessoas. Logo que estivesse cercado delas estaria seguro.

Não ousava olhar para trás. Conhecia as regras. Uma vez que se olhassem nos olhos, estaria acabado para ele. Com seu colar ostentando apenas duas pedras de ágata vermelha, um jogo bastaria para o seu fim. Não podia se arriscar. Precisava correr. Quando estivesse cercado de pessoas, não havia como ele o forçar a olhar em seus olhos. Estaria salvo. Cruzando a rua, virou à direita, desta vez. E foi então que sentiu o impacto. Seu corpo sendo jogado para trás. O equilíbrio se perdendo, pode sentir-se atingir o chão.

Ela olhava para ele. Conseguira manter o equilíbrio, apesar do encontro brusco. Ele era jovem. Adolescente, assim como ela, isso era certo. Tinham uma altura similar. Para ele, devia ser uma estatura mediana, mas ela era definitivamente considerada alta. Era loiro e os olhos eram verdes. Ele usava uma camiseta sem mangas, de cor amarela, combinando com uma bermuda azul e sandálias. Não carregava nada consigo, e quando se recuperou do impacto permitiu-se olhar para cima. A garota à sua frente era de grande beleza, apesar de uma expressão gélida. Os cabelos negros, longos, lhe caindo por detrás das costas. Usava um longo vestido negro, com sandálias de salto combinando. A única adição ao vestuário era uma sombrinha branca, com a qual protegia a pele alva do sol ardente daquele começo de tarde.

O primeiro impulso dele foi o de se desculpar. Depois, pensou em pedir ajuda. Era a única pessoa nas redondezas, mas poderia servir. O fato de não tê-la sentido certamente indicava que não era uma jogadora. Ele certamente não tentaria envolver alguém de fora nisso, não é? Se ela se pusesse ao seu lado, certamente aquele cara desistiria, não? Com esses pensamentos em mente, e tentando controlar sua expressão de pânico, ele se levantou com um pouco de dificuldade. Podia sentir as pernas trêmulas e estava prestes a implorar a ajuda daquela que seguia olhando-o com uma expressão que parecia a de completo desinteresse. Infelizmente, demorou demais.

–Ah, você está ai Theo! – A voz veio da esquina. Virando-a, vinha um jovem. Tinha cabelos negros e olhos castanhos. A vestimenta consistindo de uma camiseta branca com uma calça jeans e tênis. Com um sorriso no rosto, ele se aproximou – Estive te procurando por todos os lados cara.

O jovem não precisou olhar para ter certeza de que era Duo aquele que se aproximava. Ele tentou fugir. Pedir ajuda era demorado demais. Contornando a garota com quem trombara, ele tentou correr, quando sua sandália o traiu, levando-o mais uma vez ao chão. Caíra. E desta vez com o inimigo se aproximando mais e mais.

–N-não! – Ele conseguiu gritar, em meio ao pânico. Em desespero, ele fechou os olhos – F-fica longe. Eu não quero! Eu não vou jogar, não! – Ele repetia, enquanto tentava se levantar, os movimentos atrapalhados pelo pânico.

–Vamos, não seja tão teimoso. É só um joguinho, cara, não precisa de tudo isso – Duo tentava manter o sorriso a cada passo que dava. A garota à sua frente não se movera até então, e ele temia que a situação gerasse uma resposta negativa dela. Bastava ela tentar chamar a polícia que ele precisaria sair correndo. E perder uma presa como a que tinha a sua frente seria um enorme golpe de azar – Vamos cara, eu te ajudo a levantar. Dai nós...

Por algum motivo, tudo ficou silencioso. Ele não ouvia mais as palavras de Duo. O que teria acontecido? Só podia ver a escuridão, mas tinha certeza de que algo cortara a fala de seu algoz. Talvez a garota tivesse reagido. Talvez ela tivesse percebido que não havia nada de amigável naquela cena e estivesse pronta para chamar a polícia. Talvez... Duo já tivesse ido embora, assustado. Talvez ele... devesse abrir os olhos. Devagar. E depois mais rápido, quando notara o motivo do silêncio. A garota havia se movido, e agora mesmo estava de cócoras na sua frente, olhando-o diretamente nos olhos. Algo em sua expressão gélida o incomodava, mas ao menos naquela situação ele não era capaz de notar o rosto de Duo, embora pudesse notar parte do corpo do outro jovem, certamente imóvel por conta da atitude dela.

–Você não serve... – Foi tudo o que disse aquela voz seca, gélida, que talvez carregasse um pouco de melancolia. Um quase sussurro, como um pensamento que não deveria ser pronunciado. E, então, ela se levantou.

Duo não sabia como reagir. Temia que se se aproximasse poderia causar alguma reação da garota. Se ao menos ela saísse do caminho, poderia forçar o outro a entrar em um Campo. Ele entraria em coma e Duo poderia posar de o amigo preocupado que o levaria até o hospital. Infelizmente, a jovem se mantinha interposta entre ambos. E, quando esta se levantou a situação não melhorou. Virando-se, ela agora encarou Duo profundamente.

–O... O que foi? – Ele se atreveu a perguntar. Havia algo no olhar dela que incomodava. Era um olhar penetrante, que parecia olhar para sua própria alma – T-tem algo a dizer? – Silêncio – Ei, se tem algo pra dizer, diga de uma vez! – Já estava ficando irritado.

Ela respirou fundo, suspirando com uma clara melancolia, conforme desviava o olhar.

–Também não é você – Ela proferiu, pesadamente. Novamente, mais parecia um pensamento do que palavras realmente dirigidas a ele.

–O que você... – Prestes a perguntar o que aquilo significava, Duo deu pela falta de algo. Se até pouco tempo podia ver sua presa deitada no chão, agora esta havia desaparecido – Merda! – Disse, compreendendo que seu oponente deveria ter fugido enquanto a garota o encarava. Isso era mal. Não era nem bem um quarteirão até a avenida comercial da cidade. Não podia deixar que mais alguém se envolvesse com aquilo. Precisava correr. Contudo, quando tentou desviar-se da jovem, esta estendeu o braço, lhe bloqueando a passagem – Mas o que diabos você está fazendo? – Ele gritou.

Por um momento, ela não respondeu, limitando-se a olhá-lo pelo canto dos olhos. Um olhar que lhe gelava a espinha. Não era raiva ou mesmo desprezo. Era um olhar que parecia dizer que sua própria existência era irrelevante, se é que um olhar assim poderia existir. E, então, ela abaixou o braço.

–Apenas saiba de uma coisa – Ela disse, ignorando a irritação do pasmo jovem – Qualquer que seja seu desejo, você não tem resolução o bastante para alcança-lo – Completou, pondo-se a caminhar logo em seguida.

Duo estava prestes a perguntar o que ela queria dizer com aquilo, quando algo chamou sua atenção. Uma batida, talvez. Uma explosão, com certeza. Olhando apressado, do outro lado do quarteirão, na avenida comercial, uma coluna de fumaça se erguia. Pânico. Gritos distantes, mas que ficavam mais e mais altos. Mais algumas explosões. A coluna de fumaça se adensando. Duo só podia imaginar a cena dantesca que não estaria tendo lugar naquela avenida. Os olhos arregalados em surpresa e pavor. E, então, voltou a virar-se, vendo que a garota se mantinha a caminhar a passos despreocupados.

–E-ei... você... – Ele chamou. A garota não pareceu dar atenção – O que... aconteceu ali? – Não fazia ideia do porque perguntava aquilo a ela, que deveria saber tanto quanto ele. Ainda assim, algo em seu instinto dizia que ela teria a resposta – Ei, eu fiz uma pergunta! – Gritou.

–Deveria sair logo daqui – Ela disse, sem olhar para trás – Logo essas ruas estarão cheias de pessoas em pânico.

–Não foi isso o que eu perguntei – Ele gritou, indo na direção dela – Você sabe o que aconteceu ali, não é? – Ele tornou a perguntar – Por acaso me impediu de ir naquela direção... Para me salvar? – Apesar de não ter nenhuma base para afirmar aquilo, algo em si dizia que era exatamente este o caso – Vamos, diga alguma coisa...

Alcançando-a, Duo encostou em seu ombro. Grande erro. Com um movimento aplicado certamente com uma facilidade aterradora, a mão esquerda da garota agarrou ao pulso de Duo. Um puxão girou a todo o corpo do rapaz no ar, fazendo suas costas baterem fortemente contra o chão. A dor intensa e a falta de ar preencheram seus pensamentos, enquanto sua boca fazia sons grotescos, em busca de algum ar para sugar. Olhando agora, a garota já não apresentava a mesma expressão gélida: sua face era a mais pura raiva, mesclada com o mais aterrador ódio. Uma visão que, por si só, poderia tirar ao fôlego de qualquer ser.

–Nunca! Mais! Me toque novamente! Entendeu? – Ela disse. A respiração ofegante de ódio

Duo nem conseguiu responder. Estava ocupado demais tentando respirar. Tudo o que pode fazer foi observar a estranha figura se afastando, atravessando ruas e calçadas, até lhe fugir ao olhar. E, então, os gritos foram ficando mais altos. Ele precisava se levantar. Se levantar e sair logo dali. A última coisa que precisava naquele momento era ser pisoteado por uma multidão em pânico.

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Do outro lado do atlântico, no distante continente europeu, em uma pequena cidade alemã, um outro tipo de desastre tinha lugar. Finalizando mais uma partida, o jovem de cabelos loiros finalmente alcançava a sua décima terceira pedra. Sua expressão de alegria foi a ultima coisa que seus amigos puderam ver nele. Sem maiores causas ou explicações, e tal e qual um mal efeito especial de um filme de baixo orçamento, o jovem desapareceu. Logo a noticia se espalharia. Os números continuavam a aumentar. Mais um jogador desaparecera.