The Game
9 Parte 1 - Capítulo 8 - As Três Regras
Os dois adolescentes entraram pela porta de vidro espelhada. O interior da loja estava a uma boa temperatura, dado o ar condicionado ligado. O piso térreo em si era bastante simples: enquanto que à direita da porta de vidro uma outra porta, agora aberta, levava ao segundo andar, ao fundo havia uma outra porta, agora fechada, que possivelmente levava aos estoques da loja. No mais, o restante do espaço retangular era preenchido com três enormes balcões de vidro, ajustados na forma de um U invertido. Caminhando por estes balcões, Hélcias pode ver os mais variados card games. Yugioh, Magic, Pokemon, Vanguard... Alguns ele conhecia, mas uma grande parte lhe era inteiramente nova.
Booster packs, caixas fechadas, além de uma infinidade de pastas, cada uma contendo as mais diferentes cartas, atraiam o olhar de quem passasse. Era particularmente chamativo o fato de que a loja apresentava uma variedade tão grande de produtos. Normalmente, as lojas de card games que conhecia se especializavam em um ou outro produto, normalmente Magic ou Yugioh, quando muito possuindo cartas avulsas de no máximo dois card games e alguns boosters individuais referentes aos demais. Mas esta loja certamente se esforçava para ter uma variedade de produtos que poucas conseguiam.
Nada disso, contudo, conseguia tirar plenamente a atenção de Hélcias de uma outra coisa. Desde que entrara na loja, o de camiseta vermelha voltara a sentir a sensação incômoda de um mau presságio. Um arrepio lhe percorrendo a espinha. Fazia sentido, afinal. Se o que Héber dissera era verdade e aquela loja era um ponto de encontro de jogadores seria de se esperar essa reação de seu corpo. Olhando em volta, não havia ninguém na loja ainda, os atendentes provavelmente ainda no estoque, sem se darem conta da presença de cliente. Porém, ainda havia o segundo e terceiro andar. Assumindo que talvez fossem áreas de jogo, era bastante sensato imaginar que nelas ele viria a encontrar outros jogadores.
–Hey Héber – Perdido em meio aos próprios pensamentos, Hélcias ouviu uma voz familiar chamar pelo recém-conhecido. Virando-se em direção ao balcão mais à esquerda, pode ver por detrás dele um rosto familiar, claramente recém-saído da porta aos fundos, que se fechava com um movimento estridente – Ah! Hélcias! – Esídio acrescentou, com um sorriso, quando viu o mais jovem virar-se para ele.
–Ah, então vocês se conhecem? – Héber perguntou, aproximando-se de Esídio. Um aperto de mão serviu como cumprimento.
–Hum – Esídio respondeu, meneando um “sim” com a cabeça. A partir daí, seu sorriso casual deu lugar à sua costumeira expressão de seriedade – o Hélcias é um newbie que teve a Primeira Transição anteontem. Imaginei que pedir pra ele vir aqui seria de alguma ajuda...
–Só esqueceu de avisar que ia ter outros jogadores aqui, né? – Héber comentou, um sorriso brincalhão estampado no rosto – Eu encontro com ele no caminho e quase que faço o coitado sair correndo – Completou, dado uma leve risada.
–Bom, eu não pensei que fosse ter mais jogadores aqui hoje. Na verdade, vocês dois são os únicos que apareceram o dia todo – Desculpou-se Esídio – O que me faz pensar... Que raios você está fazendo aqui hoje, Héber? Seus pais te botaram pra fora de casa de novo? – A expressão séria mudara novamente, agora para um sorriso de zombaria.
–Sabia que você tem o dom de escolher as piores palavras pra descrever as coisas? – Perguntou Héber, em igual tom – A empregada ta limpando a casa. Era vir aqui ou acompanhar minha mãe no mercado, dai vim ver se tinha alguém aqui, mas pelo visto só tá você então.
Hélcias assistia toda aquela cena com certo desconforto. Era aquela típica sensação de que estava sobrando ali, tão típica de quando se é o único estranho em um grupo de conhecidos de longa data. Sua urgência maior era de se intrometer naquela conversa casual, perguntar de uma vez por que Esídio pedira para que ele fosse até ali e decidir se deveria ficar mais naquela loja ou não. Porém, ao mesmo tempo, sentia-se incapaz de simplesmente se meter em uma conversa entre dois amigos, fossem quais fossem as circunstâncias.
–Sim. O movimento fica baixo até à noite hoje, e ainda por cima to trabalhando sozinho – Esídio comentou, com uma expressão de tédio, quando seus olhos voltaram a olhar por sobre os ombros de Héber, vendo como Hélcias seguia apenas olhando a conversa dos dois – Hey Héber... – Esídio chamou, voltando a aparentar mais seriedade – Já que você apareceu, acha que pode dar uma ajuda pro Hélcias? Eu ia fazer isso, mas to sozinho no balcão hoje...
–Hehe, tranquilo – Héber se virou, encarando a Hélcias – Eu não tenho mais nada pra fazer mesmo – Sorrindo, caminhava na direção do novo conhecido, chegando perto o bastante para lhe tocar gentilmente o ombro – Não se preocupe que eu vo te explicar tudo o que você precisa saber para não parar numa cama de hospital respirando por aparelhos.
–Tente fazer isso sem matar o garoto de medo, sim? – Comentou Esídio, a expressão claramente indicando que reconsiderava se aquilo fora uma boa ideia.
–Haha, não se preocupe, eu prometo tomar bastante cuidado... ou não – Brincou Héber, enquanto pegava o pulso de Hélcias – Bom, vamos subindo então, er... Hélcias? – O outro meneou um sim com a cabeça, embora talvez ele próprio não soubesse se concordava apenas com o nome do qual era chamado ou com toda a proposta. Não que isso importasse para Héber – Ótimo, vamos lá então.
Se deixando levar, Hélcias subiu as escadas que ficavam logo depois da porta localizada na parede lateral. Uma vez no segundo andar, pode ver um espaço amplo, coberto com longas mesas dispostas de forma a criar um corredor central na sala. Cada mesa devia ter em torno de cinco cadeiras e no espaço inteiro deveria ser possível mais de cem pessoas jogarem ao mesmo tempo. Uma quantia que Hélcias não sabia dizer se era exagerada ou não.
Novo puxar de seu pulso tirou Hélcias do momento de contemplação daquele amplo espaço. Héber o puxou para a região mais ao fundo da loja, onde três largas janelas, agora abertas, deixavam entrar ar e luz em quantidades bastante confortáveis. Uma vez lá, Héber escolheu uma cadeira próxima ao corredor para sentar-se, indicando logo em seguida a cadeira à frente para Hélcias, que prontamente se deixou cair nela, levemente exausto da caminhada que fizera até ali.
–Bom... – Hélcias começou, prontamente. Não queria dar margem para qualquer tipo de silêncio constrangedor, e muito menos para assuntos que pudessem desviar o foco principal daquele encontro – O que você tem para me falar?
–Primeiro de tudo, vamos do começo – Disse Héber, deixando os braços se esticarem por sobre a mesa ampla – O que você sabe?
–Bom, eu sei o que o Esídio me contou ontem... – Hélcias começou, deixando então que as palavras fluíssem, contando o máximo que conseguia lembrar das informações dadas na tarde anterior. Era estranho falar aquelas coisas. Por mais que já não conseguisse negar tudo o que vinha ocorrendo como sendo um simples devaneio seu, ainda lhe custava acreditar que se quer metade das palavras que saiam de sua boca eram verdadeiras. Ainda assim, ele falou, finalizando tudo com um breve “e é isso”.
–Wow! – Exclamou Héber – Pelo visto Esídio já te deu bastante informação. Bom, ótimo pra mim – Acrescentou, sorrindo, zombeteiro – Só vou precisar dar algumas explicações das regras daquele mundo.
–Regras? – Perguntou Hélcias
–Ah sim, regras – Confirmou Héber, encarando ao jovem – Para ser breve, existem três grandes regras referentes àquele mundo. A primeira, e talvez mais relevante, é a de que você precisa ter um deck consigo. Tal e qual um W.O., se você entra naquele mundo sem um deck para usar, você automaticamente vai perder a partida. A segunda regra é a de que...
–Ei, ei, espera um pouco – Pediu Hélcias, vendo o quão rápido seu interlocutor planejava ir com aquela explicação – Você disse que sem deck é igual à derrota? Mas... Mas e se eu não tiver o deck daquele card game? E falando nisso, quais card games podem ser usados naquele mundo?
–Ah sim, é um ótimo ponto – Respondeu Héber – Bom, uma coisa de cada vez. Primeiro, a regra que eu dei é absoluta. Digamos que você foi desafiado para uma partida de Magic. Se você não tem um deck de Magic, ou tem, mas não está carregando ele quando é desafiado, se você entrar naquele mundo você será automaticamente derrotado. Esta é, inclusive, uma das grandes vantagens de ser aquele quem desafia: sendo você a criar o campo, você é quem decide qual card game será jogado.
–E quais podem ser jogados naquele mundo?
–Calma, eu já ia chegar lá – Héber estendeu a mão, como que pedindo paciência – Infelizmente, essa é a má noticia: até onde sabemos, qualquer card game pode ser jogado naquele mundo. Qualquer card game – Repetiu, enfatizando as palavras – Bom, mas é claro que isso não quer dizer muita coisa. A imensa maioria dos jogadores se prende àqueles que são os três maiores card games atualmente: Magic, Yugioh e Pokémon. Uma parcela um pouco menor, mas ainda relevante, ainda, tem montado decks de Vanguard. Mas é pouco provável que você encontre alguém usando algum deck para além desses quatro.
–Mas ainda é possível, não é? – Perguntou Hélcias. Aquela informação já começava a se tornar preocupante – E se acontecer, eu...
–Você vai perder, sim – Respondeu Héber, em um raro momento em que sua expressão assumiu maior seriedade – Mas hey, perder não é nada – Acrescentou, tentando tranquilizar o novato – Você deve se preocupar mais em não ficar sem pedras do que em perder, exatamente. O que, aliás, me leva à segunda regra que eu ia falar: existe um número máximo de pedras que podem ser apostadas em um jogo.
–Mesmo? – Hélcias perguntou, levemente surpreso com a afirmação – E qual é?
–Três – Respondeu Héber, levantando três dedos da mão direita – Por isso que a Fighters tem uma política de nunca tirar pedras de quem tem menos de quatro: se você tiver quatro pedras, mesmo que você perca uma partida na aposta máxima você ainda deve ficar bem.
–Mais ou menos, né? – Replicou Hélcias, nada convencido daquele método – Nada impede o oponente de te forçar a entrar em um campo novamente.
–Isso... não é exatamente verdade – Respondeu Héber, estalando os dedos – Veja bem, em primeiro lugar, se isso acontecer, logo que voltar ao nosso mundo você pode simplesmente desviar o olhar. Não esqueça: se os jogadores não se olharem olho a olho, ninguém pode criar um campo. Mas para além disso existe uma limitação do número de campos que uma pessoa pode criar.
–Existe? Como assim?
–Bom, veja bem, criar um campo consome bastante energia. Não é a toa que a maioria dos que sofrem a Primeira Transição chegam a desmaiar quando voltam – As imagens de acordar após o seu próprio desmaio cruzou a mente de Hélcias – Até onde sabemos, em um dia é totalmente seguro entrar em três campos, embora seja recomendado que eles tenham algum bom espaçamento entre eles. A partir de quatro ou cinco entradas, porém, você já vai começar a sentir uma fadiga que pode atrapalhar o desempenho no seu jogo. E bom, passando de sete entradas pode ser realmente perigoso.
–Perigoso? Em que sentido?
–Bom, atualmente o recorde de entradas seguidas em campos é de um russo. O cara entrou em doze campos, um atrás do outro, e tentou jogar em todos eles. Resultado: logo que voltou do décimo segundo o cara desmaiou e só foi acordar três dias depois.
–Três dias... – Hélcias repetiu, mais para si do que para seu interlocutor – Não, pera. Você disse russo? Isso... Também acontece na Russia?
–Em todo o mundo, na verdade – Comentou Héber, casualmente – Quer dizer, em todo o mundo que tenha card games, ao menos – Acrescentou, dando uma leve risada após o comentário.
–E há quanto tempo isso vem acontecendo? E em todo lugar é igual aqui, com as mesmas regras? Ah, e essas pedras? De onde elas vêm, afinal? – Toda uma torrente de perguntas ia se formando na mente de Hélcias. Surgiam uma após a outra. Algumas eram questões que ele vinha pensando desde a noite anterior, enquanto outras só apareciam agora.
–Hey, hey, hey, vai com calma – Disse Héber, levando ambas as mãos ao ar, como que pedindo para que o outro fosse mais devagar. Mantinha o sorriso alegre. Já havia auxiliado alguns iniciantes antes, e sabia que era quase inevitável o momento em que uma quantia enorme de perguntas surgia.
–O-ok... desculpe... – Respondeu Hélcias, dando um sorriso de embaraço – É que...
–São mesmo muitas perguntas – Completou Héber, a quem Hélcias meneou um sim com a cabeça – Tudo bem, eu entendo. Infelizmente, contudo, muito poucas tem alguma respostas, como você já sabe. Sua pergunta mesmo, sobre de onde vêm as pedras. Até onde sabemos, elas literalmente só aparecem. Eu vou chutar e dizer que você deve ter conseguido a sua achando o colar jogado no chão, em algum lugar aberto, não? Talvez tenha mostrado aos seus pais, procurado o dono original... Mas no final, viu que não pertencia a ninguém e simplesmente decidiu ficar pra você, não?
–Hum, mais ou menos – Hélcias respondeu, meneando uma afirmativa com a cabeça enquanto levava a mão ao pescoço, instintivamente tocado as pedras – Eu... Costumava viajar bastante. Um dia, desfazendo a mala da viagem, lá estava ela. Como não fazíamos ideia de onde ela tinha vindo, eu acabei ficando com o colar...
–Entendo. Bom, isso só mostra o que quero dizer: essas pedras simplesmente surgem do nada, até onde sabemos. Um dia, uma pessoa está andando e nota ela. O resto dá pra imaginar – Héber fez uma pausa no discurso, deixando a informação assentar antes de continuar – Quanto às suas outras perguntas: primeiro, sim, em todo o mundo as regras são exatamente as mesmas, bem como os riscos e os prêmios. Finalmente, sabemos que esse fenômeno, que normalmente chamamos apenas de Jogo, vem ocorrendo há pelo menos quatro anos no Brasil, mas ao redor do mundo é como o Esídio já te disse, vem acontecendo há mais de uma década.
–Como sabe de tudo isso? – Essa era uma pergunta que realmente incomodava Hélcias. De onde surgiam todas aquelas informações e teorias? – Com outros jogadores? E, de qualquer forma, quantos jogadores existem, afinal de contas?
–Nós não temos realmente um número preciso, nem no mundo, nem para o Brasil – Respondeu Héber, a expressão claramente demonstrando o desconforto que a falta de respostas causava – Mas não são tantos. Só para você ter uma ideia, olhe a Fighters. Apesar de alguns torneios fazerem esse lugar ficar lotado, ainda assim se tiver dez jogadores é muito. Claro, aqui só vem quem quer se divertir. Na cidade em si deve haver mais algumas dezenas, espalhados por ai. Mas ainda é um número bastante reduzido, estatisticamente falando.
–Entendo... – Hélcias disse, deixando a informação assentar-se em si. O olhar perdido no cenário da cidade que se via pela janela. Deu um suspiro profundo – Ok. E quanto a conseguir essas informações? Não só sobre jogadores do mundo inteiro, mas também sobre as teorias a respeito do funcionamento daquele mundo e tals. Como conseguem isso?
–Bom... A verdade é que a comunidade de jogadores, de modo geral, é relativamente unida – Comentou Héber, voltando a expressar um sorriso – Claro, cada um tem seus próprios desejos e objetivos. Mas também estamos todos no mesmo barco, numa situação nada convencional e com muito a arriscar. Então acabamos nos ajudando. Compartilhar informações e teorias que possam ajudar faz parte.
–Unida é... – As lembranças das atitudes de Duo, bem como da tensão que se lembrava de presenciar entre este e Esídio tornava difícil para Hélcias acreditar nessas palavras – É complicado acreditar nisso quando se tem gente como o Duo por ai... – Disse, mais para si do que para o interlocutor.
–Duo? Você... Conheceu ele? – Héber perguntou, com um leve tom de apreensão. Conforme Hélcias lhe explicava que foram com Duo que tivera sua primeira partida, a expressão de Héber passava de uma leve confusão para uma de seriedade e, depois, leve melancolia – Entendo... Então ele realmente começou a ir atrás de novatos – Disse, mais para si, dando um profundo suspiro logo em seguida – Bom, algumas pessoas são assim. A grande maioria dos jogadores realmente usa daquele mundo mais para diversão. Mas algumas pessoas têm... Um desejo. Algo que realmente as levam a extremos e que as motiva a lutar, não importa as consequências...
–E o Duo seria uma dessas pessoas? – Perguntou Hélcias, um tanto quanto desconfortável com aquela justificativa – Alguém com um desejo tão forte, que está disposto a sacrificar o que for necessário? Hunf... Pra mim isso parece puro egoísmo.
–É fácil falar assim, e você tem todo o direito de estar irritado com ele – Comentou Héber, não sem certo pesar – Em certo sentido, inclusive, você tem razão: é egoísmo. Mas também... É difícil dizer se qualquer um não faria o mesmo.
–Como assim? – Perguntou Hélcias, levemente irritado com a insinuação.
–Quero dizer... Eu estou bem de vida – Começou Héber – Tenho uma boa família, uma boa casa, amigos, hobbys, e imagino que a sua situação não seja muito diferente. É claro, podemos ter momentos de tristeza, raiva, angustia... Mas a verdade é que são bem poucas as pessoas que conhecem o verdadeiro desespero. A verdadeira dor e tristeza são para poucos – Fez uma pausa, deixando o discurso pairar no ar. Pela expressão, parecia claramente difícil para ele falar daquilo – Bom, meu ponto é: se você não tem nada a perder e ganha a chance de um milagre, não se agarraria a essa chance com tudo o que tivesse?
–Não – Hélcias abaixou a cabeça. A resposta lhe saíra quase que automaticamente – Se o meu desejo vai levar ao sofrimento de outros... – Seus punhos se fecharam com força, e por um leve momento sentiu os dentes trincarem de leve e o rosto corar-se. Estava claramente transtornado – Então... Eu não mereço realiza-lo – Completou, erguendo os olhos na direção de Héber, que chegou a pensar ter visto estes levemente molhados.
Por alguns segundos, um silêncio desconfortável se instalou no ar. Héber estava claramente surpreso por ver como Hélcias respondia a uma pergunta daquelas de forma tão rápida. Ao mesmo tempo, algo em si o deixava feliz de ouvir aquela resposta. Muitas vezes, as respostas dadas àquela pergunta variavam entre “claro que faria todo o possível” a “bom, se uma situação assim chegar eu vou descobrir, eu acho...”. Uma negativa tão rápida e direta acabava por ser algo raro naquele tipo de cenário.
–Hum... Entendo – Héber desviou o olhar. Embora ainda sustentasse uma expressão melancólica, agora tinha também um leve sorriso – É... Uma boa resposta.
Um novo silêncio se espalhou pelo aposento. Com Héber de cabeça baixa, Hélcias apenas deixava o olhar pousar-se no exterior que a janela mostrava. Nisso, algo lhe chamou a atenção. Estava bastante distante, mas a coluna de fumaça que subia além dos prédios e casas era bastante clara. Pela direção e distância, estimou que deveria estar vindo de algum lugar próximo à principal avenida comercial da cidade. Um incêndio, talvez? Algum acidente? Bom, não que importasse. Fosse o que fosse, os jornais provavelmente noticiariam logo. Agora tinha assuntos mais urgentes a tratar. Tornou a respirar fundo.
–Ei, Héber – Começou, chamando a atenção do interlocutor, que voltara a erguer a cabeça – Você me disse, no começo, que havia três leis importantes para aquele mundo. A primeira é a derrota pela falta de deck, enquanto que a segunda é o limite de três pedras por aposta, certo? – Héber meneou um sim com a cabeça – E a terceira?
–Há sim, eu já estava esquecendo – Ele disse, retomando logo a expressão mais animada. O sorriso voltando ao rosto – Tem razão, é melhor tratarmos disso logo.
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