The Game
7 Parte 1 - Capítulo 6 - Resoluções a se Fazer e a se Cumprir.
Hélcias estava em seu quarto, deitado em sua cama. As luzes apagadas. Olhando o relógio digital em sua cômoda, os quatro zeros indicavam a recém-chegada meia noite. Como era costume, estava sozinho. E, neste momento de calma da noite, todo o pesar das palavras que ouvira naquele dia lhe martelava na mente. “Se você acabar ficando sem pedras, vai entrar em coma”, era a frase que lhe reverberava na consciência. A conversa que teve com Esídio se repetindo em sua mente, palavra por palavra.
–Em... C-coma? – Ele perguntou. Sua expressão era de espanto e terror – C-como assim? Por quê? Isso não... Não faz nenhum sentido.
–Não é como se tivéssemos certeza do motivo – Foi a resposta nada reconfortante que Esídio lhe havia dado – Mas considerando o que sabemos, existe uma teoria. Segundo ela, uma vez colocada uma pedra pela primeira vez ela cria uma espécie de... Conexão, com a alma do usuário. Segundo essa teoria, uma vez que você perde sua pedra em um jogo é como se você perdesse sua própria alma: seu corpo se torna simplesmente uma casca vazia, que, então, cai em coma.
Alma. Naquela hora ele não se preocupara em pensar nisso, mas agora esse lampejo lhe vinha à mente. Aceitar aquela explicação era aceitar a própria existência de algo que se pudesse chamar de alma. Mais do que isso, era aceitar que esta dita alma era o que animava o corpo e, uma vez esta removida, o corpo caia como uma marionete cujas cordas haviam sido cortadas. Algo que, para alguém que havia renegado a possibilidade de algo tão vago quanto a alma pudesse existir há tempos, era difícil de aceitar. Claro, Esídio chamar à sua própria explicação de uma mera “teoria” também não era lá muito convincente.
O restante da conversa não foi mais reconfortante. Como aquela pedra podia se ligar à sua alma? Havia algum meio de desfazer a ligação e garantir a segurança de quem a possuía? E, afinal de contas, quem havia criado aquelas pedras? Não: quem havia criado todo aquele jogo insano? E por quê? O número de perguntas para as quais a resposta foi um desconcertante “não sei” chegava a ser absurdo. Ainda mais quando Esídio lhe contou há quanto tempo se registra o desenvolver daquela insanidade: quase uma década! Como era possível que tantas perguntas fundamentais continuassem sem resposta?!
–Por que jogar, então? – Hélcias perguntou, confuso com toda aquela situação que lhe havia sido exposta – Você aposta sua vida, sua sanidade... Se as pessoas ainda estão dispostas a jogar, deve haver algum tipo de recompensa, não?
–De fato, existe – Confirmou Esídio, a voz calma, como sempre – Se um Jogador for capaz de reunir treze pedras, ele ganhará direito a um desejo. Absolutamente tudo o que se puder imaginar, essa é a recompensa final do jogo.
Chegava a ser irônico que a única coisa que Hélcias podia pensar em desejar, agora, era o fim daquele jogo insano. Não que estivesse plenamente satisfeito com sua vida. Mas também, que ser humano realmente está? Tinha, sim, arrependimentos do passado e desejos para o futuro. Contudo, não conseguia pensar em uma só coisa pela qual estava disposto a arriscar a própria vida. Tudo o que queria era acordar daquele pesadelo o quanto antes.
–Aqui – Tirando do bolso, Esídio entregara a Hélcias o mesmo tipo de cartão do dia anterior. O logotipo da loja, Fighters, grafado em letras estilizadas – Eu sei que você ainda deve ter muitas perguntas, mas essa conversa já durou bastante. O básico você já conhece e isso por si só já é muita coisa para assimilar. Vá para casa e descanse um pouco. Amanhã, por favor, venha até esse endereço.
Agora, deitando em sua cama, pegava o cartão, que desta vez havia colocado sobre o criado mudo. Pensava no que deveria fazer. A escolha mais obvia seria levantar na manhã seguinte e correr para a loja, na esperança de que Esídio lhe pudesse fornecer maiores informações. Mas seria esta a mais sensata? Nunca visitara aquela parte da cidade antes. Não que tivesse ouvido algo de particularmente ruim sobre ela, mas ainda assim, era um território desconhecido para o qual ele não estaria indo dar um mero passeio.
Além disso, supondo que tudo aquilo que Esídio lhe contara fosse verdade, poderia mesmo confiar nele? Não era ele, também, um Jogador? Não teria ele, também, a pretensão de reunir as treze pedras necessárias? Sendo assim, não era Hélcias uma... Presa fácil? Não. Isso era besteira. Esídio o salvara de Duo! Além disso, se tivesse a intenção de duelar com ele poderia tê-lo feito em qualquer momento da conversa que tiveram. Não havia qualquer lógica em desconfiar dele. Mesmo assim... Ele não era o único, certo? Havia outros jogadores, muitos dos quais poderiam querer se aproveitar de um novato. Era mesmo seguro sair de casa? Se expor daquela forma?
–Isto é só mais uma desculpa, não é? Para fugir...
Hélcias fechou os olhos. Deitado em sua cama, só queria dormir agora. Era demais para ele. Precisava de descanso. Deixar a mente vagar em meio aos medos e incertezas nunca lhe fez bem. Muito pelo contrário: foi sua covardia em enfrentar aos próprios medos que levou... Àquilo. Não podia deixar que isso continuasse. Mais uma vez abriu a gaveta de seu criado mudo, e mais uma vez sorveu a alguns comprimidos a seco. Eram paliativos. Verdadeiras alavancas de emergência, aos quais só deveria recorrer em casos extremos. Infelizmente, “extremo” bem definia sua situação. Logo mais estaria dormindo, afinal. Porém, antes disso, fez sua resolução.
–/-/-/-
A rua era aquela. Mais alguns quarteirões e Hélcias chegaria à loja. Ou, ao menos, era o que o Google Maps lhe havia informado mais cedo naquele dia. Com o mapa em mãos, seguia em frente por aquela que parecia ser uma vizinhança surpreendentemente calma. Haviam alguns pontos de comércio aqui ou ali, pequenos mercadinhos e bares que certamente só sobreviviam pelos clientes locais. Contudo, de ambos os lados da rua o que predominava eram casas, com um ou outro prédio de apartamentos se erguendo do solo de quando em vez.
Na esquina, conferiu mais uma vez o mapa. O nome das ruas deste com as placas que via bem acima de sua cabeça. Estava no caminho certo, de fato. E foi então que ele sentiu algo. Um frio lhe percorreu a espinha. Um mau presságio. Podia sentir a ansiedade crescendo. O estômago se revirando. Diante daquilo, sua mente foi imediatamente levada ao dia anterior, quando estava para se despedir de Esídio, com cada um indo para um lado.
–Ah, Hélcias – Aquele chamara, já do lado de fora do bar – Uma ultima coisa. Fique atento aos sinais do seu próprio corpo. Normalmente você vai sentir a aproximação de outro jogador. Um frio na espinha, um formigar no peito, uma sensação de mal estar... Quando dois jogadores estão próximos estas sensações aparecem de repente e só desaparecem quando ambos estabelecem contato visual. Por isso... – Fez uma pausa. A expressão séria se certificando de que Hélcias prestava atenção – Se sentir qualquer coisa que for, abaixe a cabeça e não olhe para ninguém.
E era este conselho que ele agora obedecia. Baixando a cabeça, pensou naqueles que estavam à sua volta. Como era uma área residencial, havia pouquíssimas pessoas na rua. A maioria estava sentada na soleira da própria porta, observando o passar dos carros e pedestres ou conversando com algum vizinho sobre a vida de algum terceiro. Além disso, sendo um dia de semana pela manhã os poucos bares e restaurantes nas redondezas estavam quase vazios.
Apertando o passo, o nervosismo de Hélcias apenas aumentava. Não sabia dizer se estava se afastando do outro Jogador ou se estava justamente indo de encontro a ele. Fosse como fosse, sua melhor alternativa agora era percorrer os últimos quarteirões que faltavam e buscar abrigo na tal loja de card games o quanto antes. Talvez, se realmente encontrasse com Esídio por lá, este poderia lhe ajudar. Fosse como fosse, precisava ser rápido. Contudo, caminhar a passos largos olhando fixamente para o chão não poderia dar bons resultados. Infelizmente, Hélcias só o descobriu quando sentiu seu próprio corpo bater nas costas de outrem.
–Ah! M-me desculpe
Hélcias disse, erguendo o olhar para ver em quem havia batido. Era um adolescente, possivelmente da sua idade. Tinha a tez morena e os cabelos escuros. Quando este se virou para encarar aquele que batera em si, os olhos castanhos encontraram com os de Hélcias. E, por um segundo, ambos ficaram em silêncio. Olhando nos olhos daquele garoto de camiseta branca e bermuda azul, a sensação de mal estar que atingia Hélcias até então foi completamente eliminada. Em seu lugar, restara apenas uma sensação de pânico crescente. Diretamente na sua frente estava o outro jogador que sentira.
–Tudo bem – A resposta, acompanhada de um sorriso gentil, surpreenderam Hélcias – Só tenha um pouco mais de cuidado. Desta vez você bateu em mim. Na próxima, pode ser um poste ou uma árvore – Ele acrescentou. Um sorriso brincalhão se formando em seus lábios.
–Ce... Certo – Hélcias disse, meneando um sim com a cabeça. Aquela certamente não era a reação que ele esperava. Prestando mais atenção, não havia qualquer dúvida de que a pessoa à sua frente era outro jogador: pendurado em seu pescoço, um colar exibia seis pedras de ágata vermelha, idênticas as três do colar de Hélcias. Será que o jovem à sua frente não havia sentido sua presença? Ou notado seu próprio colar de pedras?
–Bom, em todo caso... Faz tempo que eu não vejo gente nova por aqui. Ta indo pra Fighters, certo? – O jovem perguntou, mantendo o sorriso bem humorado.
–Eh?! B-bem eu... – Hélcias ficou sem reação diante de uma pergunta dessas, sem saber bem o que deveria responder.
–Eh? Qual o problema? – O adolescente perguntou, confuso diante da apreensão de Hélcias – Você é um Jogador também, não é? Se está procurando gente pra jogar, a Fighters é a única loja aqui perto...
–J-jogador? Eu... B-bem... É... – Aquela conversa não estava indo para rumos agradáveis. Hélcias podia sentir seu coração acelerando conforme dava alguns passos para trás, sem mal perceber. Sabia que de nada adiantava negar que era um Jogador, mas ao mesmo tempo não conseguia se forçar a dizer que era um.
–Ei, você ta bem? – Seu interlocutor deu um passo em sua direção, aparentemente preocupado – Você parece pálido. Como se estivesse assusta... – De repente, seus olhos se arregalaram. A boca deixou o queixo cair conforme ele compreendia a situação – Não, espera. Você acha que eu... – Sem terminar a frase, a expressão do jovem rapidamente passou de surpresa para um riso contido.
–Eh? – Hélcias não sabia como reagir diante daquela situação. Um sorriso tenso se formou em seu próprio lábio, involuntariamente, enquanto via o novo conhecido se recompor, recuperando a expressão bem humorada.
–Cara, relaxa. Eu não vou jogar com você se você não quiser – Ele disse, para logo depois estender a mão ao outro – Meu nome é Héber. E o seu, qual é?
–É... Hélcias – Ele respondeu, aceitando o cumprimento e apertando a mão de Héber.
–Prazer Hélcias – Replicou, desfazendo o aperto de mão – Você é mesmo novo por aqui, não é? – Repetiu, enfatizando o “mesmo” – A Fighters é um lugar onde o pessoal se reúne pra jogar forfun. Só participa dos jogos quem quer e, acima de tudo, ninguém se arrisca de verdade. Não precisa se preocupar: enquanto estiver na região, pode apostar que está seguro.
–Jogar... forfun? – Hélcias perguntou. Estava se sentindo um pouco mais calmo, mas a recente declaração de Héber o deixara agora confuso – Por que alguém jogaria isso por diversão? D-digo, sem querer ofender, mas... – Não completou a frase, sem saber bem o que mais acrescentar.
–Bom, e porque não jogar por diversão? – Héber respondeu, sorridente – Se você parar pra pensar, dentro de um campo é exatamente como nos animes, com as cartas ganhando vida e os monstros aparecendo e tals. Quero dizer, quem é que nunca sonhou em jogar esses jogos dessa forma?
No meio tempo em que conversavam ambos se puseram a caminhar em direção à loja. Pensando no que Héber dizia, Hélcias não podia deixar de lembrar de quando era menor e assistia aos animes pela televisão. Certamente não havia uma só criança que houvesse acompanhado animes como Yugioh e que não desejasse que sistemas como a solid vision, mencionado no anime, fossem reais. Contudo, havia uma enorme distância entre as pueris fantasias infantis e a assustadora realidade que é ver personagens que só deveriam existir em cartas surgirem bem na sua frente.
–Bom, isso faz sentido – Hélcias admitiu, um tanto quanto a contragosto – Mas mesmo assim. Se você ficar sem pedras você... – Não conseguia se forçar a dizer o resultado – Seja como for é uma brincadeira perigosa demais, você não acha?
–Honestamente, não me parece mais perigoso do que, sei lá, Skate ou Alpinismo – Declarou Héber, assumindo uma expressão levemente mais séria do que a de até então – Jogamos sempre com certos limites de segurança. Eles são infalíveis? Não, é verdade. Mas ainda estão lá e tem se mostrado eficientes.
–E que tipo de proteções vocês usam?
–Ah, tem várias – Replicou Héber, que então procurou em sua memória algumas das regras não escritas que imperavam na loja para a qual se dirigiam – Por exemplo, é proibido que alguém que tenha apenas uma pedra jogue. Além disso, só é permitido apostar uma pedra por partida. Ou, ainda, se você jogar contra alguém que tenha quatro ou menos pedras e acabar vencendo, você deve devolver a pedra ganha.
–Devolver? – Perguntou Hélcias, confuso – Eu pensei que as pedras só podiam ser ganhas ou perdidas em duelos.
–E é isso mesmo – Respondeu Héber, que não conteve uma leve risada – Quando eu digo “devolver” eu quero dizer: entrar em um novo jogo com o antigo dono daquela pedra e declarar desistência. Desta forma, a pedra volta ao dono original.
Hélcias não podia negar que o sistema era engenhoso. Desta forma, o jogo se tornava aparentemente seguro e não muito diferente daquilo que era exibido nos desenhos animados. Vendo por este lado, era até possível entender o apelativo que o jogo tinha em meio aos jogadores. Contudo, ainda havia um grave problema.
–Ta, mas mesmo assim – Começou Hélcias – Nada impede alguém de simplesmente ignorar as regras e, sei lá, acabar causando uma tragédia...
–Bom, se você chama uma loja inteira cheia de pessoas que ficariam muito putas com quem quer que faça isso de “nada”... – Héber respondeu, o sorriso brincalhão estampado no rosto – Acredite, nossa situação ali é bastante segura. Qualquer um que acabasse causando alguma tragédia certamente não sairia de lá impune, disso você pode ter certeza.
–Hum... Bom, mas ainda assim eu...
–Ah! – A interjeição de Héber cortou a frase de Hélcias no meio. O jovem parou, o corpo voltando-se para a esquerda. À sua frente agora ficava uma pequena construção de apenas três andares, fachada azul e cerrada por duas portas de vidro espelhado. Olhando para cima, Hélcias pode distinguir um nome em letras estilizadas: Fighters! – Chegamos.
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