The Game

6 Parte 1 - Capítulo 5 - Explicações e Exposições


Em uma nova xícara de café, Hélcias podia ver seu reflexo o encarando. Os olhos vazios, pesados. O corpo se recompusera. Sentado na cadeira, em silêncio, sentia seus músculos voltando a ganhar alguma força. Uma sensação de cansaço bastante similar ao que sentira no dia anterior ainda lhe atingia o corpo, ainda que mais fraca. Porém, seus pensamentos estavam bastante distantes daquele cansaço físico.

Sentado à sua frente, ainda na mesma mesa ao fundo do bar, Esídio igualmente observava sua xícara. Desde que o amparara e o ajudara a caminhar de volta à mesa, onde teriam maior privacidade para conversar, Esídio não dissera uma palavra. Não que Hélcias tivesse qualquer certeza de que as queria ouvir. Em fato, ainda se questionava porque não se levantara e saíra correndo, antes que algo mais acontecesse. Talvez fosse a exaustão física. Ele certamente não sentia que poderia correr agora.

Talvez, contudo, fosse aquele mínimo de curiosidade, tão típico aos humanos, que é capaz de se sobrepor até mesmo ao medo. Aquela vontade de compreender. De reconhecer a realidade tal como a é, pouco importando os riscos que se correria com isso. Fosse como fosse, era inútil pensar nisso agora. O fato é que algo em si, curiosidade, instinto, preguiça, o que fosse, dizia que ele queria... Não, que ele precisava ouvir aquela história até o fim. O que já estava se tornando frustrante, dado que ambos passaram os últimos quinze minutos encarando as xícaras de café, das quais sorviam pequenos goles.

–Então... – Foi Hélcias quem finalmente quebrou o silêncio. A voz fraca e o olhar caído ainda encarando a xícara – Não... tem mais nada a dizer?

–Eu... Não sei muito bem por onde começar – Era mentira. Esídio sabia muito bem o que precisava ser dito. Mas também sabia que precisava dar ao mais jovem o espaço e o tempo adequados para que este assimilasse por completo o que acabara de acontecer. Conseguira, com uma aposta mais do que desesperada, a atenção de Hélcias, mas nem por isso deveria ser menos cuidadoso ou mais apressado – Acho que... só estou esperando você me perguntar o que gostaria de saber... – Acrescentou. O olhar baixo.

–O que eu gostaria de saber... – A resposta de Esídio arrancou um pequeno sorriso dos lábios de Hélcias. Não que visse qualquer grassa naquilo. Não. Foi apenas uma reação involuntária, causada pelo próprio absurdo da situação – No que me cabe eu nem mesmo entendo o que eu não entendo – Hélcias respirou fundo, soltando um suspiro de resignação – Tudo bem. Vamos... vamos do começo. O que acabou de acontecer, ainda há pouco?

–Certo – Era um bom começo, de fato, e um esperado. Respirando fundo, Esídio procurou as palavras certas para explicar o ocorrido – Você passou por algo que chamamos de Transição: a passagem deste mundo para aquele outro.

–Aquele outro... – Hélcias repetiu. Muitas novas perguntas iam surgindo em sua mente, mas precisava ir com calma. Acabou optando por perguntar aquilo que parecia mais adequado – O que é aquele outro mundo, afinal?

–Como eu havia dito, aquilo é o que nós chamamos de Campo. Trata-se de um... Espaço fora do espaço. É certamente uma dimensão paralela e nada do que acontece nela afeta ao nosso mundo. Além disso, aquele mundo tem uma contagem de tempo diferente do nosso. Você poderia passar anos ali dentro e não se passaria nem mesmo um milésimo de milésimo de segundo no nosso mundo.

–Hum... – Hélcias não sabia se acreditava realmente nas informações que estava recebendo, mas por hora isso não importava. Para todos os efeitos, eram as única que ele possuía, então teria de aceita-las, ao menos por hora – E como... como nós entramos naquele mundo? O que causa essa... Transição?

–Isso... Não está ainda muito bem explicado – Esídio admitiu. Era problemático, porém ainda que estivesse muito bem consciente dos efeitos ainda havia muitas causas sem qualquer explicação – Acreditamos que isso tenha relação com nossas mentes. O mais provável é que, de alguma forma que ainda não está muito clara, nossas consciências se desprendem de nossos corpos e vão para aquele mundo. Tudo isso é feito a uma velocidade praticamente instantânea e mesmo os jogadores não sentem praticamente nada durante a transição, então fica difícil achar explicações mais detalhadas.

–Entendo... – Novo suspiro. Era muita informação para ser assimilada de uma só vez, mas ainda haviam muitas coisas por se explicar – Você me disse que ontem, lá na loja, eu e o Duo fomos levados a um Campo, certo? – Pela primeira vez, Hélcias levantou o olhar, a fim de observar o menear de consentimento que Esídio fizera com a cabeça – Entendo... Bom, mas se é assim, porque ontem foi tão diferente? Ontem, eu ainda estava na sala, o jogo inteiro.

Esídio respirou fundo. Aquela era outra das perguntas para as quais a melhor das respostas se basearia no “acredita-se que...”. Sempre achava frustrante esse tipo de conversa, quando se lembrava o quão pouco ainda sabiam daquela situação, embora esta já estivesse ocorrendo há anos.

–Sabe... Tem... Uma anedota interessante, que pode explicar um pouco a situação – Esídio disse, pausadamente, escolhendo as palavras que usaria – Não se sabe se é verdade ou não, mas dizem que quando as primeiras caravelas estavam se aproximando da América, algo estranho ocorreu com os indígenas que viviam perto do mar: apesar de verem claramente o ondular do mar e das caravelas estarem a uma distância da qual seriam perceptíveis mesmo a olho nu, nem um indígena se quer foi capaz de ver as caravelas antes dos primeiros europeus chegarem à costa.

–E...?

–Veja bem. A lição que essa anedota nos passa é a de que só podemos ver aquilo que estamos preparados para ver. Uma população que nunca tomara conhecimento da existência de grandes embarcações, que não era nem mesmo capaz de concebê-las como uma possibilidade ou mesmo uma fantasia... Não foram capazes de vê-las.

–Então... Eu não consegui ver o Campo de imediato... porque eu não era capaz nem mesmo de pensar que algo assim poderia existir, é isso? – Hélcias perguntou, tentando juntar as pontas soltas – E fui capaz de ver agora por causa do que aconteceu ontem e... – Seus olhos se arregalaram ao compreender o que estava prestes a dizer – E porque você me falou deles, bem antes de fazermos a Transição.

–Exato – Esídio respondeu, sério – A negação daquilo que não se compreende é um mecanismo de defesa fundamental da mente. É o que, muitas vezes, nos ajuda a manter a sanidade. Como sua mente não era capaz de conceber a existência de um Campo, ela se negou a reconhecê-lo como tal de imediato. O resultado é que pareceu que você nunca deixou a loja. Este é o efeito do que chamamos de Primeira Transição, quando a mente luta para tentar compreender e assimilar a nova realidade ao mesmo tempo em que se nega a deixar a anterior. É um dos principais argumentos que sustentam a teoria de que é de fato apenas nossa mente que vai para aquele outro mundo.

–Como assim? – Perguntou Hélcias, cada vez mais confuso com aquela conversa. O café já esfriara, mas ele só o percebeu quando levou a xícara à boca mais uma vez, para então fazer uma expressão de descontento diante do líquido frio.

–Bom, no começo, havia duas teorias sobre o que acontecia durante a Transição – Esídio começou – A primeira – Disse, estendendo um dedo de sua mão – dizia que o Jogador era levado na íntegra até aquele outro mundo. Isto é, que íamos para lá de mente e corpo, como se teletransportados. Já a segunda – Estendeu outro dedo – Dizia que apenas nossas mentes iam para aquele mundo. Infelizmente, a Primeira Transição se mostrou um grave problema para essa primeira teoria.

–Por quê?

–O corpo humano é basicamente uma antena. Nossos sentidos captam os sinais que o mundo externo nos envia. Nossa visão, tato, olfato... Tudo isso envia constantes sinais para o cérebro, que então os interpreta e nos apresenta o que nós chamamos de Realidade: aquilo que podemos ver, sentir ou tocar de alguma forma – Fez uma breve pausa, deixando a informação se assentar – O grande problema é: se fossemos levados com nossos corpos para aquele outro mundo, como é possível que a Primeira Transição existisse?

–Como assim? – Hélcias não fazia ideia se estava entendendo completamente o que estava sendo dito, mas queria ver até onde aquela explicação iria.

–Não importa o seu estado de negação, você tem uma série de estímulos atrás de estímulos, visuais, auditivos, sonoros, táteis – Esídio declarou – Você mudaria da posição de sentado para uma em pé e isso é o mínimo de mudanças que nossos corpos sentiriam e que nossos cérebros teriam de processar.

–Então... – Hélcias interrompeu, pensando entender onde aquela linha de raciocínio estava indo – A única forma de resolver o problema que a nossa presença física naquele mundo traria... É encarar que nós não estamos lá fisicamente falando.

–Exato – Esídio disse. Um leve sorriso se formando em seus lábios. Afinal, o garoto parecia compreender as coisas bem rápido.

–Tá – Disse Hélcias, como se esta interjeição ajudasse a ordenar a confusa quantia de novas informações que recebia – Por que nós? Por que eu? Por que eu consigo entrar naquele outro mundo?

–E resposta para isso são as pedras no seu pescoço – Disse Esídio. O olhar apontando para o colar de Hélcias – Uma vez que você coloca uma destas, você ganha acesso àquele mundo. Como isso funciona ou porque é assim nós ainda não sabemos.

–Então você...

Hélcias não precisou terminar a pergunta. Esídio levantou o braço, mostrando o pulso ao mais novo. Mentalmente chamando a si próprio de imbecil, por não ter notado o adereço no pulso de Esídio antes, agora Hélcias podia ver: uma pulseira, à qual se prendiam ao menos sete pedras de ágata vermelha, iguais àquelas que estavam agora em seu pescoço.

–Mas a explicação é mais complicada do que só isso – Esídio acrescentou – Para começar, somente ganha acesso àquele mundo a primeira pessoa que colocar a pedra pela primeira vez. Ou seja, se você fosse agora retirar uma de suas pedras e entregar a outra pessoa, ainda que seja a primeira vez daquela pessoa usando uma destas, ela ainda não ganhará o acesso ao Campo, dado que a pedra já fora previamente colocada.

–Mas eu perderia meu acesso? – Perguntou Hélcias, confuso com a nova informação – Não digo dar a alguém, mas se minha pedra desaparecer, sei lá, se eu jogá-la no primeiro bueiro, eu paro de poder entrar naquele mundo?

–Não – Declarou Esídio. Era uma pergunta que todos fazia, cedo ou tarde – E não apenas você não para de entrar naquele mundo, como na próxima vez em que você entrar todas as suas pedras reaparecerão no seu pescoço. O mesmo é válido para se você dar a sua pedra a alguém: assim que você entrar em um Campo, ela voltará para você. A única forma real de se livrar de uma pedra é perdendo um duelo.

–Então... Se eu perder meus duelos e ficar sem pedras, eu perco o acesso àquele mundo, é isso? – Ainda havia uma resga de esperança na voz de Hélcias, esperança de que ainda poderia abandonar aquele jogo insano e ver as coisas voltarem ao normal.

–Isso... Não seria uma boa ideia – Declarou Esídio, sem saber de que forma poderia tocar naquele tópico sem assustar ao seu interlocutor – A derrota pode ser bastante desastrosa.

–Desastrosa? – Um frio percorreu a espinha de Hélcias – C-como assim? O Duo perdeu. Você mesmo se rendeu agora há pouco. E vocês dois me parecem muito bem!

–É... Diferente – Respondeu, claramente apreensivo de tratar daquele tema – Enquanto você tiver pedras, a derrota não é realmente um problema. O Jogador não sofre qualquer tipo de penalidade ou de desgraça. O problema, contudo, é se, como consequência da derrota, você acabar ficando sem nenhuma pedra.

–E o que... Acontece? – Hélcias estava claramente ficando assustado. Podia sentir os batimentos se acelerarem com a expectativa da resposta – O que... Acontece comigo? Se eu perder todas as minhas pedras?

Houve um breve silêncio depois desta pergunta. A tensão crescendo no ar.

–Se você acabar ficando sem pedras... – Começou Esídio, que levara o olhar diretamente para Hélcias. Um olhar sério, mas também apreensivo. Bem podia imaginar que impacto teria aquilo que estava para falar – Você... Vai entrar em coma.