The Fog Fall
1 The Fall
Era um sonho muito agradável. Tinha um belo jardim, mas não era muita coisa. O ar puro, a grama verde. E de repente tudo isso se transformou em um borrão, quando sentiu o colarinho de seu pijama ser puxado bruscamente para cima. Despertou na madrugada, sendo jogado para fora de sua cama. Alguém lhe conduzia a passos rápidos pelo corredor da casa. Estava desnorteado, ouvia sirenes, gritos. Tiros.
Quem lhe puxava, era seu pai, pode ver assim que conseguiu se nortear. A força que o homem fazia era demais para qualquer tipo de resistência, por isso, acabou deixando seu corpo levar. Saíram para o quintal da casa. Uma névoa cobria tudo, somado a um vento forte e gelado. O que estaria acontecendo?
O pai abriu um alçapão que se localizava no quintal, e começou a descer as escadas. Só havia um motivo de eles estarem descendo essas escadas. O que estaria acontecendo? O rapaz não conseguiu se equilibrar mais, e tombou para o lado. Os botões do pijama arrebentaram e a blusa se soltou, tirando o apoio que tinha nas mãos do pai. Seu corpo se jogou para frente, batendo em baques surdos pelos degraus até encontrar o último. Tentou se levantar, mas estava zonzo. A última coisa que viu, foi a escuridão de quando o alçapão foi fechado. E desde aí, apagou.
Acordou sobressaltado. Sua cabeça rodava. Seu corpo doía. Uma luz tremulante vinha do corredor, e pode ver que estava no quarto do abrigo. Alguma coisa fincava em seu braço. Levou-o à altura dos olhos e pode ver uma agulha, ligada a um tubo e a uma bolsa de soro vazia. Sentia-se fraco ainda para se levantar. O que havia acontecido? O que estava fazendo no abrigo?
A casa a qual se mudara há dois meses fora comprada justamente por ter um grande e seguro abrigo subterrâneo. Praticamente uma casa debaixo da terra. Era o único daquela pequena cidade daquele porte. Acreditava-se que antigamente, ali havia sido uma base militar.
Respirou fundo e se sentou. Olhou para os lados. O quarto estava na penumbra. Silêncio. Tirou cuidadosamente a agulha que lhe fincava, e a jogou em um canto, usando a coberta para estancar o sangramento. Tentou acender o abajur que ficava no criado mudo. Não conseguiu. Apertou os olhos para ver que em cima do mesmo havia um jornal, e uma carta. Pegou-a e a leu com dificuldade.
"Álvaro:
Se você está lendo essa carta, provavelmente seu pai e eu não estaremos nessa cidade mais. Para sua segurança, te mantivemos sob o efeito de medicamentos por todos esses dias. Mas, infelizmente, nosso suprimento de comida está acabando e nós precisamos sair para buscar ajuda. E seria muito perigoso você sair daí conosco.
Uma coisa terrível aconteceu. O jornal que deixei para você ler, fala de uma coisa que você provavelmente ouviu no rádio. Pois então, um desses mísseis foi disparado, faz três semanas, e caiu nessa região, um pouco distante, porém causou dano nesse lugar.
Eu sei que você não conhece esse povo que mora aqui, nem a cidade ao seu redor. Eu sei que foram tempos bem difíceis para você. Mas você precisa ser forte, seu pai e eu infelizmente não poderemos estar com você agora.
Assim que você acordar, e ler esse bilhete, tome um banho (deixei uma roupa para você no banheiro), coma os enlatados que estão na cozinha, você precisa se alimentar. Vista uma roupa especial que está no armário, no andar de cima. Não saia sem ela, até ver que os níveis de radiação estão baixos! (O medidor está junto com a roupa). As instruções estão todas junto da roupa. No outro armário, tem uma arma e munição. Sim, filho, leve-a com você. E atire em qualquer coisa que possa te ameaçar de alguma forma, não tenha compaixão. Nessas horas que as pessoas estão lutando pela sobrevivência, podem cometer loucuras. É um conselho estranho para uma mãe dar a um filho, mas entenda querido, é uma situação de emergência máxima... Ah, e pegue mantimentos também. Você não sabe se voltará para aí mais tarde. A chave que tranca e destranca a porta, e dinheiro (use com prudência!) está na gaveta.
Provavelmente, estamos indo para Cuppertown, uma cidade que fica mais ou menos a umas 80 milhas daí. Tente chegar até nós. Se não, tente nos mandar uma mensagem, para que possamos te encontrar. Tome muito cuidado.
Quero que saiba que seu pai e eu te amamos muito. Tenha muita calma. Você é um garoto corajoso, e conseguirá vir até nós. Vamos sair desse pesadelo juntos.
Com amor, Mamãe"
Álvaro respirou fundo. Precisava ter calma. Pegou o jornal e viu estampada na manchete a notícia mais falada nos últimos dias: "Mísseis em Cuba – 16/10/62". Dizia o papel em grandes letras garrafais. Jogou o jornal em um canto, e se levantou. Seu corpo reclamou de dor. Suas roupas estavam grudadas no corpo. Quanto tempo ficara apagado? Precisava de um banho.
Foi para outro cômodo. A luz que vinha do corredor era de uma vela que estava no meio. Fazia quanto tempo que os pais haviam saído para esta vela ainda estar inteira? Gritou por alguém, mas não foi respondido. Estava sozinho ali. Largou suas roupas displicentemente no chão, e entrou no banheiro. Sua cabeça doía mais do que nunca. A água do chuveiro estava congelando. Estava sem eletricidade, provavelmente. Encolheu-se, envolvendo seus braços, tentando se aquecer sem sucesso. Porém foi acostumando aos poucos com a água enquanto muitas perguntas passavam por sua cabeça: “Porque os pais haviam o dopado durante esses dias?”, “Por que ele não pudera ir junto para a outra cidade na hora que eles foram?”, “O que tinha de tão perigoso assim lá fora?”. Respirou. Precisava ser forte e manter a calma. Iria dar um jeito de ir para Cuppertown, e encontrar com os pais. Só precisava achar alguém disposto a levá-lo lá. O grande problema, é que não conhecia ninguém de lá. Iria ser complicado.
Saiu do chuveiro, e se enroscou na toalha. Não conseguia ver nada direito. O que raios tinha acontecido com a eletricidade sendo que o lugar tinha seu gerador próprio? Tateou o escuro em busca das roupas, e as vestiu rapidamente. Uma blusa branca que se aderia ao seu corpo magro e um jeans meio caído que provavelmente pertencia ao pai. Uma cueca e um par de meias também estavam dispostos ali. Andou pela penumbra até chutar botas de couro preto com cadarço, e as calçou, Precisava achar uma lanterna antes que o lugar mergulhasse no escuro, para depois conferir os geradores. Devia ter alguma na dispensa.
Voltou ao corredor, e arrancou a vela da base. Subiu as escadas que levavam ao segundo andar do abrigo. Revirou as caixetas na dispensa. Não tinha muita coisa lá. Apenas cereal matinal, arroz, barras de cereal, e alguns enlatados. Achou a lanterna dentro de uma caixa. Graças a Deus funcionava. Apagou a vela, e a deixou ali para caso precisasse. Na caixa também tinha pilhas. Enfiou-as no bolso. Afinal, nunca se sabe.
Desceu as escadas em espiral, e entrou por um buraco no chão, descendo por mais um vão. Era um cômodo pequeno e sinistro, devido à luz vermelha de emergência. Direcionou a lanterna ao gerador. Todos os fios estavam cortados! Por quê? Mas que diabos? Bufou e subiu as escadas. Era hora de sair dali.
Voltou para o andar de cima, A roupa especial estava onde a mãe indicara. Mas a porta só abria com um código. E para o dispositivo funcionar, precisava de eletricidade. Olhou em volta. Perto, um pedaço de metal. Largou a lanterna sobre uma mesa que tinha ali do lado, e segurou a barra com força.
Pedaços de vidro se estilhaçaram no chão. Álvaro pegou a roupa e a jogou em um canto. Esticou o braço para pegar o medidor de radioatividade e a arma, se cortando em um pedaço de vidro. Não reclamou da dor, pois pararia de sangrar em um instante. Voltou à dispensa e pegou as barras de cereal e duas latas de salsichas. Não iria levar muita coisa. No quarto, o dinheiro a chave. Voltou para a outra sala, e colocou tudo, junto com a arma, na mochila que era feita do mesmo material da roupa evitando que o que estivesse lá dentro não fosse atingido pela radiação. Prendeu o medidor no cinto. Nele, em caneta vermelha, havia desenhado uma linha vermelha, onde indicava os níveis consideráveis de radiação. Vestiu a máscara.
Olhou-se no vidro que ainda estava inteiro. Parecia um ET. Mas estava pronto. Benzeu-se e girou a pesada alavanca que trancava a primeira porta. Com a chave, abriu a segunda. Mais leve. Estava livre.
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