The Fired Prophecy
1 Preparação
Notas iniciais
P.O.V. Lira
Acordo, suando frio. Isso passou a ser normal, acontece em todas as manhãs. Os mesmos pesadelos, sempre. Sou uma pessoa muito bem-humorada, sarcástica, de bem com a vida, mas posso ser séria e dedicada nas horas precisas. Mas os pesadelos começaram a me atormentar no começo de novembro. Imagine como é ter pesadelos horríveis e ficar pensando neles no seu aniversário. Ruim, não é? E, quanto mais perto o inverno estava, mais a sensação de perturbação aumentava.
Minha melhor amiga é muito parecida comigo. Bem, quase. Nós duas temos TDAH e dislexia. Ela também tem tido esses pesadelos frequentes. Ela é meio louca, determinada, muito sarcástica, curiosa, teimosa... Mas é amável – quando quer — , leal, compreensiva e sua paixão é animais, em específico cavalos. Eu a descreveria como as ondas: horas graciosa, horas fatal. Seu nome descreve o que ela é em geral: Zorah. Depois de muito tempo, decidimos pesquisar o significado do nome que tanto deixava os outros curiosos: significa “a poderosa” em grego.
Minha personalidade é um pouco diferente. Meu nome é Lira Goldberg. Sou artística e criativa, e arte é o meu forte. Virtuosa e irônica, ágil e habilidosa no basquete, sendo a melhor de qualquer turma de Educação Física de qualquer das muitas escola que já frequentei. Confesso que sou meio cabeça-quente. Zorah e eu temos treze anos.
Chega de informações. Enfim, eu acordo, perturbada, e vou até a cozinha, encontrando minha mãe com a cabeça pousada nos braços, que estão apoiados na mesa. Ela lê o jornal, numa posição cansada, como de uma adolescente.
–Mãe?
Ela ergue a cabeça, com um ar exausto. Ela tem olheiras e olhos vermelhos.
–Oi... Filha... – diz ela, devagar, com as sobrancelhas franzidas. Parece que ela apagará a qualquer momento – Já acordou?
–Você já acordou, mãe?! – digo, confusa – Por que você está assim?
–Não consegui dormir, querida. Não se preocupe.
Minha mãe é uma pessoa muito legal. Trabalha numa loja de arte, vendendo, principalmente, suas pinturas. Ela é artística, e pinta muito bem. Acho que daí que veio a minha paixão. Eu adoro pintar, desenhar, enfim, arte em geral. Adoro música... Ela começou a fazer faculdade de Medicina, mas desistiu no meio do primeiro ano por puro desinteresse. Foi convidada a fazer parte de uma faculdade de Artes na Itália. Fala francês e italiano fluentemente. Voltou para Nova York quando terminou seu curso e se formou. Foi nessa volta que conheceu meu pai. Ah, meu pai... Minha mãe gosta de falar dele. Ela diz que foi lá que se conheceram, e que viraram melhores amigos. Mas não se viam muito, papai viajava muito. Mamãe fala que se apaixonaram. Então eu nasci e, certo dia, papai foi trabalhar e não voltou mais. Sempre nos divertíamos muito. E eu nunca me canso dessa história.
–O que aconteceu? – pergunto.
–Nada, filha, só não consegui dormir – repete ela, lentamente.
–Tudo bem, moça, você vai para a cama, eu faço meu café.
Mamãe dá uma risada fraca e se levanta pesadamente. Se arrasta até a porta e olha para trás antes de atravessar o vão.
–Eu te amo, querida – ela diz baixinho.
–Eu também te amo, mamãe – eu digo, sorrindo.
Nossa casa é a casa perfeita, na minha opinião. É mais um ateliê do que apartamento, na verdade. É grande, isso eu posso confirmar. É mesmo um ateliê, com um apartamentinho “embutido”. Dois quartos, uma pequena cozinha, uma salinha com uma mesinha de jantar e uma televisão. A parte do ateliê tem grandes janelas, é bem claro. Moramos num duplex de cobertura, no Upper West Side, Nova York, de frente para o Central Park. Mamãe enriqueceu por alguns meses, por causa de uma venda bem-sucedida, e, com o dinheiro, compramos um apartamento grande o suficiente para montar um ateliê-barra-apartamento.
Minha mãe ainda não aprendeu a não me deixar sozinha com comida a vontade. Sou magra, devido aos exercícios e aulas de basquete. Mas quando se trata de comida... Sou uma gulosa. Como sem parar. Meu café da manhã de hoje é ovos mexidos, bacon, pão com manteiga e uma torrada. Para beber, leite achocolatado e meio copo de suco de laranja. Hoje é o meu último dia de feriado. Ação de Graças passou a ser meu feriado favorito. Estudo num colégio integral, e Zorah está comigo. Somos inseparáveis. Eu nunca estudei num colégio integral, e minha mãe me pediu para experimentar. Bem, eu aceitei.
Olho para o relógio. Oito e dez. Nove horas eu tenho que sair de casa, direto para aquele maldito internato. Como meu café da manhã e sigo para meu quarto. Hora de arrumar as malas.
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