P.O.V. Zorah

Os raios de sol atingem meu rosto, calorosos. Vou abrindo minhas pálpebras lentamente para evitar que a luz me incomode. Estico o corpo como um elástico e ele vai estalando.

Aaaah... Que sensação boa..., penso.

Já mais relaxada, solto um grunhido. Faço isso quando estou com preguiça de levantar. Me encoraja, não sei por quê.

Jogo as cobertas de lado e boto meus pés no chão frio. Um arrepio sobe até minha nuca e fico menos grogue. Arrasto-me até o banheiro e lá acontece uma transformação. De uma Zorah que acabou de acordar, sai do banheiro uma Zorah radiante, com cabelos penteados e soltos, dentes escovados e olhos sem remelas.

Vou até meu armário e boto uma saia jeans, uma regata azul e botas pretas. Fico com um sorrisinho no rosto até me lembra de Lira. Minha expressão se torna sombria e triste. Desde ontem, ela está irritada e brigada comigo por conta do meu passado. Abaixo meus olhos e caminho até minha cama. Sento-me nela e passo a encarar o pátio lá embaixo ao brilho da manhã. Então, a coisa mais sensata acontece: uma briguinha entre eu e eu mesma.

-Se ferrou, otária, agora ela não vai mais querer ficar com você. HA-HA!

-Você é quem pensa. Lira é sua amiga e vai te perdoar. Afinal, ela é um ser humano que sabe pensar.

-Não seja ridícula, garota. Lira ficaria muito bem sem você.

-Querem parar! – a parte que eu mais uso para pensar, a parte no meio dos meus extremos, entra na conversa – Lira é sua amiga a bastante tempo, vai te perdoar, é só dar bons motivos pra isso...

Balanço a cabeça de um lado pro outro para dar um basta naquela discussão. Graças ao meu TDAH, não percebo o tempo passar e ver Lira acordar. Ela sai do banheiro já arrumada, com um tênis All Star amarelo, calça legging preta e uma camisa de manga num tom amarelo mais claro. Ela me encara mas não diz nada. Ainda de mal comigo, óbvio.

Ela gira o corpo, vai até sua cama e pega sua bolsa, onde estão cadernos, lápis de cor, canetas e entre outras coisas que não fazem parte do material escolar, como desenhos e balas.

Ela sai do quarto sem falar nada e bate a porta. Quando me dou conta da situação, pego minha mochila e saio correndo atrás dela. Assim que a alcanço, desacelero o passo e sigo nosso caminho.

-Bom dia, viu? – falo, tentando quebrar o silêncio.

-Oi – ela responde com frieza.

Entramos na nossa sala e o inferno começa com Matemática.

O dia foi longo, chato e tedioso. Eu dormi durante a aula, arrumei briga com um garoto que senta nos fundos da sala, aturei Darius falando sobre mitologia grega (o que é até interessante, mas ele é agitado demais quando fala).

Darius é um garoto ruivo, de olhos castanhos que, desde que me viu, decidiu que ia ser meu amigo. Ele vive grudado em mim, falando sobre tudo. Certas vezes nossos assuntos começam sobre como a escola é chata, e param sobre teorias do fim do mundo. Ele é legal, mas tem horas que consegue ser insuportável.

Estou sentada, na aula de História, esperando a hora do almoço chegar. Sou hiperativa, então, estou louca. Meus olhos estão arregalados, olhando tudo a minha volta e minha perna não para de balançar. Darius está mexendo no meu cabelo, separando as mechas loiras das pretas, muito interessado, por sinal.

Lira está sentada na mesa ao lado, a cabeça apoiada em uma das mãos, claramente com tédio, desenhando com facilidade um... Cacho de uva pegando fogo? Mas o quê? Por que ela estaria desenhando algo tão bizarro assim? Depois de um tempo encarando a figura, eu entendo. É a cena que aparece nos nossos sonhos. Os traços de Lira estão perfeitos, e a pintura também está ótima. Parece algo que está acontecendo ao vivo. Aquilo prende minha atenção e me viro para ela.

-Psiu... Psiu, ei, Lira.

Ela se desconcentra por um momento e olha para o lado, mas, quando percebe que sou eu, me ignora e volta a retocar a pintura. Reviro os olhos e vou direto ao ponto.

-Isso é do seu sonho, não é? Eu sei que é, por favor, fala comigo...

Sou interrompida pela professora, que grita:

-Senhorita Pearl! Espero que esteja prestando atenção pois suas notas e seu desempenho NUNCA foram agradáveis!

Eu respiro fundo para tentar controlar minha vontade de falar poucas e boas. Vou me endireitando na cadeira e começo a contar mentalmente: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 ,12..., mas não dá certo. Abro um sorriso afetado, tentando parecer fofa, mas essa expressão logo endurece.

-Eu não ligo, querida. Na verdade – eu me levanto da cadeira e boto meu dedo em riste – Você é quem não gosta de mim! Eu tento ser boa aluna, mas você e os outros professores sempre arrumam um jeito de me culpar ou culpar qualquer outro aqui! A culpa nem sempre é minha, sabe...?!

Sento-me novamente num movimento rápido. A turma inteira olha para mim, segurando um riso. Devo ter pagado de louca idiota, mas, graças a Deus, não me importo. A professora parece estar sem palavras. Bem, é porque tudo o que disse é verdade. O sinal toca e todos saem de sala. Darius me acompanha e Lira sai depois de todos, mas não me espera. Passo pela mesa da professora, que me encara com um olhar de psicopata.

-Você vai perder essa marra logo, logo... – escuto a professora murmurar.

Eu pretendo me virar, mas Darius faz o favor de me empurrar. Saímos da sala e encontramos Lira no corredor, terminado o desenho apoiando-o num caderno. Porém, uns babacas passam por ela e dão um tapa no caderno, fazendo voar o desenho e alguns lápis. Eles saem dali rindo. Lira olha para o chão, não acreditando no que aconteceu. Ela se abaixa, chamando-os de tudo quanto é nome.

Eu e Darius nos apressamos para ajudá-la. Eu pego o desenho e me levanto, enquanto Darius ajuda Lira a recolher os lápis e algumas folhas que estavam soltas dentro do caderno.

Olho o desenho fixamente. Exatamente igual ao meu sonho...

Lira tenta pegar o desenho de mim, mas eu desvio, colocando-o no alto, longe do alcance dela.

-Nããão! Nem pensar. Primeiro, me responde.

-Responder o quê? – ela fala num gemido.

-Isso é do seu sonho, não é? – eu repito pacientemente.

-É, e dai?

-É a mesma coisa com que eu sonho.

-Vocês não são normais... – comenta Darius, mexendo na barra da camisa.

-Valeu, hein, Darius...

Eu mordo o lábio inferior, nervosa. Isso não é normal, não mesmo. Olho para trás e vejo os alunos indo e vindo pelo corredor.

No meu da multidão, vejo uma borboleta laranja, com detalhes em preto nas asas e bolinhas brancas nas pontas. Era linda, mas logo some.

-Lira.

-Anh? O que é?

-Desculpa, por tudo. Não queria ter escondido aquelas coisas de você... Só não tinha coragem para falar antes. – isso não estava no meu roteiro, mas parece o certo. De um modo estranho, foi a borboleta que me encorajou.

Lira suspira e fecha os olhos por uns segundos. Quando ela os abre novamente, eles brilham.

-Tudo bem, Cabeça de Prata. Mas, nunca mais minta ou esconda algo de mim, ok?

Eu sorrio, aliviada.

-Tudo bem, e o mesmo vale para você, viu?

-Eu não tenho nada a declarar... – ela fala sorrindo

-Ah! Eu também não! – fala Darius, retomando a atenção em nós – E... sobre o que estávamos falando?

-Nada, Darius.- eu e Lira falamos em uníssono.

-Ah, tudo bem, até mais meninas.

Ele sai andando desengonçado e eu e Lira rimos, indo em direção ao refeitório em seguida.