P.O.V. Zorah

Saímos do terraço às pressas. Mesmo desesperadas para voltar ao nosso dormitório sem sermos pegas, permanecemos com um sorriso estampado no rosto.

Entramos no nosso quarto, ofegantes. Lira é a última a entrar, então, ela fecha a porta. Voltamos a nos olhar em silêncio, mas, segundos depois o tal é quebrado com novas gargalhadas. Pegamos nossas malas e determinamos nossas camas. Eu fico com a que está perto da janela. Gosto da vista e já estou acostumada a acordar com o sol. Enquanto arrumamos nossas coisas, conversamos sobre o que fizemos durantes as férias, e eu aproveito o momento para falar mal da minha tia. Sim, eu a amo, mas ela é muito ocupada. Tão ocupada que nem me levou para a escola, apenas me deixou no ponto de ônibus.

Pelo que Lira me diz, sua férias foram agradáveis. Ela passeou com a mãe, fez novos desenhos e pinturas — para variar — e descansou um pouco da nossa tortura, esse colégio maravilhoso! Porém, assim como eu, ela teve pesadelos.

-Foram a única coisa ruim nas minhas férias — ela diz.

-Sei como se sente... Mas, com o que você sonhou? — pergunto, com uma curiosidade indiscreta.

-Coisas estranhas e sem sentido, mas que me atordoaram por noites. Eram uvas pegando fogo, taças de vinho em chamas... Tudo sem nexo.

Meus olhos se arregalam. Ela não está brincando ou se quer mentindo. Engulo em seco e falo o que estou pensando e tentando processar.

-E... Lira, eu também andei sonhando com esse tipo de coisa... E um pouco mais.

Ela levanta o olhar para mim, incrédula. Eu nunca minto. Mentir é algo que não consigo fazer. Lira sabe disso, então sua incredulidade se torna em espanto.

-Zorah, espero que isso seja uma brincadeira, porque... Se for verdade, é um coisa muito, muito estranha... Afinal, com o que mais você sonhou?

-Primeiro, não é brincadeira. Eu juro que é verdade. Segundo, eu sonhei também com uma batalha travada entre o mar e a escuridão. Eles brigavam entre si, pois não chegavam a um acordo. Ninguém me disse isso, mas eu sabia. E também sonhei com a minha mãe...

Lira me escutou com atenção, com atenção demais. Vejo, pelo seu olhar, que eu a deixei confusa em algum ponto da minha fala. Depois de montar lentamente a situação na minha cabeça, percebo onde errei. A minha última frase. Droga... Eu nunca escondi nada da Lira, a não ser uma coisa: meu passado. Na verdade, minha tia me prometeu, quando eu era pequena, que se eu quisesse, poderia guardar minha mãe só pra mim, e eu o fiz. Nunca comentei com ninguém sobre ela, mantendo-a viva apenas dentro de mim.

Ela me olha torto e fala o que eu temia.

-Como assim, sonhou com a sua mãe? Você está sempre com ela, não é? Então, por que anda sonhando com ela?

Respiro fundo. Agora já era. Tenho que falar a verdade. Se eu não falar, vou perder uma amiga, uma irmã. Porque, cedo ou tarde, ela iria descobrir. Essa é a hora da máscara cair.