The Favorite Scherzy Boy

1 I'm always schermazing


NICOLE

Quando somos jovens, tudo é possível e desafiadoramente fácil. Cada coisa que fazemos, sabemos que há consequências. Porém, é claro, não nos importamos, porque sempre há uma saída ou pensamos numa solução depois. Podemos contar com o depois, sabem?! Contudo, quando nos tornamos adultos, tudo explode no seu rosto como uma bomba nuclear, desintegrando suas aspirações e lhe fazendo lembrar que está no mundo real, onde ninguém espera o seu tempo, você tem que acompanhar o ritmo ditado por eles. Afinal o mundo não é um parque de diversões, é um campo de batalha.

É claro, você é dono do seu destino. Você pode fazer suas próprias escolhas acreditando ser o melhor para si naquele momento ou a longo prazo. Contudo, queridos e queridas, ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de controlar as coisas ao seu redor, e principalmente, as decisões das outras pessoas.

Está acima do seu controle o que uma pessoa sente, pensa ou escolhe, porque é assim que as coisas são, é assim que a vida é. E parte de ser adulto é, com a maioria das pessoas, estar posteriormente num relacionamento afetivo. Quando nos envolvemos com uma pessoa, temos que passar a viver com a ideia de que não é mais você, não somente você. É você e alguém. Um indivíduo que decidiu, graças a Deus – ou não – estar com você. Isto é, tomou para si o comprometimento de manter uma relação com você, considerando o que é melhor para ambos.

No entanto, como eu disse, ser adulto é um desafio – muitas vezes –, porque na teoria tudo parece promissor, até sentirmos a prática das coisas. Num relacionamento amoroso, a base de tudo – e talvez aí que mora o perigo – são dois seres humanos se relacionando. Duas mentes diferentes, duas personalidades distintas, duas criaturas pensantes. E é aí que a responsabilidade do compromisso vai escorrendo pelos dedos, quando descobrimos que estas tais diferenças, em tese, deveriam ser complementares.

— E eu ainda me pego estupidamente perguntando como, como na Terra, Nicole pode ser tão esnobe e sempre estar entediada, e ainda assim as pessoas a amarem? – Alfinetou Simon, pela enésima vez, só para me provocar, enquanto dava mais uma garfada no seu mignon wellington. Me tirando dos meus pensamentos, respirei fundo e me encostei na cadeira, inclinando meu rosto para o lado e mordendo o canto do lábio inferior. Apenas dei a Simon minha melhor expressão de prepotência enquanto tomava um gole do meu vinho Beaujolais.

— Olhe para tudo isso, Simon. – Deleitei vaidade, salientando meus traços exóticos devidamente maquiados, e meu macacão de tecido xadrez e estampas florais. – Eu não preciso parecer amável e feliz o tempo todo. O que é irônico vindo de você. – Rebati, apenas olhando-o nos olhos com falsa afabilidade. – A não ser que isso tenha outro nome. Comentei, passando a ponta do meu dedo indicador na haste da minha taça e fazendo minha melhor expressão de egocentrismo. — Isso tem um nome, Sr. Cowell, e se chama inveja. Porque posso parecer esnobe e entediada, mas as pessoas me amam, ao contrário de você, que nasceu, vive e vai morrer ranzinza. – Concluí minha defesa, mudando totalmente a minha voz de poder para infantil, dando tapinhas na cara de Simon. Normalmente eu estaria mais empenhada em zomba-lo, todavia, estávamos num restaurante, já chamando atenção demais por sermos quem somos.

— A sua beleza não justifica sua indiferença perante as pessoas, Nicole. – Sentenciou o inglês, que claramente pareceu imperturbável pelas minhas palavras, contrastando com as minhas pernas, que estavam clamando por chuta-lo. Por algum motivo, desde que fui convidada a compor a banca julgadora do X Factor, Simon se empenha em questionar a forma como me relaciono com as pessoas.

— Você insiste em me pintar como uma pessoa mesquinha e nem sei porquê. – Ri debochada, não permitindo que ele me atingisse. – Já passei muito tempo me retendo, quando eu deveria ter mostrado mais quem eu sou. – Comentei, num tom até que ameno, sorrindo falsamente em recato.

— Claro, porque o sorrisinho falso e a voz infantil são ilusões plantadas pela minha mente perturbada. – Continuou Cowell com seu deboche e aquele sorriso irritante.

— Não, eles são muito sinceros, na verdade. – Rebati, inclinando meu corpo para frente, usando o tal sorriso e voz nos quais Simon se referia.

— Ah claro, me perdoe pela precipitação. – Dessa vez aquele bastardo quase gargalhou em meio a gestos e modos ingleses, e não teve como não rir dele.

A verdade é que não preciso e não quero mais me impedir de mostrar quem eu sou verdadeiramente. Me sabotar ou me anular por causa de outra pessoa. Nem sempre estou bem e não gosto de fingir o contrário, porque as pessoas merecem honestidade e eu preciso de um pouco de autopreservação. É claro que como uma celebridade, a forma como lido com a minha família e amigos são diferentes de como me relaciono com os meus fãs ou profissionais com os quais me encontro ou trabalho. O que Simon sempre aponta – ou pelo menos tenta -, é que pareço falsa ou desrespeitosa com elas, sem a menor consideração, o que absolutamente não é verdade.

Enquanto cruzava as pernas e olhava aqueles traços firmes de Simon Cowell, concluí que não existia nada tão inglês quanto aquele homem, nem mesmo a Realeza. Simon era arrogante e sagaz, e quase sempre estava certo sobre tudo. Era irritante! Aquele sotaque engomado só o tornava ainda mais insuportável.

— Ah Deus, por favor, não me envelheça ainda mais por causa desses dois. – Pela minha visão periférica notei Sra. O. murmurando para cima. Basicamente ela estava pedindo às Forças Superiores que não estragasse nosso brando almoço em virtude das minhas picuinhas com Simon.

O fato é que o inglês a minha frente e eu estamos constantemente nos provocando. É algo mais forte que ambos. Não consigo definir nossa relação, mas pelo menos nos toleramos e amamos nos alfinetar. Dificilmente digo a Simon, bom, porque é o Simon, porém, eu admirava aquele ser humano chato. Ele é de longe um brilhante profissional e uma pessoa incrível. Lou Lou e Sra. O. costumam dizer que a verdade é que nos amamos e somos tipicamente a boa e velha relação de irmãos que brincam de se odiar. Não sei dizer se chega a isso, entretanto, somos colegas de trabalho e ele está ciente de que sou uma excelente profissional, além, é claro, de ser vá lá uma boa pessoa. Apesar de termos o mesmo humor afiado e incontáveis vezes me divertir, aquele inglês está sempre empenhado em me tirar do sério. É um bom exercício retruca-lo, porque quase sempre o final era eu o divertindo com a minha sagacidade.

— Lou Lou, eu sou o ser humano mais apaixonante deste mundo, não sou?! – Ignorando o que Sra. O. disse, questionei o homem ao lado de Simon, dando-lhe o meu melhor sorriso condescendente e apoiando meu queixo numa das mãos, com uma verdadeira pose de boa moça.

— Nick, sou a favor da gentileza, não importa a circunstância. – Respondeu Louis num tom cordial, sem nenhuma pretensão de me ofender ou me desafiar. E como um perfeito cavalheiro que é, se viu na obrigação de se justificar – ou não me chatear –, enquanto avaliava despreocupadamente o ambiente do restaurante ao nosso redor. – Embora, honestamente, não sei como faz isso, mas você tem um dom nato de atrair as pessoas, independente da pessoa que você é do momento. – Refleti brevemente sobre o que Lou Lou disse e acho que o irlandês apenas ressaltou o que a Sra. O. vive me dizendo: “Nicole Scherzinguer, você é um camaleão”. A verdade é que nunca entendi a essência dessas palavras, todavia, o meu palpite é que seja algo sobre minha personalidade versátil.

— Awn, eu amo você Lou Lou, nunca se esqueça disso, está bem?! – Falei numa voz infantil, mas não deixando de transparecer a sinceridade nelas. Esticando meu braço para que Louis apertasse minha mão, sorri largamente para ele.

— Nunca! – Devolveu Louis, com um impecável sotaque inglês e tive que rir livremente com a expressão nobre dele.

Voltando-me para Simon, arqueei uma das sobrancelhas e dei o meu melhor sorriso de canto matador. Foi a vez d’ele rolar os olhos e mostrar sua típica expressão de falso descontentamento, ao tempo em que eu voltava a comer meu frango grelhado com aspargos. Ao contrário de Simon, Louis Walsh é a pessoa mais fofa que eu conheço na vida, e isso significa muito, vivendo no meio em que vivo. Quase nada o perturba, e até mesmo quando algo o aborrece, ele age com bom senso. Deve ser porque, ao contrário de Simon, Louis é irlandês.

— Bem, bem, agora podemos almoçar como uma família unida e feliz. – Ironizou Sra. O. entre gestos e gestos. E foi o que ocorreu, num papo tranquilo e construtivo, até que um tweet chamou minha atenção no celular. Com o nickname Lady Travel, o tweet dizia: “Ah meu Deus, no The Foyer, a metros da @NicoleScherzy , querendo uma foto, mas não fazer cena”.

— Hum. – Murmurei, mordendo o canto do lábio e arqueando uma das sobrancelhas, enquanto olhava para o meu celular.

Ponderei sobre o que fazer, considerando que Londres não é Los Angeles e não há proibições quanto as pessoas tirarem fotos das celebridades. Além do que os fãs ingleses são mais polidos que os americanos, que são mais energéticos. Tiro foto com fãs o tempo todo em restaurantes, embora, como eu disse, os conterrâneos da terra da Rainha são mais comedidos, sempre com a etiqueta de não serem inconvenientes.

Está certo que ter uma refeição pacífica, sem me preocupar com a chegada de alguém, é sempre bom, e isso é uma das coisas que alimentam as implicâncias de Simon. Sou um ser humano, oras, qualquer um dos meus fãs pode ter uma refeição tranquila sem que ninguém os interrompa com autógrafos ou fotos. Isso eu os invejo, com certeza.

Pensando sobre isso, concluí que tirar esta foto beneficiaria duas pessoas, minha fã e eu, e de bônus provocaria Simon. Sorri diabolicamente para o meu celular pelo último pensamento, enquanto digitava o seguinte tweet: “@LadyTravel , não vejo razão para esta foto não ocorrer”. Aguardei a resposta e apoiei o queixo nas minhas duas mãos fechadas em punho, fazendo beicinho e vagueando despreocupadamente meus olhos pelo restaurante, na tentativa de descobrir quem poderia ser Lady Travel. Havia muitas pessoas nos olhando de soslaio, ou mais abertamente, então não consegui identifica-la. Simon, Sra. O. e Louis estavam distraídos numa conversa sobre filhos, o que não é, para meu ligeiro desconforto, o meu assunto favorito. Ignorando-os, me concentrei em observar as pessoas do restaurante, constando que estamos no século XXI e até mesmo os ingleses costumam mexer no celular enquanto comem ou conversam. A diferença é que carregam expressões mais circunspectas.

Meu celular vibrou, logo vendo que era uma breve resposta de Lady Travel: “POSSO?!”. Soltei um riso pelo nariz, digitando em seguida: “Citando Ellie Goulding: o que você está esperando?!”. Me virei para Simon, que me observava com um quê de curiosidade e diversão, e tudo o que fiz foi sorrir maliciosamente antes de me levantar e receber a jovem garota que se aproximava da nossa mesa.

— Eu não acredito... É você, é realmente você! – Engasgou a menina que se aprontava na minha frente, enquanto eu sorria simpaticamente sem mostrar os dentes. Segurei uma de suas mãos que tremiam ligeiramente, enquanto passava uma mecha do meu cabelo – que agora estavam lisos, castanho escuros e com luzes loiras –, atrás da minha orelha. – Na verdade todos vocês! – Grasnou a garota e tive que rir travessamente. Não digo as reações, mas o comportamento de um fã é sempre o mesmo, embora se tornou mais um hobby que um papel, aprender a lidar com as condutas dos fãs ao me verem.

— É claro que sou eu, em carne, pele e osso. – Falei carinhosamente, um tanto infantil. Involuntariamente alimentando o tremor da garota, abracei-a e parei em frente a Simon, desafiando-o com o olhar e dando a devida atenção a minha fã. – Diga a ela Simon, eu sou mesmo Nicole Scherzinguer?

— Um fato que infelizmente não posso mudar, está acima do meu poder. – Respondeu Simon, com gestos falsamente desprezíveis e um tom carregado de conformismo.

— Você não vai acreditar, Cowell. Descobri agora, pelo Tweeter, que esta pessoinha aqui estava com receio de vir até aqui e me pedir uma foto. Tem ideia do absurdo disso?! – Indaguei, num tom quase exagerado de humor. A garota sorriu sem jeito e ruborizou em seguida.

— O quê?! – Simon exclamou, demonstrando falsa indignação. – Me dê seu telefone, senhorita. Vou lhe dar um dossiê sobre esta mulher, e tenho certeza, “não tirar foto com uma fã” não será uma informação que estará presente nele. – Acompanhando a altura minha velada provocação, tenho que dar o devido crédito, Simon Cowell era bom na comédia. Deveria mudar de área, de empresário musical de sucesso a prodígio executivo do humor. Ele estava se segurando para não gargalhar, enquanto era atencioso com a garota. Se desvencilhando do meu abraço, Lady Travel foi cumprimentar e tirar foto com Sharon e Louis, que a recebeu sem o menor incômodo e com total polidez, já tendo uma ideia do que estava acontecendo.

— Ora ora Sherzy, temos um ponto aqui. – Murmurou Simon, próximo a mim. Arqueei uma sobrancelha e sorri de lado.

— Você não viu nada, Cowell. Você não viu nada... – Sussurrei propositalmente sedutora. Simon revirou os olhos e foi abraçar a menina. Aproveitei este período de interação entre eles para passar meus olhos clínicos pela garota. Sempre fui observadora, contudo, nos últimos tempos, e com a influência de ser uma jurada de um programa musical, esta capacidade se tornou mais apurada. Segundos bastaram para eu concluir que ela tinha uma beleza delicada, numa mistura peculiar de Chloë Grace Moretz e Natalie Alyn Lind.

A menina tinha traços angelicais e cabelo louro nos ombros, com uns poucos centímetros mais baixa que eu, ainda que pelo meu salto Dolce&Gabana, eu aparentava sempre ser mais alta. Está certo que as pessoas costumavam dizer que eu era uma ilusão de ótica, com ou sem saltos altos, porque eu sempre parecia ser mais alta, não importa o que eu calçasse. De qualquer forma, descobrindo seu nome rapidamente, tirei uma foto com Blair, que pareceu se sentir na liberdade de me dar um abraço de urso.

Não me importei de fato, agradecendo internamente que daria mais um motivo para desmentir as alegações de Simon. Para ele, na maior parte do tempo, transpasso a ideia de que sou uma daquelas mulheres famosas que sempre querem mostrar a ideia de “olhem, mas não toquem”, no entanto, isto não é um problema para mim. Ninguém é intocável, todo ser humano precisa de contato físico. Só acredito – e espero – que as pessoas tenham bom senso e limite.

— Meu ex namorado não acreditaria que tirei uma foto com você. – Riu debochadamente, com os olhos brilhando com algo que não consegui identificar. Fiquei um tanto curiosa, mas eu não sou jornalista e aquela garota era fã, então nada de estreitar relações, Nicole.

— Bom, não percamos tempo, agora você provará para ele, certo! – Ergui as sobrancelhas, rindo com ela. Após troca de risinhos, Blair me dizer algo sobre o X Factor ser o programa favorito do ex e eu ser a girl crush dele, a garota foi embora. Se tem uma coisa que meu radar apita é quando alguém não superou um relacionamento. Esta garota está com problemas. Bom, o que eu posso fazer, experiência própria e certa empatia.

— Nicole, você pode ser tudo, menos previsível, ouso dizer. – Constatou Sra. O. me fazendo rir envaidecida, enquanto dava uma piscadela travessa a Lou Lou.

— Cuidado Scherzy, você pode roubar o lugar de Sandra Bullock. – Alertou Simon, com falso pesar. Só não gargalhei porque estava no restaurante. O inglês estava claramente se divertindo – e surpreso – com o meu momento anterior.

— Só quis proporcionar a ela um momento schermazing. – Pisquei meus olhos para a Sharon. – Mais uma fã feliz. – Beijei meu ombro, toda satisfeita com o meu plano de unir o útil ao agradável.

— Quer saber Scherzy, depois desta pago todo o seu almoço, incluindo sua sobremesa. – Disse Simon, indesejavelmente impressionado.

— Olha, olha, se alguém de repente está se tornando humano. – Zombei de Simon, quase ronronando. – Cowell, não se apaixone por mim, já sou comprometida. – Acariciei a mão de Simon, com falsa pena.

— Tentarei arduamente. – Riu o inglês, rolando os olhos e pedindo para o garçom nossas sobremesas, que eram as de sempre: petit gateau para a Sra. O., torta de limão com cookies para Louis e Tabletón para mim e Simon

Depois disso só foi risos, implicâncias, e mais risos e implicâncias. Fechando a conta, nos retiramos do restaurante com alguns paparazzis aguardando por nós na saída. Com a volta dos X Factor, eles nos perseguiriam por um bom tempo. Tentei ser atenciosa e paciente, embora tendessem a ser sufocante as vezes. Não era de todo sacrifício, porque as lentes me amavam e eu as adorava, então fiz minhas poses e carões a la Scherzy, com meus éculos escuros Bvlgari e dei a eles o que queriam

Entramos no Cerato de Simon, tendo um pouco de dificuldade para sair da vaga do estacionamento por conta dos fotógrafos. Louis foi no banco do passageiro, enquanto entrei atrás com Sharon. Fiz mais algumas poses antes de fechar a porta, sem mais sorrisos aos homens com câmeras fotográficas. É aí que eu digo que eles são um tanto sufocantes, nunca param nem nas circunstâncias mais delciadas. Simon buzinou um pouco, até que se afastaram, então partimos para o ensaio fotográfico e as gravações das chamadas do programa.

Eu sou uma pessoa que pulsa energia, então nunca consigo ficar totalmente parada. Conectei meu Spotfy ao som do carro de Simon, tremendo nas caixas de som a música Timber, da Kesha. Fiz os três dançarem e cantarem comigo, e não sosseguei até gravar um breve vídeo para postar no meu Instagram. Soltei uma gargalhada com as dancinhas de Lou Lou e Sra. O.

— Onde desliga você, Nicole?! – Questionou Louis, rindo divertidamente.

— Ah Lou Lou, ninguém pode me desligar. – Ronronei, em seguida gargalhando e dando um beijo estalado na bochecha dele, que só o fez rir mais. – Eu sei que você também quer um beijo, Cowell, mas com essa barba não vai rolar, então só vou apertar sua bochecha. – E foi o que fiz, não querendo admitir que Simon tinha seu charme quando deixava os pêlos do rosto crescerem. Ele só me deu um sorriso de canto pelo retrovisor, nem um pouco ofendido com as minhas palavras, e voltou sua atenção para o trânsito a nossa frente. Já que a Sra. O. estava numa ligação, decidi me ocupar com o meu.

Deitando a cabeça no ombro de Sharon, avaliei nosso vídeo, admirando o quanto Louis era fofo com sua camisa Calvin Klein lilás, e Sharon era pura classe com seus conjuntos sociais Ralph Lauren. Eu me considerava uma mulher estilosa – vestindo um macacão de tecido da Prada – mas Sharon Osbourne era puro glamour. E Simon, bom, era Simon, com sua camisa creme Dudalina.

Depois que postei o vídeo no Instagram, que já começava a encher de curtidas, comentários e compartilhamentos, comentei a foto de Blair com os dizeres “Tão fofa quanto Blair Waldorf” e emojis de beijo e corações. Pensei em dar uma breve olhada em sua rede social para descobrir alguma foto do seu ex, mas me contive, não era da minha conta e era só mais uma história de fã, não havia nada de diferente para mim ali. Em seguida, como não tinha o que fazer e era um tanto hiperativa, acessei algumas notícias aleatórias sobre mim. Não é muito indicado quando se é uma celebridade, mas nada que a maturidade não resolva.

Sabe aquela típica cena clichê do filme Nothing Hill, onde Julia Roberts diz a Hugh Grant que a fama não é real?! Pois eu digo que ela é real, tanto que sufoca. O problema da fama não é a mentira, é a exposição. Você sabe que será julgado, então queridos, se querem ser famosos, comprem um filtro de julgamento para não enlouquecer. A fama é real sim, mas é carregada de algumas maldições.

— Previsível... – Tendo a minha atenção no celular, murmurei a ninguém em particular, tamborilando minhas unhas azul cobalto no banco do carro e mordendo internamente a bochecha. Ajeitei meus olhos escuros no topo da cabeça e continuei minha pesquisa, constatando que maioria das notícias eram sobre o eminente início da décima terceira temporada do programa. – Sério mesmo?! – Rumorejei baixinho, fazendo uma careta, enquanto olhava algumas matérias sensacionalistas do meu possível rompimento com Grigor. Cruzando minhas pernas, apoiei meu IPhone no colo e coincidentemente recebi uma mensagem do meu namorado, que havia acabado de me contar que seus treinos para a Copa Davis, na Austrália, haviam se encerrado.

Grigor adorava fazer isso. Me mandar mensagens do que está fazendo, contando do seu dia. É parte do relacionamento, eu sei. No entanto, eu fazia tanto isso com Lewis, que me retenho um pouco a fazer o mesmo com Grigor. Meu tenista parece não se importar e respeita meu tempo para me readaptar, ainda que sinta que as vezes tentemos arduamente entrarmos em sintonia. Eu sei, era para ser fácil. Há coisas num namoro que é como aprender a dirigir. Mesmo que você troque um carro que esteve por tanto tempo, as funções básicas se mantém ali, como por exemplo dirigir. Isso nunca muda, você não desaprende. Você só precisa se adaptar às características daquele novo automóvel. A questão é que, mesmo depois de um ano, ainda não tenho o hábito de contar sobre o meu dia ou mandar presentinhos, sou meio prática com Grigor, mais do que ele merecia.

— Ah, pelo amor de Deus! – Bufei, enfadada daquelas notícias sobre ele. Desencostando-me do ombro de Sharon, li rapidamente a matéria que contava que Hamilton tinha tigresa chamada Nicole, na qual ele sentia saudade. Eu poderia ficar vesga com o tanto de vezes que rolei os olhos lendo aquele texto. Sabe, eu não conseguia evitar, porém, no fim sempre acessava notícias sobre Lewis. Grigor nunca sou disso, claro, mas era um péssimo hábito que mantive. Algo me atraia ali e nem sei porquê, já que não amava mais Lewis e saudade nem se acendia mais no meu coração. Tudo o que restou foi raiva e frustração, que chegava a me dar preguiça pensar no meu ex.

— Ah não, pela sua cara enfada só pode ser duas palavras, com nome e sobrenome. – Ponderou Simon pelo retrovisor, erguendo uma das sobrancelhas. Tudo o que fiz foi sugar minhas bochechas, fazendo um biquinho em resposta.

— Isso sempre vai acontecer, Nicole. Basta relevar... – Chamou minha atenção Sra. O., que nem percebi que havia saído do celular. Me puxando para um abraço, ela estava tentando amenizar a minha expressão que deveria ser de pura exasperação. – Você não tem controle e nem precisa ter, sobre as ações dele em relação a você. Ao que vocês tiveram. – Deus, aquela mulher sempre é um bálsamo para o meu temperamento. Queria poder dizer que a odeio e que é irrelevante suas palavras, mas Sharon Osbourne sempre soube lidar com a minha personalidade impetuosa. É quase como falar com a minha mãe versão inglesa. E aquele pensamento quase me fez chorar de alento. – Preciso dizer o óbvio?! Porque, absolutamente, você é mais esperta que isso! – Concluiu Sra. O. num tom propositalmente enfadonho. – Enquanto absorvia as palavras da Sra. O. e respirava fundo tentando clarear a mente, senti o olhar de Simon quase perfurando meu rosto pelo retrovisor.

— Ah, pelo amor de Deus homem, diga logo o que está pensando. Quase posso ouvir sua mente fugaz trabalhando. – Disse impaciente, voltando-me para o inglês que me olhava pelo espelho. Simon sorriu de lado e posso jurar que seus olhos brilhavam de diversão.

— Meu palpite é... – Explanou, tamborilando no volante e tentando forçar um falso suspense. – As ações dele são involuntárias. – Disse ele como se falasse com uma criança. Entrecerrei meus olhos castanhos escuros maquiados para ele, mexendo meu queixo de um lado para o outro. Era impressão minha ou Simon estava defendendo meu ex?!

— Eu perdi alguma coisa?! De que lado você está?!. – Indaguei Simon um tanto confusa e quase enojada. O motorista riu pelo nariz, parecendo se divertir com a minha confusão. Na verdade ele estava. Mas então Simon Cowell invocou seu modo jurado e deu sua resposta como quando vai justificar a um candidato o motivo de ter dado um não. – Nicole, é bem simples, se você deixar de lado a inconveniência que seu ex é. – Se ajeitando no banco e aproveitando uma esquina de pare numa avenida, prosseguiu com seu ponto de vista. – Pense que Lewis age como se tivesse sido o modelo de namorado perfeito, então, para ele, sabe Deus porquê, não há nada de errado em ter sido um canalha com você.

Não estava em condição de dar qualquer resposta, porque me vi perdida em pensamentos. Enquanto processava a resposta certeira de Simon, notei que Louis estava em silêncio completo, quase como se ele não estivesse ali. Lou Lou não gosta do Lewis. Não posso culpa-lo.

— Isso é ambiguamente coerente, Cowell. – Respondi, de repente cansada demais para uma resposta mais extensa. Pressionei meu cenho com o polegar e o indicador, compreendendo que o que Simon queria dizer é que Lewis adorava cumprir o papel de homem dos sonhos, o que só me proporcionou promessas vazias e sonhos fracassados.

— Don’t worry, be happy. – Lou Lou cantou baixinho para mim, mesmo que não estivesse no alcance de suas vistas. Sorri sinceramente para ele, mesmo que não estivesse me olhando. Era um sorriso que dava poucas vezes, desprovido de qualquer significado ou intenção, apenas a representação de um sentimento. Sorri verdadeiramente porque Louis Walsh era, de longe, meu irlandês favorito.

Após um silêncio confortável, avaliei o quarteto daquele carro, dando um sorriso torto para mim mesma. Nós éramos um time e tanto, tenho que dizer. Somos tão diferentes, em tantas coisas, que nem consigo começar dizendo no quê, mas posso dizer, há uma sintonia ali, dentro e fora do X Factor. O programa roda durante três meses e nem sempre a direção consegue reunir nós quatro quando as temporadas começam, mas conseguimos nos encontrar para algum um encontro mais privado entre nós. Ainda que Gary seja um príncipe – um outro tipo de inglês –, Simon tinha um gênio mais próximo ao meu, e Barlow conservava uma afinidade maior com a Rowland. E Tulisa, claro, parece não conseguir acompanhar ou entender minhas múltiplas personalidades do jeito que Sra. O. faz.

Saindo destes pensamentos desfiz o sorriso, porque de repente um arrepio se ondulou por todo o meu corpo. Franzi o cenho, surpresa e um pouco incomodada. Uma impressão, um pressentimento, não sei, mas nunca senti isso antes. Me aconcheguei ainda mais nos braços de Sharon, quase me encolhendo e engoli em seco, tentando interpretar se aquela sensação era algum tipo de prelúdio ou alguma condenação. Não consegui compreende-la de imediato e percebi que ela se manteve comigo até o dia seguinte – mais precisamente nas audições do X Factor -, e posso jurar que foi lá que ela se dissipou.