The Favorite Scherzy Boy
2 When I Grow Up
MATT
Uns amam a cozinha outros amam esporte. Eu amo a música. Pura e simplesmente. Faz parte de quem eu sou, desde que me conheço por gente. Sempre é a música... As melodias, as palavras, os ritmos, penetravam nas minhas veias, bombeando emoção para o meu coração. Eu estava tão eufórico que mal cabia no meu próprio corpo, no entanto me reprimia, como se até a minha alegria fosse me sabotar naquele momento. Não, minha audição ainda não havia ocorrido, porém, participar daquilo, fazer parte daquele show, mesmo que ainda fosse só o início dele, era inacreditável.
Além disso, é a experiência mais arrasadora dentro dos meus 23 anos, estar no meio daquela multidão, em que a maioria das pessoas ali presente se sentia da mesma forma que eu. Pessoas de várias regiões do Reino Unido e da Irlanda, com a mesma paixão e objetivo que o meu, ensaiando, conversando, e bom... Vomitando.
— Matt, olhe para aquele garoto vestido de Cher. É uma deusa, devo dizer. – Apontou minha Nan, tentando ser discreta – e falhando -, chocada pelo transformista que se localizava a nossas vistas. Ele estava conversando com um grupo de senhores, que na mesma medida roubavam a cena com aqueles trajes a la Charles Chaplin. – Cher teria inveja dele. – Brincou, batendo na minha perna e sorri travesso, sem mostrar os dentes, dando um beijo no seu rosto.
— E olha aquele galã ali. Ele trocou de talento, deveria ser modelo. – Atentou-se minha mãe, rindo com meu pai e me fazendo rolar os olhos.
— Nan, você acha que ele é mais bonito que eu?! – Questionei, num tom brincalhão, enquanto entrelaçava meus braços ao dela. Minha avó era uma figura e tanto, com aquele cabeço até a altura do queixo. E o que era louro antes, agora é perolado puro – se é que me entendem.
— Awn meu amor, nunca! – Respondeu minha avó, sem o menor receio em demonstrar todo o seu amor por mim.
— E o Channing Tatum ali é mais bonito que o Simon?! – Perguntei, com uma falsa seriedade na voz.
— Você deveria ter mais respeito por mim e pelo meu Simon, Matt Terry! – Rebateu minha avó Pauline, realmente ofendida, o que me divertia ainda mais. Aquela interação até que começou a me deixar mais relaxado.
Acho que minha ficha só cairia depois que passasse minha audição, porque ainda não acreditava que estava aqui, prestes a me apresentar a quatro grandes jurados, fazendo o que sempre amei: cantar. Aliás, a organização do X Factor era precisa, tenho que dizer. Houve uma equipe de produtores realizando audições móveis por todo o Reino Unido e Irlanda, para encontrar possíveis talentos. Agora eu estava aqui, inacreditavelmente, na pré-seleção para a segunda fase, a audição com os jurados. Não vou negar, já pensei em tentar uma chance no The Voice, mas acho que não cabia no perfil do que eles queriam.
Outra coisa que alimentava a minha ansiedade, mas que a refreava também, era saber que estaria frente a frente com Nicole Scherzinguer. Música era a minha vida, X Factor era meu programa favorito e Nicole, de longe, a minha jurada predileta. E claro, minha girl crush. Confesso que não era fã do seu ex grupo, o Pussycat Dolls, mas é porque acreditava que Nicole era muito além daquilo. Ela poderia não estar na Billboard como a Beyonce, porém, era igualmente influente. Por isso eu era fã dela, da Nicole, que tinha um radar implacável para novos talentos, uma maneira de expor suas vontades e opiniões que só ela tinha, e uma beleza que deveria ser um crime. Qual é galera, não sou nenhum hipócrita, sou um homem que acabou de adentrar a fase adulta, então não me julguem por acha-la gostosa.
O clima em Londres naquele dia estava ameno e ensolarado, por isso trajava uma camisa branca, por baixo de uma jaqueta de moletom cinza, calça jeans preta e tênis branco. Eu tenho a mistura equilibrada entre o meu pai e minha mãe. Meu rosto e traços são bem parecidos aos da minha progenitora, mas tenho os olhos verdes e cor de cabelo do meu pai, embora ele já os tenha perdido faz tempo.
Levantei-me do lugar de onde estava com a minha família, me dirigindo para a equipe do X Factor que fornecia garrafinhas d’água aos participantes. Enfiei a mãos nos bolsos da minha calça enquanto caminhava pelo salão, procurando pelos meus fones de ouvido. Pluguei-os no meu celular e peguei o cubo mágico no bolso da minha jaqueta, fazendo o que sempre fazia quando estava nervoso.
Não sou um cara explosivo nem hiperativo, este era mais o perfil dos meus irmãos mais velho e mais novo. Assim como a minha avó, eu era uma pessoa serena, porém, quando a ansiedade me aplacava, eu extravasava meu TOC. Nestas circunstâncias ouço música e brinco com algum jogo de raciocínio lógico. O cubo mágico nas minhas mãos era exatamente por causa disso.
Enquanto aguardava alguém da equipe me fornecer uma garrafa d’água, observei algumas garotas mais distantes e outras que passavam por mim, vendo que muitas delas eram lindas, mais do que uma voz talentosa. Sorri de lado enquanto meus olhos passavam por elas, no entanto, acabei me distraindo com a movimentação em direção a entrada do prédio ExCel. Parei de mexer no cubo e tirei os fones do ouvido, entendendo o motivo da algazarra, gritaria e aplausos. Os jurados acabavam de chegar para dar início as audições.
Não sei se os outros candidatos se sentiam da mesma forma, porém, tive um certo frisson, um tremor de excitação por aquele momento. Algo grande estava por vir, eu podia sentir. De repente imagens surgiram nos telões do hall, substituindo a logo do X Factor, me dando conta de que a chegada do quarteto estava sendo transmitida para quem se localizava no interior do ExCel. As pessoas deliravam e fotógrafos se chocavam uns com os outros, tentando pegar flashs certeiros.
Foi então que aconteceu. Ela saiu do carro. As pessoas – fotógrafos e participantes – estavam em delírio. Todo mundo queria uma foto dela e com ela. Um vestido longo branco todo estilizado, cabelos lisos e ligeiramente louros, parcialmente presos num coque, e eu poderia dizer que Nicole Scherzinguer ser deslumbrante era um grande eufemismo. Um olhar carregado, um sorriso de lado, de frente ou de costas, poses e mais poses, era como assistir a uma obra de arte em diversas dimensões.
—Ah cara... – Sussurrei sorrindo fascinado, observando-a e percebendo, tardiamente, que meu corpo tomou vida, como oxigênio que atrai fogo. Imagino como será meu comportamento na audição. E imagino se qualquer homem na presença daquela mulher tinha a mesma reação que a minha ao olha-la.
— Scherzy está em casa. – Ressaltou alguém ao meu lado. Saindo daquele momento hipnótico, balancei a cabeça e tentei me localizar, pois, por um fugaz momento esqueci-me de que estava em público. Olhando a dona da voz, descobri ser uma mulher mulata, que aparentava ter a idade da minha mãe. Ela me deu um sorriso estranho, quase que de compaixão, e depois foi atender as outras pessoas próximas a ela.
Saí do aglomerado, franzindo ligeiramente o cenho, não entendo nada do que foi aquilo, todavia, mais uma vez meus olhos se voltaram para o telão, sem nem me lembrar de pegar o cubo e colocar meus fones de ouvido. Nicole estava abraçada a Simon, que dizia algo em seu ouvido, fazendo-a sorrir torto e depois revirar os olhos. Enquanto caminhava, senti uma pontada de algo dentro de mim, mas acredito ser o que qualquer homem sentiria também: inveja. Em seguida, as câmeras voltaram a atenção para Sharon e Louis, que davam entrevistas e alguns autógrafos.
Sentando-me ao lado da minha avó, ela estava extasiada pelas imagens de Simon na tela. Sorri de forma atrevida, fazendo cócegas nela e lembrando-a que “ela estava em público”. Simon era realmente o ídolo da minha avó, sem sombra de dúvida. Voltei a conversar com a minha família de forma descontraída, mas minha ansiedade de repente começou a se agravar. Eles me divertiam, me alertavam, mas sempre preocupados com o meu previsível nervosismo. Peguei meu celular e li algumas mensagens de incentivos de amigos e dos meus irmãos. Respondi a quase todas, sendo interrompido pela minha avó.
— Oh, ela é uma mulher estonteante. – Minha avó comentou, assistindo às audições que começaram a ser transmitidas no telão, já sabendo a quem ela se referia.
— Sim, de fato é. – Respondi com os meus olhos grudados no telão. No geral, era bom assistir às transmissões, porque era uma distração além de ter uma ideia de como nos comportarmos ou do estilo de cada jurado. Contudo, ver Nicole era como a assistir incessantemente ao meu filme favorito. Nunca enjoava.
— Vai chegar a sua vez, filho. – Alfinetou minha mãe, dando um leve tapa no meu queixo para que eu fechasse minha boca, que nem percebi estar ligeiramente aberta.
— Obrigada mãe, nem me lembrei disso. – Crispei os lábios em falso incômodo, depois enchendo as bochechas de ar, tentando parcamente não acompanhar a gargalhada do meu pai.
Ouvia as pessoas fazendo alguns comentários dos participantes que iam se apresentando, sobre os jurados, mas a maior parte era sobre Nicole. Alguns homens a chamavam de gostosa, os gays de diva e as mulheres de vadia. As qualidades se diversificavam. Sentia um ligeiro comichão quando os elogios eram mais agressivos, entretanto, se for pesar a coisa no todo, ela era uma celebridade e não parecia lógico ter empatia. Eu só não conseguia evitar, cada palavra que Nicole dizia a alguém, alertando, elogiando ou zombando, era expressa com sapiência e sagacidade.
Assisti a todas as audições em que ela foi jurada e quase me tornei um expert em ler suas expressões e linguagem corporal. Era um bom exercício, devo dizer, principalmente porque não havia um padrão nela, como com os outros jurados. Uma audição poderia ser quase perfeita e Nicole mal se moveria da cadeira, dando apenas discretos sorrisos, e quase como se ela poderia estar num lugar melhor. Por outro lado, ela chorava e dizia coisas como “até a minha bunda está aplaudindo você”. Quando a audição era um fracasso ou claramente o candidato estava ali por curtição, ela fazia uma algazarra ou, diferente disso, se impunhava com todo o seu poder. Meus lábios finos sorriram discretamente, constatando que eu estava fazendo a mesma coisa enquanto a assistia no mesmo prédio em que ela estava. E por fim, até que chamassem meu nome, matei o restante do tempo me dividindo entre conversar com a minha família e olhar para o telão toda vez que Nicole aparecia.
***
Eu já estava de pré-aviso para me apresentar, tanto que Dermot O'Leary nos acompanhava num bate-papo no corredor de uma das galerias próxima a sala de audição. Ele fez algumas perguntas sobre meu antigo relacionamento e claro, sobre a paixão da minha avó por Simon Cowell. Usei do bom humor para contar sobre minha ex-namorada, sem o incômodo usual. O’Leary até brincou com algo sobre usar a dor de um fim de relacionamento para inspiração musical. Dermot era carismático, como um apresentador de programa musical deveria ser, contudo, ele era realmente fácil de se gostar e minha avó já era amiga dele, para variar.
Antes disso, claro, O’Leary nos encaminhou para as gravações dos depoimentos, meus e da minha família. Não estava comumente desinibido porque conversar com uma câmera sabendo que seria transmitido nacionalmente era algo a se processar. Porém, até que me saí bem, sem repetir muitas vezes ou florear as minhas palavras. Fui sincero ao falar sobre minhas ambições e sentimentos para com a música. E conversar com as câmeras é algo a que deve considerar se você quer ser vencedor do X Factor UK. Minha família, claro, especialmente minha avó, não economizou nos elogios e palavras de incentivo.
Havia muitos a se apresentarem ainda depois de mim, mas depois de um longo e tenebroso inverno chegou a minha vez. Já estava nervoso, ansioso e enjoado. Não sabia o que estaria por vir nem se os jurados gostariam da minha performance, só sei que daria o meu melhor.
Um assistente de produção me levou até o chamado “corredor da morte”, e de lá caminhava sozinho até a sala de audição, ficando a alguns metros de onde minha família me aguardava e assistia. Desejei mexer no meu cubo, mas por precaução deixei com a minha avó.
Respirava fundo e contava meus batimentos cardíacos conforme os meus passos, até que abri a porta da sala e deletei tudo da minha mente, esquecendo-me do mundo, das pessoas lá fora e de qualquer coisa que atrapalhasse meu desejo de seguir meu sonho. Pensando tardiamente, lembrei de um fator importante que as entrevistas e bate-papos com O’Leary me fizeram esquecer temporariamente: Nicole. Mas claro, já era tarde demais.
Lá estava Louis Walsh, Sharon Osbourne, Simon Cowell e ela, Nicole Scherzinguer, linda como o pecado e um decote matador, a dois metros de mim. Processei isso tudo em aproximadamente dois segundos, porque foi o que bastou até eles começarem a conversar comigo. Nem me atentei a dar uma última olhada na minha aparência, então simplesmente confiei no que acreditava estar visualmente decente, inclusive meu topete castanho claro, bigode e barbicha,
— Olá, como vão? – Sorri, tentando parecer relaxado e fechando a porta atrás de mim. Lembrei propiciamente que minha avó me aconselhou que eu conversasse com os jurados como se eu estivesse falando com ela em horário de trabalho: atento, profissional e desinibido.
— Olá! – E foi justamente Nicole quem respondeu ao meu cumprimento. Ignorei deliberadamente o tremor que transpassou meu corpo, focando no fato de que ela usou de uma simpatia que confesso, me surpreendeu e me relaxou da mesma maneira. Não que Nicole não fosse afável, mas de tanto observa-la notei que ela tende a pincelar um significado velado nas coisas que diz aos participantes, até mesmo ao saudá-los. Quando ela usa aquele tom de voz grave, tão Nicole, é tão cheio de ambiguidade.
— Eu sou o Matt, prazer em conhece-los. – Respondi, sorrindo verdadeiramente enquanto me dirigia ao X da sala. Temo que sorrir será a única coisa que conseguirei fazer além de cantar, estando em frente aquela mulher ao mesmo tempo em que botava para fora o que acredito ser um dom.
— Matt. – Pontuou Nicole, num tom quase brincalhão. Havia um brilho no olhar dela que na verdade não conseguiria dizer ser malícia. Era só maior, mais profundo e que me atraía como ímã.
— Isso. – Prossegui sorrindo, finalmente parado em frente a eles. Minha atenção estava em Nicole – sem qualquer dificuldade – e porque a princípio ela é quem conduzia o bate-papo.
— De onde você é, Matt? – Indagou Nicole, realmente agradável e sorrindo.
— Eu sou de Bromley. – Falei, me remexendo, sem conseguir ficar imóvel. Embora sorrisse, sentia meu corpo quente, não sei porquê.
— E quantos anos você tem? – Nicole questionou, mantendo um tom de conversa tranquilo. Ela me avaliava, eu sabia, no entanto, por mais difícil que fosse, não me permitiria deixar me inibir pelo seu olhar clínico. Ao contrário, de alguma forma estava bem com isso.
— 23. – Disse, balançando os braços. Simon estava sorrindo também, parecendo gostar de mim e por algum outro motivo que deixei passar.
— E você trabalha? – Foi a vez de Simon me avaliar. Embora não tivessem dado uma palavra até agora, Sra. Osbourne e Louis mantinham expressões tão cordiais que senti meu nervoso quase se esvaindo. Quase.
— Eu era garçom. – Expliquei, satisfeito com as perguntas. Aquilo era algo que já conseguia falar livremente. – Infelizmente tive que largar meu emprego. – Emendei, entre gestos e inclinações do corpo.
— Por quê?! – Quis saber Simon, realmente interessado.
— Terminei um namoro recentemente, então fui para casa dar um tempo daquele ambiente que me causou tanto sofrimento, pois estava me atrapalhando um pouco. – Contei gesticulando. Se há um mês alguém me dissesse que eu estaria em frente aos jurados do X Factor falando sobre o meu antigo relacionamento, diria a esta pessoa consultar um psiquiatra.
— É, eu sei como é. – Ironizou Nicole e foi fácil pensar no motivo do seu sarcasmo. Sério, namorar aquela mulher por sete anos e não querer se casar com ela é um mistério que está além da minha compreensão. Tenho certeza de que todos lá fora riram, pensando em Lewis Hamilton. Já os outros três jurados riram como se Nicole tivesse verbalizado uma piada interna. E enquanto eu ria livremente, ela me olhava como se estivesse se depreciando.
— Ela te dispensou? – Interpelou Simon, sendo bem objetivo. Nicole tende a quebrar a seriedade das audições com alguma atitude extravagante ou comentário sarcástico. Dados três segundos nos quais olhei para cima para desviar o olhar penetrante de Nicole, simplesmente respondi.
— Sim. – Falei, sorrindo desajeitado e balançando a cabeça para o lado.
— Rum! – Exclamou Nicole boquiaberta, meio rindo meio estupefata, como se o que dissesse fosse inimaginável. Seus olhos castanhos escuros brilhavam, mas por conta das luzes, estavam quase vinhos.
Então eu era capaz de diverti-la?! Uma pontada de satisfação surgiu em meu peito ao pensar nisso, mesmo que a razão disso fosse meu relacionamento ferrado. Foi como se eu dissesse a ela que a Rainha havia soltado um pum em frente a Casa Branca. Improvável, porém, não impossível. Se para Nicole eu era um cara para não ser dispensado, deixaria para pensar nisso depois. Eu realmente estou vivendo aquilo?! Sim, então sorri realmente sem jeito pela sua reação, botando as mãos nos bolsos e remexendo os pés.
— Matt, eu espero que você não seja uma droga, porque eu já gosto de você. – Nicole disse, se recuperando do choque e colocando um peso naquelas palavras. Simon abaixava a cabeça rindo, enquanto Louis e Sharon se olhavam brevemente sorrindo, balançando a cabeça de um lado para o outro, como se Nicole fosse um caso perdido. Definitivamente minha audição não era o que eu esperava.
Quando os acordes de Stand by Me começaram a soar na sala, a apreensão formigou minha pele, tanto que meu sorriso se dissipou, ainda que o de Nicole permaneceu voltado para mim. Não sou vaidoso, mas preciso acreditar no meu dom. Pretendo não fazer feio, mas o medo de errar junto ao fato de ser alvo das expectativas de Nicole Scherzinguer, aumentava consideravelmente a pressão.
Fazendo uma dancinha a la Terry, soltei a voz e meu amor pela música. Cantei, cara, como cantei, ao meu estilo, determinado e tranquilo. Como se cantar fosse como andar de bicicleta, livre e fácil. Lembrei da minha ex e da minha dor e da minha família, e cantei. Tudo de mim se foi ali, para todos os jurados, para Nicole, para mim. Eu precisava daquilo, precisava mostrar a mim mesmo que eu era bom. E por algum motivo, no meu peito eu também queria mais. Queria que Nicole visse tudo isso em mim. E foi o que diz. Bravamente. Livremente. E tão logo começou, tão logo acabou. Saindo do transe, assisti aos jurados me aplaudindo e, ao que parecia, graças a Deus, satisfeitos com o que ouviram. Especialmente Nicole.
— Sra. O. – Pediu Nicole gentilmente a Sharon Osborne, para que iniciasse minha avaliação.
— Você cantou muito bem. – Respondeu Sra. O., sendo afável e sincera. – Você conseguiu. Você arrasou. – Tentei segurar o sorriso, mas foi em vão.
— Obrigado. – Respondi sinceramente, com as mãos cruzadas atrás das costas.
— Mesmo com uma música antiga, você fez do seu jeito. – Ressaltou Louis. – Eu acho que foi uma boa audição. – Elogiou ele.
— Muito obrigada. – Agradeci sorrindo livremente.
— Você me lembrou um pouco quando conheci Olly Murs. Divertido, simpático... – Simon contou, me fazendo lembrar do antigo apresentador do X Factor. Murs era realmente uma figura, então me senti lisonjeado.
— Muito obrigado. Isso significa muito. – Respondi sinceramente, tão feliz que queria sair correndo.
— Você tem o mesmo tipo de personalidade. – Continuou Simon, naquela comparação lisonjeira.
— Matt, estou tão feliz que você não foi uma droga. – Ah cara, Nicole me elogiou tão objetiva e sincera que meu coração quase derreteu.
— Obrigado. – Só consegui dizer, sorrindo.
— Foi ótimo. – E como numa dança sincronizada, Nicole elogiou, correspondendo ao meu sorriso.
— Você é ótima. – Falei sorrindo quase inocente. E realmente quis dizer aquilo, mas muito mais. Só simplesmente saiu da boca. Não sei se teria outra oportunidade na vida, mas queria dizer pelo menos um elogio àquela mulher linda.
— Eu sinto você. – Falou ela, tão espontânea que me pegou desprevenido. Assim, a tira roupa. Foi tão de repente que não consegui identificar qualquer sentido duplo nas suas palavras.
— Uh! — Nem disfarcei, apenas abanei meu moletom, dando a entender que ela havia me deixado quente de excitação. O que de fato deixou. Aquelas palavras reverberariam pelo meu corpo durante muito tempo.
— Sabe, de repente ficou quente bem rápido aqui. – Continuou Nicole, erguendo as sobrancelhas e verbalizando um fato inquestionável. Meu Deus, mulher, você vai me matar aqui. Sra. O. Louis e Simon não paravam de rir, especialmente Sharon.
— Sim! – Respondi, tapando meu rosto com as minhas mãos e rindo a risada favorita da minha avó. Acho que eu estava corando.
— Você gosta dela, não gosta? – Perguntou Simon, tão malicioso quanto pretendia ser, com um sorrisinho na cara. Nicole sorriu, mas olhou para Sharon. Não quis olha-la muito, não pareceu apropriado naquele momento, devido as minhas reações corporais.
— Eu gosto de você também, claro. – Eu disse sinceramente entre risos, e era verdade. Só era outro tipo de amor.
— É, mas você gosta mais dela. – Ressaltou Simon, insistindo em explorar o meu patético amor platônico por Nicole. O Simon dizer que gostava mais de Nicole do que dele, era como dizer que gostava mais de música que de gastronomia.
— Minha avó veio lá da Espanha e ela é sua maior fã. – Contei a Simon, desfocando a atenção dele no fato de eu gostar de Nicole. E posso jurar que minha avó está morta de vergonha neste momento por eu revelar seu segredinho. O inglês pareceu surpreso, já os outros, inclusive Nicole, se interessou pelo revelado. – É “Simon isso, Simon aquilo. Simon isso, Simon aquilo.” – Ressaltei, mexendo os dedos da mão.
— Então você fica com ela e eu com a vovó? – Sugeriu Simon e eu só pensei “feito”.
— Sim! – Concordei rindo, com as mãos em punho no ar. — Nós poderíamos fazer um encontro duplo. – Abri os braços, sugerindo o que, no fundo, não era brincadeira.
— Poderíamos. – Rebateu Simon, torcendo em punho. Não havia um que não estivesse rindo naquela sala. Nicole, em vez de se envergonhar ou se incomodar, apenas gargalhou, porque bem, é a Nicole. Quantos já não estiveram na mesma posição que eu, certo?!
— Matt, eu vou te dar o primeiro “sim”. – De repente falou Louis. Embora estivesse sendo inesperadamente divertida minha audição, acho que ela já estava se estendendo demais.
— Obrigado! – Respondi sorrindo.
— Sra. O. – Disse Nicole gentilmente, pedindo o voto de Sharon.
— Eu vou dizer sim. – Falou Sra. O. objetiva.
— Sim! Muito obrigado! – Eu disse, vibrando.
— Simon? – Solicitou Nicole, novamente.
— Eu vou dizer sim. – Respondeu o inglês.
— Obrigado! – Respondi, só sorrisos. E então o último era de Nicole.
— Você tem quatro “sim”, Matt. – Respondeu Nicole, entusiasmada.
— Ah meu Deus, muito obrigada! — Tudo que fiz foi quase me encolher, sem acreditar em tudo aquilo.
Eu estava transbordando de felicidade que tinha que abraçar Nicole, e supreendentemente ela já estava me esperando em pé. Corri até ela e a abracei, porém, o mais contido possível, porque se dependesse da minha vontade, eu a rodaria em meus braços. Toquei suas costas e ela apertou meu ombro. Foi breve, mas inesquecível. E cara, ela tinha um cheiro tão pungente, que estaria gravado na minha mente pelo resto da vida. Trocamos um breve olhar, mas foi o suficiente para me deixar arrebatado. Ela não me olhava com malícia, era só... Era um olhar de contentamento. E aquele sorriso então, meu Deus, era a coisa mais linda que já presenciei na minha jovem vida.
Me afastando rapidamente daquele momento, corri até minha família, que invadiram a sala parecendo uns aloprados. Meus pais me abraçavam com tanto amor e orgulho que deixou meu coração transbordando de alegria. Minha avó não ficava atrás, exceto que o alvo dela era Simon. Acho que ela quase teve um enfarte quando ele a abraçou, ainda mais quando minha mãe disse que minha Nan era fã número um dele. Ele só foi todo afetuosos e sorrisos com ela, só fazendo ama-lo ainda mais. Acho que minha vó nem dorme hoje. Sem contar que de bônus ela fez Nicole gargalhar quando a Vovó a abraçou. Ah, as mulheres da minha vida. Sonhar não custa, certo?! Certo...
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