The Fallen Angel

10 Salvar tem seu preço


Notas iniciais
Oie amores, atrasei um dia, mas acho que não foi tão grave assim, mesmo assim, desculpem-me. Espero que gostem, esse foi bem relax, tava sem tempo. O Jensen aparece no próximo, até as notas finais.

Abri os olhos, piscando três vezes. Minha visão estava meio embaçada, eu mal podia ver as coisas ao meu redor. Focalizei o teto, uma lâmpada apagada pendia do mesmo. Olhei para os lados, uma janela grande estava aberta, deixando os raios solares entrarem, iluminando o ambiente. Sentei, o espaço era humilde, mas acolhedor. Eu estava deitada em uma cama coberta por lençóis azuis, minhas roupas estavam trocadas, meus cabelos penteados, meu corpo estava todo dolorido. Fiquei confusa, lembro-me de ter caído, de ter sido carregada por um homem.

– boa tarde senhorita – disse aquela mesma voz.

Pulei de susto, ainda sentada na cama. Um senhor de uns cinquenta e poucos anos entrava no recinto, vestia roupas simples de fazendeiro, exibia um sorriso gentil e atencioso, como se eu fosse alguém importante para ele.

– acordou bem? – perguntou

– sim – respondi, confusa.

Ele sorriu, deu dois passos em minha direção, ficando na beira da cama.

– eu me chamo Marcel – falou – creio que você seja Blair, não?

– sim, sou – respondi, ainda mais confusa – perdoe-me, mas, como sabe meu nome?

Marcel sorriu, fiquei desconfiada.

– eu soube que dois anjos tinham caído, mas apenas um foi expulso – contou – você está muito encrencada, mas não corre risco de cair.

Pisquei, ainda mais confusa pelo fato de Marcel saber sobre anjos.

– como soube que caímos? – perguntei, mal cabendo em mim de tanta curiosidade.

Marcel soltou o ar, preparando-se para uma conversa longa.

– creio que precise de respostas, eu as darei – falou – mas primeiro, você deveria comer algo, tem três dias que você está dormindo.

– três dias?! – guinchei – tudo isso?

Marcel soltou uma risada, eu o assustara com minha reação, mas não é todo dia que a gente descobre algo assim.

– sim, três dias – respondeu – cuidamos de você, é claro, seu corpo não pode morrer em sua forma angelical, mas sofreu um grande dano, que passou para sua forma mortal.

– forma mortal? – perguntei.

– sim, você está em sua forma mortal agora, e provavelmente ficará por mais alguns dias – contou.

Engoli em seco, confusa e assustada, foi quando lembrei de um ponto.

– eu cai sozinha? – perguntei

Marcel me encarou, como se pensasse em como me dizer, seja lá o que fosse.

– sinto muito, buscamos por dois dias, mas só achamos você – falou.

Engoli em seco, parei de respirar, o que não teria sido um problema, se eu estivesse em minha forma angelical. Meus pulmões arderam, arfei, sugando o ar exigido por meu corpo, aliviando o desespero cerebral, causado pela falta de oxigênio. Eu me sentia diferente nesse corpo, era eu, minhas mesmas medidas, mas eu me sentia fraca, vulnerável, livre á possessão demoníaca. Engoli em seco outra vez, Marcel me observava, curioso, mas respeitava meu espaço.

– deve estar sendo difícil para você – notou – o corpo humano tem necessidades que os anjos não sentem.

– deu pra perceber – falei, sentindo um desconforto abdominal.

Toquei meu ventre, um pouco abaixo do umbigo. Tinha um desconforto, era estranho, uma dor aguda, como se algo dentro de mim precisasse sair.

– urina – disse Marcel, apontando para minhas mãos – isso que você está sentindo, é vontade de urinar.

– urinar? – perguntei, franzindo as sobrancelhas – eu nunca urinei, isso dói?

Marcel riu, não compreendi, era uma pergunta valida.

– não, não dói se você fizer logo – respondeu em tom paternal – mas, você não pode prender, ou causa doenças.

– que estranho – comentei, encarando meu ventre – onde posso urinar?

Marcel apontou para uma porta que eu não tinha reparado antes, fui em sua direção, abri-a e entrei no cômodo, fechando a porta em seguida.

– como eu faço isso? – perguntei, encarando o objeto de cerâmica branca com uma tampa de aparência confortável.

– seu próprio corpo vai te guiar – respondeu, sua voz meio abafada por conta da porta.

Encarei o vaso sanitário, engoli em seco, como fazer isso?

– não deve ser tão difícil – falei comigo mesma – você ceifa almas, pode urinar.

Demorei uns cinco minutos no banheiro, consegui excretar a urina, sai do cômodo com um sorriso vitorioso no rosto, era uma pequena conquista, mas me fez sentir um alivio enorme. Marcel me esperava no mesmo lugar onde o deixei, sorria de modo paternal, e me olhava como se eu fosse o maior presente que ele já ganhou um dia.

– conseguiu? – perguntou

– sim – respondi, sorrindo.

– que bom, detestaria precisar passar um vídeo de orientação – falou – venha comigo, você precisa comer alguma coisa.

Assenti, Marcel foi na frente, saímos do quarto e varamos em um corredor. Segui-o pela casa, moveis simples e modestos ocupavam boa parte do espaço, fotos de pessoas cobriam as paredes, senti cheiro de terra limpa e fresca, um perfume tão atrativo e refrescante, que eu parei de prestar atenção em Marcel, e segui como se estivesse em transe para a porta da frente. Sai para a varanda da casa, um balanço antigo estava á minha esquerda, assim como mesinhas e vasos de plantas, mas eu não dei muita atenção á isso, e sim á vista.

O terreno estendia-se por vários quilômetros em todas as direções, para onde quer que eu olhasse, eu via grama úmida e arvores fartas e cheias de frutos. Cercados com diversos animais espalhavam-se pela propriedade, um celeiro em reparos e de portas abertas ficava no centro do espaço, como se fosse a atração principal. Desci os cinco degraus da escadinha da varanda da casa e caminhei pela grama fofa e macia, o ar fresco e puro adentrava em meus pulmões, saciando minha necessidade de respirar. A tarde caia, fazendo o céu ficar em um tom lindo de laranja, o sol poente dava adeus ao céu, por enquanto.

Ouvi um relinchar de cavalo, atrás de mim, muito perto. Meus sentidos humanos eram um pouco amortecidos, meus reflexos eram um pouco mais lentos do que eu gostaria, mal tive tempo de desviar, e o cavalo em alta velocidade passou por mim como um furacão, fazendo-me cair no chão com o susto.

– Hey! – disse alguém.

O cavalo parou á poucos metros de mim, seu cavaleiro pulou do dorso do animal e correu em minha direção. Usava botas de couro, calça jeans azul e com a barra suja de lama, não usava camisa, exibindo seu peitoral musculoso e extremamente atraente. O rosto foi o que mais me chamou atenção, os olhos azuis gentis e bondosos que me observavam, medindo-me com cautela e preocupação. Os cabelos loiros sacudiam com o vento, assim como os braços, por conta do movimento em velocidade alta. O rapaz vinha correndo em minha direção, fiquei parada, apenas olhando-o.

– você está bem? – perguntou

Sacudi a cabeça, retomando a sensibilidade do meu corpo, que ficara duro e congelado, encarando o rapaz.

– estou – respondi.

Ele expirou, claramente aliviado.

– desculpe, eu não deveria deixar o Rob ter tanta liberdade, mas é difícil domar um cavalo que nasceu para correr – falou, dando um sorriso caloroso – sou Miguel.

– Blair – respondi, retribuindo seu sorriso com um leve repuxar de lábios.

– vejo que já acordou, que bom, Milla não aguentava mais ficar sem conhecer você – falou, ainda sorrindo – ela não recebe muitas visitas aqui, e não tem muitos amigos.

– Milla? – perguntei

Ele soltou uma risada, como se tentasse desculpar-se por alguma coisa.

– claro, você ainda não deve ter conhecido ela – falou – Milla, minha irmã.

– ah – falei.

Marcel apareceu na porta da casa, Miguel olhou para ele, depois para mim.

– pelo visto você já conheceu meu sobrinho – disse Marcel, vindo até nós – Miguel, vá guardar Rob, antes que ele se perca, de novo.

– claro, tio – respondeu, prontamente – foi um prazer conhecê-la, Blair.

– o prazer foi meu – respondi.

Miguel sorriu, voltou correndo e montou no cavalo branco, galopando para longe, desaparecendo de vista em cerca de segundos.

– bom garoto – disse Marcel, assustando-me um pouco – crio ele e a irmã desde quando eles eram bebês, são gêmeos.

– isso é bom – falei.

– não tanto – revelou – a mãe deles, minha irmã, morreu no parto.

– me desculpe, eu não fazia ideia – falei, arrependida e apreensiva – sinto muito.

Marcel deu um pequeno sorriso, encarando o chão.

– é, ela era uma ótima pessoa – falou – pena que se meteu com o cara errado, que a largou grávida e sozinha.

Fiquei em silencio, não sabia o que falar, e estava um pouco constrangida pelo fato de Marcel estar abrindo sua vida pessoal para mim.

– tio, o jantar está pronto! – disse uma garota.

Ela era loira, tinha olhos azuis, puxando um pouco para o verde, e era muito parecida com Miguel. A garota veio até nós, com um sorriso tão caloroso quanto o do irmão.

– oi! – falou, vibrando um pouco – eu sou Milla, você deve ser a Blair.

– isso mesmo – respondi, sorrindo como ela.

Milla aproximou-se de Marcel, sussurrou algo que não pude detectar em sua orelha, mas devia ser algo serio, já que Marcel ficou tenso. Meu sorriso diminuiu, Milla afastou-se do tio, meio tristonha e preocupada. Marcel recompôs o sorriso, pegando-me de surpresa.

– venha, vamos jantar – chamou – você precisa comer alguma coisa, mocinha.

Sorri, era bom ser tratada com carinho, era como se Marcel me visse como uma filha, e me tratava muito bem. Milla veio ao meu lado, encabulada e tímida demais para iniciar uma conversa, mas sorria muito para mim, e isso era ótimo. Entramos na casa, Marcel e Milla guiaram-se até uma cozinha larga e bem organizada, panelas e pratos enchiam a mesa grande e farta, o cheiro estava maravilhoso. Miguel passou por mim, assustando-me, eu não o tinha visto atrás de nós. Ele trocara de roupa, vestia calças limpas e uma camisa de botões, seu sorriso continuava intacto.

– sente-se Blair – chamou-me Marcel.

– aqui, sente ao meu lado – disse Milla, puxando uma cadeira para mim.

– sim, obrigada – falei, sorrindo de maneira educada.

Sentei-me ao meu lado, Milla pegou um prato e o encheu de comida, depositou-o á minha frente com um sorriso enorme.

– fui eu quem fiz, espero que goste – falou.

– não pressione a menina com seus dotes culinários, Milla – disse Miguel, com aquele sorriso caloroso.

Milla fez uma careta, apressei-me á experimentar, era uma macarronada. O gosto era incrível, entorpeceu meus sentidos, fazendo-me dar um sorriso enorme.

– é a melhor coisa que eu já comi – falei.

Milla abriu um grande sorriso, assim como Marcel, Miguel limitou-se á revirar os olhos.

– sério, não precisa fingir que gostou – disse Miguel – ela não precisa de todo esse ego que ela tem.

– palhaço – ralhou Milla, um pouco irritada.

– eu não estava mentindo, isso aqui está muito bom – falei, sorrindo para Milla – você cozinha muito bem.

– eu tento – agradeceu, sorrindo.

Comemos em silencio, Milla me perguntava sempre se eu estava gostando, eu dava um grande sorriso e dizia que sim, fazendo seu sorriso crescer a cada segundo. Miguel retirou os pratos, colocando-os na pia, e servindo a sobremesa logo em seguida, em todos os meus anos de servidão, eu nunca provei algo tão gostoso quanto sorvete de chocolate. Marcel sorriu para mim, como se estivesse preparando-se para uma longa conversa.

– então Blair, como é lá no céu? – perguntou.

– ah... – comecei, ninguém tinha feito essa pergunta antes – é bem calmo.

– calmo? – disse Milla

– e silencioso, claro, á menos que eu grite – respondi, encolhendo-me na cadeira – e á menos que Samuel esteja irritado comigo.

– Samuel é seu superior, não? – disse Miguel, interessado na conversa.

Assenti, Marcel comeu mais um pouco de seu sorvete.

– e que tipo de anjo você é? – perguntou Milla.

– eu sou um anjo ceifeiro – respondi, encarando todos na mesa – cuido de levar as almas aos caminhos certos, evitando que elas se prendam á vida.

– seu amigo, aquele que caiu – disse Milla, causando-me um tremor – ele era um ceifeiro também?

– Milla! Cuidado com o que fala – repreendeu Marcel, vendo como eu estava abalada pela menção á Thales.

Recompus-me na cadeira, respirei fundo e forcei um sorriso.

– não tem problema, Marcel, é só um pouco difícil – falei, enchendo os pulmões de ar outra vez – não Milla, Thales era um anjo salvador.

– um salvador – disse Milla – o que ele fazia?

– salvava vidas, evitava acidentes – respondi – evitava o despregar das almas ao mortal.

– isso não é trabalho dos anjos da guarda? – perguntou Miguel.

Neguei com a cabeça, os irmãos estavam muito interessados no que eu tinha á dizer.

– existe uma linha tênue que separa os dois, e ambos os trabalhos tem suas peculiaridades – respondi – anjos da guarda são os guardiões dos humanos, eles cuidam da vida, guardam elas na paz. Os salvadores salvam as vidas, evitam mortes, enquanto os da guarda fazem a proteção.

Milla fez um gesto com a cabeça, como se tivesse entendendo.

– entendi – falou – seu amigo era um salvador, ou seja, salvava vidas.

– isso mesmo – respondi.

Miguel apontou para mim, usando sua colher.

– seu trabalho e o dele são opostos – falou – você levava as almas enquanto ele tentava salvar.

Assenti, Miguel estreitou os olhos por um segundo.

– como podem ser amigos, já que são o oposto um do outro? – perguntou.

Abri a boca, mas as palavras não saiam, eu não tinha resposta para essa pergunta.

– eu não sei, ele se aproximou, foi gentil – respondi – acabamos virando amigos, nem ligávamos para nossos trabalhos, era apenas pura amizade.

Todos ficaram pensativos, peguei-me recordando cada momento com Thales.

– eu não compreendo a duvida humana, não importa o quanto as pessoas forem diferentes, ou opostas, não deveria ter diferença – falei, encarando a mesa com as sobrancelhas franzidas – todos nós somos a mesma base, sentimos exatamente as mesmas coisa, não temos diferença alguma, por que não podemos ser todos amigos? Por que existe preconceito?

Milla encarou seu sorvete, Miguel e Marcel sorriram para mim, como se me entendessem muito bem.

– humanos são tão estranhos – falei, bufando um pouco.

Miguel olhou nos meus olhos, fugi de seu olhar, não me sentia á vontade com tantos olhares recaídos sobre mim.

Foi quando senti um tremor percorrer meu corpo, minhas asas cresceram, tomando todo o espaço disponível atrás de mim. Fechei os olhos, a energia clara e forte dos anjos saia pelos meus olhos, como se fossem dois faróis de carro. Todos me encaravam, ouvi o palpitar suave de um coração, palpitar que logo se encerraria. Levantei da cadeira, respirei fundo, tinha uma alma para levar, e bem perto.

– preciso levar a alma – falei, com a calma de sempre – o moribundo vai dar seus últimos suspiros.

Milla arregalou os olhos, Miguel olhou para a irmã, tão tenso quanto ela. Marcel levantou da cadeira, pálido e pasmo demais. Encarei-o, o velho parecia á beira de um ataque.

– tem mais alguém aqui – afirmei – preciso guia-lo, onde ele está?

– tio, a tia vai morrer? – disse Milla, chorosa.

Encarei Marcel, que olhava para o chão, claramente perturbado.

– o ultimo quarto do corredor – falou, com a voz embargada – é Annie, minha mulher.

Senti um tremor me abalar, não só por ter que levar a alma, mas por saber o mal que eu faria á essa família. Baixei a cabeça e fui em direção á ultima porta do corredor, seguida de perto por Miguel e Milla, já que Marcel continuou parado no mesmo lugar, piscando os olhos para deter as lagrimas. Abri a porta do quarto, entrei e fixei meu olhar na senhora que estava deitada em uma cama grande. Ela era loira, assim como Marcel e os sobrinhos, tinha um rosto gentil e sereno, ainda que contorcido pelos acessos de tosse muito frequentes. Olhei para trás, Miguel estava me olhando, serio, sem demonstrar expressão alguma.

– o que ela tem? – perguntei

Miguel fixou seu olhar na senhora, que não fazia nada ao me ver ali.

– câncer de pulmão – respondeu – estado terminal.

Engoli em seco, o grande motivo de minha repulsa por hospitais era ver pessoas sofrendo com doenças fatais, câncer era uma das que eu mais odiava. Caminhei até a senhora que se contorcia na cama com um peso em meu peito, pela primeira vez na minha servidão, eu estava hesitante ao levar uma alma. Sentei ao seu lado na cama, a senhora me olhou.

– olá – falei, baixinho – venha comigo, eu vou guiar-te.

A senhora tossiu, afaguei suas costas, detestando vê-la nesse estado.

– você é minha ceifeira? – perguntou, respirando fundo, sem ar.

– sou – respondi, com um bolo na garganta – sou sua ceifeira.

A senhora assentiu, pude ouvir os soluços incansáveis de Milla atrás de mim, Miguel abraçava a irmã, consolando-a.

– você é mais linda do que eu imaginava – falou, dirigindo-me um sorriso gentil – eu sempre quis ter uma filha.

Sorri, ainda mais culpada por ter que matar aquela mulher.

– obrigada – falei.

A senhora sorriu, tossiu outras três vezes, eu já estava ficando agoniada.

– eu nunca tive filhos, só Miguel e Milla – falou, seu olhar estava distante – eles são como filhos para mim, e eu me orgulho muito deles.

Milla só começou á chorar mais intensamente, o rosto bonito e jovial de Miguel retorceu-se um pouco, sua dor era explicita, mas ele não queria chorar.

– quando era pequena, tive um problema, acabei ficando estéril – falou, engolindo em seco – fiquei muito triste por muito tempo, mas os meninos chegaram, e eu os criei com muito amor.

Respirei com dificuldade, Annie deu um pequeno sorriso.

– estou agoniando você com minhas bobagens, não estou? – falou, sorrindo e encarando meus olhos – você tem lindos olhos azuis.

– meus olhos deveriam estar violetas – revelei, minha voz começou á ficar embargada.

– você está triste – afirmou – algo perturba você.

Assenti, Annie segurou minhas mãos, como se ela é quem tivesse a obrigação de me confortar.

– o que te deixa aflita? – perguntou, gentilmente.

Funguei, não pude evitar que uma lagrima caísse em meu rosto.

– muitas coisas – respondi, fugindo do olhar da senhora – mas, a pior delas, é a aversão que estou sentindo.

Annie apertou os lábios, deve ter me entendido errado, devo ter passado á impressão de que tinha aversão á ela.

– eu não quero levar a senhora – corrigi-me, fungando – eu não quero.

Annie deu um sorriso afetado, mas logo teve outro acesso de tosse.

– eu sinto muito por ter que fazer isso, menina – falou, ofegando, sem ar – mas não posso fazer nada, nem reclamar de minha vida. Fui muito feliz ao lado de Marcel, mais feliz ainda com meus filhos.

– tia – chorou Milla.

Olhei para trás, ambos viram que eu também chorava.

– desculpe por isso, Annie – falei, engolindo com dificuldade – eu queria ser um anjo curandeiro, eu poderia curar você.

Annie riu, uma doce risada, bondosa até em seu leito de morte.

– vamos acabar logo com isso, querida – falou – sabe o que precisa fazer.

Assenti, apertando os lábios, respirando com dificuldade. Annie deitou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, deu um pequeno sorriso, serena.

– o que preciso fazer? – perguntou a senhora.

– só precisa fechar os olhos, siga minha voz – respondi, afagando seus cabelos.

Annie assentiu, respirei fundo, sentindo sua alma despregando-se do mortal. Engoli em seco, Miguel finalmente mostrara sentimentos, ele chorava agora, fazendo meu coração ficar ainda mais pesado. Encarei Annie, que estava dormindo serenamente, sua alma ainda estava despregando-se, ela ainda podia viver.

– Deus, o que eu estou fazendo? – perguntei, sacudindo minhas asas de desespero.

Coloquei a mão na testa de Annie, canalizando meu pequeno poder de cura.

– essa alma ainda vai viver muito, concedo á ela o dom da vida – falei.

Uma claridade branca entrou pelas narinas de Annie, penetrando seus pulmões, curando-os por dentro.

– Blair – chamou Miguel – o que está fazendo?

– salvando sua tia – respondi – silencio.

Fiz mais força mental, senti vertigem leve. Eu não era um anjo curandeiro, podia curar uma pessoa, mas isso consumiria boa parte das minhas forças, isso, se eu não morresse no processo.

– Annie, me escute – falei – fique comigo, não feche os olhos.

Annie começou á reagir, engoli em seco, minha cabeça girava.

– Annie, você precisa acordar – falei – por favor, acorde.

A alma de Annie voltava ao físico, eu não podia mais sentir o espiritual. As pálpebras de Annie tremularam, senti uma dor de cabeça muito forte. Ofeguei e caí no chão, assim que Annie abriu os olhos, completamente curada.

– Blair! – chamou Miguel.

Eu estava ocupada demais tendo uma convulsão para responder. Meu corpo tremia sem controle, minha cabeça parecia que ia explodir, meus sentidos superaqueceram e minha visão escurecer.

– o que você fez? – perguntou Annie – menina, olha só para você.

Minha convulsão parou, mas a dor de cabeça só estava mais forte. Miguel ergueu-me nos braços, senti seu perfume quando meu rosto enterrou-se na gola de sua camisa, era um cheiro agradável, cheiro que me fez relaxar um pouco.

– Marcel! – chamou Miguel.

Marcel apareceu na porta, tomou um grande choque ao ver Annie viva, e eu quase desmaiada.

– o que? – perguntou – Blair?

– ela curou a tia! – ofegou Milla, incrédula.

Miguel fez um muxoxo, senti seu balançar corporal, ele estava andando.

– fique acordada, Blair – falou – fique comigo.

– Miguel... – sussurrei, respirando fundo, buscando mais de seu cheiro bom.

– isso, sou eu – respondeu.

Miguel empurrou a porta do quarto onde eu estava e entrou comigo nos braços, depositou-me na cama confortável e se afastou, levantou seu perfume consigo, piorando minha dor de cabeça.

– não – falei – volte.

Miguel me olhou, confuso e hesitante.

– seu cheiro – falei, á beira de um novo desmaio – preciso do seu cheiro.

– er... claro, por que não? – falou, confuso – venha.

Miguel me abraçou, puxando-me para seu peito. Enterrei meu rosto em sua camisa, seu cheiro já estava me fazendo melhorar, mas eu precisava de mais. Miguel deitou-se comigo na cama, puxou-me para si, descansando meu rosto em seu peito. Fechei os olhos, o cheiro de Miguel superava a dor que eu sentia, fazendo-me relaxar.

– durma – falou – eu vou ficar aqui.

Assenti, Miguel começou á afagar meus cabelos, fazendo-me ficar com certo sono.

– Miguel? – chamei, sonolenta.

– sim? – respondeu.

– estou incomodando você? – perguntei, preocupada – não estou te prendendo?

Miguel deu uma risada calma, esperei, á beira do sono.

– não, Blair – respondeu – não se preocupe.

Relaxei, Miguel começou á cantarolar baixinho, fazendo-me adormecer em seu peito.

Notas finais
Pronto, espero que vcs tenha gostado, esse foi bem corrido mesmo, o próximo vai ser melhor. Tô meio sem tempo, tenho mais duas fic's em aberto, passem lá depois, se quiserem. http://fanfiction.com.br/historia/443736/Saint_Agnes_Academy_-_Interativa/ http://fanfiction.com.br/historia/418832/Os_Sobreviventes/ Beijo