The Fallen Angel
11 Retorno
Notas iniciais
Abri os olhos, acordando mais uma vez, isso era muito estranho, já que anjos não dormem. Senti algo macio e esponjoso em minha mão, ignorei, mas a sensação era muito boa. Minha cabeça estava deitada em algo macio e quente, tinha um cheiro muito agradável, alimentava minha alma. Percebi com um susto que estava deitada em Miguel, ele dormia tranquilamente, em paz. Fiquei observando seu rosto sereno e calmo, a curvatura de seu nariz, o volume dos lábios, a expressão doce continuava em seu rosto, ainda que adormecido. Levantei meu dedo indicador e toquei a ponta do nariz de Miguel, a pele era macia e quente, agradável demais para ser verdade. Toquei com meus dedos toda a extensão de seu rosto, acompanhando o contorno e cada curva bem feita em seu rosto, Miguel era muito bonito.
Meu peito ardeu, tirei a mão do rosto de Miguel. Me pareceu errado estar ali com ele, algo me disse que eu não deveria estar aqui, nessa fazenda, com eles. Parecia tão fácil ficar ali com Miguel, apenas respirando seu cheiro, senti o calor de seu corpo, estar com ele era tão agradável. Mas uma voz no fundo da minha cabeça disse algo muito importante, algo que seria realidade se eu ficasse ali com Miguel.
Nunca mais verá Jensen.
Engoli em seco, sentindo a veracidade naquelas palavras. Era bom ficar ali com aquelas pessoas, mas era horrível ficar distante de Jensen. Mesmo conhecendo-o tão pouco, mesmo ainda estando decepcionada com ele por suas relações mundanas, ficar longe de Jensen me deixava muito triste, e meu peito ardia, por algum motivo que eu desconhecia.
As pálpebras de Miguel tremeram, ele abriu os olhos, acordando. Seu olhar focou em mim, ele deu um pequeno sorriso sonolento.
– bom dia, Miguel – falei, dando um pequeno sorriso.
– bom dia – murmurou, a sonolência era evidente em sua voz.
Desviei o meu olhar do seu, seria mais fácil assim, eu precisava voltar para Jensen, e não podia fazer Miguel sofrer por isso. Senti um carinho bom em minha cintura, olhei para ela e identifiquei os dedos de Miguel. Senti um gosto amargo na boca, era tarde demais, eu pude sentir o afeto no contato de Miguel em minha pele. Olhei em seus olhos, ele não parecia saber o sentimento que recheava seu carinho, era quase como se ele ainda não tivesse sido afetado pela sua própria magia. Ainda havia tempo, mas precisava ser logo.
Sentei na cama, fazendo o braço que afagava minha cintura cair na cama, flácido e confuso. Ele me olhou, um pouco confuso, não parecia perceber meus motivos, e nem os deles.
Miguel estava amando, mas nem ao menos sabia disso.
– preciso ver sua tia – menti.
Era minha primeira mentira, tive medo dela não parecer verídica, tive medo e receio de que Miguel não acreditasse, esperei pelo momento em que ele levantaria da cama, gritaria e acusaria á mim, por ser mentirosa.
– claro, eu também – falou, voltando á dar um pequeno sorriso.
Sorri também, mas foi um sorriso hesitante. Miguel reparou, sentou na cama, ficando ao meu lado, fazendo-me sentir o calor que irradiava de seu corpo outra vez.
– o que foi? – perguntou – você não parece bem.
– estou bem – menti – só quero ver sua tia, saber se eu fiz a coisa certa.
Miguel sabia que eu estava mentindo, ele me olhou de uma forma intensa, como se tentasse desvendar meus pensamentos. Por fim, soltou um suspiro e levantou da cama, dirigiu-me um rápido olhar e estendeu a mão para mim. Aceitei-a com certa relutância, Miguel puxou-me delicadamente, fazendo-me levantar. Algo saiu de baixo da cama, pulou em minha perna, emitiu um ruído alto. Os pelos negros faziam cócegas em minha pele, os olhos azuis me olhavam atentamente, como se pudessem ver minha alma.
Dei um grito, pulei em Miguel, enterrando-me em seu peito e sacudindo a perna para livrar-me do animal. Meu coração batia como louco, eu nunca levei susto igual. Miguel ria, mas me abraçou em seu peito, como se não visse nada demais no ambiente.
– esse é Larry, o cachorro da Milla – falou, ainda rindo.
Respirei fundo, o cãozinho ainda me rodeava, pulava em mim, ansiando por um carinho meu.
– ele me assustou – justifiquei.
Miguel riu outra vez, sai de seu peito e agachei-me junto a Larry, que ficou feliz por receber atenção.
– olá pequeno – cumprimentei – sou Blair.
– au! – respondeu, feliz.
Abri os braços, o animal pulou em meu colo, lambendo meu rosto como se fossemos velhos amigos. Dei varias gargalhadas, o carinho do animal era algo revigorante, sua linguinha passeava por todo meu rosto, gerando sensações boas e agradáveis.
– você é um fofo – falei, rindo para o animal.
Larry latiu, depois pulou do meu colo, caindo no chão. O cão latiu e deu varias voltas, indicou a porta com o focinho e latiu outra vez, como se me chamasse. Miguel sorria, admirando a cena.
– Larry é nosso mascote, ele adora estar no controle – explicou – siga-o.
Assenti, levantei e deixei o quarto, seguindo Larry, que corria feliz pelo corredor. Ele guiou-me até o quarto de Annie, onde eu a curei ontem. Hesitei ao abrir a porta, mas Larry usou sua cabeça e abri a porta, exibindo a cena.
Marcel ria, com lagrimas nos olhos, olhando o rosto de Annie. Ela, por sua vez, sorria e acariciava a mão de Milla, que estava sentada ao seu lado na cama. O amor ali era algo explicito, todo o pesar que eu sentia sumiu, eu salvara aquela família, e o amor deles alimentou minha alma.
– Blair! – chamou Milla.
A garota levantou-se e correu ao meu encontro, abraçou-me com força, seus olhos estavam fechados, ela irradiava felicidade.
– obrigada, Blair – falou – muito obrigada.
Soltei o ar, sorrindo a retribuindo seu abraço.
– não foi nada – respondi.
Milla suspirou, abraçando-me como se fossemos velhas amigas.
– Blair – chamou Annie.
Milla me soltou, deixando o caminho livre para que Annie o fizesse. Sua saúde estava renovada, a força e o amor em seu abraço me deixou mais forte, foi como se renovasse minhas forças, e eu não senti mais medo do que enfrentaria quando chegasse á hora de encarar Samuel.
– obrigada, querida – disse Annie – obrigada.
Abracei-a com toda minha vontade, queria que ela sentisse o quanto eu gostava deles.
– eu não podia te deixar morrer – falei – não podia.
Annie me soltou, afagou minhas bochechas e sorriu para mim.
– você é um amor – falou.
Sorri, Marcel de um passo á frente, sorrindo daquela forma paternal.
– eu nunca vou poder agradecer da maneira certa – falou.
– não precisa, o amor de sua família é a maior recompensa que eu poderia ter – respondi, sorrindo para eles.
Miguel entrou no quarto, usava outras roupas, seus cabelos estavam úmidos.
– tia – falou.
– meu filho – disse Annie.
Eles se abraçaram, sorri com a cena, o amor daquela família era lindo.
– vejo que Blair renunciou outra vez á seu posto – disse alguém atrás de mim – eu sabia que deveria ter sido melhor transforma-la em uma salvadora.
Virei rápido, meu mais velho amigo sorria para mim.
– Spencer! – guinchei
Pulei em seu pescoço, abraçando-o.
– pensei que você não ia aparecer – sussurrei em sua orelha – e me deixaria para sempre.
Spencer afagou minhas costas, soltei-me dele.
– estou aqui – falou.
Sorri, Marcel trocou um aperto de mãos com Spencer, deixando-me curiosa.
– caro amigo – disse Marcel.
– Marcel, vejo que recuperou sua esposa – disse Spencer, sorrindo para Annie – olá de novo, Annie.
– Spencer, é bom ver você outra vez – disse Annie, sorrindo.
Pisquei, estava confusa demais, Spencer percebeu e riu.
– somos velhos amigos – disse – explico outra hora.
Assenti, meu amigo ceifeiro veio até mim, deixando Marcel ao lado da esposa.
– vim levar você de volta – disse Spencer – Samuel quer te ver.
Assenti, encarei Marcel e sua família, sorrindo.
– sou muito grata á vocês, agradeço por terem cuidado de mim – falei – preciso ir.
Marcel, Annie e Milla assentiram, como se esperassem por isso. Miguel continuou da maneira que estava, parado e confuso.
– adeus – falei – fiquem na luz.
– adeus – disse Marcel – cuide-se, menina.
Assenti, Milla e Annie sorriram para mim, gratas.
– vamos – disse Spencer – vejo vocês outro dia.
Marcel assentiu, Spencer pegou minha mão e levou-me para fora da casa. Respirei o ar puro, olhei para Spencer, que sorria.
– por que me deixou aqui? – perguntei
– foi necessário – respondeu – Samuel está mais calmo, ele queria expulsar você, assim como fez com Thales.
Á menção do nome de Thales, meu estomago deu um salto mortal.
– tem noticias dele? – perguntei.
Spencer negou com a cabeça, suspirei, triste.
– vamos – falei, infeliz – vamos voltar para Nova York.
Ele assentiu.
– mas, você precisa saber de uma coisa antes – falou
– diga – falei.
Spencer me encarou, serio.
– Jensen precisa saber de tudo – falou.
Tremi, insegura.
– tem certeza? – perguntei – nosso segredo, exposto á um humano?
Spencer assentiu, ainda sério. Respirei fundo, aquela não era a hora de acovardar-me, eu precisava ser forte.
– tudo bem – falei – embora, prefira falar com outra pessoa.
Spencer deu um meio sorriso, como se tentasse compreender meu pesar. Eu queria ver Thales, queria falar com ele, saber se ele estava bem. Eu não estava sozinha, estava com Spencer, e ele era meu melhor amigo. Mas ele não supria a falta. Spencer era perfeito, ele era incrível, mas não era Thales, e a dor que eu senti só podia ser suprida por meu amigo caído.
Abri minhas asas, sentindo a eletricidade de meu poder correr por todo meu corpo. Spencer também abriu suas asas, decolamos e voamos para longe daquela fazenda, em direção á cidade que nunca dorme.
POV Jensen
Sete dias, é o tempo que passou, depois daquele domingo estranho.
Sete dias, o tempo em que Claire ficou perguntando diversas vezes a mesma coisa: “Onde está a Blair, e o que você fez com ela?”.
Eu podia aguentar umas perguntinhas da minha irmã, mas, eu também queria as respostas para aquelas perguntas.
O tal Spencer apareceu durante os dois primeiros dias, sem a presença de Claire para atrapalhar. Perguntei á ele tudo o que veio á minha mente, mas não obtive nada.
Nada alem de uma explicação completamente estapafúrdia, do jeitinho que minha mãe costumava dizer, sempre que eu perguntava qualquer coisa sobre Frank O’neal.
– anjos não existem – entoei para mim mesmo, pela milésima vez na semana – você está louco, seu grande idiota.
Passei as mãos nos cabelos, tenso. Passei os últimos sete dias preocupado com essa garota, e nem sei o motivo exato.
– Jensen, a pizza vai esfriar – chamou Claire, entrando no meu quarto.
Assenti, minha irmã ficou me olhando, curiosa.
– você parece pensativo – reparou – perdeu as chaves da moto outra vez?
Revirei os olhos, Claire tinha um talento natural para dizer coisas burras.
– claro que não, é besteira minha – respondi.
Claire entrou no quarto, semicerrou os olhos e colocou as mãos na cintura.
– é por causa dela, não é? – perguntou – você não esquece essa garota?
– ela não tem nada á ver com isso – retruquei, ficando irritado – cuide da sua vida.
Minha irmã me encarou, depois de um tempo, suspirou pesadamente.
– eu compreenderia se você estivesse preocupado com a Blair, mas sei que não está – falou – ou estou errada?
Hesitei antes de responder, Claire percebeu.
– não deixe Susan atrapalhar sua vida, ainda mais – falou – eu sei que você gosta da Blair.
Pronto, esse foi o fim da picada.
– consegue esquecer Susan pelo menos por um segundo? Já faz tanto tempo – falei, levantando da cama e olhando feio para a garota – Susie não tem culpa, ela nunca teve.
Claire rosnou, como um cão irritado.
– eu não consigo entender o que você viu nela – falou – a Blair é tão melhor que ela, Jensen.
– ai meu deus, garota – falei, já furioso – eu não tenho nada com a Blair, e não ligo para ela.
Claire bufou, ainda mais irritada.
– você não liga, eu ligo – falou, ficando nas pontas dos pés para me encarar melhor – ela sumiu, do seu quarto, sem deixar vestígios.
– você acha que eu não sei? Acha que eu também não acho estranho? – explodi, jogando minha luminária no chão.
– sim, acho – respondeu, assustada por minha reação – se você ligasse para o fato de que uma garota morta de medo, de você, desapareceu do nada, diretamente da sua cama, estaria, no mínimo, preocupado com ela. Á menos que saiba onde ela está.
Parei, encarei a garota.
– acha que eu fiz algo á Blair? – perguntei
– como posso saber que não? – rebateu
Respirei fundo, tentando não esganar Claire.
– acha que eu faria isso? – perguntei.
– sinceramente, eu não conheço mais meu próprio irmão – falou, respirando fundo – só tenho medo de voltar á ser como era antes.
– a época das tatuagens não vai voltar – falei.
Minha irmã hesitou, deu três passos em minha direção, e me abraçou.
– é o que eu mais quero – falou, de olhos fechados.
Retribui seu abraço, Claire suspirou, exatamente como fazia quando era criança.
– não se preocupe, irmãzinha – falei, acariciando-lhe os cabelos – eu cresci, tenho você para cuidar.
Ela riu, mas não me soltou.
– eu sei que não – falou – eu confio em você, Jensen.
Sorri com aquela afirmação, mesmo com todas as brigas, eu continuava sendo o irmão mais velho, e continuava amando minha pequena.
– vamos jantar – falei – a pizza esfriou.
Ela assentiu, me soltou e olhou nos meus olhos.
– vai me contar quando souber algo da Claire? – perguntou.
– vou – falei, mesmo que não fosse.
– me faça acreditar nisso – mandou.
Revirei os olhos, mas juntei meu dedo mindinho ao dela.
– jura? – perguntou
– juro – respondi.
Ela sorriu, soltou meu dedo e recompôs a expressão seria.
– nunca, em hipótese alguma, conte á alguém que juramos de dedinho – falou – ou, eu mato você.
– okay, fedelha – respondi.
– fedelha é a senhora sua avó – resmungou, saindo do meu quarto.
Ri outra vez, Claire tinha uma maneira especial de me fazer sentir o idiota mais sortudo do mundo, por ser seu irmão.
Coloquei minha luminária no lugar, tirei a jaqueta de couro e atirei-a sobre a cama, lembrando da ultima vez que Claire e eu tivemos uma discussão parecida.
Á três anos atrás, na época das tatuagens.
– Jensen – chamou Claire, outra vez.
Revirei os olhos, desviando meu olha da minha cama.
– eu já vou, se a pizza esfriar, eu ponho no micro-ondas – falei.
Ouvi seus passos apressados, minha irmã abriu a porta do quarto, levemente corada.
– uau, eu ainda não creio no que vi – falou, mais consigo mesma do que comigo – tem um gato na sala, perguntando por você.
– gato, do verbo, o animal... – perguntei
– não – disse, revirando os olhos – eu quis dizer, um homem bonito.
Minha vez de revirar os olhos, Claire só era nova, mas era muito, muito precoce.
– Mike ou James? – perguntei, referindo-me á meus amigos.
– nenhum dos dois – disse Claire – muito mais bonito do que aqueles fedelhos.
– ontem mesmo você estava suspirando pela casa por causa dos “fedelhos”- falei.
Ela grunhiu, impaciente.
– ontem mesmo eu não tinha visto esse cara – disse, revirando os olhos – que bom que ele não pode me ouvir.
Ela saiu, deixando-me confuso. Saí do quarto, caminhando vagarosamente em direção á minha sala, para encontrar quem quer que fosse o visitante do dia. Estanquei assim que o vi, sentindo uma certa raiva.
– olá, Jensen – disse Spencer.
– Spencer, resolveu aparecer – falei, frio.
Spencer sorriu, parecia feliz.
– olá novamente, Jensen – falou, ainda sorrindo – como anda?
– com os pés, e chega desse papinho diplomático – falei, ríspido – eu quero saber o que aconteceu com a Blair.
Spencer riu da minha reação, fiquei ainda mais irritado.
– talvez devesse ficar mais calmo – disse Spencer – eu não me assusto com facilidade, mas, quem esta atrás de você, não tolera grosserias.
Achei que fosse um blefa, ate que senti uma pequena e delicada mão tocar meu punho, a pele fria ardeu em contato com a minha. Virei rápido,o pressentindo o que viria a seguir.
– Blair? – chamei.
A garota, ou melhor, a criatura sorriu. Seu par de asas estava aberto, em evidencia.
– é hora de saber a verdade, e eu devo te contar tudo – falou, um pouco nervosa – já que fui eu aquela que iniciou-te nesse segredo.
Respirei fundo, finalmente iria saber a verdade, o motivo das asas dela serem tão atraentes para mim.
– diga então – falei – diga a verdade.
Blair respirou fundo, pegando minha mão com a sua mão fria.
– eu sou um anjo, Jensen – falou.
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