The Fairy and The Dragon
10 Acampamento I
Notas iniciais
"All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I've loved them all"
In my life — Beatles
Lucy xingou o despertador quando ele começou a soar às cinco da manhã de sábado. Ainda atordoada sentou-se na cama enquanto coçava os olhos, só quando se deu conta da mala rosa que estava ao lado da porta lembrou do motivo do despertador.
—Droga! A viagem da escola – Jogou as cobertas para o lado e começou a se despir ao mesmo tempo que Aquarius entrou no quarto – Aquarius! Custa bater na droga da porta?!
—Desculpe, mas não tem nada aí que eu já não tenha visto milhares de vezes – Ela entregou uma toalha a Lucy – Aqui, se apresse no banho, vou te levar até o ônibus.
—Vai entrar comigo também?! A mãe da Levy pode me dar uma carona, ou eu poderia simplesmente pegar um taxi ou o metrô, não tenho tanta bagagem assim.
—Deixe de ser malcriada garota! – Aquarius puxou uma das orelhas da loira – Você mal saiu das fraldas e acha que pode fazer o que quiser? Tem sorte do seu pai ter permitido isso e lembre-se do nosso acordo.
—Não precisa ficar lembrando isso a cada cinco minutos, eu sei bem o que posso e não posso fazer, ao menos terei um final de semana longe daquele idiota do Loki, se já não bastasse toda essa farsa de casar com ele ainda tenho que suportar vê-lo.
—Você tem menos de meia hora para tomar banho, se vestir e comer algo vai continuar discutindo?
Ainda reclamando Lucy entrou no banheiro e bateu a porta. Aquarius pegou o porta retrato com a foto de Layla que estava em cima da mesa de estudos, passou a mão por ele levemente e um pequeno sorriso se formou em seus lábios, estava tão submersa em pensamentos que nem notou Lucy logo atrás vestida com uma roupa leve, mas ainda com os cabelos molhados.
—Ela era linda não é mesmo? – Lucy disse em meio a um sorriso – Parecia um anjo.
—Sim – Aquarius virou-se para encará-la – E você é muito parecida com ela, fisicamente e nas ações, o mesmo sorriso, a mesma cara quando faz algo errado, a mesma teimosia...
—Vocês eram amigas desde a época do colégio não é mesmo? Ela me contava algumas histórias.
—Sim, colegas desde sempre, praticamente passamos por tudo juntas, vem aqui, enquanto conversamos eu vou secar seu cabelo ou então você não vai mesmo para essa viagem – Aquarius fez com que Lucy sentasse e começou a secar seus cabelos com a toalha agilmente – Sua mãe foi uma das melhores pessoas que eu já conheci em toda a minha vida e uma das mais felizes, ninguém conseguia ficar triste quando Layla estava por perto, ela simplesmente transbordava aquela sensação de paz e fazia com que todos se sentissem bem. Aí quando terminamos a escola e entramos na faculdade ela conheceu seu pai – Um suspiro de tristeza escapou de seus lábios – Ainda assim continuamos sendo amigas.
—Aquarius? – Lucy perguntou receosa – No dia que minha... Que minha mãe morreu, o que realmente aconteceu naquele dia? Eu sempre quis perguntar, mas ninguém queria falar sobre.
—Falar sobre isso não vai te fazer sentir melhor, muito pelo contrário. Agora levante-se e coma algo antes de sair e mais uma coisa Lucy – Aquarius olhou-a nos olhos – E mais uma vez, pelo amor de Deus! Fique longe de toda essa história! Eu não quero que você se machuque, se algo te acontecesse eu nunca me perdoaria... eu – Parou por alguns segundos – Estou te esperando no carro.
Aquarius esperou Lucy colocar o cinto e deu a partida no Land Rover, permaneceram em silêncio durante o percurso até o portão, a casa ficava um pouco distante do centro, mas tinha uma estação próxima, mas poucas vezes a loira conseguiu convencer o pai a deixa-la ir sozinha.
—Poderíamos ter usado um carro menos chamativo? É uma viagem escolar, todos os meus colegas vão estar lá, isso é meio constrangedor sabia?
—Até onde eu sei a maioria dos pais de seus colegas tem carros muito parecidos com esse, apesar da Fairy Tail ser uma escola que tem vários projetos sociais para ajudar os alunos com menos recursos continua sendo uma escola de elite.
—O metrô também seria viável, meu pai é dono de praticamente todas as linhas da cidade, não daria no mesmo?
—Não, no metrô existem centenas de pessoas subindo e descendo em cada estação e algumas dessas sabem quem você é, poderiam... – Aquarius suspirou – Apenas pare de reclamar, de carro chegaremos mais rápido e assim vai poder se livrar de mim durante um final de semana inteiro, eu sei que é isso que quer.
—Que bom que você sabe, posso ao menos colocar uma música que gosto?
—Sim, desde que não seja uma dessas bandas novas que as letras não dizem nada com nada pode sim.
—É uma música do ‘seu tempo’ digamos, apenas desfrute.
Aquarius deu um longo suspiro, mas se deteve à música no momento que ela começou a tocar, as notas começaram a soar em sua mente, ela conhecia aquela melodia como a palma da sua mão “There are places I remember all my life, Though some have changed”. Ela olhou para o lado e viu Lucy com os olhos fechados cantando a música como se cada palavra falasse o que ela estava sentindo, quando a música estava chegando ao fim Aquarius já estava sentindo seus olhos cheios de lágrimas, tentou conter, mas algumas acabaram escapando quando as últimas palavras foram ditas.
“I know I'll often stop and think about them In my life, I'll love you more, In my life, I'll love you more...”
—Aquarius? Você está chorando?! – Lucy estava surpresa – Aconteceu alguma coisa?
—N-não estou chorando – Ela limpou as lágrimas rapidamente – Fique quieta pirralha ou você quer que eu bata o carro? Sua mãe ouvia essa música, na verdade ela amava essa música, cantava para mim algumas vezes.
—Jura? – Os olhos de Lucy brilharam – Você poderia me contar mais sobre as coisas que ela gostava, eu fico triste às vezes por não conseguir lembrar muito da minha mãe.
—Certo, vou pensar nisso no final de semana livre de você – Ela estacionou o carro próximo ao portão da escola – Finalmente terei um tempo só para mim e longe de adolescentes chatos como você.
—Okay, vou fingir que isso é verdade – Lucy já saia do carro, mas Aquarius a deteve – O que foi? Vai implicar na hora de sair?!
—Não, só tenha cuidado Lucy, por favor, e qualquer coisa, qualquer coisa mesmo... me ligue imediatamente!
—Prometo que vou ligar.
—E fique longe daquele cabe-de-fósforo!
—Isso eu já não posso prometer – Lucy disse baixinho enquanto um sorriso malicioso se formava em seus lábios – Estou com grandes expectativas para essa viagem.
***
_Levy! – Lucy correu na direção da amiga azulada que já estava subindo no ônibus – Olha para você, está linda! – Ela faz com que Levy dê um giro e a abraça novamente – Existe algo especial nessa viagem que mereceu esse shortinho tão curto?
—N-não é nada disso! – Levy corou fortemente – Está calor, é verão, e-eu...
—Calma Levy, eu só estou brincando – A loira piscou zombeteira – Já está quase na hora da sairmos e nem todo mundo chegou, será que aconteceu algo?
—Não, a maioria já chegou, na verdade nós que estamos atrasadas – Levy apontou para dentro do ônibus – Já estão todos lá dentro, Gildarts sensei foi pegar a lista de chamada e deve estar voltando.
Lucy entregou sua mala ao motorista do ônibus para que ele a guardasse e entrou, percebeu os dois lugares livres na do lado direito do ônibus, antes de sentar deu uma olhada discreta para Natsu que tinha ao seu lado Gray, por alguns instantes seus olhares se encontrarem e ela percebeu o rosado sorrir de uma jeito safado enquanto ajeitava seu cachecol.
—Você viu quem está sentado ao lado do Laxus? – Lucy disse franzindo o cenho.
—Gajeel? – Levy olhou pela janela – Vi sim. Dessa vez eles misturaram as turmas, Gildarts disse que era para nos ‘entrosarmos’ e conhecermos novas pessoas durante o ano letivo e dessa maneira vai ser mais fácil para nos ajudarmos nos jogos escolares e no festival.
—Okay... Sua mãe sabe disso? Ou você inventou uma desculpa esfarrapada que não colou, mas mesmo assim ela aceitou para que vocês não brigassem?
—Hum... Na verdade ela sabe que ele vai, mas eu disse que ficaria bem longe e que teríamos monitores e principalmente que não ficaria sozinha em momento nenhum. Apesar de tudo, ela me deixou participar, espero que não descubra que fiquei no mesmo ônibus que ele.
Lucy sentou no seu lugar e apertou o cinto, ao fundo Erza olhava pela janela displicentemente os jardins da escola, estava tão submersa em seus pensamentos que não prestava atenção à Mirajane olhando para ela concentrada. “Tão linda”, Mira pensava descendo seu olhar dos olhos distantes da ruiva, passando por sua boca e controlando sua vontade de tocá-la, se assustou quando de supetão Erza virou encarando-a.
—Eu estou realmente brava Mira! – A ruiva tinha um tom avermelhado nas bochechas – Por que cargas d’água Ultear está no mesmo ônibus que a gente, aliás eu acho que essa garota me segue, acredita que ela está treinando no mesmo dojô que eu?
—Acho que ela não está te seguindo, são coincidências.
Mira sentiu seu coração pesar quando observou Erza lançar um olhar furtivo para Jellal no banco mais afastado, em todos os assuntos a ruiva era decidida e nunca abaixava a cabeça, mas quando o azulado era colocado em questão às coisas para Erza se tornavam drasticamente complicadas e ela perdia toda a confiança que tinha.
—Seja o que for me deixa irritada! Com vontade de quebrar alguma coisa. Você está rindo?! Não temos motivos para rir Mira.
—Okay – Mira disse tentando controlar a risada ‘Você fica tão fofa quando está brava’ – Apenas tire isso da sua cabeça, Ultear só parece querer te provocar, então se você se mantiver firme ela vai parar.
As duas se calaram quando Gildarts entrou no ônibus segurando uma prancheta com duas figuras atrás dele, uma já conhecida e a outra cabisbaixa logo atrás, era tímida e parecia um pouco assustada e tinha cabelos azulados quase no mesmo tom dos de Levy.
—Okay pessoal, essa viagem tem o intuito de deixar vocês mais entrosados com seus colegas, principalmente pelo fato serem o primeiro ano de vocês no colegial – Ele encarou todos nós – Apesar de ser um acampamento, nós não vamos ficar nos divertindo o tempo inteiro, algumas tarefas farão parte das notas avaliativas das matérias, então se esforcem. Mas antes de partirmos gostaria de apresentar duas pessoas que se juntaram a turma do 1-A, Cana Alberona, minha filha – Ele segurou o braço de Cana, mas ela puxou sem cerimônia. – Cana...
—Não preciso ser apresentada, todos já me conhecem Gildarts, só estive fora durantes poucas semanas nesse ano.
Cana sentou-se e todos ficaram meio constrangidos, Gildarts lançou um olhar de reprovação para a filha que todos entenderam como um: Vamos conversar mais tarde, em seguida pigarreou e sorriu para a garota ao lado dele que permanecia de cabeça baixa.
—E essa moça aqui é a Juvia Lockser, ela foi transferida essa semana para a Fairy Tail, cuidem dela.
—É um prazer conhece-los, c-cuidem da Juvia – Ela se curvou e em seguida sentou-se ao lado de Cana ainda olhando para o chão.
—Bem, certifiquem-se de que não esqueceram nada, saímos em dois minutos. A professora responsável por vocês será a Laki, não façam nada errado – Gildarts sorriu ao ver a professora entrando no ônibus e tomando seu assento e num gesto de carinho passou a mão em suas costas – Não deixe que esses pirralhos te assustem.
Cana revirou os olhos o que não deixou de ser notado por Gildarts que se aproximou da filha lentamente e a segurou pelo ombro se aproximando do seu ouvido.
—Laki não tem culpa de nada que aconteceu está bem? Então espero que você a trate com respeito mocinha. Você goste ou não eu sou seu pai e sendo assim me deve obediência.
A viagem seguiu calma, ninguém falou nada durante o percurso, Natsu e Gray ouviam música com seus fones de ouvido, Laxus ressonava ao lado de Gajeel que apenas olhava o horizonte sem nenhuma expressão, às vezes ele lançava olhares para a poltrona em que Levy estava sentada, mas não conseguia vê-la. Erza havia adormecido e estava recostada no ombro de Mirajane enquanto Jellal parecia tentar se esquivar das investidas de Ultear. Após passaram pela grande ponte em poucos minutos o ônibus estacionou em frente a um grande casarão cercado por imensas árvores.
—Podem entrar e guardar suas coisas, as tarefas foram passadas a vocês pelos professores durante a semana, mas qualquer dúvida falem com o responsável pela turma. Meninas no casarão e meninos nos quartos aqui do lado. Vocês tem duas opções: almoçarem aqui no casarão ou para poupar tempo e terminar mais cedo levarem o almoço com vocês para a pesquisa de campo, fica a critério. Mais uma coisa, serão separados em duplas escolhidas de forma aleatória, prestem atenção, pois só falarei uma vez.
Gildarts abriu o caderno que carregava nas mãos e pediu que todos fizessem silencio em seguida começou a chamar as duplas.
—Gray Fullbuster e Juvia Lockser, como ele já conhece a região vai te auxiliar. Próximos, Gajeel RedFox e Levy McGarden.
—M-mas Gildarts sensei! – Levy parecia desesperada – E-eu...
—Gildarts, você tem que trocar a dupla da Levy – Erza estava agora em frente ao professor – Você não pode fazer isso!
—Erza, acalme-se, as duplas ficarão juntas e isso está decidido. Quando a você ficará com o Jellal – Ele piscou o olho o que fez com que a ruiva corasse – Mirajane Strauss e Ultear. Cana e Lucy – Gildarts sorriu para Natsu – Natsu e Laxus, por motivo de: não quero nenhum incêndio nesse acampamento.
—O quÊ?! – Natusu gritava para o tio – Não vou ficar com esse cabeça de raios aqui! Exijo uma troca!
—Não teremos troca, agora apressem-se e separem suas coisas, não esquecem que até o horário do almoço a tarefa é de biologia, colham todas as espécies de plantas e respondam o questionário passado em aula, é isso. Agora podem ir.
***
Alguns ainda insatisfeitos com as escolhas das duplas se dirigiram para os arredores do acampamento com o intuito de terminar as tarefas e descansar em seguida. O terreno era grande de forma que os alunos dificilmente se encontrariam até que regressassem ao casarão no final do dia, a maioria resolveu levar o almoço.
~~Gajeel~~
Seguíamos em silêncio durante todo o percurso, as únicas que Levy pronunciava tinham haver com o trabalho e a coleta de amostras que estávamos fazendo, estava quente naquele lugar, a baixinha permanecia concentrada na tarefa de botânica, recolhendo as amostras de plantas e as colocando na caixa térmica que eu carregava.
—Vamos ficar nesse silêncio constrangedor? Seria legal manter uma conversa – Eu observei ela fazer um biquinho fofo – Hey, fadinha, custa falar comigo?
—Não me chame de fadinha!
Ela apontou o indicador para mim tentando parecer ameaçadora, mas não chegou nem perto e eu não pude controlar minha risada o que a deixou mais irritada fazendo com que se afastasse de mim emburrada.
—Me desculpe, eu não quero que as coisas sejam assim. Droga – Eu coloquei a caixa térmica no chão – Eu sempre estrago tudo, me desculpe de verdade...
—Tudo bem, apenas fique calado. Segundo nossa tarefa temos que colher algumas espécies de angiospermas – Ela olhava fixamente para o papel – Algumas plantas que vivam em simbiose, bem, falta pouco para terminarmos, quanto mais cedo fizermos isso melhor.
Eu a observava extasiado, tudo nela era lindo e eu ainda não havia me acostumado com toda aquela delicadeza, seus cabelos azuis e ondulados, a sua pequena estatura que só me deixava ainda mais louco para pegá-la no colo, seus lábios pequenos e rosados. Ela se abaixou para colher mais algumas espécies e eu mais uma vez me perdi em seus encantos, mas dessa vez nos seus encantos físicos.
Eu estava acostumado a vê-la com o uniforme escolar e ela já ficava uma graça com ele, mas vestindo aquele short jeans curtinho, os cabelos ondulados soltos, apenas uma fita o adornava e a camiseta branca que deixava suas costas nuas, olhei para sua nuca, a pele ali era clara e convidativa, desci olhando por suas costas, cintura, minhas mãos se encaixariam perfeitamente ali e por fim me detive no seu bumbum, não posso negar que era um bumbum maravilhoso, tentei desviar minha atenção, mas era praticamente impossível e eu já sentia meu sangue esquentar, aquela fadinha mexia comigo de um jeito muito estranho.
—E-eu gostaria que você parasse de m encarar dessa maneira – Ela estava corada – Por favor...
—Me desculpe de novo – Sentei num tronco próximo – Vamos descansar por uns minutos? Aproveitamos para almoçar.
Ela se aproximou receosa e colocou a mochila próximo a minha, se eu quisesse conquistá-la teria que ser cauteloso, não podia avançar muito. Tirei da minha mochila um lenço e o estendi no tronco ao meu lado e apontei para que ela sentasse.
—Não se preocupe, não vou encostar um dedo em você, acho que já passei dos limites várias vezes.
—Que bom que sabe disso – Ela tirou nossos bentos da bolsa e me entregou – Agora vamos almoçar em silêncio.
—Acho que o objetivo da viagem é o ‘entrosamento’ com seus colegas, não estamos fazendo isso direito baixinha – Ela me olhou brava enquanto mastigava – Mas antes de tudo, você já tem a resposta para a minha pergunta?
—Que pergunta? – Ela se fez de inocente.
—Sobre sair comigo, nós dois, eu e você, um encontro – Eu estava sem jeito, convidar uma garota para sair sempre foi difícil, na maioria das vezes elas vinham até mim – Sabe, um encontro.
—Um encontro de amigos?
—Não, um encontro romântico – Eu vi Levy engasgar com a comida e fui em seu socorro massageando lhe as costas – Não me diga que você nunca foi a um encontro romântico.
—J-já fui! – Ela disse já respirando normalmente – Mas você não entende que eu não posso me encontrar com você, minha mãe me mataria!
—Eu quero me encontrar com você e não com sua mãe – A vi corar novamente – Ou você não sente nada por mim? Por que... – Arranjei forças para falar – Eu realmente gosto de você.
Ela ficou calada por longos segundos que para mim pareceram uma eternidade, eu não tinha me declarado realmente, Levy me deu motivos suficientes para perceber que os sentimentos que nos envolviam não eram unilaterais, mas eu poderia ter me enganado.
—Eu não sei o que falar – Ela mexia as mãos nervosa e em seguida me encarou – Eu não sei o que sinto por você, mas todas as vezes que te olho eu meio que me sinto sem ar... Nunca me senti assim...
—Então você gosta de mim? – Segurei suas mãos, mas ela me repeliu enquanto se afastava.
—Não sei Gajeel, convenhamos que não nos conhecemos da melhor maneira possível. Você quase me matou e eu odeio confessar isso, mas ainda tenho medo – Ela me olhou com aquelas olhos castanhos marejados – Tenho medo de me machucar de novo e de ter que me separar dos meus amigos.
—Eu sei, caramba, eu sei! – Ela se encolheu por instinto, eu e minha mania de parecer assustador nos momentos mais inadequados – Desculpe, eu já falei que não era minha intenção te machucar, eu me culpa até hoje por isso e nunca vou me perdoar – Senti meus olhos arderem, um cara do meu tamanho chorando na frente de uma garota não era muito legal – Eu só queria poder voltar no tempo e consertar tudo isso, te conhecer de outra maneira.
Ela me ouvia, me aproximei lentamente e a encostei na arvore mais próxima segurando seus pulsos acima da cabeça, eu não faria nada, mas queria que ela sentisse o quanto eu a desejava. Ela se remexeu assustada tentando se soltar.
—Não precisa ter medo, não vou fazer nada contra você – Aproximei meus lábios do ouvido dela, eu mantinha meu corpo afastado e só a tocava nos pulsos – Eu vou cuidar de você Levy, vou te proteger a partir de agora. Você me preguntou se fadas e dragões podem ser amigos, eu te digo: dragões protegem as fadas – Ela suspirou e eu pude notar como estava vermelha – E eu vou fazer isso com você.
Aproximei meus lábios dos dela, mas não os toquei. Em poucos segundos ela entreabriu os lábios esperando pelo que vinha em seguida, mas eu me afastei.
—Gihihi, eu disse que o próximo beijo você me daria – Pisquei o que a deixou ainda mais vermelha.
—Isso nunca vai acontecer Gajeeel RedFox!
Apesar dos gritinhos histéricos que ela dava não me virei para encará-la, resolvi terminar o trabalho o mais rápido possível e voltar ao casarão, precisava urgentemente de um banho frio para me acalmar, a imagem do bumbum de Levy ainda estava na minha mente
~~Gajeel finish~~
***
—M-me desculpe por todos esses dias que não falei com você – Erza começou – Eu fiquei chateada por você ter contado a Ultear sobre o que aconteceu comigo no passado.
—Não precisa se desculpar, o erro foi meu – Ele sorriu – Devia ter te perguntado antes, eu sei como você fica quando se lembra disso.
Erza caminhou e parou próximo a uma ribanceira que dava para a praia, fechou os olhos e deixou que o sol penetrasse em sua pele e sorriu ao sentir o quanto estava viva, mas logo foi tomada de uma tristeza súbita.
—Às vezes durante a noite eu tenho pesadelos com o que aconteceu naquela ilha – Ela apertava o tecido do vestido entre as mãos – Consigo ouvir o Simon pedindo por ajuda e de como não pude fazer nada. Eu comecei todo aquele incêndio e por minha culpa ele morreu.
—Você era uma criança Erza, estava sozinha e assustada, assim como todos ali. Não foi sua culpa – Ele desviou o olhar – Aquele incêndio permitiu que nós saíssemos de lá.
—Mas matou Simon!
—Talvez fosse melhor que eu tivesse morrido naquele dia, tudo seria mais fácil não é mesmo? – Erza olhou descrente para o azulado a sua frente – Morrer em alguns casos é melhor do que viver de forma miserável sentindo culpa por tudo, é melhor do que ser um fraco.
Jellal sentiu os dedos de Erza no seu rosto e em seguida ela o segurou pela gola da camisa, o rosto vermelho e encharcado de lágrimas.
—Que idiotice você está falando?! Sabe como me senti quando te encontrei de novo e soube que você estava bem? – Erza o sacudia – Quando soube que tinha uma família e amigos, você mudou tanto assim nesses anos Jellal, costumava acreditar nas pessoas, mesmo com toda a dor que sentíamos acreditava que tudo pudesse melhorar e que teríamos um futuro.
—Talvez eu não acredite mais nisso – Jellal permanecia com o rosto imparcial.
—SEU IDIOTA!
Erza foi em direção a Jellal e o empurrou, pego de surpresa o azulado tropeçou em uma pedra e se desequilibrou, num gesto de desespero a ruiva tentou segurá-lo pela camisa, apesar de todos os esforços os dois caíram ribanceira abaixo.
—Você está bem? – Jellal notou a posição constrangedora que estava, mas não conseguiu sair.
Estava por cima de Erza com os corpos colados e podia sentir o coração dela batendo descompassado, os cabelos ruivos espalhados no chão e os olhos castanhos assustados olhando para ele.
—Você sempre está certa – Ele riu – Acho que não tem como ganhar de você.
—Não quero sempre estar certa, só quero viver tudo o que eu posso. Aproveitar cada segundo que tenho, com meus pais, com meus amigos, com você... – Levou as mãos ao rosto tentando esconder as lágrimas – Achei que nunca veria você de novo.
—Erza... – Ele enxugou as lágrimas que escorriam pela face da ruiva – Não chore.
—Jellal – Erza colocou as mãos na face do azulado em meio a um sorriso.
Jellal viu Erza fechar os olhos e em sua mente uma tempestade de lembranças o assolava, os momentos que passou com ela na ilha, os amigos que fizeram, o sorriso determinado que sempre o deixava feliz... Foi aproximando seus lábios dos dela, eram delicados, ele não resistiria dessa vez.
Selou os lábios levemente nos de Erza e sentiu o quanto eles eram macios, tirou umas das mãos que estava apoiada na areia da praia e a passou pela cintura da ruiva, queria que aquele momento durasse para sempre, sentia o gosto de Erza em seus lábios e tudo que podia pensar era no quanto gostava dela, no quanto a queria proteger, aprofundou o beijo e sentiu-a tremer em seus braços com o contado de sua língua, ela não parecia ter muita experiência naquilo, mas não deixava de ser bom.
Jellal estava entregue aquele momento até que foi interrompido pelas imagens de seu passado que Erza não poderia saber os reais motivos de ter ido até Magnólia a cerca de um ano, as coisas terríveis que ele fez para que sobrevivesse, coisas que ela jamais poderia saber, não podia magoá-la daquela maneira, com um gesto brusco a afastou de seus lábios.
—Me desculpe, não posso.
—O quê? – Erza o olhava confusa – O que houve?
—Eu estou saindo com alguém, me desculpe isso não deveria ter acontecido – Jellal se levantou – Na verdade eu já estou com essa pessoa desde que cheguei a Magnólia, eu não sabia que iria te encontrar na cidade. Eu segui adiante, achei que você tinha feito o mesmo.
—A culpa foi minha – Ela continuava sentada, tentando controlar o nó que se formava na garganta, como ele podia ser tão frio – Devia ter passado pela minha cabeça que você teria alguém, parabéns Jellal, ela deve ser importante para você.
—Sim, ela é muito importante.
—Então, agora você tem um motivo para viver e ter esperança que coisas boas vão acontecer.
—Sim, você está certa, mais uma vez – Jellal olhou para Erza e viu o sorriso magoado que ela deu – Acho melhor irmos.
—Sim, vamos – Erza parou por alguns segundos — Melhor, pode ir, vou ficar aqui um pouco, preciso colocar tudo isso em ordem.
—Como você quiser – Jellal se aproximou e a beijou na testa – Tenha cuidado.
—Idiota – Erza disse quando o azulado já estava longe o suficiente para não ouvi-la – Seu idiota!
***
Mira e Ultear caminhavam em silêncio próximo a praia, a albina tentava controlar a vontade de sair correndo na direção oposta a da água, mas se conteve, repetia mentalmente: “Se acalme Mira, é só o mar, se acalme”.
—Então, Mirajane Strauss – Ultear se colocou a frente de Mira – Você e a Erza são melhores amigas não é?
—Sim – Mira estranhou aquele súbito interesse, durante todo o trabalho não trocaram uma única palavra – Somos amigas desde a infância.
—Então você conhece tudo sobre ele – Um risinho saiu de seus lábios – Poderia me responder algumas coisas?
—Se você quiser saber pergunta à Erza, eu não tenho nada para falar com você. Agora acho melhor voltarmos.
—Não. Até que você esconde bem seus sentimentos, tenho que admitir que realmente é boa nisso, mas só com as pessoas que convivem com você diariamente, em tão pouco tempo eu já percebi, ou a Erza é tonta demais para isso.
—Eu não sei do que quê você está falando, aliás, eu não sei por que ainda estou te dando atenção. Com licença.
—Espera! – Ultear segurou a albina pelo braço – Eu vi o jeito que você olha para ela quando pensa que ninguém vai perceber ou como você fica vermelha quando ela está perto. Você luta tanto contra esse sentimento, mas ele não vai passar, sinto dizer isso.
—Cala a boca! – Mira fez um único movimento e afastou Ultear – Fica longe da Erza ou eu vou estragar esse seu nariz.
—Está vendo? Você a defende de uma maneira extraordinária. Sabe Mira – A morena examinou a albina por alguns instantes – Nós duas podemos sair ganhando com isso, desde que você concorde em me ajudar.
—Como assim? O que você pretende?
—Eu quero o Jellal e você quer a Erza, e antes de qualquer coisa: Jellal não vai ficar com sua amiguinha ruiva, ele já me falou isso.
—Você é uma mentirosa! Jellal ama a Erza, está na cara dele, você que está sonhando.
—Se você se aproximar da Erza e ficarem juntas e caminho ficará livre para mim, o Jellal em algum momento vai magoar aquele coraçãozinho bobo dela e é nesse momento que você deve entrar em ação – Ela sorriu – A ruivinha pode ser forte, mas aparenta ter um coração frágil, então você faz a sua parte e eu faço a minha e dessa forma eles não vão ficar juntos. Eu posso ajudar você a conquistar a Erza, basta você querer.
—Erza é minha amiga, eu jamais faria algo que a magoasse – Mirajane se afastou – O único sentimento que tenho por ela é amizade e a única coisa que eu quero é que ela seja feliz.
—Quanto tempo você acha que vai conseguir esconder isso? – Ultear segurou a albina pelos ombros – Você irá suportar ela te contando que beijou o Jellal e que gostou e que eles fizeram outras coisas ma — Ultear se calou quando Mira acertou seu rosto – O que você fez?!
—Cala a boca! Se você acha que eu sou idiota está muito enganada – Um sorriso perverso percorreu os lábios de Mirajane – E principalmente, o que eu faço ou não com a minha vida não tem haver com você. Vou repetir mais uma vez e será a última: fica bem longe da Erza ou eu realmente vou machucar você.
—Mira! – Era Erza correndo em sua direção – O que raios você está fazendo?!
—Essa idiota é louca? – Ultear se afastou – Gildarts sensei ficará sabendo disso!
Mirajane sentia todo o seu corpo tremer, se Gildarts soubesse do que ela fez as coisas ficariam complicadas, conseguia ouvir a voz da mãe em sua cabeça “Se sair da linha por qualquer coisa você irá voltar para a clínica e continuar com o tratamento”, e ela não queria voltar para aquele lugar, mesmo as consultas mensais eram um verdadeiro sacrifício. Abaixou-se e tapou os próprios ouvidos tentando afastar os pensamentos ruins.
—Você não vai contar nada – Erza segurou Ultear e a levantou do chão – E se contar vai se arrepender de verdade, ao contrário da Mira eu não bato só para assustar, então se eu fosse você sairia daqui e não contaria nada disso a ninguém, entendeu?
Com um empurrão ela lançou Ultear longe, a morena levantou cambaleando e correu na direção do casarão sem olhar para trás. Erza correu na direção de Mira e a abraçou.
—Mira você está bem? O que aconteceu aqui? Mira olha para mim!
—Desculpa – Mira a abraçou de volta – Eu não devia ter feito isso, agora minha mãe vai ficar sabendo e me mandar de volta para aquela clínica, vai querer que eu tome aqueles remédios e não vai me deixar voltar para as minhas atividades de antes do acidente.
—Calma, Ultear não vai contar a ninguém acredite em mim. Ela só parece corajosa, mas é uma covarde. Levanta e enxuga essas lágrimas, Gildarts disse que teríamos uma festa a noite, é uma ótima oportunidade para esquecermos todos os nossos problemas – Ela sorriu – O que me diz?
—Parece divertido – Mira notou os olhos vermelhos de Erza – Você andou chorando?
—Hum, n-não, deve ser todo esse ar puro que me deixou assim – Passou as mãos nos cabelos prateados de Mira bagunçando-os – Vamos esquecer isso por hoje.
—Você é uma péssima mentirosa Erza – Mira sorriu – Acho melhor irmos andando.
—OEEEEEE – Era Natsu correndo na direção das duas seguido de Laxus – Vocês viram a Lucy? Preciso conversar com ela.
—Não, mas acho que todos já devem ter terminado suas tarefas – Erza disse.
—Lentos, todos lentos como sempre – Laxus resmungou colocando os fones de ouvido – Se demorarem um pouco mais perderemos as horas de descanso e eu estou doido para ver a Mira de biquíni.
Erza teve que se controlar para não acertar um soco e desfazer aquele sorrisinho cafajeste do loiro, só se manteve firme quando avistou Gajeel e Levy se aproximando.
—Parece que todos terminamos – Levy suspirou – Acho que preciso de um banho longo e relaxante, cada músculo meu dói.
—Gajeel se comportou? – Mira lançou um olhar furtivo para o moreno que parecia desatendo – Ele tentou alguma coisa?
—S-sim, quer dizer, não! Ele se comportou direitinho – Levy corou – Nós terminamos o trabalho e viemos direto para cá.
—Lucy! – Natsu correu na direção da loira e a abraçou girando-a no ar – Vamos aproveitar a festa inteira durante a noite.
—Natsu, coloque-a no chão ou vão arranjar problemas – Cana disse enquanto passava por todos – Gray e a aluna transferida já estão no casarão, parece que o streeper arranjou uma fã.
—Bem, então essa noite será a festa de boas vindas da novata e também celebraremos a volta da Cana – Erza deu um tapinha na testa da morena – Bem vinda de volta. Okay, sobrevivemos ao primeiro dia, então acho que está na hora de descansar e aproveitar o que um acampamento de verdade tem a oferecer. Vamos Mira?
Erza segurou a mão de Mirajane mais uma vez, ela podia sentir que a albina precisava de um suporte no momento, ela também queria conversar sobre o que tinha acontecido com Jellal, mas aquilo poderia esperar um pouco. Caminharam em direção ao casarão deixando apenas Gajeel e Levy um pouco atrás.
—Fadinha – Ele se posicionou na frente de Levy – Não pense que irá escapar, hoje a noite eu quero sua resposta e além de tudo, até o final da festa aposto como vai perceber que o que mais quer no momento é me beijar – Sorriu safado – E eu não posso negar que também quero.
Passou o indicador pelos lábios da azulada o que fez com que ela tremesse, em seguida saiu o mais rápido que pôde a deixando sem palavras. Levy prometeu a si mesmo que não o beijaria e colocaria ele no devido lugar, mas de uma coisa ela tinha certeza: a festa durante a noite seria cheia de surpresas e ela estava empolgada.
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