The Fênix
2 Capítulo 2
Notas iniciais
The Fenix
Capítulo 2
Não poderia ser. Eu andava de um lado para outro e voltava até o vidro. Observei os detalhes: ela estava levemente mais magra, os cabelos estavam longos, mais longos do que quando ela chegou à Audácia, e eu pensei comigo se um cabelo feminino crescia em tamanha proporção em apenas três anos.
— Tobias, sabe que não é ela. Sabe que é im...
— Impossível, eu sei, eu vi Caleb. Eu estava presente quando ela foi colocada no incinerador, lembra?
Eu observava os detalhes.
— Eu também, e por isso eu estou te dizendo para não ter esperanças, temos de saber quem é ela e porque estava na fronteira.
— Me disseram que... Oh, meu Deus! É verdade! — Cristina correu em direção ao vidro e vi quando suas lagrimas se formavam— Não pode ser!
— E não é — Caleb era ponderado. Uma vez Erudito sempre Erudito; a razão era sempre à frente dos sentimentos.
— E quem pode ser? Caleb, pelo amor de Deus você está vendo.
— Os exames já vão chegar e só pode ser uma semelhança ou algo assim.
— Semelhança? — Gritei— Eu sei o que estou vendo Caleb! Se você, que é irmão dela, não está vendo, paciência.
— Isso é mais que semelhança — Cristina argumentava.
Neste instante, uma enfermeira entregou a prancheta nas mãos de Caleb.
— É ela. Não pode ser... — ele sussurrava para si mesmo.
— Como assim?— Cristina perguntava.
— Logo que a vi eu retirei amostras dela e mandei comparar.
— Comparar com o quê? — Perguntei, já tendo certo receio da resposta.
Caleb limpou a garganta.
— Não vai ficar bravo e me socar; agora você é um político, não mais um ogro Audacioso.
— Fale e eu decido.
Ele respirou fundo.
— Quando Tris morreu e teve toda aquela história de genes perfeitos, a curiosidade me tomou e então eu peguei amostras.
— Amostras de sua irmã? Você profanou o corpo dela para estudar? Isso é doentio — Cristina falou.
Vindo de Caleb isso não era tão estranho. Acho que se o corpo dela não fosse incinerado, ele iria embalsamar para estudar. Dava-me dor saber disso.
— Sim. Amostras de sangue e tecido. Ela estava bem morta, garanto, mas essas amostras ainda estão aqui, junto com tantas outras pesquisas a serem feitas. Eu nem quis mais fazer pesquisas genéticas, achei que era mais problemas que solução.
— Ainda bem que às vezes você é sensato.
— Eu comparei as amostras desta desconhecida com as de Beatrice e as minhas. Os resultados são... Vocês não vão acreditar: ela é ela.
— Explique.
— Ela é geneticamente igual à minha irmã.
— Isso é macabro — Cristina argumentava.
Eu ainda estava meio atordoado com a revelação.
— Isso só acontece em caso de irmãos gêmeos, mas não houve qualquer tipo de registro quanto a este fato quando Beatrice nasceu. Eu sou mais velho e meu sangue é compatível, meus pais e os dela são o mesmo, mas isso e impossível.
— Mas os soros de esquecimento e tudo mais daquela época... Será que...
— Tobias, minha mãe pode ter feito muita coisa às escondidas, mas, depois de tudo que descobrimos, você não acha que saberíamos da existência de uma irmã? Ainda mais sendo gêmea de Tris? Porém, há outra explicação.
— Qual?
— Olha, depois do que eu vi no centro de pesquisa genética... Tudo aquilo era fascinante, eles mexeram em genes dos humanos, deixaram as pessoas propensas a uma facção... Não acha que eles foram além? Eu estou falando de clones.
— Clones? Tipo, cópias?
— Sim. Durante anos essa cidade serviu de experimento, não acha que saiu muito mais coisas daqui?
— Um clone? Acho mais provável que sua mãe tenha tido gêmeos e escondido isso. — Cristina estava argumentando.
Nesse instante, a estranha idêntica a ela, que estava na sala ao lado, começou a se mover. Estávamos separados somente por um vidro, pelo qual não se poderia ver do outro lado.
Fui me mover até a porta do quarto quando Caleb segurou meu pulso.
— Onde pensa que vai?
— Vou vê-la, saber quem ela é.
— Acho que isso é trabalho para médicos. Não sabemos nada dela, fora que mesmo sendo igual à Beatrice, ela é uma completa estranha.
— Mas então porque você me chamou aqui?
— E não deveria?
— Tudo bem, mas eu quero saber tudo.
— Aperte aquele botão ali que você ouvirá a tudo que conversarmos no quarto — ele apontou um interruptor, era igual aos usados em salas de interrogatórios —. É o máximo que posso fazer até sabermos mais. Ela é uma paciente, chegou aqui muito debilitada, e o importante é a saúde dela primeiro.
Era um alívio saber que parte de Caleb estava realmente pensando como médico e não somente como cientista.
Cristina ficou ao meu lado. Desde a morte de Tris ela se tornou uma amiga daquelas que se conta para tudo, era uma amizade pura, como eu jamais experimentei antes. Cristina era sincera por demais em determinados momentos, o que ajudava muito. E por isso que eu a escolhi como minha assistente, apesar de ter ocasiões em que eu me arrependia dessa escolha.
Ela pegou em minha mão — eu não gostava de muito contato físico, mas o que aprendi com o ser humano durante esse tempo em nossa nova vida foi que a falta de afeto tinha sido responsável por muitas coisas —, então deixei que ela segurasse mesmo e apertei firmemente a sua. Eu sabia que isso era importante e assustador para nos dois.
Caleb entrou no quarto e verificou o soro que estava conectado às veias dela, depois olhou o marcador que contava os batimentos até que a garota se moveu novamente.
— Quero água.
A voz saiu como sussurro, o que fez meu coração bater freneticamente: era a voz dela.
Caleb se moveu até a mesa ao lado e pegou a água para levar até ela. Pude perceber que sua mão tremia; coisa rara de se ver em Caleb, mas ele estava mesmo nervoso.
Eu poderia estar negligenciando os sentimentos dele. Apesar de tudo que aconteceu há anos, ele perdeu uma irmã, Cristina perdeu uma amiga e minha dor não era só minha.
— Tome. Eu tenho que te fazer algumas perguntas, se importa?
— Antes— ela tomou a água e limpou a garganta—, onde eu estou?
— Você está no hospital da nova Chicago.
— Chicago. Eu consegui.
Pude ver que mesmo debilitada, a garota melhorou seu olhar depois de saber exatamente onde estava.
— Sim, Chicago. Você sabe onde estamos então?
— Sim, eu sabia que estava perto, mas a minha água e comida tinham acabado e eu não consegui mais caminhar; foi quando tudo escureceu.
— Passemos ao começo: você foi encontrada na fronteira e estava desmaiada e desidratada; eu poderia dizer que se passassem mais algumas horas, poderia ter morrido.
— Sim, imagino. Eu não calculei bem o tempo do meu trajeto e acho que saí da minha rota algumas vezes.
— Você disse rota? De onde vem?
— Eu vim de uma cidade chamada Nova York.
— Entendo.
A cidade mencionada era uma das cidades proibidas. Depois que a fronteira foi aberta e pudemos ter a escolha de onde viver e aceitar novas pessoas, foi descoberto que algumas cidades ainda estavam fechadas pelo governo. Apenas fomos informados de que essa era uma medida de contenção de informações, nada mais, porém, houve boatos de doenças contagiosas e até mesmo de novos experimentos, o que nos levou a pensar no caso de clonagem.
Eu poderia ser cético com relação a várias coisas, mas depois de tudo que eu vi e o que a própria natureza humana pode fazer por conhecimento, eu não duvidava de mais nada.
""— Eu gostaria de encontrar uma pessoa.
Observei bem a garota; ela realmente não reconheceu Caleb, não era ela, mas era igual, e isso deveria ser desvendado.
— Quem? Você conhece alguém de Chicago?
— Não conheço, mas bem— ela se ajeitou na cama—, eu devo ser igual a ela. Eu procuro Beatrice Prior.
Um estranho silêncio recaiu dentro do quarto. Caleb apenas observava a garota, como se tentasse entender o que ela havia dito e provavelmente não acreditando em nada.
Ouvir o nome dela saindo da boca desta cópia fez com que eu apertasse minhas mãos em punhos, esquecendo-me de que segurava a mão de Cristina.
— Ai, cuidado! Se quebrar meus dedos, como vou fazer meu trabalho?
Soltei sua mão.
— Desculpe.
— Sei que está nervoso, mas podemos ver que não é ela.
— Eu sei só que…
— Esperança. — ela me interrompeu — Acontece mesmo. Olhe, ela é mais doce ao falar, e mesmo Tris em seu momento careta, não era assim tão calma; ela já teria pulado na garganta de Caleb e exigido várias explicações.
— Sim, ela teria feito isso.
Sorri de leve, o que me fez relaxar os músculos tensos e olhar novamente para o quarto.
Caleb mantinha a expressão confusa, ainda observando a garota, ainda com cara de que não estava acreditando nela. Eu também não acreditava.
— Beatrice Prior é minha irmã, ou era, na verdade — disse ele, meio desconfiado.
—Oh! Ela está morta? Desde quando? O que houve?
Eu pude perceber o desespero na voz da garota, e até mesmo lágrimas se formando.
— Nossa! Essa garota está chorando pela Tris, e de verdade — disse Cristina enquanto a observava. Ela sabia identificar muito bem as expressões humanas.
— Sim, ela morreu há três anos — Caleb deu mais uma informação, mas não obteve muitas respostas.
— Oh!
Ela ficou ali, pensando, e não disse mais nada. Seus dedos enrolavam a ponta do lençol como se ela estivesse tentando direcionar alguma frustração.
— Bem, eu acho que não deve se esforçar em nada, mas antes de eu ir, farei uma última pergunta: você sabe seu nome?
— Sim, é…
Ela parou um tempo.
— Não se lembra?
— Não é isso, é que sempre me chamavam de... Natali. Pode ser Natali.
— Tudo bem, Natali, eu vou pedir para lhe trazerem algo para comer e podemos retirar esse soro, depois você será transferida para um quarto.
Caleb saiu.
— Por que não fez mais perguntas?
— Tobias, você viu a garota, ela mal sabe dizer seu nome. Calma, dê um tempo a ela. Depois que a transferirmos de quarto e ela estiver alimentada, você pode interrogá-la, já que esse não é meu trabalho.
— Nem meu.
— Então está certo; eu comunico a Amar ou George, como você pediu desde o início.
— Tobias, você não pode fazer isso, eles são militares e vão...
— Calma, Cristina, eu não vou colocar a Segurança nisso; eu vou cuidar desse caso pessoalmente por enquanto.
— Foi o que pensei. — Caleb me encarava— Agora espere que ela se recupere e depois faça as perguntas que quiser.
— Caleb— olhei em seus olhos—, ela não é a Beatrice, não importa o que seus resultados idiotas mostraram. Então ela é uma estranha que está aqui e sabe o nome de sua irmã, mas quem garante que ela não é uma ameaça?
Caleb me encarou e eu podia ver que ele estava em ponto de ebulição.
— Olha aqui, Tobias, você pode ser o Prefeito, mas eu sou o responsável pela saúde aqui nesta cidade. E eu estou te proibindo de tomar qualquer decisão sobre essa paciente sem meu consentimento. Agora vá dormir; amanhã eu aviso quando ela poderá ser interrogada.
Ele ia saindo e eu segurei seu braço, pressionando com força.
— Se você tivesse um pingo dessa coragem há três anos, ela não estaria morta.
— Eu sei. Mas como qualquer um, eu tenho o direito de mudar, ou nossa luta e nossa nova cidade não terão sentido algum.
Soltei seu braço e ele saiu pelo corredor.
Ele era um idiota que sempre ouvia a razão, mas agora estava certo; a nossa cidade era diferente de todas as outras pelo fato de não aceitar a história dos genes defeituosos, e lutamos por isso, para provar que mesmo com genes falhos, a humanidade pode ser diferente e conviver bem.
— Vamos Tobias, acho que não temos mais o que fazer.
Dei mais uma observada pelo vidro. Eu sabia que pelo lado de dentro ela não podia me ver, mas por um instante pareceu que seus olhos estavam fixos nos meus.
Eu sabia que não era ela, mas meu coração ficou esmagado.
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