The Fênix
3 Capítulo 3
Notas iniciais
The Fênix
Capítulo3
Com tudo que aconteceu, foi inevitável usar o soro da tranquilidade.
Acordei pela manhã e imagens de Tris invadiram minha mente: Um breve flash de quando ela Pulou. Sim, era uma das imagens que eu gostava de ficar revirando em minha mente; ela Pulando a primeira "Careta". Nem mesmo eu pulei de primeira! E não sei exatamente quando eu comecei a olhar pra ela de forma mais íntima, mas foi naquele primeiro momento que ela chamou minha atenção.
Eu achava que uma hora essas imagens iriam se apagar de minha memória e por isso eu me agarrava a elas como se minha vida dependesse disso.
Tomei um banho, olhei as roupas que deveria usar e as rejeitei — não era porque eu estava no governo que usaria algo que não me agradava —; peguei uma camiseta e um jeans, era mais confortável. Até que a campainha tocou, desviando minha atenção.
Christina mal esperou que eu abrisse a porta e já foi entrando e falando:
—Ah não, você não vai trabalhar assim. Trate de colocar algo mais formal.
— Cristina, pelo amor de Deus, eu não quero...
— Não precisa usar gravata, eu entendo que sufoca, mas não vá com qualquer coisa.
Bem, chegamos a um consenso, pelo menos.
Uma camisa preta e nada de gravata.
— Já pensou em como vai ser o interrogatório hoje?
— Eu nem pensei muito nisso na verdade... Dormi a noite toda.
— Como conseguiu? Eu não consegui pregar o olho e... — ela me encarou e entendeu como eu consegui dormir — Essas coisas vão te matar ainda. Só de pensar nesses soros eu tenho calafrios.
— Vivemos anos à base deles, não vai ser um soro para fazer dormir que vai me matar.
Ri com isso. Somente agora, que eles eram administrados de uma forma mais coerente ou não, eu sabia ser errado ficar dormindo apenas à base de entorpecentes. Porém, se não fosse isso, acho que eu já teria enlouquecido.
Quando chegamos ao Prédio da Justiça, fui direto para meu escritório. Christina estava empenhada em me passar a agenda do dia, como se aquilo me interessasse.
— Agora você tem que receber o representante da Amizade para tratar de assuntos sobre a distribuição de alimentos — Cristina encarava aquela prancheta com a tela brilhante, onde ela deslizava os dedos para ver a agenda do dia, isso me irritava um pouco.
A Amizade se manteve com as suas obrigações: cuidavam das plantações e fazendas, trabalhando em prol de nossa alimentação.
— Mande entrar.
O novo representante era mais jovem que Johanna. Ele era muito animado, e seu terno laranja era um tanto cômico.
— Tobias — ele me cumprimentou com um abraço.
Mesmo agora, que eu estava mais acostumado aos diferentes tipos de cumprimentos das pessoas, eu não ficava confortável com isso, mas mesmo assim conseguia retribuir.
— Bernardo, muito bom revê-lo. Bem, vamos ao assunto, porque hoje estou atolado.
Chegamos ao consenso de que poderíamos aumentar a produção de alguns alimentos — esses podendo ser estocados — enquanto a Erudição trabalhava em uma estufa mais resistente ao inverno. Com a população aumentando, o consumo também aumentava, o que significava mais trabalho. A distribuição tinha que ser feita de forma mais pareada entre todos.
Alguns Abnegados ainda eram voluntários na distribuição e as escalas eram bem organizadas, assim todos tinham a quantidade de alimentos necessária.
Com a cidade em ordem e fluindo, eu estava organizando a planilha de novas reformas que a Franqueza agora cuidava; eles eram honestos e então as obras eram bem feitas. Depois de entrarmos em acordo, sendo a Franqueza a facção que menos nos provia algo, essa foi uma boa solução. A cidade estava se reerguendo e cada um tinha um papel importante, até mesmo quem não fazia parte de nenhuma facção.
Quando eu já não estava mais me aguentando de ansiedade e quase ligando para o hospital, Cristina entrou em minha sala.
— Caleb avisou que você pode visitar a paciente.
Ela mostrou, com sua impetuosidade, que estava tão ansiosa quanto eu.
Não esperei muito tempo mais, nem quis saber o que mais eu teria de fazer ali; saí da sala praticamente correndo.
Ao chegarmos ao hospital, seguimos até a sala de Caleb, e ele nos recebeu um tanto entediado.
— Foi rápido.
— Vamos logo com isso. Eu preciso de respostas antes que tudo caia nos ouvidos de George; ele não vai gostar de eu ter excluído a Segurança, e com razão. A Segurança externa e interna deveria estar cuidando disso.
— Tudo bem, venham. Ela está em um quarto hoje e está bem melhor.
Subimos de elevador até um dos andares de internação; os corredores brancos, mesmo depois da reforma, me deixavam arrepiado. As imagens vieram como uma bomba em minha mente: Eu me sentia andando nos corredores da Erudição quando fui capturado pela imagem de Tris se despedindo enquanto ela mesma achava que ia ser executada. Eu tentava puxar a lembrança para longe e tentava focar em lembranças boas, mas sempre algo me atormentava, como um elástico. Eu puxei novamente as imagens para o fundo de minha mente, focando na situação do momento.
Paramos em frente a uma porta e observei a placa: o quarto de número 6.
Ri com o que isso me fez lembrar e abaixei a cabeça; era impossível tentar aniquilar as lembranças, elas estavam por toda parte, por mais simples que fossem.
— Alguma coisa errada, Tobias? — Caleb me perguntou, sério.
— Nada... Só o número do quarto... — Eu iria falar quando pensei bem; isso era algo meu e dela, eu não deveria compartilhar com ele. Muito menos com ele! — Nada de mais, abra.
Caleb passou seu cartão e a porta abriu. Eu respirei fundo, minha mão abriu e fechou, e eu enfim consegui mover meus pés para dentro do quarto. Senti uma gota de suor escorrendo em minha nuca.
A estranha estava de olhos fechados, talvez dormindo. Eu me direcionei até a janela e fiquei ali, sem ter corarem de chegar tão perto, mas eu tinha que ver os detalhes.
Ela estava mais corada, mas mesmo assim, sua pele era bem mais clara que da Tris. Suas unhas eram delicadas e não roídas, seus cabelos eram bem longos e estavam bem embaraçados e o lábio rachado talvez fosse pelo fato de ter ficado desidratada. Tinha os traços idênticos; o mesmo nariz e olhos — eu disse uma vez que ela não era bonita, não bonita nos padrões que muitos acham, mas eu estava enganado. Pois ao ver ali sua a cópia fiel, a imagem tão vívida como em minha mente, constatei que ela era linda sim. Minha visão ficou embaçada e foi ali que eu percebi minhas lágrimas.
Virei-me para a janela, tentando entender o que eu buscava naquele quarto. Era uma tortura e eu deveria ter deixado Amar e George cuidar disso, não eu.
— Você a conhecia?
A voz rouca me chamou atenção, então olhei pra garota, que estava de olhos abertos.
— Desculpe. Eu te acordei.
— Eu já estava acordada, mas resolvi esperar... Fiquei com medo, e você...
— Sou Tobias Eaton, atual prefeito de Chicago.
— Prazer Tobias.
Fiquei esperando que ela se apresentasse, mas nada saiu de sua boca.
— E você como se chama?
— Isso é complicado. Antes eu lhe fiz uma pergunta.
Sorri de leve. Ela era um pouco teimosa.
— Visto que esta é minha cidade e você está aqui como uma estranha, quem faz as perguntas sou eu.
— Então isso não é uma conversa e sim um interrogatório. Estranho local para isso.
— Não é um interrogatório... Pelo menos não um formal.
— Então somente responda: você a conhecia?
— Sim... Muitos a conheciam, ela foi... — ia falar mais detalhes e me lembrei de que eu não devia dar informações, e sim recebê-las.
— Bem, você vai achar estranho, mas eu sempre fui chamada de Beatrice 9, ou somente Número nove.
Ergui minhas sobrancelhas. Ontem ela havia dado outro nome.
— Mas sua ficha estava...
— Sim. Viva sendo apenas um número e na primeira oportunidade que tiver, vai querer ter um novo nome.
Tentei ignorar isso, pois até pouco tempo eu usava quatro, mas acho que no caso dela isso era algo ruim.
— Por que Nove?
— Fui a nona tentativa e a única que deu certo. Sempre me chamaram assim, mas eu gosto de Natali.
— Natali, por que veio até aqui e sabia dela... — limpei a garganta antes de dizer o nome dela — De Beatrice? Como?
— Suas perguntas? Vou fazer outra também.
— Pergunte. Só não garanto que responderei.
— Também não garanto então.
— Isso pode não ser um interrogatório, mas há outras pessoas que vão te interrogar e aí, você vai ter que responder sem trocas.
— Só uma pergunta: quanto você a conhecia?
Não entendi onde ela queria chegar com isso.
— O bastante. Agora responda.
— Bem, eu vim de Nova York.
— Sim, mas essa é uma cidade lacrada.
— Exatamente. E ela é lacrada por um motivo.
— Qual?
— Digamos que é o motivo de eu ter fugido e vindo atrás dela. Mas se ela está morta, isso foi em vão.
— Qual motivo?
— Mais clones. Mais material genético. Pois é só isso que importa a essas pessoas.
— Mas então você é um...
— Clone. Sim, sou. Mas eu já estou em uma idade avançada, e como ainda tem muito a ser feito, eles precisariam de material genético dela, porém eu não poderia fornecer, pois o clone do clone nunca deu certo.
— Eu acho que vou indo.
Tudo aquilo estava me fazendo mal, eu sentia ate o gosto amargo de minha bile subindo. Odiava tudo que se referisse às cientistas e genética.
— O que vão fazer comigo?
— Bem, digamos que nossa cidade se mantém distante dessa história de genética; somos neutros aqui, e livres. Somente vou comunicar à Segurança, que vão certamente te interrogar, e será encaminhada ao setor de remanejamento para que te mandem para onde melhor se adaptar. Se for sua vontade permanecer aqui, claro.
— Não há mais facções?
Ela sabia sobre as facções...
— Há três anos houve um tipo de remanejamento na forma em que governamos as facções, porém, temos que saber no que a pessoa se enquadra para contribuir para cidade e achar um lar, uma facção ou algo com que contribua a sociedade.
— Isso é tudo?
—A princípio, sim.
Sai de lá antes que me sentisse mais sufocado dentro daquele quarto. Teve um momento em que achei que as paredes se moviam e iriam me sufocar até a morte.
Encontrei Christina do lado de fora e nem dei tempo que ela respirasse e me enchesse de perguntas:
— Avise a George que temos algo para resolver.
— Só isso? Você não vai mais perguntar nada, como o porquê de ela estar aqui?
— CHRISTINA, deixe isso com George, é o trabalho dele interrogar e depois mandá-la para ser remanejada.
— Tobias, mas...
— Nada de “mas”. Somos neutros na questão da genética, esqueceu? O máximo que podemos fazer é isso.
Saí de lá o quanto antes. Eu não podia aguentar mais um segundo.
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