The Evil Within
39 O Poderoso Jimin

Jungkook estava ansioso para chegar em casa. Mal podia esperar para ver Jimin e dar início ao fim de semana romântico que haviam planejado juntos. Mas, ao chegar, algo imediatamente o assustou.
A porta estava entreaberta, não escancarada, apenas encostada. O suficiente para acender um alerta em sua mente. Jimin nunca deixava a porta assim. Talvez tivesse se esquecido de trancar? Talvez tenha saído rapidamente e voltado logo em seguida?
Ele empurrou a porta devagar, e assim que o fez, uma densa fumaça cinzenta escapou de dentro da casa. Jungkook tossiu, sentindo a garganta arder. Tapou o rosto com o antebraço e abanou com a outra mão, tentando enxergar através da névoa espessa que tomava conta do ambiente.
O cheiro forte de queimado o atingiu em cheio.
— JIMIN?! — ele gritou, já sentindo o pânico apertar o peito.
Avançou com dificuldade, tossindo, os olhos lacrimejando.
— JIMIN?
Nenhuma resposta.
Desesperado, Jungkook correu até a cozinha, onde uma panela esquecida sobre a chama do fogão havia transformado o conteúdo em carvão fumegante. Com as mãos trêmulas, desligou o fogo e puxou a panela para longe, tentando controlar a respiração. O ar ainda estava pesado. O silêncio da casa agora era ensurdecedor. Foi quando o verdadeiro medo o atingiu.
Parecia que Jimin não estava em lugar nenhum.
Foi correndo até os quartos, procurando por Jimin. Vasculhou todos os cantos da casa, cada cômodo, cada armário, cada espaço que ele poderia estar. Pegou o celular e ligou pra ele, mas o toque veio dali mesmo, o aparelho estava em cima da mesinha ao lado da cama. Jungkook pegou o celular de Jimin e deu uma olhada nas chamadas, nas mensagens, em tudo que pudesse parecer estranho, mas não tinha nada. Tudo parecia normal. Menos o fato de Jimin ter sumido.
Desceu e deu uma volta no prédio, foi até o terraço, passou pela área de lazer, checou o hall de entrada. Depois saiu andando pelas ruas, sem rumo. Rodou os quarteirões, entrou no mercadinho da esquina, perguntou pros vizinhos. Ninguém tinha visto Jimin.
Era como se ele tivesse desaparecido.
Com as mãos trêmulas, Jungkook ligou para Namjoon. Chorava, mas tentava se conter pra conseguir explicar tudo.
— Jungkook, respira. A gente vai encontrá-lo, mas você precisa manter a calma — disse Namjoon do outro lado da linha.
— A culpa foi minha... eu deixei ele sozinho... acho que foi Victor... ele pegou o Jimin — Jungkook mal conseguia falar, soluçando — Eu preciso salvá-lo, Nam, me ajuda... por favor...
— Eu vou te ajudar. Nós vamos trazer o Jimin de volta. Fica em casa, tá bem? Já tô indo pra aí.
...
Jimin abriu os olhos devagar. Tudo girava e sua cabeça latejava. Tentou se mexer, mas logo percebeu que estava preso. Suas mãos e pés estavam amarrados e ele estava sentado em uma cadeira desconfortável. Soltou um suspiro fraco.
— Kookie...? — chamou com a voz baixa e arrastada.
Olhou em volta, tentando entender onde estava. O lugar parecia um quarto de hotel de luxo. As paredes, os móveis, as cortinas... tudo era em tons de preto, cinza e branco. A luz do dia não passava pelas cortinas pesadas, nem dava para saber se era dia ou noite.
— Alguém...? — ele chamou outra vez, um pouco mais alto, mesmo com a garganta seca.
E então, como se alguém apertasse um botão em sua memória, as imagens voltaram de uma vez só. O assobio. A faca. A picada no pescoço. Victor.
Um arrepio percorreu seu corpo. O pânico veio rápido. Tentou desesperadamente se soltar, puxando as mãos e forçando os pulsos contra as cordas, mas estavam apertadas demais. Seus olhos se encheram de lágrimas. Se debateu tanto que a cadeira perdeu o equilíbrio e tombou para o lado. Jimin caiu com tudo no chão. A dor fez seu corpo inteiro reclamar. Agora estava deitado de lado, preso, com as cordas apertando ainda mais sua pele. Tudo parecia pior.
Ficou ali no chão por alguns minutos. O coração disparado, a respiração falhando. Sentiu o ar lhe faltar e uma vontade imensa de chorar. O medo era tanto que mal conseguia se mexer. Tudo dentro de si tremia.
Fechou os olhos com força e tentou se agarrar a alguma coisa boa. E então Jungkook veio à sua mente. Lembrou-se de seus olhos, de seu sorriso, do quanto o fazia se sentir amado e seguro. Se lembrou dos momentos em que se sentia a pessoa mais feliz do mundo ao lado dele.
Logo vieram outros rostos: Hoseok, Jisoo, Rosé… as risadas, as brincadeiras bobas, os abraços sinceros. Pensou também em Yoongi e Taehyung, no carinho que sentia por eles, na ansiedade de conhecer os bebês e poder segurá-los no colo. E claro, Jin e Namjoon, seus dois anjos da guarda, figuras tão acolhedoras que pareciam os pais que ele nunca teve.
E foi nesse momento, ali no chão frio, que Jimin entendeu algo muito importante.
Ele não era mais aquele garoto que vivia com medo. Não era mais submisso, nem uma marionete moldada para agradar Victor. Ele era dono de si. Tinha construído uma vida nova, cheia de amor, de amigos, de família. Uma vida que ele amava. Uma vida pela qual ele iria lutar e voltar para ela. Por todos que o amavam. E por si mesmo.
Respirou fundo várias vezes até conseguir acalmar o coração. O medo ainda estava ali, mas as lágrimas ele conseguiu segurar. Tentou lembrar das palavras de Rosé, quando falava de Jisoo. Dizia que ela era forte, que mesmo sentindo medo, não deixava que isso tomasse conta.
— O Jimin precisa ser forte… — sussurrou baixinho. — Eu… eu não sou fraco.
Repetiu isso em pensamento, como se fosse um mantra, tentando acreditar. E então pensou em Jungkook. No jeito como ele o olhava. No respeito. No amor. Jungkook foi o primeiro a tratá-lo com dignidade, o primeiro a enxergar o verdadeiro Jimin.
Ele sempre acreditou nele. Sempre disse que ele era capaz de tudo.
“Kookie…” — pensou, sentindo os olhos marejarem novamente — “eu não estou com medo… eu não estou sozinho… eu não vou chorar. Você vai se orgulhar de mim”.
E ali, naquele quarto escuro, amarrado, assustado… Jimin encontrou um pouco de luz dentro de si. E decidiu que não ia desistir.
Em meio aos pensamentos, Jimin ouviu a maçaneta girar lentamente. A porta se abriu, e Victor apareceu.
Mas, diferente de antes, Jimin não sentiu medo. Seu corpo não tremeu, seus olhos não fugiram. Era como se todo o amor que recebia das pessoas ao seu redor estivesse ali com ele, segurando sua mão, lhe dando coragem.
Victor entrou com aquele sorriso irritante, balançando a cabeça negativamente ao vê-lo caído no chão.
— O meu pequeno Jimin estava tentando fugir?
Com falsa delicadeza, ele o levantou e o colocou de volta na cadeira, como se ainda tivesse algum controle. Mas Jimin sentia nojo. Cada toque de Victor fazia sua pele queimar.
— Tira essas mãos imundas de mim! — disse Jimin, com a voz calma, mas firme, forte e clara. Sem hesitação.
Victor ficou surpreso. Seus olhos se arregalaram, como se não reconhecesse a pessoa à sua frente.
— Então você fala? — provocou.
— É claro que eu falo, seu babaca de merda. E vou te dizer mais... se você encostar um dedo em mim, vai se foder bem bonito, seu grandíssimo cuzão!
Foi a primeira vez que Jimin falou daquele jeito, nem ele sabia que sabia tantos palavrões. Mas se lembrou de todos os que Hoseok havia lhe ensinado. E naquele momento, se sentiu invencível.
Victor soltou uma risada debochada, ainda sem saber como reagir.
— Vejo que tem um vocabulário bem peculiar... sensacional.
Mas por dentro, ele estava desconcertado. Aquele não era o mesmo Jimin que ele conheceu. E isso o deixava inquieto.
— Jungkook e Namjoon vão me encontrar. Eles vão te prender e você vai apodrecer sozinho numa cela.
Victor soltou uma risada seca.
— Namjoon nunca vai chegar perto de mim. E eu? Eu nunca vou parar numa cadeia. Sou um homem que controla o próprio destino, pequeno Jimin.
— Controla o próprio destino… mas não consegue ser amado por ninguém. Invejoso de merda.
As palavras bateram fundo. Por um instante, o sorriso de Victor sumiu. Seu rosto se contorceu em raiva. Mas ele respirou fundo e voltou a sorrir, tentando manter o controle. Por dentro, sabia que não havia resposta para aquilo.
— Vou fingir que não ouvi isso… pro seu próprio bem — disse, tentando soar calmo, mesmo que sua voz traísse a irritação.
Ele se aproximou e começou a soltar as amarras de Jimin.
— Preciso de você inteiro, sem marcas. Ainda faz parte do meu plano. Mas não se atreva a fazer nenhuma besteira. Eu sou mais forte que você. E não hesito em te imobilizar de novo.
Jimin o encarou com nojo. Sentia repulsa de cada palavra, de cada toque, mas não desviou o olhar. Nem por um segundo.
— Fique aqui bem quietinho. Se fizer tudo o que eu mandar, logo vai estar nos braços do seu namorado policial — Victor disse, encarando Jimin, que devolvia o olhar com ódio.
— Essa sua carinha de raiva me fascina — continuou Victor, aproximando-se com um sorriso torto. — Confesso que isso é bem mais interessante que o seu antigo jeito submisso. Assim você me faz até querer reviver os velhos tempos...
Quando Victor se inclinou para beijá-lo, Jimin não pensou duas vezes. Cuspiu com força em seu rosto. O catarro saiu espesso, amarelado, quente, escorrendo lentamente pela bochecha de Victor, deixando um rastro nojento até alcançar seu queixo.
Victor recuou, perplexo, piscando devagar.
— Você... você cuspiu em mim? — perguntou, chocado, tentando limpar a gosma grudenta com as costas da mão.
— Você vai pagar por tudo que fez. Não só comigo… mas com todos. Sua hora vai chegar — disse Jimin, com um sorriso calmo e assustador. A segurança no olhar dele deixava Victor confuso.
— Como eu disse… eu é que decido quando a minha hora chega — Victor respondeu entre os dentes, tentando manter a pose enquanto puxava um lenço do bolso e limpava o rosto, enojado.
Depois de se limpar, Victor jogou o lenço no lixo com nojo.
— Agora cale a boca. Não adianta gritar, ninguém vai te ouvir. Vou resolver umas coisinhas, e quando eu voltar... a gente continua essa conversa.
Saiu do quarto e trancou a porta atrás de si.
Jimin correu até a porta e bateu com força.
— SEU CUZÃO DE MERDA! — gritou com toda a força dos pulmões.
Ficou ofegante por um instante. Depois, respirou fundo e fechou os olhos.
— Preciso lembrar dos ensinamentos do mestre Hoseok… manter a calma... — sussurrou, colocando a testa na madeira fria da porta.
Lembrou-se de uma conversa que teve com Hoseok, alguns meses antes.
"Jimin, a vida é como um jogo de videogame. Victor é o seu boss, forte, horrível e parece impossível de derrotar. Mas os personagens mais poderosos são justamente os que os vilões mais subestimam. Mulheres, crianças, encanadores… pessoas fortes, subestimadas, que pareciam não ter chance, mas vencia porque usava o cenário ao seu favor." — Hoseok disse certa noite, com aquele jeito sábio e debochado de sempre.
Jimin olhou ao redor. Victor ia voltar, isso era certo. E ele precisava estar pronto.
As janelas estavam bem trancadas, mas Jimin não se deu por vencido. Pegou a cadeira em que estava sentado e, com toda a força que conseguiu reunir, quebrou o vidro da janela. O barulho ecoou, e ele rezou para que ninguém tivesse ouvido.
No meio dos estilhaços, pegou um caco grande e pontudo. Escondeu com cuidado dentro da manga da blusa e empurrou para baixo da cama o restante dos cacos.
"Eu não estou com medo." — repetiu para si mesmo, como um mantra. E, dessa vez, ele acreditava de verdade.
Duas horas depois, a maçaneta girou lentamente. A porta se abriu. Victor entrou com aquele mesmo sorriso confiante de sempre. Mas Jimin não desviou o olhar. Estufou o peito, ergueu o queixo e deixou que a confiança falasse mais alto.
— Então, Jimin… onde paramos?
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