Yoongi lutou para entender o que estava acontecendo. Por que Victor estava agindo assim? O que havia de tão engraçado? Sua mente girou em busca de uma explicação, talvez fosse choque, uma ocorrência nervosa diante da notícia inesperada.

Mas aquilo não parecia nervosismo. Havia algo diferente. Algo... errado.

A risada descontrolada continuava ecoando pelo ambiente, cada vez mais fora de lugar.

Yoongi, com a voz compartilhada de seriedade e uma pontada de frustração, rompeu o momento:

— Tae, isso não tem a menor graça.

Seus olhos estavam fixos em Victor, que ainda gargalhava como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo. Mas aquilo não era piada. Era sério. Era a vida deles.

Então, Victor finalmente parou.

Com um sorriso ainda estampado nos lábios, ele balançou a cabeça como quem lamenta, mas se diverte com a situação.

— Ah, Yoongi... — murmurou, a voz carregando um tom leve, quase divertido demais para o momento.

E foi naquele instante que Yoongi sentiu o estômago revirar. Não foi o choque que ele imaginou. Não era nervosismo.

Era algo muito pior.

— Você está grávido do Tae mas não sabe que ele tem um irmão gêmeo. Isso é hilário.

— Por que você está fazendo isso? — Yoongi sentiu uma pontada no peito, algo não estava certo. Victor parecia outra pessoa.

— Essa sua carinha triste quase me faz querer chorar — Victor sorriu para ele e fez carinho em seu queixo — Estou te dizendo a verdade.

Yoongi o olhava confuso e triste, achando que aquilo fosse algum tipo de brincadeira sem graça.

— Tae... vamos pra casa — Pediu com a voz manhosa tocando na coxa de Victor.

— Não me provoca, Yoongi. Essa sua voz, esse seu jeitinho, sua aparência doce e meiga. Entendo perfeitamente porque meu irmão te queria tanto.

— Essa brincadeira já não tem mais graça — Yoongi falou sério.

— Eu até poderia transar com você se passando pelo meu irmão, mas prefiro ser eu mesmo. Sou bom demais para me passar por outra pessoa. Quero transar com você sendo eu, o grande e poderoso Victor.

— Tae, a gente transa quantas vezes você quiser, mas pare com isso agora! Vamos pra casa — Yoongi alisou sua perna — Vamos ficar abraçadinhos o dia inteiro na cama. Tô com saudades de você. Quero fazer amor com você. Quero te beijar, te abraçar, sentir seu corpo colado no meu e dizer no seu ouvido o quanto eu te amo.

Victor sentiu algo novo, algo que nunca havia experimentado: inveja.

Era estranho. Incômodo. Quase doloroso. Pela primeira vez em sua vida, ele quis ser outra pessoa. Pela primeira vez, desejou ser seu irmão. Alguém que sempre julgou ser um perdedor, um fraco e sem importância.

Victor se viu naquele momento desejando coisas que nunca imaginou desejar. Não queria dinheiro, poder ou status. Ele queria aquilo que Taehyung tinha.

Queria ser o motivo daquele olhar. Queria sentir aquela entrega, aquela afeição pura, aquela confiança inabalável. Porque, mesmo que o amor nos olhos de Yoongi não fosse para ele, ele se sentiu amado só por estar diante dele, só por ser o reflexo de quem ele realmente queria ser.

E isso o corroeu por dentro. Feria o seu orgulho.

Yoongi o olhou com ternura. Sem medo. Sem pavor. Sem ódio. E era exatamente isso que doía mais. Porque aquele olhar — aquele olhar que ele tanto desejava — não era para ele.

Era para Taehyung.

— Não tenho nenhum problema em enganar as pessoas — Victor tentou se recompor —, não me sinto mal por isso. Faço o que for necessário para alcançar meus objetivos. Mas não quero te enganar, não porque eu tenha algum código de honra, não ligo pra isso. Apenas não sinto vontade de mentir pra você. Pra começar, meu nome é Victor, Kim Victor ou Senhor V, se preferir. Sou o irmão gêmeo do seu querido Tae. Imagino que você nem saiba o nome verdadeiro dele, estou certo?

Yoongi o fitava com os olhos marejados, o coração apertado em uma mistura de confusão e dor. As lágrimas ameaçavam cair enquanto a verdade cruel se despia diante dele. Aquele homem não era o seu Tae. O rosto era o mesmo. A voz idêntica. Mas a alma era outra. A pessoa diante dele exalava algo frio, debochado, desprovido de qualquer compaixão. Onde antes ele via amor, agora só via farsa.

E então, como se as peças finalmente se encaixassem, Yoongi sentiu um calafrio.

As acusações de Namjoon fizeram sentido. Cada palavra, cada advertência ignorada agora ressoava em sua mente como um alarme tardio. Ele não quis ouvir. Não quis acreditar. Mas então quem era o homem por quem havia se apaixonado?

Sua cabeça virou um caos. O chão sob seus pés parecia ruir.

— Enfim, não sei porque ele lhe disse somente o apelido, mas o nome dele é Taehyung, Kim Taehyung.

Yoongi olhou para baixo, sentiu como se o chão o engolisse. Seu estômago revirou e sentiu enjôo.

— Fomos separados na infância e ele foi morar numa cidadezinha do Texas com a nossa mãe, enquanto eu fiquei aqui na Coreia com nosso pai. Ele nada mais é que um médico caipira e sonso. Sua única qualidade é ter uma aparência perfeita e linda, de resto, ele é um fraco e mentiroso.

Yoongi suava, seu estômago doía, queria vomitar.

— Ele te engravidou e mentiu pra você esse tempo todo — Victor continuou — Ele parece ser tão correto, tão justo, mas é um usurpador mentiroso e covarde. Diferentemente de mim que estou lhe contando a verdade. Eu jamais mentiria pra você.

— Pare o carro — Yoongi pediu com a voz fraca.

— E por que eu deveria fazer isso?

— Porque eu vou vomitar no seu carro se não fizer.

Victor freou o carro bruscamente, e, sem perder um segundo, Yoongi abriu a porta, inclinando-se para fora enquanto seu corpo se rendia ao mal-estar. O som seco de seu estômago se esvaziando ecoou pelo ar, acompanhado de sua respiração pesada e ofegante. Ele estava fraco, o corpo trêmulo, a visão embaçada. Um gosto amargo e um cansaço profundo o dominaram, como se até sua alma estivesse esgotada.

Victor observava a cena com um sentimento que ele mesmo não reconhecia em si. Preocupação, esse era aquele sentimento desconhecido que experimentava.

Sem pensar, ele tirou um lenço do porta-luvas e, com movimentos suaves, tentou limpar o rosto de Yoongi, seus dedos tocando a pele fria com uma delicadeza incomum, quase como se estivesse lidando com algo frágil.

Yoongi arrancou o lenço da mão dele, a expressão dura, o olhar febril, mas carregado de rancor.

— Eu me limpo sozinho. — sua voz saiu áspera, quase um rosnado, carregada de mágoa e repulsa.

Victor o observava em silêncio, e pela primeira vez em sua vida, se sentia impotente. Porque havia algo diferente em Yoongi. Algo que ia além. Yoongi o afetava. E isso era inédito. Nunca se importou com ninguém além de si mesmo. Sua vida inteira foi um jogo frio de manipulação e poder, onde os sentimentos eram apenas peças simples.

Mas com Yoongi era diferente.

Ele o acompanhava fazia tempo, sempre à espreita, observando, estudando. O plano sempre fora claro. Mas, em algum ponto, o plano desmoronou. Não era para ele se importar com Yoongi, isso poderia ser sua fraqueza futuramente. De forma que ele não entendia — e odiava admitir — ele se sentia ligado a Yoongi.

E agora, vendo-o assim, vulnerável, cansado, doente... algo dentro de Victor doía. E isso o assustava mais do que qualquer confronto.

— Tenho bons médicos, vou te levar até lá.

Yoongi ainda estava envolto em um turbilhão de confusão. Nada fazia sentido. Aquele não era o homem que ele conhecia, que ele amava, e, mesmo sem entender o que estava acontecendo, seu instinto gritava apenas uma coisa:

Corra!

O medo falou mais alto. Seu corpo, mesmo enfraquecido, reagiu antes que sua mente pudesse processar. A porta do carro ainda estava aberta — uma chance, uma saída. E ele se lançou para fora, o coração disparando enquanto seus pés tocavam o asfalto frio da rodovia.

Yoongi correu. Correu com tudo o que seu corpo esgotado permitia, como se sua vida dependesse daquilo — e talvez dependesse.

Atrás dele, Victor saiu do carro, sem pressa.

Com uma calma quase perturbadora, ele caminhava, os passos lentos e calculados, um sorriso desenhado nos lábios, como se estivesse se divertindo com aquela cena.

— Vai mesmo tentar fugir, Yoongi? — murmurou, a voz carregada de uma tranquilidade assustadora.

Ele sabia que Yoongi não iria longe. E ele estava certo.

O mundo ao redor de Yoongi começou a girar. Seu corpo estava fraco demais, a cabeça latejava, e sua visão ficou turva.

Cada passo era mais pesado que o anterior. O chão parecia se mover sob seus pés, e um zumbido irritante tomou seus ouvidos.

— Não... — ele arfou, lutando contra o colapso iminente.

Mas seu corpo já havia desistido. A escuridão veio rápida, implacável, engolindo-o antes que ele pudesse sequer gritar. E, antes que tudo se apagasse, a última coisa que sentiu foram passos se aproximando.

— Não... agora não... eu preciso voltar pro meu Tae… — sussurrou fracamente.

Victor se aproximou e o pegou no colo. Apreciou seu lindo rosto como se visse um anjo.

— Agora você é meu e eu vou cuidar de você. Vou te proteger, já que meu tolo e fraco irmão é incapaz disso.

...

Jungkook e Namjoon tentavam entender o que Jimin queria dizer. Olhavam para Taehyung completamente confusos.

— Como assim, Jimin? — Jungkook perguntou — Ele não é o Victor?

— Ele não é o Sr.Victor, se parece muito, mas não é — Jimin se aproximou de Taehyung e o ajudou a se levantar — Por que você se parece com aquele homem? É irmão dele?

Namjoon o olhou curioso, esperando uma resposta. Taehyung limpou o sangue de sua boca e olhou sério para Jungkook.

— Pra você ter agido com tanta fúria, devo imaginar que tenha sido por algo sério. Não iria me bater assim de graça.

— Precisamos conversar a sós — Disse Jungkook — Sr. Namjoon, fique aqui com Jimin, vou conversar com esse rapaz, seja lá quem for, em particular.

— Sim, sem problemas. Podem usar minha sala.

Jungkook foi até a sala de Namjoon, Taehyung o seguiu, ainda sentindo seu rosto latejar devido ao soco.

— Sente-se — Jungkook ordenou com um tom frio e seco.

Taehyung se sentou em uma das poltronas, Jungkook se sentou na sua frente, todo o tempo mantendo contato visual, era visível seu ódio por “Victor”, tentava se controlar para não ter outro acesso de fúria.

— Por que Jimin disse que você não é o Victor?

— Vou te responder tudo, só quero que me diga uma coisa...

— Vá em frente.

— Por que me bateu? Eu nem ao menos te conheço.

— Aquilo não foi por mim, foi pelo que você fez ao Jimin.

— Jimin? Eu acabei de conhecê-lo.

Jungkook riu de raiva.

— Acabou de conhecê-lo? Você o prendeu por anos e a mais de um ano vem molestando ele — Jungkook fez uma pausa, tentava controlar seu ódio ao imaginar o que Victor fez com Jimin — Como pôde fazer isso com ele?

Taehyung o olhava perplexo.

— Isso... I-isso não pode ser verdade.

— Mas é. Não temos provas suficientes contra você, mas vamos conseguir e você vai mofar na cadeia.

— Jungkook... eu não sabia disso.

— Como assim não sabia?

— Jimin tem razão... eu... não sou o Victor.

A declaração caiu como uma bomba, e Jungkook franziu o cenho, o olhar carregado de confusão.

— O que…? — Ele conseguiu murmurar, sem conseguir processar de imediato.

Diante dele, Taehyung estava visivelmente abalado. O suor escorria por sua testa, e seu peito subia e descia em uma respiração ofegante, tomada pela tensão. O medo em seus olhos era real. E, de repente, tudo começou a fazer sentido. Com a voz trêmula, ele continuou:

— Eu... sou irmão gêmeo do Victor. — A revelação veio carregada de peso, como se cada palavra custasse a sair. — Ele me obrigou a tomar o lugar dele.

Jungkook sentiu o ar faltar por um momento, mas ficou em silêncio, esperando pelo resto, precisava ouvir tudo.

— Ele está com a minha mãe. — A voz de Taehyung falhou ao dizer isso, o desespero transparecendo. — Caso eu não fizesse o que ele mandasse… ele ameaçou machucá-la.

O peito de Jungkook apertou com força. O choque se misturava à indignação, e sua mente girava tentando juntar as peças daquele quebra-cabeça insano. Levou a mão à cabeça, os dedos pressionando as têmporas como se pudesse organizar seus pensamentos.

— Isso... isso é uma loucura… — Sua voz saiu baixa, carregada de perplexidade. — A situação só está piorando.

Ele sentia o peso de tudo desmoronando ao seu redor. Nada era o que parecia. O perigo era maior do que ele havia imaginado.

— Meu Deus... então quem é você? Como é seu nome?

— Kim Taehyung. Meu pai apagou todos os meus registros, por isso ninguém imagina que Victor tem um irmão gêmeo.

Jungkook não sabia se respirava aliviado por saber que Yoongi não estava grávido daquele monstro ou se ficava preocupado por não saber o paradeiro do verdadeiro Victor.

— Ok, primeiramente me desculpe pelo soco.

— Sim, foi um belo soco — Taehyung colocou a mão no rosto, sentindo dor.

Jungkook sorriu sem graça.

— Em segundo lugar, quero que me conte tudo o que sabe. Porque você está no lugar de Victor? Onde ele está? Me conte tudo. Precisamos resgatar sua mãe.

Taehyung contou toda a história até ali, Jungkook o ouvia atentamente, anotando tudo na agenda de Namjoon. Qualquer coisa poderia ser uma pista.

Taehyung olhou as horas no celular.

— Preciso buscar meu namorado, ele tinha alguns assuntos pra resolver. Marcamos de nos encontrar no terminal.

Jungkook sentiu um aperto no coração, sabia que assuntos eram esses. Desejava que Yoongi não tivesse feito aquilo.

— Eu estou liberado?

— Sim, está — Jungkook bufou, ainda desconfortável com a situação.

Taehyung ainda não sabia sobre Yoongi ser policial, Jungkook decidiu não falar nada, achou que seria melhor o próprio Yoongi contar.

...

Taehyung chegou no terminal alguns minutos antes do horário marcado para encontrar Yoongi, mas ele não estava lá. Seu olhar percorreu o local, cheio de esperança de encontrá-lo entre os rostos apressados que iam e vinham. Mas nada. Nenhum sinal. A inquietação cresceu, e ele começou a andar pelo terminal, vasculhando cada canto, cada corredor. Nada.

O coração começou a bater mais rápido. Com dedos trêmulos, ligou para Yoongi.

Celular desligado.

A preocupação apertou seu peito como um nó sufocante. Algo não estava certo. Algo estava muito errado. Sem perder tempo, correu para casa, agarrado à esperança de que Yoongi já estivesse lá. Entrou apressado, a porta batendo com força atrás de si.

— Yoongi? — chamou, a voz ecoando pela casa vazia.

Correu de cômodo em cômodo, abrindo portas, olhando debaixo de camas, atrás de cortinas, em qualquer lugar. Mas não havia ninguém.

Desesperado, ligou uma, duas, dez vezes. Cada tentativa era respondida pelo mesmo som frio da caixa postal. Deixou mensagens, dezenas delas, mas nenhuma sequer chegou ao celular de Yoongi. Era como se ele tivesse desaparecido.

Respirando com dificuldade, ele pegou papel e caneta e deixou um bilhete em cima da mesa:

“Yoongi, por favor, me liga. Estou te procurando. Estou indo à delegacia. Por favor, esteja bem. — Tae”

O papel ficou ali, solitário, enquanto ele saiu novamente, desta vez com o peito apertado pela angústia. Seu destino? A delegacia.

Quando chegou, Jungkook e Jimin já haviam partido. Haviam saído após contar a Namjoon toda a verdade sobre ele e Victor. Taehyung não perdeu tempo. Foi direto para a sala de Namjoon. Diante da porta fechada, respirou fundo para conter o turbilhão de emoções. Então, com determinação, bateu.

Toc, toc.

— Entra. — respondeu a voz firme lá de dentro.

E Taehyung, com o coração disparado e a alma em frangalhos, entrou. Namjoon estava atolado em uma pilha de papéis, tomava uma enorme xícara de café e mexia concentrado em seu notebook.

— Namjoon, preciso da sua ajuda — Taehyung estava desesperado — Meu namorado não me atende, eu marquei de me encontrar com ele e ele não estava lá. Já fui em casa e nada dele. Pelo amor de Deus, me ajude a encontrá-lo.

Namjoon se levantou, estava preocupado com o rumo que aquela situação poderia tomar.

— Se acalme, quando foi a última vez que você o viu?

— Foi hoje de manhã. Ele disse que precisava resolver algumas coisas pessoais... E se aconteceu algo?

— Sente-se aqui, vamos encontrá-lo. Talvez ele foi em algum outro lugar e o celular descarregou.

— Será?

— Sim, tenha calma, ele está bem — Namjoon lhe deu um copo com água. Tentava acreditar em suas próprias palavras, mas precisava ser forte e passar confiança para Taehyung, que estava à beira de um colapso.

Enquanto Taehyung tentava se acalmar, o celular vibrou em seu bolso. Yoongi estava ligando. Com um desespero descontrolado, ele atendeu a ligação.

— Yoon... — Disse choroso — Você está bem? Onde você está? Estou preocupado, já é noite e você não atende minhas ligações. Yoon eu...

— Irmãozinho! Quanto tempo! — Victor sorriu do outro lado da linha.

Notas finais
Então Victor, não adianta ter a mesma aparência do Tae...