The Evil Within

27 O Perigoso e Desarmado



— VICTOR? — Taehyung gritou, surpreso. Namjoon fez um sinal para que ele deixasse no viva-voz — O que está fazendo com o celular do Yoongi? Cadê ele?

— O Yoongi? Está aqui do meu lado, dormindo tranquilamente, sabia que ele fica lindo quando dorme?

O desespero e o ódio tomaram conta de Taehyung como uma tempestade avassaladora. Seu peito subia e descia em respirações pesadas, e seus dedos tremiam ao apertar o celular com força, como se aquele pequeno objeto pudesse conter toda a fúria que ardia dentro dele.

Ele não poderia perder a sanidade. Não agora. Não quando Victor tinha em suas mãos as duas pessoas mais importantes de sua vida: Sua mãe. E seu grande amor.

A simples ideia de que ambos estavam nas garras de Victor fez algo dentro de Taehyung se romper. Seu sangue fervia, sua mente girava em mil possibilidades, e cada segundo de espera só aumentava o pavor esmagador em seu peito.

Ele precisa fazer algo. Precisava agir. Porque se Victor sequer ousasse machucá-los… Taehyung nunca se perdoaria.

— O que você quer, Victor?

— Eu? Não quero nada, já tenho tudo o que quero nesse quarto. Só estou te ligando porque sou um bom irmão e não quero que você fique procurando o meu Yoongi inutilmente. Não se preocupe, vou cuidar muito bem dele... Ah, e mande um oi pro Namjoon — Victor encerrou a ligação, deixando Taehyung uma pilha de nervos.

Taehyung jogou o celular contra a parede com fúria, estilhaçando o aparelho em pedaços incontáveis. Em seguida, desferiu um soco tão violento que sua pele se rompeu, deixando pequenas manchas de sangue espalhadas pelo gesso rachado.

— Senhor Kim... — Namjoon o segurou para que ele parasse de socar a parede — Tente se acalmar, preciso que você seja forte para resgatarmos Yoongi e sua mãe. Não se entregue a ira. — Namjoon o abraçou e Taehyung chorou amargamente em seu ombro.

— A culpa é minha — Disse em lágrimas — Primeiro foi minha mãe, agora o Yoon... eu, eu devia ter protegido ele.

— Não tinha como você saber. A culpa não foi sua, acalme-se. Victor não vai fazer nada com o Yoon.

— Sempre soube que meu irmão não era uma boa pessoa, mas nunca imaginei que ele fosse capaz de coisas tão cruéis — Taehyung tentava conter as lágrimas que insistiam em cair.

— Taehyung — Namjoon segurou em seus ombros — Nós vamos conseguir resgatar o Yoon e a sua mãe, você estará com eles muito em breve.

...

Na manhã seguinte, Yoongi abriu os olhos lentamente, ainda imerso no sono, lutando contra o peso em suas pálpebras. Só despertou de verdade quando Victor se aproximou de sua cama.

— Acordou, amor?

Yoongi o abraçou ternamente. Victor ficou sem reação.

— Tae — Disse sonolento, sua voz ainda mole — Eu tive um pesadelo horrível.

Victor alisou suas costas com delicadeza, envolvendo-o em um abraço firme, sentindo o perfume suave de seus cabelos. Fechou os olhos, absorvendo cada instante aquele abraço caloroso e sincero.

— Foi só um pesadelo…

— Tae, eu senti tanto a sua falta.

— Estou aqui, amor. Descanse um pouco mais, você ainda está sob efeito dos medicamentos. Vai se sentir melhor quando acordar.

Victor o deitou com delicadeza, puxando a coberta para cobri-lo. Yoongi o observava com ternura, os olhos carregados de afeto. Com um toque suave, deslizou os dedos pelo rosto de Victor, como se quisesse gravar aquela sensação em sua memória.

— Tae, por que você parece tão tenso?

Victor beijou sua mão.

— Estou bem. Agora durma um pouco. Vou apagar as luzes.

Victor ia se levantar, mas Yoongi o segurou pela barra da blusa.

— Fica comigo?

Victor fitou aqueles olhos brilhantes, ciente de que seria sua ruína. A doçura daquele olhar, sem dúvida, seria sua perdição.

Yoongi deitou a cabeça em suas pernas, aninhando-se em busca de conforto, esperando que ele acariciasse seus cabelos. Victor não sabia como reagir, sentiu-se exposto, vulnerável, como se Yoongi tivesse o poder de desarmá-lo com um simples gesto. Mas, em vez de resistir, deslizou os dedos por seus fios macios, absorvendo cada traço daquele rosto sonolento e sereno, incapaz de desviar o olhar.

...

Yoongi despertou novamente, dessa vez sem os efeitos do medicamento. Sua cabeça latejava, os olhos pesavam, e um cansaço inexplicável tomava conta de seu corpo. Piscou algumas vezes, tentando ajustar a visão ao ambiente. O quarto era imenso, especialmente como uma suíte de hotel cinco estrelas — sofisticado e impecavelmente limpo.

Tentou se levantar, mas suas pernas fraquejaram, obrigando-o a se sentar novamente antes que desabasse no chão. Não sabia se a tontura vinha da gravidez ou do longo período de sono. Seu corpo parecia exausto, como se estivesse dormindo por tempo demais.

Tentou reunir as memórias dispersas, mas tudo parecia distante, enevoado. Aos poucos, os acontecimentos começaram a se encaixar. E então, ao lembrar de Victor — e das palavras que ele dissera — sentiu uma pontada aguda no peito.

Um alerta soou em sua mente: “eu preciso sair daqui”.

Mesmo com tontura, forçou-se a se levantar, apoiando-se nos móveis para manter o equilíbrio. Andou pelo quarto, examinando cada canto. Com um fio de esperança, abriu as cortinas, buscando uma possível rota de fuga. Mas o que encontrou foi um golpe de realidade ainda mais cruel — todas as janelas eram falsas. O quarto era um espaço hermético, fechado, sem saída além da porta.

Yoongi esmurrou a porta, com ódio.

— SEU FILHO DA PUTA, ME DEIXA SAIR!

Esmurrou a porta até suas mãos doerem.

— EU VOU ENFIAR UM POSTE NO SEU CÚ, SEU MERDA! VOU ENFIAR UMA BRITADEIRA LIGADA NO SEU RABO, SEU CUZÃO!

Victor o observava pelas câmeras, acompanhando cada movimento com uma mistura de curiosidade e divertimento. As ameaças de Yoongi, longe de causar medo, apenas o fizeram achá-lo ainda mais adorável. Havia algo fascinante na forma como ele tentava lutar contra uma situação, mesmo tão vulnerável. Victor riu, sabendo que, por mais que Yoongi quisesse escapar, não havia para onde correr.

— Talvez deixá-lo sozinho não seja uma boa ideia — Disse Victor para si mesmo, enquanto olhava Yoongi pela tela — Preciso acalmá-lo para não afetar os nossos bebês.

...

Alguns minutos depois, a porta do quarto se abriu com um clique seco. Um guarda entrou primeiro, a arma apontada diretamente para Yoongi, que analisava cada detalhe do homem à sua frente. Seu olhar se manteve atento, calculando qualquer possibilidade de acontecimento. Yoongi era policial e lidar com uma arma apontada para ele era mais comum do que gostaria que fosse.

Logo atrás dele, uma mulher entrou no quarto com passos calmos e firmes. Ela aparentava ter cerca de cinquenta anos e carregava uma beleza serena, quase reconfortante. Vestia um jaleco branco impecável, e seus longos cabelos castanhos foram cuidadosamente trançados. Seus olhos expressivos emanavam uma tranquilidade estranhamente familiar, como se, de alguma forma, Yoongi já a conhecesse.

— Olá — Disse a mulher entrando no quarto enquanto o segurança trancava a porta do lado de fora. Ela olhou para a porta e balançou a cabeça negativamente — São uns babacas.

Yoongi a encarou, curioso.

— Prazer, eu sou Hye Sung, sou uma refém aqui — Yoongi olhou para seu jaleco — Ah sim, eu sou enfermeira também, estou ajudando a cuidar de todos. Então, como você se chama?

— Min Yoongi — Respondeu desconfiado.

— Então Yoongi, posso te chamar assim?

— Faça como quiser.

— Fizemos alguns exames em você, já deve saber que está grávido de gêmeos. Enfim, sua saúde está ok, mas precisa de vitaminas e precisa se alimentar melhor. Tome esse remédio, vai ser bom para os bebês.

Yoongi segurou a barriga, como se quisesse protegê-los.

— Não vou tomar nada que vocês me derem.

— É só ácido fólico e vitamina B9. Isso ajuda no desenvolvimento dos fetos.

— Não... obrigado — Yoongi abraçou a própria barriga e olhou feio para Hye Sung.

— Tudo bem — Ela levantou as mãos em sinal de rendição, seu sorriso tranquilo lembrava muito alguém —, mas você precisa se alimentar adequadamente. Está com carência de ferro e vitamina do complexo B. Estarei cuidando de você e mandei que preparassem uma refeição rica em nutrientes.

Yoongi ainda a encarava desconfiado.

— Você é enfermeira?

— Sim, sou.

— E trabalha pra ele?

— Não, sou refém assim como você, mas acho que sou mais útil ajudando os outros. Assim as horas passam mais rápido.

— Outros?

— Sim, além de nós dois tem mais outros reféns aqui.

— Meu Deus... quantos?

— São duas crianças e dois adolescentes.

— Esse cara é um monstro.

Hye Sung abaixou a cabeça envergonhada, sentindo-se culpada por ser mãe desse monstro.

— Precisamos sair daqui — Disse Yoongi.

— Não tem como sair, temos que esperar alguém nos achar e...

— Até quando? — Yoongi a interrompeu — Até meus filhos nascerem e ter que crescer trancados aqui? Não, tem que ter uma saída, vamos achar um jeito.

A porta se abriu novamente, e dois homens entraram no quarto. O primeiro segurava uma arma, apontando-a tanto para Yoongi quanto para a mulher, seus olhos frios e inexpressivos, prontos para reagir a qualquer movimento. O segundo empurrava um carrinho de hotel, movendo-se com precisão mecânica, como se estivesse apenas cumprindo um protocolo.

Eles não disseram uma palavra. Apenas deixaram o carrinho no centro do quarto e saíram, trancando a porta novamente.

O silêncio que se seguiu era pesado, quase sufocante. Yoongi lançou um olhar desconfiado para o carrinho, sem saber o que esperar. A mulher ao seu lado manteve a expressão serena.

— O que tem aí?

— O seu almoço.

— Não vou comer nada daqui.

— Você precisa comer.

— Não! E se tiver algo?

— Victor é uma pessoa má, mas ele se apegou a você e a essas crianças. Se ele quisesse te fazer mal já teria feito. Se você não se alimentar vai passar mal e pode perder os bebês.

Yoongi suspirou com pesar, de qualquer forma estava com muita fome.

Hye Sung serviu o almoço, arrumando tudo na mesa. Ela havia mandado preparar comida para os dois, garantindo que tudo estivesse impecável.

Sentaram-se para comer em silêncio. Yoongi se manteve reservado, mastigando lentamente enquanto seus olhos, vez ou outra, analisavam a mulher à sua frente. Havia algo inquietante na familiaridade, como se ele devesse reconhecê-la, mas não conseguisse encaixar as peças.

Seus traços eram delicados, mas carregavam uma firmeza contida. O sotaque denunciava que ela era americana ou, no mínimo, havia passado grande parte da vida nos Estados Unidos. Yoongi tentou vasculhar suas memórias, mas nada concreto surgiu, apenas a estranha sensação de que aquela mulher era muito familiar.

— Você é casada? — Yoongi puxou assunto para quebrar o silêncio.

— Já fui, mas me divorciei há muito tempo. Morei sozinha com meu filho por muitos anos numa cidadezinha do Texas, Sugarland, não sei se já ouviu falar.

— Não, nunca ouvi falar. Mas deve ser um lugar bonito. E o seu filho? Onde ele está?

— Está tentando me tirar daqui.

— Então ele sabe que está aqui?

— Sabe, mas não sabe onde. Está sendo chantageado para que eu seja liberta. Ele é um bom menino, você iria gostar de conhecê-lo.

Yoongi deu uma garfada no brócolis.

— Como ele é? O seu filho.

— Ele é um amor — Hye tinha um brilho nos olhos ao falar de Taehyung — Ele é gentil, doce, carinhoso, um pouco bobo e infantil às vezes, mas tem uma personalidade muito atraente. Você tem namorado?

— Não.

— Então vou te apresentar meu filho quando sairmos daqui.

— Eu já gosto de alguém.

— O pai dos seus bebês?

— Sim... na verdade eu amo ele, muito mesmo. Desculpa, mas não posso conhecer o seu filho dessa forma.

— É uma pena — Ela tinha um tom de voz suave e choroso, lhe passando um sentimento muito familiar — Eu adoraria ter um genro como você.

Yoongi sorriu.

— E eu adoraria ter uma sogra como você.

Hye Sung sorriu timidamente.

— Mas me diga, como é o pai dos seus filhos?

Yoongi se lembrou de Taehyung e um sorriso bobo se formou.

— Assim como seu filho, ele é amoroso, carinhoso, bobo, infantil, mas muito doce e meigo. Me trata muito bem, me dá muito amor, faz eu me sentir a melhor pessoa do mundo.

— Meu filho perdeu feio — Ela sorriu — Mas porque vocês não namoram se ambos se amam?

— Diversos problemas complicados. Eu só quero sair daqui e correr pra ele, pra dizer o quanto eu o amo e que quero ficar com ele.

— Nós vamos conseguir, Yoongi — Ela pegou em sua mão.

Depois do almoço, Hye Sung se retirou, deixando Yoongi sozinho com seus pensamentos. Ele decidiu tomar um banho, permitindo que a água quente relaxasse seu corpo tenso.

Ao sair do banheiro, vestiu-se com as roupas do guarda-roupa e sentiu um arrepio percorrendo sua espinha. Tudo ali parecia ter sido feito sob medida para ele — cada peça no tamanho exato, no estilo que costumava usar. Era como se aquele quarto tivesse sido montado especificamente para recebê-lo, o que tornava a situação ainda mais perturbadora.

Sem alternativa, sentou-se na poltrona, deixando-se afundar no estofado macio. Com um gesto instintivo, deslizou as mãos sobre a barriga ainda lisa, acariciando-a suavemente. Um sorriso melancólico surgiu em seus lábios enquanto sussurrava palavras tranquilizadoras para seus bebês, como se quisessem garantir que, apesar de tudo, eles não estivessem sozinhos.

— Oi Sementinha, oi Feijãozinho, vocês estão bem aí? Estão me ouvindo? Que bom que vocês estão aqui comigo. Não me sinto sozinho — Yoongi segurou as lágrimas — Não vou deixar que façam mal a vocês. Me sinto fraco mas vocês me dão forças. Em breve estaremos com o papai Tae, vocês vão adorar conhecê-lo, ele é meio idiota as vezes, mas eu o amo mesmo assim — Yoongi riu ao lembrar dos shows que Taehyung fazia quando ia limpar a casa ouvindo música.

O dorminhoco Yoongi acabou cochilando na poltrona, sonhando com seu amado Taehyung e seus filhos que ainda nem se formaram.

...

Sentiu um calor úmido nos lábios, um toque macio e sutil que o arrancou de seu estado de devaneio. Alguém o beijava.

Seu coração acelerou.

Ao abrir os olhos, deparou-se com Victor, a imagem perfeita de Taehyung, como se seus olhos estivessem pregando-lhe uma peça cruel.

O choque o atingiu como um raio, e, sem pensar, Yoongi o empurrou instintivamente, afastando-o com um movimento brusco. Seu peito subia e descia rapidamente, a respiração entrecortada pela surpresa e pelo pavor.

— Até uns dias atrás você estava todo amorzinho comigo, todo dengoso, agora me empurra? — Victor o encarou, o sorriso idêntico ao de Taehyung, porém carregado de malícia e sarcasmo.

— O que diabos você está fazendo?! — a voz de Yoongi saiu rouca, um misto de incredulidade e raiva.

Victor apenas o observou, um sorriso enigmático brincando em seus lábios, como se estivesse se divertindo com a situação.

— Só vim te ver, amor.

— Não me chame assim. Me deixa sair daqui.

— Sair por que? Essa é sua nova casa. Você tem tudo o que precisa aqui.

— Eu quero voltar pro Tae.

— Por que? Você tem a mim, não precisa daquele inútil. Olha pelo lado bom, temos a mesma aparência, mas eu sou uma outra versão, melhor que ele. Mais inteligente, mais forte e te garanto que com uma pegada melhor do que a daquele frouxo.

— Você não é o Tae. Nunca será melhor que ele.

— Assim você parte meu coração — Victor colocou a mão no peito, fingindo dor — Não esqueça que ele te enganou e mentiu pra você, realmente eu não sou ele. E nem quero. Odeio pessoas covardes e medrosas.

Os olhos de Yoongi se encheram de lágrimas, Victor se aproximou e tocou seu rosto.

— Não chore, Yoongi. Vai ficar tudo bem.

Yoongi empurrou sua mão.

— Eu preciso sair daqui, por favor — Algumas lágrimas molharam seu rosto.

Victor sentia seu coração se quebrar a cada lágrima de Yoongi.

— Yoongi, eu não posso te deixar sair, por favor não me peça isso. Te dou tudo o que quiser, te dou o mundo se me pedir, menos isso.

— Victor — A voz de Yoongi propositalmente saiu chorosa. Victor sentiu um frio na barriga ao ouvi-lo chamar pelo seu nome — Eu estou com medo de ficar aqui sozinho, é tão triste e solitário. Não tem nada pra fazer. Você não pode ao menos me trazer alguns livros?

— Livros? Claro que sim, vou trazer alguns bons pra você ler — Victor foi em direção a porta, animado para pegar os livros para Yoongi. Tirou um cartão de seu bolso, passou o cartão na porta e ela abriu. Fechou a porta e deixou Yoongi sozinho no quarto novamente.

Yoongi limpou as lágrimas e deu risada.

“É só um idiota. Pelo jeito, consigo enganá-lo fácil. Só preciso pegar aquele cartão”.

Notas finais
Cuidado, Victor... só digo isso 😂