The Evil Within
41 O Corajoso Yoongi

Em questão de minutos, a polícia de Seul havia cercado completamente o prédio onde Victor mantinha Jimin em cativeiro. Tratava-se de um dos luxuosos hotéis pertencentes ao seu conglomerado, até então administrado por um de seus acionistas, um lugar imponente, agora transformado em cenário de terror.
Victor, acompanhado por alguns capangas contratados, havia invadido o local, rendido os funcionários e alguns hóspedes. Esvaziou o prédio com precisão cruel, mantendo todos os reféns trancados em um único quarto no segundo andar. Todos, exceto Jimin. Ele permanecia isolado, sozinho, no quarto ao lado.
Do lado de fora, Namjoon observava o prédio com os olhos apertados e o maxilar travado. A audácia de Victor era inacreditável. E seu pedido, ainda mais absurdo.
— Eu não vou mandar Yoongi aí, de forma alguma — afirmou com firmeza ao telefone.
A resposta de Victor veio sem hesitação.
— Quero falar com o Yoongi. Agora.
Namjoon soltou um suspiro tenso, passando a mão pelo rosto. Sentia o peso daquela decisão sobre seus ombros. A vida de Jimin e de todos os reféns estava em jogo.
— Posso trazê-lo apenas para que vocês conversem... mas, em troca, você solta o Jimin e os demais.
Victor deu uma risada seca.
— Errado. Traga-o apenas para uma conversa por telefone e eu libero três reféns. Isso é o máximo que ofereço por enquanto.
Namjoon cerrou os dentes, mas sabia que precisava ganhar tempo. Concordou.
— Fechado.
Assim que a ligação foi encerrada, Jungkook, que ouvia tudo ao lado, explodiu. Um grito rasgou sua garganta, chamando desesperadamente pelo nome de Jimin. Ele caiu de joelhos, implorando a Deus por um milagre. Namjoon se apressou em segurá-lo pelos ombros, tentando acalmá-lo.
Demorou, mas Jungkook finalmente respirou fundo, fechando os olhos e apertando os punhos. Namjoon, apesar do caos, sentia-se aliviado. Durante a ligação, Jungkook havia conseguido conter suas emoções, e isso havia sido crucial. Qualquer deslize poderia ter colocado tudo a perder.
Trazer Yoongi parecia, naquele momento, a melhor alternativa. Afinal, que mal haveria em permitir que ele trocasse algumas palavras com Victor ao telefone? Pelo menos era nisso que Namjoon tentava acreditar, agarrando-se à única chance real de salvar Jimin e os demais reféns.
Yoongi e Taehyung foram imediatamente informados de toda a situação. Ambos haviam desenvolvido um vínculo profundo com Jimin nos últimos meses. Ao saber do sequestro, ficaram devastados, mas não hesitaram e colocaram-se à disposição para ajudar no que fosse necessário. Yoongi, apesar do turbilhão de sentimentos, manteve a expressão contida, como quem sabe que sua presença poderia mudar o rumo dos acontecimentos.
Diante do luxuoso hotel agora transformado em cenário de crise, uma grande tenda foi montada como base de operações. Lá dentro, Namjoon comandava a negociação com precisão cirúrgica, cercado por monitores, rádios, mapas do prédio e policiais circulando com semblantes tensos. O contraste era gritante, onde antes circulavam milionários, socialites e celebridades, agora havia apenas homens armados e olhares calculistas.
O perímetro estava completamente isolado. Viaturas bloqueavam as ruas adjacentes. Em prédios vizinhos, snipers da polícia mantinham suas armas apontadas, olhos atentos em cada centímetro do hotel. Mas todas as janelas estavam trancadas, as cortinas fechadas como se o próprio prédio tentasse esconder os horrores ali dentro.
Victor estava no controle. Mas Namjoon não pretendia deixá-lo assim por muito tempo.
Yoongi e Taehyung chegaram ao local e ficaram estarrecidos com o que viram. A movimentação era intensa. Viaturas por todos os lados, um helicóptero sobrevoando o hotel, sirenes ao fundo e uma multidão de repórteres famintos por manchetes sensacionalistas.
As faixas amarelas de isolamento policial tentavam manter a imprensa afastada, mas muitos jornalistas forçavam passagem, empurrando microfones, apontando câmeras e berrando perguntas sem qualquer sensibilidade. Policiais faziam de tudo para contê-los e preservar a zona de segurança.
Assim que passaram pelo bloqueio, os dois foram levados para dentro da tenda de comando, fortemente vigiada por agentes armados. Lá dentro, o clima era tenso e o som das vozes era baixo e concentrado. Namjoon se aproximou com o semblante sério. Sem mencionar a absurda proposta de troca feita por Victor, apenas resumiu o essencial.
— Victor quer falar com você, Yoongi. Apenas isso, por enquanto.
Yoongi assentiu com o maxilar travado. Taehyung permaneceu ao seu lado, tenso. O policial-chefe pegou o telefone e discou o número. O toque durou apenas um segundo.
— Victor, sou eu, Namjoon...
— Namjoon! — respondeu Victor, com uma empolgação doentia. — Que prazer ouvir sua voz. Trouxe o meu Yoongi?
Taehyung franziu o cenho imediatamente. A voz de seu irmão o irritava, o que era um pouco estranho, já que suas vozes eram idênticas. Mas o que mais o enojava era ouvir seu irmão se referindo ao amor de sua vida — pai de seus filhos — como se fosse uma posse.
— Sim, eu trouxe o Yoongi — respondeu Namjoon, tentando manter a calma. — Agora preciso que você cumpra sua parte e liberte os reféns.
— Eu sempre cumpro o que prometo. Os três reféns estão na porta do hotel, esperando apenas o meu sinal para sair.
— Ótimo. Espero que esteja dizendo a verdade — disse Namjoon, fazendo sinal para a equipe checar a informação. — Agora vou passar o telefone para Yoongi.
Yoongi respirou fundo. Aquela conversa não era apenas uma ligação. Era uma entrada direta no covil daquele monstro lunático. E ele não pretendia se deixar abalar.
— Victor? — a voz de Yoongi saiu firme, mas serena.
— Yoongi... — Victor arfou do outro lado da linha, como se seu nome tivesse lhe devolvido o ar. — Que saudade de ouvir sua doce voz...
Na tenda, Taehyung e Jungkook travavam uma batalha interna para não explodirem em gritos. Os punhos cerrados, o maxilar rígido e os olhares incendiados deixavam claro o quanto estavam furiosos.
Yoongi, por sua vez, respirou fundo novamente. Por dentro, sentia o estômago embrulhar só de ouvir aquele tom meloso e distorcido. Mas sua voz permaneceu delicada, como um disfarce bem ensaiado.
— Como você está, Victor?
— Agora que ouvi você... estou ótimo. Como estão nossos bebês?
Yoongi sentiu o mundo parar por um segundo. “Nossos?” O sangue gelou. Virou o rosto em direção a Taehyung, que já estava com os olhos arregalados e os lábios entreabertos de indignação. Yoongi, no entanto, foi rápido, lançou-lhe um olhar firme e sutilmente balançou a cabeça, ordenando silêncio. Taehyung mordeu o lábio inferior com força para conter a revolta.
— Estão bem. Fiz alguns exames e, felizmente, está tudo certo com eles — respondeu Yoongi com calma, mesmo com o nó apertando em sua garganta.
— Já escolheu os nomes? — Victor perguntou com entusiasmo infantil.
— Ainda estou pensando... Mas, Vic — Yoongi suavizou o tom, fingindo doçura —, se você fizer um pequeno favor pra mim... quem sabe a gente não escolhe os nomes juntos?
As palavras soaram doces, mas tinham veneno por trás. Taehyung olhou para ele perplexo. O rosto corado de raiva, a veia da têmpora pulsando. Queria explodir, mas se manteve calado. Sabia que vidas estavam em jogo. Sabia que Yoongi estava se sacrificando com cada palavra.
Victor, por outro lado, sorriu largo. Encostou a mão no peito, como se quisesse segurar o coração que batia acelerado.
— Você não faz ideia do quanto eu esperei por esse momento… — murmurou, completamente iludido.
Yoongi fechou os olhos por um instante. Fez alguns segundos de silêncio para recuperar a força. Estava jogando com o demônio e não podia errar.
— Fico feliz em saber que você me esperava com tanta ansiedade. — Yoongi disse, mantendo o tom calmo.
— Você não faz ideia... — Victor respondeu com um sorriso que chegava a doer no rosto. Por um segundo, ele suspirou como se estivesse vivendo um sonho. — Mas me diga, Yoon... o que você quer?
— Quero que solte meu amigo Jimin. E os outros reféns também. — disse Yoongi, firme e direto.
— Posso fazer isso. Por você, eu faria qualquer coisa. Mas... tenho uma condição.
Yoongi respirou fundo, já esperando o pior.
— Qual é?
— Quero te ver pessoalmente. — Victor murmurou, quase como um pedido — Não posso sair daqui... então, só me resta pedir que venha até mim. Só uma última vez. Preciso te abraçar. Tocar sua barriga... sentir os bebês. É tudo o que eu peço. Depois disso, eu libero todos.
Yoongi lançou um olhar silencioso a Taehyung, que já balançava a cabeça com força, em negação. O rosto dele estava vermelho de fúria.
— Vou conversar com o Namjoon e retorno em breve com uma resposta — respondeu Yoongi, encerrando a ligação antes que Victor pudesse dizer mais alguma coisa.
Assim que o telefone foi desligado, Taehyung explodiu.
— ESSE MALDITO É UM DOENTE! VOCÊ NÃO VAI ENTRAR LÁ, YOONGI! NÃO MESMO! — gritou, tremendo dos pés à cabeça.
Yoongi se aproximou e o envolveu num abraço calmo, acariciando suas costas com ternura, como quem controla uma tempestade.
— Ei… tá tudo bem. Eu não vou entrar lá, tá? — sussurrou, firme — Vamos encontrar outro jeito. Eu prometo.
Taehyung assentiu devagar, ainda ofegante.
— Obrigado por não me prometer isso só pra me acalmar… e me desculpa por ter surtado. Eu só… fico apavorado com a ideia de te perder pra esse louco.
Yoongi apertou o abraço por mais um pouco.
Jungkook estava em conflito. Queria Jimin livre mais do que qualquer outra coisa. Mas à custa da segurança de Yoongi e dos bebês? Era um peso difícil de carregar.
— E se for eu? — sugeriu Jungkook, olhando para Namjoon com os olhos inflamados de determinação. — Eu sou bom em me infiltrar. Posso entrar sem ser visto e neutralizar o Victor... Só preciso da planta do hotel e dos equipamentos certos.
Namjoon balançou a cabeça, firme.
— Isso seria nosso último recurso — disse com seriedade. — Não posso arriscar mais vidas agora. Se Victor perceber qualquer movimento, pode executar todos os reféns.
Jungkook mordeu o lábio, frustrado, mas acenou em concordância.
— Ele ainda parece responder bem ao Yoongi — continuou Namjoon, olhando para o amigo. — Vamos continuar com isso.
— Sim — respondeu Yoongi, com a mão na lombar — Mas preciso passar em casa antes. Minhas costas estão me matando, e sem o remédio vai ser difícil continuar.
Namjoon assentiu e o acompanhou. Enquanto isso, os três reféns prometidos por Victor foram libertos. Eram os mais frágeis, dois idosos e uma mulher debilitada. Taehyung assumiu o cuidado com eles, acolhendo-os e os conduzindo para atendimento médico.
Na volta, Yoongi foi recebido com um abraço apertado de Taehyung, que estava visivelmente abalado.
— Não consigo ficar nem um minuto longe de você... — sussurrou Taehyung, os olhos úmidos, a voz embargada.
Yoongi o acolheu com carinho, passando os dedos com delicadeza por seu rosto.
— Ei… estamos juntos nisso. Vamos tirar todos de lá. Jimin vai voltar. Eles todos vão voltar.
Jungkook observava a cena de longe. O abraço, o afeto, a segurança. Seu coração apertou. Ele queria aquilo também. Precisava de Jimin em seus braços. Sentia sua falta em cada segundo.
Yoongi percebeu seu olhar, e por um instante cruzou os olhos com ele. Não disse nada, apenas transmitiu um “eu entendo” com o olhar. Depois voltou-se para Taehyung com um sorriso doce.
— Senta aqui, meu amor. — puxou uma cadeira — Vou pegar um suco pra você. Precisa se hidratar, tá? A gente ainda vai precisar de muita força.
Yoongi caminhou até uma tenda anexa, onde estavam armazenados alguns mantimentos. Com discrição, pegou um copo de vidro, colocou alguns comprimidos, que já havia dissolvido previamente, e completou com suco. Misturou bem, garantindo que o gosto fosse mascarado. Em seguida, voltou até Taehyung com a bebida nas mãos e um sorriso suave no rosto.
— Aqui, amor. Beba isso. Vai te fazer bem — disse, carinhoso.
Taehyung tomou o suco todo, sem desconfiar de nada. Sentiu um leve gosto amargo no final, mas não deu importância. Achou que fosse algo natural da bebida.
Cerca de meia hora depois, enquanto Namjoon e Jungkook discutiam taticamente um possível plano de invasão ao hotel, Taehyung já piscava mais lentamente, com os olhos pesados e o corpo afundando no sofá.
— Deita aqui um pouquinho, meu amor — Yoongi o orientou com delicadeza, ajeitando sua cabeça no encosto e cobrindo-o com o próprio casaco.
Taehyung não resistiu por muito tempo. Adormeceu profundamente, em sono pesado, o que logo chamou a atenção de Namjoon.
— Ele tá… dormindo? Numa hora dessas? — perguntou, confuso.
— Tenho meus truques — respondeu Yoongi, forçando um sorriso nervoso.
Namjoon estreitou os olhos.
— Espera aí… você deu alguma coisa pra ele?
— Só o suficiente pra descansar.
— Yoongi... você drogou ele? — Namjoon arregalou os olhos, surpreso.
— Foi necessário — disse com firmeza.
— Você não tá pensando em… — a voz de Namjoon baixou, como se nem quisesse completar a frase.
— Estou, sim. — Yoongi o encarou com determinação. — Eu sou adulto, Namjoon. E mesmo de licença, ainda sou policial. Você sabe tão bem quanto eu que sou o único com quem o Victor está disposto a falar. Se há uma chance de acabar com isso... eu vou usá-la.
— Yoongi, isso é loucura! — Namjoon esbravejou. — Eu não posso permitir que você faça isso. Taehyung jamais aceitaria.
— Ele não precisa concordar com nada — retrucou Yoongi, com firmeza. — Até porque, no momento, ele está apagado.
— Você tá de oito meses, Yoongi! Não tem condições de enfrentar o Victor.
— E quem disse que eu vou enfrentar? — Yoongi respondeu com calma. — Victor não quer me machucar, Namjoon. Seja por obsessão, carência ou qualquer distorção emocional, ele se apegou a mim. Se tivesse intenção de me fazer mal... já teria feito.
Namjoon passou a mão pelos cabelos, claramente em conflito.
— Mesmo assim… mandar alguém grávido para dentro de um cativeiro com um criminoso armado?
— Acho que você se esqueceu de um detalhe importante — Yoongi arqueou a sobrancelha com um sorriso. — Eu não sou qualquer grávido de oito meses. Eu sou o policial grávido mais foda da Coreia. Desde que saí de licença, a taxa de criminalidade aumentou — disse, em tom de brincadeira, tentando aliviar o clima. — Confie em mim, Namjoon. Eu não arriscaria a vida dos meus filhos se não tivesse certeza do que estou fazendo.
Namjoon soltou um longo suspiro, a tensão evidente nos ombros.
Yoongi então se virou para Jungkook, que permanecia calado, com o olhar vazio e os punhos cerrados de angústia. Colocou a mão com delicadeza em seu ombro. Jungkook o encarou com olhos marejados.
— Vai ficar tudo bem, Kookie. — disse Yoongi, com um sorriso sereno. — Eu vou entrar lá e vou trazer o Jimin de volta.
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