The Engagement
14 Talvez
A reunião fora dada como encerrada e todos retornaram ao vilarejo em suas formas lupinas. Derek, ainda na forma de lobo, abocanhou suas roupas e as arrastou para o andar de cima, seguindo para o próprio quarto. O lobo soltou as roupas aos pés do cesto de roupa suja, antes de seguir para o banheiro.
O Hale tomou banho pensando nas palavras que usou na reunião. Nunca que ele se imaginaria falando aquilo sobre o Conde Stilinski. Aquela história toda ainda era muito nova para si, mas, aos poucos, ele sentia as suas ideias irem se ajustando. Quando saiu do banho, seguiu para o quarto e vestiu-se adequadamente, ainda pensando na bendita reunião e na expressão assassina de Braeden para si. Ele já não entendia mais nada. Derek não sabia o motivo de ter usado aquelas palavras. Ele sabia que o medo de o bando ser prejudicado era grande e faria de tudo para impedir isso, mas aquelas palavras jamais poderiam ser vistas como palavras de desespero pelo seu bando e ele sabia disso.
O Hale passou a pensar sobre a sua situação. Ele estava noivo. Tudo bem que o noivado poderia estar no fim, mas ele ainda era noivo do conde Stilinski. Derek se pegou, novamente, pensando no que havia dito na reunião com o bando. Mesmo que tivessem saído de sua boca, ele se sentia um completo estranho para com aquelas palavras. Ele sentia como se aqueles pensamentos não fossem seus.
“Eu... Não me via seguindo em frente com isso, antes. Mas agora eu vejo...”
O moreno de olhos verdes ouviu a sua própria voz ecoar em sua mente. Ele se via casado com o conde?! Que história era essa?! Ele se via no futuro ao lado do adolescente?
Derek parou para pensar nisso. Tudo bem que ele se sentia mais confortável na presença do rapaz de cabelos castanhos, pele clara e cheiro de rosas, mas dizer que se via o beijando, o abraçando... O amando... Seria dizer demais. Derek apenas.... Passou a aturar o conde, se é que podemos assim dizer. Bom, não o conde em si, mas a ideia de ser forçado a estar ao lado dele pelo resto da vida. Não que Stiles fosse alguém difícil de lidar, ou que fosse irritante ou insuportável.
O beta encarou a caixinha onde se encontravam os brincos em forma de lobos que deixavam as orelhas de qualquer um com um aspecto pontudo, como se estivessem em sua forma semitransformada. O moreno de olhos verdes se aproximou da caixinha, a pegando em mãos e a abrindo. Ele observou os brincos dourados em suas mãos e pegou um deles, enquanto caminhava na direção do espelho. Derek se posicionou de frente para o mesmo e, com um pouco de dificuldade, ele conseguiu prender o lobo dourado em sua orelha. O homem encarou a sua imagem de frente, vendo o contraste: de um lado, ele comum; e do outro, ele como o parceiro do conde Stilinski.
O moreno dos olhos verdes tinha de admitir, aquela coisa era bonita. A cabeça do lobo ficava no lóbulo de sua orelha, exibindo os olhos vermelhos, como um alfa que acabava de agarrar a presa durante um bote. A cauda do lobo se encontrava fora do alcance de sua orelha, formando um triângulo que lembrava e muito a sua forma beta.
— será que ele fica? – murmurou curioso.
Sem conseguir conter a curiosidade, Derek começou a permitir que o seu lobo viesse a superfície. Ele assistiu tudo pelo espelho. Para o seu espanto, o brinco dado a si pelo conde não saía com a transformação. Muito pelo contrário, ele se encaixava perfeitamente. E o dourado do ornamento entrava em contraste com o seu pelo negro, chamando a atenção.
— nossa – murmurou levando a mão para a orelha, sentindo o encaixe quase perfeito do seu corpo a aquele pequeno pedaço de ouro.
Derek voltou a encarar a sua imagem pelo espelho. Vendo o reflexo de sua vida de beta solteiro e a de sua vida de alfa casado ao mesmo tempo. Ele não sabia o que pensar daquilo. Ele sentia falta de sua vida de solteiro, sempre se encontrando com Braeden. No entanto, a vida de noivo não estava assim tão ruim, exceto pelo fardo que ele tinha de carregar e o fato de ele estar se envolvendo com um homem pela primeira vez e ainda assim por obrigação.
A porta fora aberta bruscamente e Derek, em um sobressalto, agarrou o brinco em sua orelha o puxando com força e velocidade. Ele só não esperava que a sua orelha fosse vir junto. O moreno de olhos verdes rosnou de dor assim que sentiu um pouco da pele entre o lóbulo e o seu rosto se rasgar, abrindo um corte ali, por onde passou a escorrer um filete de sangue.
Para a sorte do beta, o brinco saiu antes que o resto de sua orelha viesse junto. O moreno dos olhos verdes retornou a sua forma humana completa e tratou de guardar o brinco dourado na caixinha de veludo em sua mão esquerda, antes de levar a direita para o ferimento, impedindo que o sangue alcançasse a sua roupa. Derek se virou para trás, tratando de esconder a caixa no bolso, vendo Malia parada, lhe fitando confusa e receosa.
— não sabe bater, não? – perguntou o moreno seguindo para o banheiro, tratando de limpar o pescoço enquanto sentia o ferimento se fechar.
— para quê? Acabamos de nos ver nus no meio de um bosque. Quer mais intimidade do que isso? – questionou a garota se jogando em sua cama.
— o que faz aqui? – questionou Derek encarando a loba em sua cama, enquanto limpava o pescoço com uma toalha.
— eu vim te dizer que eu achei bonito o que você disse lá – ditou a garota dando de ombros vendo o primo lhe fitar envergonhado.
— você achou? – indagou Derek um pouco tímido.
— sim. Eu e o pai Jhon achamos aquilo muito bonito. Ele disse que você estava começando a aceitar o casamento e a gostar do nosso parente – disse Malia fazendo o primo corar.
Derek estava gostando do conde?! Como assim? Ele apenas disse que achava o rapaz engraçado e que não queria que ninguém o tratasse mal. Está bem! Derek tinha de admitir que o seu discurso deve ter deixado a entender aquilo. Caramba! Até ele ficou refletindo sobre isso. Por que deveria esperar que Malia interpretasse de outra forma? Sem contar que a garota era suspeita para falar sobre o assunto. Desde que fora anunciado o seu noivado com o conde Stilinski que Malia e Cora estavam animadas para com o casamento.
O moreno de olhos verdes corou um pouco mais e o silêncio dominou o local. Derek saiu do banheiro, seguindo para o seu criado mudo e colocando a caixinha de veludo negro em sua gaveta. Quando o moreno se virou para a prima, ele a viu lhe encarar com olhos pedintes.
— conversa com ele? – pediu a garota vendo o mais velho lhe fitar confuso.
— é o quê? – questionou Derek, perdido.
— conversa com o Stiles, por favor. Convence ele a ficar, por favor – Malia voltou a pedir, vendo o moreno dos olhos verdes lhe fitar um pouco perdido
— Malia, escuta. Eu sei que... – Derek mal teve a chance de falar e já fora cortado pela garota.
— eu te imploro, Derek. Por favor. Ele e os betas dele são muito bons com a gente. Eles são muito divertidos e vivem brincando comigo e com a Cora. Até a caçadora brinca de casinha comigo. Por favor, você é o noivo dele. Ele vai escutar você se você pedir com jeitinho. Por favor – pediu a castanha dos cabelos longos. Ela juntou as mãos, lançando um olhar pedinte para o primo, enquanto o fazia um biquinho com os lábios.
“Quem me dera que as coisas se resolvessem bastando apenas pedir com jeitinho”
Pensou Derek, encarando a prima permanecer lhe lançando aquela expressão desamparada. O moreno de olhos verdes suspirou, antes de rolar os olhos e rosnar para cima. O que Malia e Cora não pediam sorrindo que ele não fazia chorando? Além do mais, ele iria ter que fazer isso de todo o jeito. O homem levou uma mão a cabeça da prima, fazendo um cafuné um pouco bruto na mesma.
— tudo bem, eu vou tentar – murmurou o moreno dos olhos verdes vendo a garota morder o lábio inferior, tentando conter a animação. Pulando em si, a garota lhe abraçou a cintura com força levemente excessiva, lhe agradecendo várias vezes, antes de sair correndo do seu quarto.
— assim fica difícil evitar esse contato ao máximo – murmurou o Hale antes de se virar para o criado, encarando o móvel, mais especificamente a gaveta do mesmo.
Derek passou a se perguntar se já deveria usar os brincos. Ele deveria mostrar compromisso total para com o castanho a partir de agora, se ele quisesse impedir o cancelamento do noivado e salvar a reputação do seu bando. Mas ele também sabia que se usasse aqueles lobos dourados estaria entrando em uma fase sem volta no relacionamento com o conde, onde ele iria tocar e ser tocado pelo parceiro.
Aquilo o assustava. Ele não estava pronto para isso. Tocar livremente o outro, o abraçar, o beijar... Embora algo lhe dissesse que Stiles não iria se jogar em si de primeira e lhe roubar um beijo assim que pudesse. O conde era alguém educado e que transmitia bastante classe em seus atos. Mas ainda assim a ideia de beijar um homem pelo qual ele não sentia atração lhe assustava. Mas ele sabia que teria que passar a usar os brincos o mais rápido possível.
— amanhã. Amanhã eu passo a usar vocês – murmurou o lobo antes de se retirar do quarto.
Derek fechou a porta do próprio quarto, antes de começar a caminhar lentamente até a escada. Ele queria pensar um pouco no que dizer ao conde antes de alcançar o mesmo onde quer que ele estivesse. Ao erguer o olhar para a frente ele viu os ômegas subirem as escadas, conversando entre si.
Ele pôde ouvir algo como “odeio estudar” ser liberado por Scott, enquanto o mesmo caminhava na direção do quarto em que estava instalado. O Hale não havia percebido, mas já havia se passado um bom tempo desde que sua mãe ordenara que todos os lobos se encontrassem na clareira. Isaac concordou com o moreno e Corey gargalhou, ao lado de Erica. Derek viu o loiro que lhe levou comida no bosque e viu ali a chance de saber onde o conde se encontrava.
— Liam – chamou o moreno dos olhos verdes vendo o loiro lhe fitar surpreso.
Derek se aproximou do garoto, que se aproximou de si com um livro embaixo do braço. Derek pôde ver que era um dos livros da biblioteca de sua família. Era um livro de contos de horror sobre lobisomens e várias outras criaturas. O que para os humanos eram histórias horripilantes presentes naquelas páginas, para os seres sobrenaturais era uma espécie de comédia.
— pois não? – indagou o loiro, estranhando o fato de estar sendo chamado por um dos betas.
— eu... Queria saber se sabe onde o seu alfa está – falou Derek vendo o loiro estreitar o olhar em sua direção
— ele está na biblioteca, ainda. Por que? – ditou o loiro vendo mais velho coçar o braço que continha a braçadeira, envergonhado.
— eu... Quero falar com ele... Para ele não cancelar mais o noivado – admitiu Derek vendo o loiro lhe fitar surpreso
— e por que faria isso? – questionou Liam, deixando o Hale a sua frente nervoso.
Derek fora pego de surpresa. Ele não sabia o que responder. O moreno de olhos verdes encarou o baixinho dos olhos claros, procurando qualquer sinal de que ele não gostava da ideia de Derek ir conversar com Stiles, mas, ao que parece, ele estava apenas curioso.
— eu... Não posso dizer que amo o seu alfa, muito menos que estou apaixonado por ele. Mas eu posso dizer que eu gosto dele. Em um curto período de tempo em que passamos juntos, eu vi que o seu alfa é um rapaz legal. Eu não quero desonrar ambos os bandos desfazendo o noivado – respondeu Derek, nervoso, sentindo o loiro lhe analisar por completo. Liam suspirou e olhou para os lados.
— posso te pedir um favor? – questionou o loiro diminuindo o tom de voz, o que deixou Derek curioso.
— claro! Claro! – respondeu Derek prontamente vendo o baixinho se aproximar de si.
— o convença a continuar com o noivado – pediu o loirinho, deixando Derek surpreso.
Ele jurava que todos os ômegas haviam criado uma aversão a ideia do seu alfa se casando com alguém de um bando que não os aceitava. Mas ali estava Liam, lhe pedindo para convencer o alfa dele e o seu noivo a seguir em frente com o casamento.
— achei que vocês não quisessem o seu alfa se envolvendo com alguém do meu bando, depois do ocorrido da manhã e do anúncio do seu alfa – ditou Derek, surpreso.
— há males que vêm para o bem, Derek. O seu bando não é o único que ganha alguma coisa nesse casamento arranjado. Por favor, faça de tudo para que ele volte atrás – pediu o loirinho, antes de apertar o ombro do moreno dos olhos verdes e se afastar, rumando na direção do seu quarto.
Derek encarou confuso o adolescente se afastar e logo adentrar o quarto que lhe fora oferecido, fechando a porta logo em seguida. Do que Liam estava falando? Aquele baixinho lhe parecia receoso de que algo acontecesse caso o noivado acabasse. Derek permaneceu encarando o corredor, antes de, ainda pensativo, seguir rumo as escadas e ao andar de baixo.
Ele encontrou os alfas e comandantes sentados nos sofás da sala, conversando com Kira e Lydia. A morena mais brincava com Cora e Malia do que conversava. Derek os cumprimentou, antes de desaparecer no corredor, seguindo para a biblioteca. Voltou a caminhar devagar assim que chegou ao corredor que continha a porta que levava a biblioteca.
O que ele diria assim que se encontrasse com o conde? Derek não sabia o que dizer. No mínimo, do jeito que ele era um pouco travado e tímido, iria gaguejar por uns quinze minutos. Derek sorriu já envergonhado com a sua série de gaguejos, antes de parar na frente da entrada da biblioteca.
O moreno dos olhos verdes abriu a porta, lentamente, tentando adentrar o cômodo sem fazer muito barulho. O Hale adentrou a biblioteca a passos suaves, tentando não atrapalhar seja lá o que o castanho estivesse fazendo ali. Derek já podia até imaginar o conde, sentado em uma das elegantes cadeiras com uma postura também elegante, enquanto lia um livro grosso e provavelmente chato.
— isso – um gemido pôde ser ouvido e Derek se viu em choque.
Aquela era a voz do conde. O conde estava gemendo?! Mas o que estava acontecendo ali?! Derek se via nervoso. Estaria ele presenciando algum tipo de tradição do bando Stilinski? Ele não sabia dizer. O moreno de olhos verdes decidiu caminhar mais um pouco. Ele tinha de falar com o seu noivo, assim como tinha curiosidade para saber a causa daqueles sons por parte do conde.
— ah vocês fazem isso tão bem. Isso é tão gostoso! – exclamava o castanho, em um tom de voz manhoso.
Derek ouviu o conde soltar um gemido manhoso e arrastado. Seja lá o que aquilo fosse, estava agradando e muito ao rapaz. Derek se viu corado ao tentar imaginar o que deixaria um adolescente tão manhoso e apreciativo. É, Derek havia corado violentamente ao imaginar o que o castanho estaria fazendo.
O moreno dos olhos verdes pensou em se retirar, mas assim que deu a volta para rumar na direção da porta, outro gemido lhe acabou despertando para a realidade. Aquele era o seu noivo. O que diabos estaria fazendo o seu noivo gemer e soltar elogios manhosos? Ah, mas ele não queria nem pensar na possibilidade de estar sendo traído sem se quer ter se casado ainda.
O moreno de olhos verdes respirou fundo, antes de marchar a passos ágeis até o centro da biblioteca, onde se encontrava a mesa utilizada para leitura e estudos. Assim que chegou ao local, Derek esperava se deparar com uma pouca vergonha e com o seu pretendente manchando o próprio nome quanto ao compromisso para consigo.
Ele não sabia se ficava agradecido ou frustrado ao ver a cena a sua frente. Um lado seu estava mais do que agradecido por encontrar o conde Stilinski, estirado em uma das cadeiras, que estava de lado para a mesa, enquanto um dos gêmeos lhe massageava os pés e as pernas, ao mesmo tempo em que o outro lhe massageava os ombros e pescoço. Outro lado seu ficava frustrado por saber que ele, novamente, havia voltado a desconfiar do rapaz, e ainda mais pensando no mesmo fazendo coisas indevidas na biblioteca de sua família. Derek viu os três lhe encararem, enquanto os gêmeos lhe fitavam confusos, devido a confusão de cheiros que o moreno de olhos verdes exalava.
“Mas o que porra eu tenho na cabeça?”
Derek se perguntou em pensamento, antes de cerrar os punhos, contendo a vontade de estapear a si mesmo, ali, na frente do noivo e dos comandantes do mesmo. Aiden se levantou, encarando o Hale confuso.
— está tudo bem? – perguntou vendo Derek soltar um muxoxo.
— não... digo, sim... quer dizer, não... sim... Ah, por favor, deixa pra lá. Eu só queria falar com o Stiles – respondeu Derek deixando os três a sua frente mais do que confusos.
Derek encarou os gêmeos, antes de encarar o alfa humano que tanto chocara o seu bando e criara tanta repercussão pelo mesmo. O moreno de olhos verdes esperava que os gêmeos se retirassem para que ele pudesse falar com o humano, mas eles ficaram ali, parados. Derek viu os três erguerem uma sobrancelha para si, curiosos.
— a sós – pediu vendo os gêmeos soltarem um “hm”, em compreensão, enquanto faziam expressões de “ah, sim”.
— nós podemos continuar quando você for dormir – disse um dos gêmeos sorrindo para o alfa, antes de os dois se afastarem do mesmo.
— será bom. Quem sabe assim eu consiga dormir um pouco mais? – falou o castanho vendo os gêmeos sorrirem e o reverenciarem simultaneamente.
— até mais – disseram em uníssono para o moreno de olhos verdes antes de se retirarem da biblioteca.
Derek encarou o castanho fitar os gêmeos desaparecerem por entre as estantes, antes de se concentrar em ouvir o barulho da porta, caso o mesmo ecoasse. O adolescente se virou para encarar o lobo de olhos verdes, vendo o mesmo lhe fitar atento e nervoso.
— eles já foram? – perguntou em um sussurro, vendo o moreno dos olhos verdes erguer uma sobrancelha em questionamento.
— sim, eles já foram – respondeu Derek.
Ele pôde ouvir muito bem a porta se abrindo e fechando, sem contar que o cheiro dos gêmeos já começava a diminuir. O moreno dos olhos verdes encarou, surpreso, o castanho dos olhos da cor âmbar suspirar aliviado. Era impressão sua, ou o conde parecia querer distância dos seus betas? O Hale mirou atento o conde se acomodar mais a cadeira acolchoada.
— até que enfim – murmurou o conde levando as mãos ao rosto, as deslizando pela face, antes de a levar aos cabelos, os jogando para trás, antes de voltar a ter uma pose elegante, embora os seus olhos gritassem cansaço.
— a que devo a honra? – questionou o castanho em um tom brincalhão, tomando um sorriso exausto nos lábios, o qual ele disfarçava o real sentimento com simpatia.
— eu quero conversar com você – disse o moreno de olhos verdes apontando para a cadeira “em frente” ao castanho – posso? – perguntou vendo o conde sorrir nasalado, dar de ombros e erguer as mãos, como se lhe exibisse algo.
— a casa é sua. Não tenho o direito de lhe dizer o que deve, ou não, fazer – respondeu o conde, cruzando as pernas e encarando o lobo a sua frente suspirar, enquanto se sentava.
— não fale assim. Essa casa é sua também. Podemos ainda não ter firmado nada, mas você já é um membro do bando e ninguém pode dizer o contrário – falou Derek, tentando mostrar respeito para com o seu parceiro, que sorriu debochado, enquanto ria nasalado.
— eu posso lhe apontar umas cento e oitenta pessoas que podem lhe dizer o contrário – rebateu o castanho vendo o lobo morder o lábio inferior.
— eles não são ninguém para dizer se você pertence a esse bando ou não. Nós dizemos e eles aceitam – falou Derek encarando o parceiro negar com a cabeça.
— não é bem assim, Derek. Você sabe que, em um bando, deve haver respeito mútuo. Do contrário, o alfa perde os seus betas – disse o castanho vendo o moreno de olhos verdes suspirar, derrotado.
Derek sabia muito bem como funcionava um bando. Como parente do alfa, ele era destinado a se tornar um, seja como alfa principal, ou comandante. Laura já havia começado o processo de transição, se tornando uma semi alfa. Eles tinham aulas juntos de como ser um bom alfa e sobre como funcionava um bando.
Alexander e Talia lhe ensinaram muito bem que um bando era como um reino. Havia o rei, a rainha, a guarda real e os súditos. E, assim como em um reino, quando os reis não agradavam, ocorria o golpe. Mesmo tendo a habilidade de ter um certo controle sobre os betas, os alfas podiam, sim, ser traídos. Havia golpes em que todos os alfas do bando eram mortos, sendo assim substituídos por seus assassinos.
— é, eu sei. Mas mesmo assim, não se deixe abalar pelos pensamentos idiotas do meu bando – pediu o moreno de olhos verdes encarando o castanho sentado a sua frente calçar os pés novamente, lhe encarando com uma sobrancelha erguida.
— pensei que estivesse aliviado com o término do noivado – ditou o castanho, confuso.
Derek se sentiu mais culpado ainda pela possibilidade de o castanho romper a aliança com o bando ao ouvir aquelas palavras. E era óbvio Stiles que sabia como ele se sentia a respeito do noivado. Não era como se Derek tivesse obtido êxito em esconder o seu desconforto com o noivado assim que o bando do conde e o próprio chegaram ao território Hale. Stiles sempre soube que Derek estava desconfortável e fizera de tudo para aliviar o Hale. O conde tinha várias coisas em mente quando anunciara o fim do noivado naquela tarde. Aquele adolescente estava se saindo habilidoso demais para um simples humano, na opinião de Derek.
— bom, eu acho que, se o eu de agora fosse o eu do tempo em que me contaram do noivado, eu estaria aliviado, sim – admitiu Derek, um tanto encabulado, vendo o Stilinski apoiar o queixo no punho cerrado, do braço que continha o cotovelo sobre o braço da cadeira.
— você parece ter evoluído muito em menos de uma semana – brincou o castanho vendo o lobo sorrir nasalado, ainda envergonhado.
— não se culpe pelo fim do noivado, Derek. Vá viver a sua vida como queria. Quem sabe assim a Braeden aprende a usar açúcar para fazer doces para você quando casados? – argumentou o castanho sorrindo para o Hale, que lhe fitou surpreso. O castanho sorria minimamente com a própria brincadeira, enquanto o Hale ficava obviamente nervoso.
— v-você sabia da Braeden? – questionou o moreno de olhos verdes vendo o castanho dar de ombros.
— e tem como não saber? Uma comida azeda quando o doce representa amor, o olhar dela para mim e, para completar, você tremia mais do que filhote órfão em chuva quando foi provar do doce dela – respondeu Stiles levando os dedos para o cabelo que se encontrava na frente de sua orelha, brincando com o mesmo entre os dedos, enquanto encarava o lobo lhe fitar surpreso.
— e mesmo assim comeu daquela coisa? – questionou surpreso vendo o conde dar de ombros.
— eu tenho gosto peculiares. E, só talvez, tenha sido um erro o fazer – disse um tanto pensativo, encarando o livro em seu colo.
Derek piscou os olhos surpreso. O lobo fitava o castanho entretido em sua leitura, pensando em o que diabos Stiles queria se referir com aquilo. Estaria ele falando sobre as crenças do bando de que o doce realmente trazia o amor? Derek corou um pouco. Será que Stiles queria mesmo a união sem ser apenas para fins benéficos aos bandos? Ele corou ao imaginar que o castanho sentia algo por si. Aquilo poderia ser ruim, muito ruim. Principalmente se Derek não passasse a desenvolver algo pelo castanho com o tempo.
— não vai ser um doce que vai dizer o que sentimos um pelo outro – falou o moreno de olhos verdes vendo o castanho erguer o olhar e lhe fitar surpreso, antes de sorrir ladino. Merda, Stiles sentia algo por si.
— para alguém que ficou revoltado por se casar com um homem, você me parece saber o que falar... quando não está bêbado – brincou o Stilinski sorrindo antes de fechar o livro e o colocar sobre a mesa.
Derek corou, envergonhado, vendo o castanho alcançar a bengala e se erguer, sem a ajuda da mesma. O que lhe deixou confuso quanto ao ato. Ele encarou o castanho lhe dar as costas e se encaminhar para a porta de vidro que levava para a varanda da biblioteca. O castanho passou a encarar o céu noturno ao longe, vendo o brilho forte das estrelas.
— eu sinto muito pelo que lhe disse quando estava bêbado – o moreno pediu desculpas novamente.
— eu já lhe desculpei, Derek. Não precisa pedir desculpas novamente – ditou o castanho ainda de costas para o lobo.
Derek se levantou e se aproximou, a passos lentos e envergonhados, do humano a sua frente. Ele sempre temia fazer algo errado na frente do mesmo. Aquele humano, na posição em que se encontrava, tinha um domínio incrível sobre o lobo, pois Derek sempre temia o castanho.
— posso te pedir uma coisa? – questionou o lobo vendo o humano assentir. Stiles conseguia encarar o rosto do lobo pelo reflexo do vidro.
— não cancele o casamento – pediu o lobo vendo o castanho lhe fitar por sobre os ombros, confuso.
— confesso que jamais imaginei que pediria isso – disse o conde antes de voltar a encarar o lado de fora pelo vidro. – não posso lhe prometer nada, Derek. O noivado ainda não foi cancelado, mas também não há muitas esperanças para o mesmo – ditou o humano vendo ao longe, mas muito distante mesmo, o céu relampejar.
— você mesmo disse que não queria ser precipitado. Eu lhe digo que cancelar o casamente será precipitação sua, Stiles. Por favor, não faça isso – pediu o moreno se aproximando um pouco mais, parando logo atrás do castanho.
Ele ainda se sentia nervoso ao ficar tão perto do outro. O toque másculo no cheiro do outro já não lhe incomodava. Ele até arriscava a dizer que lhe agradava do cheiro de rosas que Stiles exalava. Lhe lembrava do jardim do seu bando, da calmaria que o mesmo lhe trazia, a qual também era representada na classe do conde, que sempre transparecia calma.
— é, eu sei que cancelar ele agora seria precipitado, Derek. Por isso que ainda não o fiz formalmente, mas eu também não consigo ver um jeito de isso dar certo. O seu bando não nos aceita, e tudo o que eu não quero é causar desavenças internas em seu bando. Não quero trazer problemas para a sua família. Principalmente para os seus pais. – disse o castanho vendo, pelo reflexo no vidro, o lobo lamber o lábio inferior, antes de o morder, nervoso.
— prometo dar um tempo a mais para isso tudo. Não é uma segunda chance, mas darei um tempo maior para decidir isso – ditou o castanho vendo o moreno respirar um pouco mais aliviado.
Derek estava um pouco mais calmo. Estava esperançoso. Não era exatamente o que ele queria ouvir, mas, pelo menos, era sinal de que o outro poderia dar ima chance para o noivado.
— obrigado – agradeceu Derek vendo o castanho negar com a cabeça.
— não há de quê. Mas eu espero que esse pedido esteja vindo de você, e não dos seus superiores – disse o castanho ainda encarando a tempestade distante.
— é um pedido meu, sim. Eu não falei com meus pais sobre isso – disse Derek ouvindo apenas um “hm” vir do castanho.
Ele estava feliz e aliviado por ter conseguido, talvez, evitar o fim da aliança pela qual os seus pais tanto prezavam. Mas Derek estava tão feliz que quando deu por si, já abraçava o conde apertado. O moreno só percebeu o ato quando o castanho em seus braços soltou um grunhido baixo de dor. Desesperado, o Hale soltou o Stilinski de imediato, vendo o mesmo se curvar um pouco com a mão no abdômen.
— oh merda. Me desculpe, de novo. E-eu esqueço de controlar a força – disse o moreno dos olhos verdes vendo o conde negar com a cabeça sorrindo nasalado.
— está tudo bem – disse o conde, achando graça do desespero do moreno.
— deixe eu sugar um pouco – disse vendo o conde se virar, mas assim que tocou o abdômen do mesmo, o castanho retirou a sua mão dali, impedindo que ele absorvesse um pouco da sua dor.
— não precisa. Posso não ter a sua força, mas sou bem resistente. Não foi nada demais – disse o castanho voltando a sua postura ereta de sempre.
— me desculpe, de novo. Ah, Deus, eu sou um idiota! – exclamou o lobo cobrindo o rosto com as mãos.
— não pegue tão pesado consigo mesmo. Você só se deixou levar e acabou esquecendo um detalhe. Só isso – disse o conde apertando suavemente o ombro do lobo.
— mas eu tenho que lembrar dela com você, Stiles- o lobo argumentou.
— Derek... – Stiles tentou falar, mas fora logo cortado pelo lobo.
— Não dá para isso ocorrer toda vez. Quer dizer, eu nem consigo apertar a sua mão sem quase quebrar ela.
— Derek
— Imagina só? Todo dia você ter quase uma mão quebrada...
— Derek
— ou então as costelas, ou os braços. Imagina então... – Derek desatou a falar descontroladamente, nervoso.
O Hale só parou de falar quando sentiu um corpo colado ao seu e o cheiro de rosas do conde aumentar, se tornando forte, como se estivesse mais próximo ainda. Derek piscou os olhos e corou assim que sentiu os lábios de Stiles se afastarem de sua bochecha. Ele encarou o conde se afastar e sorrir divertido em sua direção. Derek corou mais ainda.
— só te deixando desconfortável para fazer você se calar quando fica nervoso, não é? – questionou o castanho, antes de negar com a cabeça.
Stiles ergueu um pouco a bengala, para que a mesma não tocasse no chão e começou a caminhar na direção da porta. Derek levou a mão ao rosto, cobrindo a região que fora tocada pelos lábios macios do seu pretendente, ficando estático. Ele estava surpreso com o ato do mais baixo.
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