— então pretendem mesmo falar com ele? – indagou Lydia levando a rosa que colheu no caminho para a mansão Hale ao rosto, a cheirando.

A ruiva estava sentada em uma das poltronas da biblioteca da mansão. A sua frente se encontrava o resto do bando do qual ela fazia parte. Scott estava em pé, ao lado de Allison e Kira, estando os três de braços cruzados, ao lado da ruiva, observando Isaac, os gêmeos, Corey, Liam e Erica, que se encontrava mais focada no livro em seu colo do que na própria conversa. Isaac estava sentado no braço da poltrona em que Erica estava sentada, enquanto os gêmeos se encontravam abraçados apoiados a mesa. Corey estava deitado sobre uma das estantes, enquanto Liam estava sentado no chão, ao lado da poltrona de Erica.

— sim, nós vamos. Não estamos dispostos a permanecer nesse lugar. Podemos aturar ficar aqui até eles casarem. Mas uma vida inteira?! Minha insanidade voltaria em poucas semanas – respondeu Isaac desviando o olhar da janela para a ruiva, que os encarava com seriedade.

— mas antes de falarmos com ele...

— precisamos saber...

— se algum de vocês é contra falarmos com o alfa sobre isso – os gêmeos falaram intercalando, antes de finalizarem em uníssono enquanto viam os quatro que se encontravam de frente para eles ficarem pensativos.

— ao meu ver, essa reunião é desnecessária. Não é nem improvável, é impossível que algum de nós queira ficar aqui – disse Erica passando a página do livro em seu colo, enquanto sustentava um olhar entediado para o objeto em sua posse.

— por mim tudo bem. A família Hale está sendo boa com o nosso bando. Nos ajudou em um momento difícil. Mas apenas porque se forçaram a nos conhecer devido ao tratado. Se a situação fosse outra, é possível que fossem os primeiros a nos tratar da mesma forma que o bando deles – ditou Kira cruzando os braços atrás do corpo, observando o outro lado concordar com a cabeça.

— estou dentro. Por mim falamos com ele agora mesmo. Com ou sem noivo – ditou Scott

— não coloco a minha mão no fogo, mas me pergunto se realmente seria assim – confessou Allison ainda pensativa, chamando a atenção de Erica, que, finalmente, desviou o olhar do livro para os seus companheiros.

— estas a gostar dos Hales? – questionou a loura, surpresa, vendo a caçadora coçar o braço, um tanto nervosa.

— não que eu tenha perdido as minhas inseguranças sobre o bando, mas, sim, eu gosto dos Hales. Vocês não? – respondeu a Argent vendo os companheiros a fitarem com certa compreensão.

— também não me sacrifico por eles, mas eu gosto, sim. Eles são os primeiros não humanos que se aproximaram de nós – confessou Corey preguiçoso, balançando a mão que estava jogada ao lado da estante, deslizando a ponta dos dedos pelas capas dos livros que se encontravam na terceira prateleira abaixo de si.

— não se esqueça que se aproximaram por luxúria e medo – ressaltou Liam vendo Erica menear positivamente, assim como o resto do bando.

— eles nos trataram bem não pela luxúria, mas sim por medo. Se quer sabiam que éramos um bando de onze pessoas – ditou a loura de cachos vendo o pack inteiro lhe fitar com seriedade.

— acha mesmo que o medo supera a luxúria de um alfa de um bando desse tamanho? – questionou Corey vendo a mais velha fechar o livro e o jogar em sua direção. O garoto ergueu a mão e agarrou o objeto sem dificuldade alguma, o colocando de volta no lugar onde a Reyes o pegou.

— é uma certeza, Corey. Eles temem se tornarem fracos, temem que a aliança dê errado e fiquem com o nome sujo. E temem, principalmente, não conseguirem mais alianças – ditou Scott vendo o garoto lhe fitar pensativo, antes desviar o olhar para Lydia que suspirou.

— que situação, hein? – inquiriu a banshee desviando o olhar para a flor fronte ao seu rosto delicado, despertando curiosidade nos demais.

— e você? Concorda ou não em falarmos com o alfa? – indagou Aiden vendo a ruiva beijar a flor em sua mão

— é uma lastima. Cora e Maila realmente se dão muito bem com Heather. A tratam como ela realmente deve ser tratada. A consideram uma criança, não como uma aberração da natureza. Sinto que ela cresceria bem com elas duas – lamentou a ruiva antes de começar a sibilar com os lábios no silêncio que dominou a biblioteca.

— isso é um sim? – indagou Scott, confuso vendo as pétalas, antes vermelhas, tomarem uma coloração negra e murcharem, enquanto a flor apodrecia na mão da mulher.

— Sim. Eu concordo, mas também discordo. No entanto, apoio a ideia de irmos falar com o nosso senhor – soltou a comandante do bando da rosa negra vendo os companheiros a fitarem confusos.

— eu... acho que não entendi – soltou Isaac, confuso.

— o nosso trabalho é proteger o nosso alfa a qualquer custo. O nosso senhor está ameaçado. O território aliado que pertence a um bando desse tamanho seria perfeito para o nosso objetivo. Isso se o bando aliado não nos tratasse como o próprio inimigo – explicou Lydia vendo Allison menear positivamente.

— nos cercar com esse tipo de gente nos deixa mais vulneráveis. Esse tratado nos dá a ilusão de que não há a menor possibilidade de sermos apunhalados pelas costas, sendo que isso é quase certeza – continuou a Argent vendo todos, com exceção de Lydia estreitarem o olhar em sua direção, confusos.

— compreendo – soltou Liam enquanto erguias as sobrancelhas momentaneamente – estão totalmente cobertas de razão. Esses lobos imprestáveis nos odeiam. Qualquer oportunidade de nos expulsar de suas terras vai ser aceita sem questionamento algum – disse o garoto vendo as duas mulheres menearem positivamente.

— se as pessoas que estão atrás do Stiles pedem a cabeça dele alegando que se ele for morto nós seremos expulsos do território, eles vão entregar nosso alfa embalado e com um lacinho na cabeça – explicou Allison vendo o resto do bando se tornar tenso.

— não havia pensado nisso – murmurou Isaac vendo a ruiva menear positivamente.

— devemos ficar com o Senhor o maior tempo possível. Não o deixaremos vulnerável por um minuto, se quer – ditou Lydia encarando o bando inteiro menear positivamente.

— qualquer tentativa contra a vida do nosso alfa... – ditou Liam vendo os olhos de Erica se tornarem totalmente dourados

— deve ser punida com sangue – falaram todo em uníssono enquanto seus olhos brilhavam.

A região branca dos olhos de cada um se tornou negra, destacando ainda mais o brilho colorido. O ato do grupo, com tanto desejo de sangue reunido em um só lugar por tantos ômegas, fez com que uma sensação maligna se instalasse ao redor da mansão Hale, fazendo cada pelo da nuca dos membros mais próximos da mansão se arrepiarem. Peter e Cláudia, que se encontravam sentados na sala, direcionaram o olhar, surpresos, para a direção da biblioteca. A tensão era grande. Peter se sentia excitado, mas também se sentia acanhado. Claudia era apenas receio. Aquela aura assassina era tão forte que eles juravam que podiam ver uma leve nuvem purpura cinzenta se arrastando no ar.

Foi ali que Cláudia soube que algo daria errado.

Stiles e Derek já estavam chegando ao vilarejo onde residia o bando Hale. Os dois já caminhavam há muito tempo. Derek riu quando o conde tropeçou em um pequenino buraco que se encontrava no caminho e cambaleou três passos para a frente. Stiles resmungou enquanto tentava conter o próprio riso. O Hale olhou para o adolescente, ainda rindo, vendo o mesmo sorrir um tanto corado.

— de novo? – questionou Derek vendo o rapaz sorrir tímido.

— pode não parecer mas eu sou um pouco desastrado. A cada dez passos, seis eu tropeço – disse o rapaz vendo o moreno rir.

— mas é a primeira vez que lhe vejo assim. Desde que chegou, você tinha aquela atmosfera de classe alta ao seu redor – falou o Hale vendo o castanho rir nasalado.

— então... eu consigo ser menos desastrado quando quero – disse o castanho vendo o moreno sorrir

— me sinto aliviado. Achei que iria ser o único desastrado desse relacionamento – confessou o lobo ouvindo o rapaz ao seu lado rir.

— realmente, não tem como eu deixar esse papel ser apenas seu – brincou o castanho ouvindo o outro concordar, risonho.

— chegamos – disse o castanho enquanto passavam por uma cerca que pertencia a uma das primeiras casas da entrada do vilarejo.

— Derek, Conde Stilinski – uma mulher passou pelos dois, segurando um cesto com alguns ingredientes, sorrindo para o casal. Derek franziu o cenho quando viu o mover de ombros da companheira de bando e o sorriso da mesma quando os lábios róseos da loba pronunciaram o nome de seu noivo.

— olá! – Stiles cumprimentou a moça vendo a mesma sorrir um pouco mais.

— oi, Claire – cumprimentou Derek vendo a moça acenar para eles em uma despedida graciosa, antes de seguir para a porta de uma das casa que se encontravam atrás dos noivos.

Derek já havia entendido o que tinha acontecido e ainda acontecia. Eles passaram por uma casa onde haviam três moças a colocar roupas no varal. Assim que perceberam os dois homens, as três começaram a cochichar, enquanto sorriam os encarando. Uma das moças desceu um pouco as mangas do vestido, antes de acenar para a dupla. Uma das outras duas moças olhou indignada para a amiga, antes de sorrir e correr na direção do lobo e do humano. A moça parou diante dos dois, sorrindo sedutora na direção do humano.

— parabéns por sua vitória no duelo, Senhor Stilinski – disse enquanto se curvava para o alfa do bando visitante, vendo o mesmo sorrir docemente em sua direção.

— muito obrigado, senhorita – agradeceu o Conde, reverenciando a beta com um leve curvar de cabeça, vendo a mulher morder o lábio inferior antes de voltar a correr na direção das amigas, que a fitavam sorridentes.

— estranho... – sibilou Stiles, encarando a cena, antes de voltar a caminhar, assim como Derek.

Derek estava segurando um rosnado na garganta quando viu, de longe, mais uma mulher parabenizar Stiles pela vitória no duelo sagrado. O Hale estava achando aquilo ridículo. Até ontem todos do bando queriam o humano e os ômegas longe do território. Mas desejavam isso com todas as forças. Era como se o bando Stilinski carregasse a pior das pestes. Mas agora, depois do duelo sagrado, que apenas selou a obrigação de ambos os bandos naquele acordo, as mulheres estavam parabenizando o Conde como se torcessem para ele desde o início.

O Hale se lembrava muito bem da reação de Clair e das outras moças do bando quando, no meio do duelo sagrado, o Stilinski se despiu de seu sobretudo e sua camisa, revelando o corpo pouco trabalhado coberto de cicatrizes. Elas lançavam olhares interessados na direção do adolescente. Naquele momento Derek rosnou. E, agora, vendo que a atitude permanecia, ele sentia vontade de rosnar novamente. Mais uma moça se aproximou, sorrindo, e o moreno de olhos verdes já estava preparado para rosnar, mas parou assim que viu a moça parar de correr, perdendo o sorriso sedutor e olhando, surpresa, para o humano.

Derek sorriu ao perceber o que estava ocorrendo. Finalmente começou a surtir efeito. Ele podia sentir um pouco do próprio cheiro vir do castanho ao seu lado. A moça, constrangida, cumprimentou o lobo e o humano, antes de seguir o seu caminho. Stiles franziu o cenho, antes de olhar para a braçadeira em seu braço esquerdo. Ele estava impressionado com o poder que aquele símbolo de compromisso tinha sobre os lobos. Realmente eles se afastavam ao ver o objeto ornamentando o corpo de alguém.

— estou impressionado que isso realmente funcione – soltou o castanho olhando para as runas que envolviam o seu braço esquerdo.

— é claro que funciona! Isso é uma tradição muito antiga – argumentou Derek vendo o noivo erguer uma sobrancelha em sua direção.

— o que foi? – questionou o moreno de olhos verdes vendo o humano negar com a cabeça.

— não foi nada – disse o Stilinski permanecendo a caminhar.

— vamos, me diga – pediu Derek vendo o humano suspirar e os dois pararam de caminhar.

— eu não sei. É melhor não. Pode gerar certo desconforto – ditou o Conde girando a bengala em uma das mãos.

— sinceridade, lembra? – indagou Derek, curioso sobre o que o humano havia pensado. Stiles coçou a testa com o polegar, antes de erguer o olhar para o lobo a sua frente.

— não leve para o pessoal, mas eu não tive motivos para acreditar que isso realmente afastava outros lobos – respondeu Stiles vendo o lobo lhe fitar confuso, por um momento, antes de expandir os olhos, brevemente.

Envergonhado, o Hale coçou a nuca. Realmente, havia gerado um certo desconforto, assim como o humano havia alertado. Stiles se referia ao ocorrido com Braeden. A braçadeira deveria afastar a loba, mas não surtiu efeito algum. É claro que aquilo serviria de base para a descrença do conde. Se Braeden havia tentado algo como sexo consigo enquanto ele usava a braçadeira, que outra visão o humano deveria ter da função do ornamento?

— aquilo foi uma exceção, Stiles. Braeden... eu nunca a vi daquele jeito. Nosso casamento meio que... me abriu os olhos para ela, sabe? – confessou o lobo vendo o humano lhe fitar confuso.

— como assim? – indagou o Stilinski vendo o lobo coçar a cabeça.

— como eu posso dizer... ela... eu não sei se o nosso noivado a mudou ou se ela já não era bem o que eu esperava e eu só percebi isso agora – disse o Hale vendo o Stilinski erguer uma sobrancelha em questionamento.

— o tratado que fez isso? – indagou Stiles vendo o moreno menear positivamente.

— ela me disse coisas que eu nunca pensei em ouvir de ninguém daqui. Sugeriu que fugíssemos. Disse que se ganhasse o duelo sagrado, você deveria cumprir a sua parte do trato e não poderia se casar comigo sem que a aliança fosse quebrada – confessou o lobo, receoso.

Ele temia a reação de Stiles quanto aos pensamentos de Braeden. Se Stiles se ofendesse com aquilo, poderia, muito bem, questionar o valor dos betas do bando Hale. E deveria. Se os betas já destratavam os ômegas, para fazerem o mesmo com o humano e a aliança era questão de um empurrãozinho. Derek tinha conhecimento disso. Por isso estava a conversar com o noivo sobre o assunto. Assim, ele poderia amenizar um pouco o humano antes de tentar mudar o próprio bando. Por um momento, Derek jurou ter visto um brilho vermelho na mão do castanho.

— ridículo! – soltou o castanho com a voz séria, o que fez o interior de Derek gelar em nervosismo.

— por favor, não leve tão a sério. Ela está cega – ditou o moreno vendo o castanho lhe fitar com certa seriedade, mas logo a amenizar.

— eu não vou me manifestar sobre isso... – falou o humano vendo o lobo suspirar aliviado, lhe fitando com gratidão no olhar — pelo menos não até que seja necessário – finalizou vendo o medo retornar ao olhar do outro.

— não vai ser necessário, Stiles. Você ganhou o duelo sagrado. Ela não vai mais afetar o nosso noivado de maneira nenhuma. E mesmo que ela tente, não vai acontecer. Eu escolhi você. Ela não tem chance nenhuma agora. Sem contar que você venceu o duelo sagrado. Nada do que ela faça, agora, a tornará mais digna de mim do que você – disse Derek vendo o castanho menear positivamente algumas vezes, pensativo.

— pode até ser, Derek. Mas eu sei jogar com as pessoas. Sei do que uma pessoa cega como Braeden é capaz de fazer. Já senti isso na pele – pronunciou Stiles fitando o noivo lhe olhar nervoso.

— o que quer dizer com isso? – indagou o Hale vendo o humano voltar a caminhar e passou a segui-lo.

— quero dizer que quando ela se mover, eu vou me mover. Se tem algo que eu sei fazer é jogar – respondeu o Stilinski e Derek engoliu em seco.

O humano desastrado havia dado lugar a um humano de alta classe que sabia muito bem se mover. A prova disso fora quando um pequeno beija-flor passou por eles, apressado e tudo o que Stiles fez fora inclinar a cabeça para a direita, permitindo que a ave passasse por si sem lhe atingir. O lobo encarou aquilo surpreso, vendo o conde continuar a caminhar com elegância. Ele já havia notado que o assunto Braeden mexia com o humano. A audácia da loba e o modo que a mesma quase sujou o seu nome o irritava e o toque azedo em seu cheiro deixava isso bem claro.

— Stiles – chamou o moreno, segurando no braço do humano, fazendo o mesmo se virar para lhe encarar.

— Derek – respondeu o conde vendo o lobo lhe fitar por um tempo antes de suspirar.

— vamos... mudar de assunto. Este assunto não é algo bom para conversarmos – disse Derek olhando o humano lhe fitar com seriedade, antes de abaixar o olhar para o braço que sua mão grande segurava.

— concordo. Isso nos leva a discutir, o que, por sua vez, nos afasta – falou o humano vendo o olhar pensativo do lobo para o seu braço.

— e prometemos não nos afastar mais – completou o moreno de olhos verdes vendo o noivo menear positivamente. Por um instante, eles ficaram em silêncio, apenas pensando.

— eu... posso segurar a sua mão? – questionou Derek vendo o castanho lhe fitar questionador antes de soltar o ar pelas narinas em um riso curto e mudo.

Derek engoliu em seco quando sentiu o braço alheio escorregar de sua mão, deslizando pela mesma até que a palma de sua mão se encontrasse com a palma da mão alheia. O lobo sentiu o rosto arder ao sentir a pequena pressão que a mão pálida fazia na sua. Os dedos finos e longos do mais novo se fecharam, se colocando entre os seus dedos, antes de pararem nas costas de sua mão. Nervoso, o Hale, cuidadosamente, começou a fechar os seus dedos, tentando não repetir a gafe que cometera no dia em que fora apresentado ao rapaz a sua frente. Olhando nos olhos do castanho, Derek, lambeu os lábios, ainda receoso.

— não estou apertando demais? – questionou vendo o conde negar com a cabeça.

— assim está bom – respondeu dando um passo, chamando, silenciosamente, o lobo para que continuassem a caminhar.

Os dois voltaram a caminhar na direção da mansão Hale. Todos os membros do enorme bando ao qual pertencia o território por quem passavam paravam para olhar, surpresos, o casal de noivos caminhar de mãos dadas. Derek estava vermelho pela atenção que chamava, mas ele tentou não se importar em ser visto de mãos dadas com o conde. Ele estava mais preocupado em notar o quanto aquilo era diferente do que havia imaginado. A mão do humano tinha uma pele macia e fria. Não era ruim estar de mãos dadas com Stiles. Muito pelo contrário, era bom. Deixava a pele do lobo e o peito do mesmo aquecidos. Era acolhedor. Acolhedor o suficiente para fazer o Hale tomar um sorriso quase imperceptível nos lábios.

O homem com uma espingarda na mão fora lançado contra a parede do outro lado do bar quando aquela caveira roxa o atingiu. Ele havia tentado afastar aquela cliente insistente de seu estabelecimento, mas fora surpreendido quando a mesma apenas puxou uma mão para trás e logo a empurrou para frente, criando aquela caveira do nada. Aterrorizado, o corpo do homem tremia, machucado. Todo o seu corpo doía. Ele nunca esperaria ser visitado por uma bruxa, ainda mais uma que pedia por leite em um bar daquele, onde apenas os mais másculos dos homens entravam.

— eu vou dizer apenas uma vez. Me traga uma jarra de leite – ordenou a encapuzada adentrando o estabelecimento, já que lançara o homem da porta até a parede paralela. O homem, aterrorizado, olhou para cima, vendo a mulher começar a se aproximar.

— vá embora! Eu não quero bruxas em meu bar! – ralhou em uma súbita explosão de coragem. A mulher sorriu ladina na direção do homem aos seus pés.

— bruxa?! – questionou surpresa antes de negar com o indicador e estalar a língua no céu da boca algumas vezes – eu não sou uma bruxa – ditou vendo o homem lhe fitar com fúria.

— então como consegue fazer bruxaria? – questionou enquanto tentava controlar a dor em seu corpo para que pudesse tentar fugir.

— isso não é bruxaria! É um dom de anjo! — exclamou a encapuzada chamando a atenção do homem, que a fitou confuso.

— dom de anjo?! E desde quando anjos atacam homens?! – indagou, indignado, vendo a mulher sorrir divertida.

— e quem disse que os anjos devem proteger os humanos? – perguntou a encapuzada vendo o homem a fitar com nervosismo.

— e quem disse que devem nos atacar? – rebateu o humano vendo um sorriso vitorioso surgir nos lábios de sua agressora.

— Deus – respondeu apontando com a mão na direção do homem, que a olhou assustado, e mais uma caveira roxa cercada por uma aura negra surgiu em sua mão.

— agora me sirva com leite – ordenou vendo o homem se ajoelhar, na tentativa de se levantar e parar daquele modo.

— eu... não sei se tenho leite – confessou o homem vendo a mulher puxar uma cadeira com o pé e se sentar à mesa.

— pois vá ver. E se não tiver, providencie, ou então eu vou ter que beber outra coisa e você não vai gostar – ordenou jogando as pernas sobre a mesa e se acomodando ao local.

— c-certo – disse o homem mancando até o interior do estabelecimento. Ele estava nervoso. Se perguntava o que aconteceria se ele saísse para providenciar o tal leite e nunca mais voltasse.

— lembrando que, se você fugir, eu vou atrás de você – alertou a encapuzada vendo o homem parar na entrada para a cozinha e engolir em seco.

— t-tudo bem – respondeu voltando a mancar na direção do dolmere.

Demorou um pouco, mas logo o homem estava voltando com um copo e uma garrafa de vidro com leite. Servindo a mulher que lhe fazia tremer nas bases, o homem ouviu a mesma rir baixinho enquanto acolhia o copo cheio com a mão. Ele abaixou a cabeça, esperando por alguma nova ordem da mulher. O homem sabia que ela não iria ficar apenas no leite. Seria bom demais para ser verdade.

— viu só? Morreu esperar um pouquinho mais para fechar esse estabelecimento apenas para me servir um pouco de leite? – questionou a mulher estendendo a mão com o copo vazio vendo o homem encher o recipiente mais uma vez.

— n-não, senhora – respondeu vendo a encapuzada virar o copo mais uma vez.

— agora que já consegui a minha bebida, eu quero lhe fazer uma pergunta – disse estalando os dedos e uma nova caveira surgiu em sua mão. Ela golpeou a mesa de madeira com a caveira, fazendo a madeira ranger. Deixando a caveira roxa com aura escura sobre a mesa, em um aviso mudo, ela se serviu de mais um copo do líquido perolado.

— pode perguntar. S-se eu souber a resposta, eu digo – ditou o homem, nervoso, encarando aquela coisa sobre a mesa de seu bar.

— você já ouviu falar de um tal Conde Stilinski? – questionou levando o copo a boca, desta vez, provando apenas um pequeno gole.

O homem a fitou pensativo. Ele desviou o olhar para o chão, se forçando a tentar lembrar sobre algo a respeito desse tal conde. Ele se forçava a vasculhar cada canto de sua memória, por medo de levar mais um golpe com aquela coisa que a mulher criava do nada. Levando o polegar ao lábio inferior, puxando o mesmo para baixo, antes de afastar a mão do rosto e estalar os dedos.

— sim. Sim, já ouvi falar dele. Na verdade, ele e mais alguns homens já vieram aqui algumas vezes – respondeu vendo a mulher sorrir por debaixo do capuz.

— e como ele era? – questionou vendo o homem ficar nervoso.

— ele... era castanho, eu acho. Olhos claros... – falou despertando a atenção da mulher que lhe fitou atentamente.

— sim, continue – ordenou vendo o homem ficar nervoso.

— ele... me parecia ser um homem sério e de respeito – disse o homem, nervoso. A mulher perdeu o sorriso e encarou o leite em seu copo.

— não devia ter feito isso – disse a mulher, com seriedade, fazendo o homem engolir em seco.

— f-fazer o... – o homem fora cortado quando a mulher olhou em seus olhos, revelando olhos vermelhos como sangue.

— mentir para mim – respondeu a mulher apontando com a mão na direção do humano, que, aterrorizado, gritou.

O grito do homem ecoou por toda aquela cidade do interior, despertando grande parte das pessoas. Alguns homens correram para o local, armados com garfos de feno, facões e armas de fogo. Quando abriram a porta do bar, se depararam com um ambiente escuro. Assim que ascenderam alguns dos candeeiros do local, alguns gritaram assustados. Pendurado na parede, o corpo do dono do bar era preso por estacas de madeiras nas mãos e pernas. Sua barriga estava totalmente dilacerada, como se um animal feroz tivesse se alimentado da mesma. Acima da cabeça do homem, haviam palavras escritas em uma língua estranha, usando o próprio sangue do homem.