The Engagement

10 Porquinho


Derek estava jogado no bosque atrás do vilarejo onde morava o bando Hale. Ele e seus amigos estavam conversando sobre como estavam ferrados com a sua mãe e o seu pai. Eles foram encarregados de limparem o campo, das folhas secas, onde os cavalos do bando pastavam e ainda teriam que banhar os cavalos, lavar os estábulos e limpar o templo . Eles estavam na metade do serviço, quando pararam para se deitarem no gramado que já haviam limpado.

— isso é um inferno! Odeio limpar folhas secas – ditou Jackson jogado no gramado embaixo de uma árvore, de olhos fechados.

— nem me fale. Estamos aqui há três horas e ainda estamos na metade desse campo enorme – falou Theo irritado e Mason gemeu de preguiça.

— ainda temos que dar banho em todos os cavalos. Lavar os estábulos e limpar o templo – pontuou Vernon e Garret grunhiu irritado.

— eu não acredito que eles não aliviaram para nós! O Conde perdoou a gente. Deveria valer de alguma coisa para eles não nos castigarem tanto! – exclamou o loiro, revoltado.

De fato, Alexander e Talia não haviam aliviado em nada para o seu lado. Eles até se perguntaram se não havia mais nada para mandar os rapazes fazerem. Para completar tudo, eles foram proibidos de voltarem para a casa de qualquer membro até que tudo estivesse feito. O que significava “sem comida até tudo estar acabado”. E isso era uma tortura para qualquer lobo. Eles sentiam mais fome do que seres humanos, tinham que se alimentar constantemente.

— Isso sem contar no sermão sem fim, não é? Quanto mais eles falavam, mais eu me sentia inferior até às folhas que estamos limpando – ditou Vernon se sentando de abrupto e olhando para os amigos, vendo todos estirados pelo chão do campo.

— nem me lembre. Nunca me senti tão inútil e irresponsável – disse Theo encarando o céu coberto de nuvens.

— e você? Está pensando em quê que anda tão calado? – perguntou Mason encarando Derek dar de ombros.

— sei lá. Eu meio que estou apenas aceitando o castigo – respondeu o Hale vendo o negro menear positivamente.

— mas é claro que você deveria aceitar. Você fez por onde. Você confrontou o homem. A gente só confundiu ele! – exclamou Garret indignado.

— ah. Cala a boca, Garret. Você também achou que o Conde estaria ali por causa do Derek! – exclamou Vernon vendo o loiro rolar os olhos, sem argumentos.

— quanto tempo será que vamos levar para fazer tudo isso? – questionou Theo, encarando o enorme campo que teriam que terminar de limpar.

— se continuarem aí, vão levar uma eternidade – todos olharam para o lado e puderam ver um ômega com uma cesta em mãos.

— o que faz aqui? – perguntou Theo, um tanto irritado com a resposta do loiro menor que si.

— eu... Estava sem fazer nada então eu meio que... – o rapaz coçava a nuca, desconcertado, enquanto olhava para a cesta em mãos.

— para um ômega você é bem tímido – Garret cortou a fala do menor, vendo Liam respirar fundo.

— já estou me arrependendo – murmurou o menor antes de respirar fundo e erguer a cabeça. Vernon socou o loiro ao seu lado e Garret lhe fitou indignado.

— o quê? É verdade – questionou Garret massageando o ombro.

— eu posso falar? – questionou Liam vendo o beta menear positivamente enquanto murmurava.

— vai, fala – disse Theo se sentando no chão, enquanto todos encaravam o ômega.

— eu estava sem fazer nada e decidi agradecer ao Hale por ter protegido o meu alfa, então eu trouxe algo para vocês comerem – ditou o rapaz erguendo a cesta em sua mão esquerda. No mesmo instante os lobos do bando Hale lhe fitaram atentos.

— isso é comida? – questionou Jackson encarando a cesta com um brilho no olhar.

— MEU DEUS EU AMO VOCÊ, BAIXINHO! – exclamou Theo em um pulo avançando contra a cesta, mas passou pela mesma quando Liam girou nos próprios pés, desviando logo em seguida.

— eu disse que não tinha nada para fazer e que isso é uma recompensa pelo que o seu amigo ali fez pelo meu alfa. Não vão achando que eu fiz isso por simpatizar com vocês. Vocês aprontaram com o meu alfa, então eu não vou muito com a cara de vocês – disse o loirinho caminhando por entre os betas e parando diante do moreno de olhos verdes. Liam retirou alguns sanduíches e um saquinho de pano com biscoitos e entregou ao moreno de olhos verdes, que lhe fitou surpreso, e quanto aceitava a comida. O loirinho ainda retirou uma garrafa de barro com um rolha e entregou ao Hale.

— obrigado pelo que fez pelo o meu alfa, mais cedo – agradeceu o loirinho vendo o moreno menear positivamente.

— não foi nada. Ele é o meu noivo, eu devia fazer alguma coisa – disse Derek vendo o loiro estreitar as sobrancelhas.

— não o chame assim – ditou com autoridade e seriedade, surpreendendo aos betas. O loirinho enfiou a mão na cesta e passou a entregar as mesmas comidas para Vernon enquanto ignorava o olhar surpreso e confuso de Derek.

— por que não? – questionou Derek confuso, vendo o rapaz entregar uma garrafa de barro ao Boyd e seguindo para Garret.

— vocês podem ser noivos devido a um tratado, mas você não pode chamar aquele homem de noivo, se você não o vê nem o trata como um – disse o baixinho antes de seguir para Mason, Jackson e em seguida para Theo. Os lobos estavam surpresos com as palavras do baixinho, que carregava uma cesta.

— você cheira a leite – ditou Theo, vendo o baixinho sorrir, depois da tensão que se instalou ali.

— você não é o primeiro a me dizer isso. Espero que meu cheiro não os incomode – falou o baixinho antes de se virar e começar a caminhar na direção do vilarejo do bando Hale.

— esse baixinho é afrontoso. Parece até aqueles cachorros pequenos: baixinho e invocado – comentou Jackson enquanto comia os pães recheados com creme de queijo entregues pelo loirinho. Ele retirou a rolha da pequena garrafa e se surpreendeu quando o gosto de vinho lhe tomou a boca.

— ISSO É VINHO! – exclamou o Whittemore, animado.

— me lembra de nunca reclamar desse baixinho – falou Garret tomando um gole do vinho.

Quando finalmente acabaram de fazer todos afazeres, cada um retornou a sua casa. Eles estavam completamente exaustos e necessitando de um banho. Os jovens fediam a suor e a estábulo. O próprio Derek estava se martirizando pelo cheiro que exalava. Nem ele queria ficar perto de si daquele jeito. Assim que chegou a mansão, ele correu para o banheiro. Já era uma hora da manhã quando ele saiu do banho. Ele vestiu uma calça e decidiu descer para comer. O lobisomem estava faminto. O Hale desceu as escadas devagar, tentando não acordar Malia e Cora que teriam aula no dia seguinte. Assim que chegou a cozinha, Derek teve a visão do Conde, inclinado para o interior do domelre.

— outro lanche da noite? – perguntou o moreno de olhos verdes vendo o castanho se sobressaltar na frente do domelre.

— que susto! – exclamou humano se erguendo e se virando para o lobo.

— você come tanto quanto um lobo. Tem certeza de que é humano? – questionou Derek encarando o castanho sorrir minimamente, antes de se virar para o domelre novamente.

— eu não consigo resistir. Esses doces que recebemos são muito bons – disse o castanho antes de voltar a olhar para o Hale – quer algum? Para eu não ter que lavar outro prato coloco logo nesse e você só pega uma colher – perguntou vendo o lobo lhe fitar um tanto surpreso, com os olhos arregalados.

— não vamos dividir o prato romanticamente, Hale, como um casal faria. Apenas como amigos com preguiça de lavar pratos – explicou o castanho ao ver o olhar surpreso de Derek.

O moreno de olhos verdes meneou em concordância, indicando o doce que queria e o castanho cortou um bom pedaço do mesmo, o colocando no prato e fechando o domelre antes de se dirigir para a mesa. Derek pegou algo para beber, perguntando se o outro queria algo e, mais do que esperado, Stiles pediu um chá. Eles se sentaram na mesa, com o prato entre eles, enquanto comiam em silêncio.

Derek via o castanho comer aquele projeto de doce, feito por Braeden, enquanto o misturava a outro doce. Aquele doce lhe incomodava um pouco o sistema olfativo. Mas os outros doces e o cheiro de rosas do conde o camuflava, aliviando a coceira que o limão causava em suas narinas. Eles comeram em silêncio por um tempo, até Derek resolver que aquilo já estava estranho demais. Eles estavam agindo como se não gostassem um do outro, como se tivessem alguma rivalidade ou coisa do tipo.

— você gostou mesmo disso, não é? – questionou Derek vendo o castanho cortar um pedaço do doce e o levar a boca.

— uhum. Fica perfeito com esse de abacaxi! – respondeu o castanho pegando um pedaço do outro doce e o melando na cobertura de limão.

— o que foi aquilo com o Paul? Você... Explodiu – indagou o lobo vendo o humano entortar os lábios minimamente. Não sabia dizer se era pela citação do ruivo e da explosão do humano, ou se era efeito do limão na boca do castanho. Stiles bebericou um pouco do chá, antes de repousar a porcelana branca sobre a mesa, encarando a mesma fixamente.

— é, eu... Meio que fico fora de mim quando tentam me rebaixar por eu ser um humano. Ainda mais quando criticam os meus betas quanto a me obedecerem. Mas o que realmente me faz explodir, é essa crença de que pode me atacar a qualquer momento por eu ser um humano. Como se fosse invencível para mim – respondeu o rapaz encarando os seus dedos deslizarem sobre a porcelana branca suavemente.

— você não gosta de ser subjugado, não é? – questionou o lobo vendo o castanho assentir positivamente.

— por isso sou tão compreensivo com você. Sei que também odeia isso. Odeia estar sendo subjugado por seus pais para fazer parte disso – ditou o castanho erguendo o olhar e vendo o Hale encarar o copo que continha em mãos.

— eu queria, inclusive, lhe agradecer pelo que fez quanto ao beta atrevido. Embora eu pudesse cuidar da situação sozinho, eu realmente aprecio o que fez – falou o conde encarando o lobo desviar o olhar para o doce, pegando mais um pouco do mesmo, antes de encarar o castanho rapidamente.

— não foi nada demais. Eu sou o seu noivo. O mínimo que devo fazer é lhe proteger. Inclusive, eu deveria lhe pedir desculpas. Os betas dos meus pais já lhe destrataram de algumas formas e eu não fiz nada por você – ditou o lobo um tanto envergonhado se lembrando das palavras de Lance.

“O mínimo que devemos fazer por nossos pretendentes é os defender. Mas você não faz nada”

— você não deve se desculpar por nada. Não deve agir como se fosse o meu noivo enquanto ainda não refletir sobre a ideia. Sem contar que eu sou um alfa, Derek, um alfa de ômegas. Eu tenho que saber me defender sozinho. Como vou conseguir respeito se não consigo sobreviver a coisas básicas? – ditou o castanho encarando o moreno de olhos verdes lhe fitar com seriedade.

Derek apenas assentia, enquanto comia. Eles conversaram um pouco, se comunicando lentamente, como se buscassem algo que tivessem certeza de interessar ao outro o suficiente para manterem um diálogo. Quando eles tentaram pegar um pedaço de doce, risonhos, devido a história de Derek de como ele conseguiu irritar a mãe o suficiente para limpar os estábulos e os cavalos, sozinho, somente por ter acertado uma bola de barro com força na traseira do cavalo no qual a mulher estava montada, quase a derrubando no processo. Eles ouviram o tilintar de talheres e observaram que os talheres se tocaram para pegar o ultimo pedaço de pudim de passas. Derek fitou surpreso o prato. Nem se dera conta de que haviam acabado o doce servido a mesa.

— pode ficar – disse o Hale afastando a mão e largando a colher ao lado do prato.

— não, pode ficar. Eu passei a noite inteira comendo. Se eu ficar comendo muita coisa desse jeito, daqui há alguns dias eu não passo nem pela porta, quem dirá subir escadas – brincou o castanho empurrando o prato de leve para o lobo, que fitou o mesmo um tanto incomodado.

— imagina. Eu cresci comendo esses doces. É uma das primeiras vezes que você come eles. Pode ficar – rebateu o moreno de olhos verdes e o humano lhe fitou entediado.

— faremos assim, então. Já que parece que nunca entraremos em um consenso – ditou o castanho pegando o talher que usava e recolhendo o doce com o mesmo.

Derek fitou atentamente o castanho levar o talher a boca e recolher metade daquele pedaço de pudim com os lábios, antes de apontar com o talher contendo apenas metade do doce para si. Ele entendeu o recado e fitou a colher de prata com receio. O Hale encarou o rapaz de cabelos castanhos, vendo o mesmo lhe fitar normalmente. Derek se pegou pensativo. Ele de fato queria pudim, mas não daquela forma.

Ele poderia muito bem se levantar e pegar mais. No entanto, o homem se via cheio demais para pegar mais e também imaginava que negar um ato desses do conde poderia o ofender. Ele também se via um tanto encorajado para o ato. Derek sabia que não vinha agindo como um noivo. E, estranhamente, ouvir isso lhe incomodava. Era como se se ele quisesse fazer parte daquele noivado, como se ele tivesse pedido o conde pessoalmente em noivado, mas mesmo assim o tratar como um qualquer. Isso feria o seu orgulho.

“Bem. Vamos ter que nos beijar, futuramente. Dividir um talher deve ser fácil”

Pensou o lobo, ante de abrir a boca e se inclinar para a frente, acolhendo o doce em sua língua, assim que se afastou do conde, limpando a colher com os seus lábios. O moreno de olhos verdes viu o humano sorrir minimamente, antes de pegar o prato e a xícara de porcelana que usara e se dirigir para a pia. O lobo fitou surpreso o Conde, que vestia apenas uma calça branca, passar a lavar o que usaram, exceto o copo que permanecia em suas mãos.

— não precisa fazer isso – falou surpreso por ver o adolescente de título nobre fazer um trabalho doméstico manual.

— não gosto de dar trabalho a ninguém – ditou o Stilinski antes de se virar para o Hale e apontar para o copo do mesmo.

— já acabou? – questionou vendo o lobo negar com a cabeça e sorver o líquido que ainda residia em seu copo.

Assim que Derek colocou o copo na pia, ele fitou atentamente o castanho pegar o mesmo e passar a lavar o copo. O Hale analisou atentamente a pele alva marcada por algumas pintinhas no pescoço, torso e lateral do rosto. Derek fitava o corpo que cheirava a rosas surpreso. Stiles não se via nervoso perto de si daquele jeito. O castanho parecia não se importar em, ele, um mero humano, estar tão perto de um lobo. Isso ainda surpreendia e muito a Derek.

— você cheira a rosas – soltou o moreno de olhos verdes, os quais estavam fixos no outro.

O castanho riu nasalado para o moreno, antes encarar os olhos verdes com um sorriso ladino. No mesmo instante Derek passou a se perguntar porquê raios falara aquilo. O que diabos ele tinha na cabeça para falar do cheiro do outro, assim, na lata? E se aquilo ofendesse o conde? Stiles enxugou as mãos e se virou para o homem ao seu lado, sem se importar nenhum pouco com a pouca distância em que seus corpos se encontravam.

— eu espero muito que rosas não o incomodem – falou o castanho sorrindo ladino, antes de se inclinar e aproximar o nariz do pescoço de Derek, que se viu nervoso e em choque quanto a aproximação do conde. Ele sentiu o Stilinski puxar o ar pelas narinas, antes de se afastar e sorrir.

— você cheira a folha de limoeiro – disse o castanho encarando o moreno de olhos verdes, corado, lhe fitar um tanto desconcertado.

— e... Isso é bom? – perguntou Derek vendo o castanho repuxar os lábios para o lado.

— eu adoro folha de limoeiro, Derek – disse o castanho sorrindo nasalado quando o rapaz mais alto corou um pouco mais.

Derek sentiu o peito acelerar um pouco com a fala do menor. O seu rosto esquentou e ele sabia que a sua barba não seria capaz de esconder a sua coloração rosada. O moreno mordeu o lábio inferior e desviou um pouco o olhar. Estranhamente, era bom passar o tempo com o Conde Stilinski.

Derek se perguntava o porquê de às vezes se sentir tão confortável e as vezes se sentir tão incomodado na presença do humano. Ele parecia até temer o humano de tão rápido que queria sair de perto do mesmo em alguns momentos. Mas havia vezes, também, em que ele se via querendo expulsar aquela ideia de temer o adolescente e apenas selar aquela aliança de uma vez.

Ali, naquele momento, Derek se sentia inclinado a ser mais solto. Fazer o castanho soltar mais risos nasalados daqueles, que ele solta desviando o olhar para os próprios pés, o que o deixavam com um aspecto bonito. Ainda mais quando faziam o peito do Hale se sobressaltar quando as orbes castanhas eram direcionadas para si com velocidade. Derek fixou os olhos no castanho quando o mesmo lambeu os lábios.

— eu acho que já está na hora de irmos dormir – falou o castanho se afastando um passo, vendo como o Hale havia se tornado silencioso com a sua aproximação.

— hm, é. É bom. – disse Derek, desconsertado por seus últimos pensamentos e sensações.

— vamos – disse o castanho saindo da cozinha, sendo seguido pelo lobo.

Os dois subiram as escadas em silêncio. Derek aproveitava que o castanho não andava muito a sua frente para sentir o cheiro de rosas do mesmo. Era incrível como o castanho exalava exatamente o mesmo cheiro da flor, apenas contendo uma variável que ele não conseguia dizer qual era. Era algo que fazia o lobo em seu interior se sentir inquieto e em alerta, ao mesmo tempo em que se sentia animado e ameaçado. Os dois chegaram ao andar de cima e o mais novo se virou para encarar o moreno de olhos verdes.

— bom. Boa noite. Foi divertido passar esse tempo com você – disse castanho coçando o próprio torso, antes de bocejar e se espreguiçar.

— eu também me diverti. Poderíamos repetir, amanhã. Eu não sei – falou o Hale encarando o castanho sorrir.

— estarei na cozinha no mesmo horário – disse o castanho vendo o moreno sorrir minimamente.

— boa noite – disse o Hale estendendo a mão para o castanho, vendo o rapaz a encarar antes de a envolver com a sua.

— boa noite – disse o Stilinski antes de se virar para seguir para o seu quarto.

Derek encarou o seu pretendente abrir a porta e adentrar o ambiente calmamente, antes de fechar a mesma também com calma. Derek encarou o corredor pensativo, antes de encarar a porta do próprio quarto. Ele se pegava pensando em como se sentira na presença do conde naquela madrugada.

— eu acho que posso me acostumar com isso de noivar com esse homem – falou baixinho para si, pois ele jamais admitiria aquilo para alguns dos seus familiares ou amigos. O moreno de olhos verdes seguiu para o seu quarto, ainda pensativo, se perguntando se a vida de casado com o conde seria tranquila daquele jeito.

Do outro lado da cidade de Beacon. No outro monte que formava o vale que cercava a cidade. A lua quase cheia iluminava um campo aberto, onde era possível se ver os destroços de uma luxuosa mansão. Ainda era possível ver algumas partes da luxuosa residência em brasas. Algumas paredes de madeira ainda exalavam fumaça cinzenta, indicando a queima que ocorria em seu interior. Era possível ver destroços de móveis e vários objetos em meio as brasas. A escada se mantinha com metade dos degraus normais, embora uma única noz fosse o necessário para os fazer virar pó. No que um dia fora uma sala, era possível ver restos do que um dia chegou a ser um belo piano vermelho. No centro da sala, havia um símbolo queimado de uma rosa. A flor simbólica estava contorcida devido o efeito das chamas.

Nas árvores um pouco distantes da mansão, era possível ver três pares de brilhos. Eram olhos que refletiam a luz da lua. Não demorou para que patas fossem postas para fora da vegetação e logo dois lobos ruivos caminhavam pelo campo, desfilando pela grama. Atrás dos lobos vinha um ser vestido com um sobretudo roxo. Ele desfilava entre os lobos com elegância. Tanta elegância que daria inveja até mesmo a alguém de renome.

As suas unhas roxas e perfeitas chegavam a brilhar na noite, identificando aos lobos ruivos que aquela pessoa não estava para brincadeira naquela noite. O encapuzado e os lobos chegaram a entrada da mansão e o encapuzado bateu na porta queimada, mesmo que não houvesse paredes para ele precisar usar a porta, fazendo a mesma cair para trás. Os lobos trataram de entrar na casa e farejar tudo.

— toc toc – disse o encapuzado, risonho, encarando os lobos lhe fitarem confusos.

— achem o corpo – ditou o encapuzado num tom autoritário que fez os lobos correrem pelo local, farejando tudo.

O ser de sobretudo roxo fitou as poucas paredes com certo tédio. Ele se sentia um tanto indignado por ter destruído aquele lugar. Aquela mansão era linda, ele tinha de admitir. Ele sempre elogiou a mansão quando vinha visitar o pack Stilinski. O encapuzado viu os lobos de pelo de cor castanha levemente avermelhada começarem a puxar uma capa vermelha que se encontrava abaixo de uma estante. O encapuzado sorriu e se aproximou.

— se afastem – falou batendo o pé no chão suavemente e logo cristais de gelo seguiram rápidos para a estante.

Um enorme espinho de gelo, feito de cristais pontudos cresceu embaixo da estante, jogando a mesma para cima e assustando os lobos, que se encolheram antes de retornarem a forma humana. As duas mulheres encararam amedrontadas a capa jazida no chão, sem estar ligada a um corpo. Encararam o encapuzado temerosas, enquanto viam o mesmo fechar o sorriso em um bico irritado.

— não é ele – ditou se virando para as paredes.

— ele não está aqui – disse uma das lobas, encolhida, se curvando para o encapuzado.

— aquele adolescente idiota sobreviveu. Ele não deve viver, Christa. E eu acho que vocês duas não tem feito um bom serviço caçando o Conde Stilinski para mim – disse o encapuzado levando uma de suas mãos para o seu pescoço e passando a brincar com o lóbulo da própria orelha com o dedo mindinho. As mulheres tomaram expressões amedrontadas.

— n-nós estamos dando o nosso melhor, meu alfa e senhor – disse a mulher se curvando e logo ela sentiu um vulto passar por si e o vento balançar seus cabelos.

— pois o seu melhor não é o suficiente. Eu quero o sangue e a cabeça do conde Stilinski. Ele é a última peça do quebra-cabeça. E se o melhor de vocês não é o suficiente para me dar o que eu preciso, então vocês não me são mais necessárias — as duas mulheres iriam implorar de imediato, mas as suas vozes morreram assim que o encapuzado chutou o chão com suavidade novamente. Dois espinhos de gelo surgiram do chão, cada um atravessando o corpo de uma loba, as erguendo no ar, enquanto as congelava e elas se debatiam, engasgadas com o próprio sangue. Sangue o qual escorria pelos cristais afiados.

— eu nunca quis tanto a cabeça de alguém como eu quero a cabeça do homem de vermelho – disse o encapuzado e os seus olhos verdes foram iluminados pela luz da lua que era refletida pelos cristais vermelhos.

O encapuzado começou a caminhar para a mata novamente. Mas parou. Ele se virou para a mansão queimada e sorriu para a mesma. Aqueles destroços da mansão estavam estragando a sua obra de arte, que era aqueles dois pilares de gelo sangrentos.

— já que você é o meu porquinho, homem de vermelho. Não importa onde se esconda, eu só vou parar de soprar quando colocar a sua casa a baixo – ditou estendendo a mão com as unhas roxas para a mansão e uma rajada forte de vento passou, derrubando as paredes frágeis dos destroços da mansão, deixando os dois corpos pendurados visíveis para qualquer um de qualquer ângulo.

— agora, sim. Está lindo. Merecia até um quadro – disse o encapuzado caminhando para a mata, desaparecendo por entre as folhas verdes naquela noite de quase lua cheia.