The Engagement

32 Decepção


— nós podemos... conversar? – o senhor Onew perguntou, lançando um olhar nervoso para o humano ao lado do lupino.

Derek olhou para o mais velho, nervoso. O pai de Braeden não parecia muito amigável quanto ao conde, o cheiro de raiva que ele exalava era perceptível até mesmo para um lobo idoso com problemas no olfato. Não era como se o senhor Onew fizesse questão de esconder a sua raiva, já que o próprio conde conseguiu notar o sentimento negativo do beta para consigo. Humanos normais se encolheriam diante daquela situação, mas tudo o que o adolescente fez foi sorrir. Um sorriso travesso como de quem está prestes a pregar uma peça em um amigo e queria muito ver a reação do mesmo.

— claro. Em que posso ajudar? – disse o Hale dando um passo na direção do outro beta.

— em particular? – indagou o mais velho dos três vendo o moreno lhe fitar confuso e o castanho erguer uma sobrancelha em questionamento.

— ah – o Hale olhou para Stiles por sobre os ombros observando o mais novo ainda sorrir na direção do Onew.

— não pode ser mais tarde? – questionou o moreno de olhos verdes vendo o homem estreitar o olhar na direção do seu noivo.

Derek não entendia muito bem o modo como Abraham estava se portando na frente de Stiles. O pai de Braeden sempre fora um tanto quieto e silencioso, mas ele nunca pareceu tão silencioso e reservado quanto agora. Parecia até que o homem estava travando uma batalha interna que por algum motivo envolvia Stiles. O moreno de olhos verdes nunca fora o melhor em usar a cabeça, mas também não chegava a ser um idiota. Ele sabia que era por Stiles. Por algum motivo o Stilinski mexia com o pai de Braeden, Derek só não sabia qual era o motivo. Porque, sim, o Hale estava crente de que Abraham era maturo demais para se deixar levar apenas pelo duelo sagrado. O Onew parecia ser direito demais para comprar aquela briga pelos erros de Braeden.

— ainda não fomos apresentados – disse Stiles dando alguns passos a frente, se colocando a frente do beta do bando Hale que lhe fitou com os olhos estreitados em desconfiança.

— eu sou Stiles. Stiles Stilinski – ditou o castanho erguendo a mão livre para o lobo, que a fitou por um tempo antes de a acolher na sua.

— sim. Eu sei quem você é. Você é o humano que derrotou a minha filha no duelo sagrado – disse o beta se controlando para não quebrar a mão do humano no aperto de mão que tiveram.

— não leve para o lado pessoal. Eu tenho negócios a tratar e sua filha se colocou no caminho, então tive que fazer algo para retirá-la – explicou o conde, ainda sorrindo, vendo o Onew segurar um rosnado.

— fala como se minha filha fosse um estorvo – repreendeu, sutilmente, o beta vendo o mais novo dar as costas para si, voltando a caminhar para o lado de Derek.

— com todo o respeito, foi isso mesmo o que ela foi. Me sinto mal por me envolver em seu relacionamento, mas os meios que ela usou foram desnecessários – ditou o castanho parando um pouco atrás do noivo de forma a esconder a sua expressão séria.

— convocar o duelo sagrado é um direito! Não pode criticá-la por isso! – repreendeu Abraham indignado.

— é. Eu sei disso. Mas não é a isso que me refiro. Estou falando do que antecedeu ao duelo – argumentou o castanho se virando e vendo o homem franzir o cenho em sua direção, para em seguida lançar um olhar questionador para Derek.

O moreno de olhos verdes não sabia o que fazer. Ele não queria magoar Abraham revelando os atos recentes da única filha do homem. No entanto, isso parecia difícil quando o beta estava provocando o mais afetado pelos atos inconsequentes de Braeden tão agressivamente, tentando defender a filha, que, em sua visão, era a injustiçada. Para piorar tudo, a provocação do beta atingiu certeiramente a ferida do conde: o seu orgulho. Stiles era novo, mas Derek já conhecia o quanto o orgulho do rapaz era importante para si. Ele não sabia o que fazer. Se tentasse amenizar para o lado de Braeden, ali, ele feriria o orgulho do noivo e iria gerar uma catástrofe. Mas se apoiasse o conde cem por cento, ele acabaria magoando Abraham, que sempre fora muito gentil com todos. Nervoso, Derek tentou achar um jeito de apoiar ambas as causas, tentando, a todo custo, manter o seu noivado intacto e sua relação com Stiles do jeito em que estava.

— senhor Onew, tem mesmo que ser agora? Eu estou passando um tempo com o meu noivo – indagou o Hale buscando a mão de Stiles com a sua, vendo o outro lobo lamber os lábios ao ver a cena a sua frente.

— mais tarde eu posso passar em sua casa para conversarmos – sugeriu Derek, torcendo para que o cheiro de Stiles não se adulterasse com a sua fala.

— é urgente, Derek. Eu não sei se pode esperar tanto, assim – argumentou o mais velho em um tom suplicante.

O moreno de olhos verdes suspirou, dividido. Ele estava curioso, e o tom de Abraham não amenizava em nada a sua curiosidade. Mas ele tinha Stiles. Deveria zelar pelo orgulho do conde e a sua relação com o mesmo. Ele sabia bem o motivo de se sentir inseguro de ir conversar com o senhor Onew. A sua experiência com Braeden havia lhe deixado para baixo e ainda havia colocado todo o bando em risco. Por alguma razão ele sentia que aceitar conversar com o homem acabaria o afastando de Stiles novamente, e aquela aproximação fora suada demais para ser desfeita tão rapidamente.

— está tudo bem, Derek. Você pode ir – falou o conde Stilinski, surpreendendo o Hale.

— não prefere que eu lhe acompanhe? – questionou o moreno tentando não se sentir nervoso com a atmosfera estranha que sentia ali. O Stilinski sorriu e meneou positivamente.

— tenho. Eu já sei o caminho. Posso muito bem ir sozinho – respondeu o castanho vendo o moreno de olhos verdes parecer pensar.

— tudo bem. Tentarei chegar em tempo para almoçarmos juntos – disse o Hale observando o outro menear em compreensão. Stiles pegou o brinquedo quebrado na mão de Derek fitando o moreno, um tanto acanhado, hesitar em soltar o objeto.

— vamos? – chamou o senhor Onew chamando o moreno de olhos verdes com um balançar de cabeça.

— sim – respondeu Derek começando a seguir o mais velho, olhando por sobre os ombros algumas vezes, apenas para ter certeza de que o outro estava realmente bem com a ideia.

— espero não me arrepender disso depois – murmurou o Stilinski se virando, ficando com uma das mãos vazias no processo sem que ninguém percebesse.

— meu senhor, a equipe de Rafael acabou de voltar – disse uma mulher de coturnos e vestido curto, adentrando a sala do homem.

Chris se virou imediatamente para a mulher. Ela era uma da melhores caçadoras de sua equipe particular. Na ordem dos caçadores, os Argents eram mundialmente conhecidos. O nome da família de Chris tinha um peso tão grande que alguns bandos se mudavam logo após saberem da presença dos caçadores próximo ao seu território. Não que funcionasse, mas eles sempre tentavam escapar. Não era para qualquer um, fazer parte de um grupo liderado por um Argent. Eles eram seletivos e faziam questão de se envolver apenas com os melhores.

— já estou indo – respondeu o Argent já organizando as folhas em uma única pilha, antes de se erguer da cadeira e caminhar para o lado de fora, seguindo a mulher que marchava a sua frente indicando o caminho que ele já conhecia.

Assim que adentrou o salão da mansão, Chris fora recebido com um enorme corpo de um homem caolho que fora jogado em sua direção. O corpo desnudo caiu no chão, com o queixo a milímetros da ponta do coturno de Chris, que olhou para o mesmo com tédio. Ele viu as marcas de lâminas nas costas do cadáver, um pedaço da nuca faltava, assim como dos calcanhares e nádegas. O cadáver a sua frente fora brutalmente torturado ainda em vida. Ele olhou para cima, vendo um grupo de homens sorrir satisfeito em sua direção, enquanto uma mulher de cabelos curtos lhe encarava com seriedade, como se o desafiasse.

— está bom ou quer mais? – indagou um homem calvo sorrindo enquanto exibia uma adaga ensanguentada.

— nós fizemos como mandou. Qual é o próximo? – perguntou Rafael cruzando os braços e encarando o homem a sua frente lhe fitar com uma expressão misteriosa.

— quantas vezes eu vou ter que dizer? – perguntou o Argent vendo o moreno suspirar

— Chris, eles são animais. Eles não merecem pena, perdão ou misericórdia – argumentou Rafael já sabendo do que se tratava.

— eles são seres vivos, Rafael. Independente de serem monstros, animais ou bestas. Os matar dessa forma... Apenas lhe transforma em um monstro – rebateu Chris vendo o grupo tomar uma expressão indignada.

— como você pode ter sentimentos por isso?! – exclamou um dos homens apontando para o homem morto aos pés do líder da facção de caçadores.

— você não tem voz para acusar a mim de nada. A vida de ninguém, mesmo que de uma besta, deve ser tirada de forma tão feia – respondeu o homem barbado se abaixando, enquanto se benzia, antes de desenhar uma cruz no ar, apontado sempre para o cadáver.

— isso é birra sua, sabia? – indagou um dos homens apontando o dedo para o seu superior.

— nós matamos um do grandes e você nos me vem com sermão?! Deveria vir com elogios! – exclamou se aproximando ainda com o dedo apontado para o mais experiente.

— grande só se for para você. Ele não passa de um alfa como muitos outros – disse Chris vendo o homem rir irônico e olhar para os companheiros.

— Barto – Rafael tentou repreender o companheiro.

— você não sai dessa base para nada e vem querer me dizer o que é uma caça grande?! – o caçador bradou, irritado, empurrando o ombro do outro.

Chris encarou o próprio ombro, questionando a si mesmo se aquilo havia, de fato, ocorrido. Rafael tentou impedir o companheiro de equipe novamente, mas falhou miseravelmente, vendo Bartolomeu perguntar quem era Chris para dizer como ele devia caçar, novamente empurrando o corpo do mais alto.

Grave erro.

Quando a mão áspera de tanto segurar uma arma durante o recuo se aproximou do seu ombro, o Argent agarrou o pulso do mais baixo e girou o braço do mesmo, fazendo o homem se contorcer para o lado para o qual o seu braço fora torcido. O moreno de barba apenas golpeou o pescoço de Bartolomeu, ouvindo o homem tossir quase que instantaneamente, antes de apertar a mão envolta do pescoço do outro humano. Os outros caçadores nada fizeram para ajudar. Sabiam que o companheiro precisava ser repreendido por sua falta de juízo.

— quem sabe se eu tirar a sua capacidade de falar por um tempo você pare de falar porcarias e entenda o que eu vou dizer – falou o Argent erguendo o homem pelo pescoço e o vendo se debater em seu agarre.

Chris soltou o pulso do subalterno, antes de girar, o lançando na direção de seu grupo. Bartolomeu rolou no chão algumas vezes, antes de parar deitado aos pés de seu líder de equipe, que lhe encarou com decepção. O Argent se aproximou a passos calmos, enquanto erguia a mão no ar. A mulher que lhe informou da chegada do grupo lhe jogou uma espada, que caiu em sua palma como se fosse atraída por ela.

— quando se tornam caçadores, vocês juram lealdade ao meu sangue e ao líder do meu clã, que no caso sou eu. O juramento é algo simples: ou você faz, ou você não faz. Não existem argumentos, não existem pontos de vista. Nada. Apenas o não e o sim. E se não é leal a mim, você está contra mim. Então eu vou lhe perguntar de novo e você vai responder com “sim” ou “não” – ditou o Argent manuseando a espada, fazendo a lâmina cortar o ar, enquanto se aproximava vendo Bartolomeu se ajoelhar, com a mão na garganta, tentando falar algo, mas apenas conseguindo tossir mais.

— você está comigo ou não? – questionou o homem barbado apontando com a espada para a cabeça do caçador ajoelhado, vendo o mesmo, com uma expressão de revolta na face, menear positivamente.

— ótimo. Espero que tenha entendido de vez – falou Chris erguendo o queixo do homem com a lateral da lâmina, o forçando a olhar em seus olhos.

— pois eu não vou perguntar de novo – o Argent pronunciou com calma e suavidade na voz, fazendo o sangue de Bartolomeu gelar.

— o mesmo serve para todos os presentes. Espero que tenham entendido o recado! — anunciou vendo todos menearem positivamente e baterem continência para si. Bartolomeu se ergueu, arfante, com a garganta ainda doendo e sua voz incapaz de sair.

— espero que nenhuma outra caça dessa equipe seja morta assim. Tenho certeza de que vocês podem matá-la de forma rápida e muito mais humana – alertou vendo os membros da equipe de Bartolomeu baterem continência novamente.

— ótimo. Agora eu tenho outra missão para vocês – falou vendo Rafael menear positivamente e os dois seguiram para a sala de Chris.

Stiles chegou a mansão Hale calmamente. Desfilando e, como sempre, exibindo autoridade e suavidade em seus movimentos. Ele não se importava com os olhares dos betas para si. Ele tinha mais preocupações do que a opinião de desocupados que se preocupavam mais com classes hierárquicas do que com a sua própria segurança. Ele era um homem visionário. Isso era algo que ele sempre ensinou aos seus betas. Tenha sempre o seu objetivo em mente.

“Se não me ajuda ou me atrapalha, então não merece a minha atenção.”

Ele sempre passou isso para os ômegas, mas parece que não adianta devolver a sua sanidade e lhes ensinar algo que os ajude a controlarem sua fúria e sua sede de sangue. Pois esta parecia sempre achar um modo de os engolir. O conde Stilinski abriu uma das grandes portas da mansão, vendo o hall que ligava a porta a sala repleto de betas que olhavam surpresos para si. Não precisou mais do que uma milésimo de segundo para ele entender o que estava se passando.

Os olhos arregalados, os pomos de adão que se moveram com a deglutição difícil, o suor brilhando sobre a pele de suas testas, os dedos que se remexiam sem controle algum, assim como os pés que batiam contra o solo repetidas vezes, as íris trêmulas, os polegares que tinham as peles mordidas ou rasgadas com as unhas. Era mais do que óbvio o que eles faziam ali. Eles estavam atentos para defender os alfas. Para atacar o seu bando. Para LHE atacar.

Stiles se importava?

Não.

Estava preocupado?

Talvez.

O castanho, sem se importar com nenhum dos vários lobos ali presentes, passou por todos cumprimentando cada um, ao mesmo tempo em que seguia para as escadas da residência. Ele ignorou os olhares questionadores e receosos dos mesmos enquanto subia os degraus calmamente. Ele parou no topo da escada ao perceber a ausência de lobos no corredor do andar de cima. Então era óbvio que os ômegas estavam no andar de baixo. O conde deu meia volta e desceu as escadas, seguindo para a biblioteca, lugar da casa mais visitados por seus betasdepois dos quartos. Desviando de alguns membros do bando Hale, o humano seguiu o seu percurso, encontrando dois lobos rosnando em frente a porta do cômodo em que ele imaginava que os seus betas estivessem.

“É. Eles estão aqui.”

Pensou o humano antes de se aproximar da porta, vendo os dois betas do bando Hale se recomporem e tentarem disfarçar os rosnados. Stiles os fitou por um tempo, se perguntando se eles realmente achavam que só por que ele se aproximou recentemente, ele não havia escutado. Alguns dos membros do bando de Talia e Alexander tinham a inteligência de uma criança de três anos, ele tinha que admitir. Pedindo licença, o conde adentrou a biblioteca, ouvindo um “ele chegou” ser proferido por Isaac. Pegando o primeiro livro que viu, Stiles se dirigiu para o centro da biblioteca, encontrando todo o seu bando sentado ao redor da mesa, estando Erica sentada em uma das poltronas. Eles pareceram nervosos com a sua entrada. Pela velocidade com que Corey tratou de fechar o livro que lia, Stiles soube que eles estavam tramando algo.

— qual é o problema? – indagou se aproximando da mesa e se sentando na mesma, entre os braços de Scott e Allison, que logo levaram uma mão as suas pernas.

— por que acha que tem um problema? – questionou Lydia passando uma página do livro em seu colo.

— porque vocês liberaram a sua sede de sangue de a alertar o bando Hale. Estão todos em alerta graças a isso – respondeu o castanho e ficou a encarar os dois betas que acariciavam suas coxas.

Os ômegas suspiraram enquanto se entreolhavam. Stiles os entendia tão bem que era quase impossível que eles conseguissem esconder suas inseguranças quanto ao tempo que passariam ali do seu alfa. O rapaz era estupidamente inteligente e, mesmo sendo um humano, possuía uma conexão com eles. O sentimento fraternal mútuo os conectava de um jeito que somente a relação alfa e beta fazia. Scott gemeu em desgosto enquanto apoiava o queixo na coxa do Stilinski, vendo o mesmo lhe direcionar o olhar.

— vão me dizer o que está acontecendo ou eu vou ter que descobrir por mim mesmo? – perguntou levando sua mão livre para os cabelos negros do lobo de queixo torto, acariciando as madeixas morenas e vendo o mais velho fechar os olhos em apreço.

— quando a nossa casa vai ficar pronta? – indagou Scott, em um sussurro, receoso.

Stiles piscou os olhos algumas vezes, surpreso. Não era que ele não esperasse aquela pergunta. Ele esperava, sim. Há muito tempo já sabia que algum deles soltaria o questionamento, mais cedo ou mais tarde. Mas o que lhe pegou de surpresa fora o tom de voz do moreno que tinha a cabeça deitada em seu colo. Scott parecia a criança que teve o brinquedo preferido confiscado pela mãe e implorava para o pai recuperar o mesmo. Aquilo era estranho. O moreno de queixo torto só havia se comportado assim, desde que fora “adotado” por Stiles, duas vezes. O conde olhou para o mais velho por alguns instantes, vendo o mesmo lhe erguer o olhar como um cão tristonho.

— vocês estão odiando a estádia aqui, não estão? – indagou observando o moreno de olhos castanhos desviar o olhar de si para a mesa de madeira.

— não estamos odiando a estádia, aqui. Os Hales são bons e acolhedores – respondeu Allison chamando a atenção do conde para si.

— nós estamos odiando o bando Hale – Erica anunciou voltando a ler o livro em suas mãos.

Stiles encarou todo o grupo, notando o modo como quase todos esperavam, cabisbaixos e lhe encarando encolhidos em seus lugares, por algum sermão seu. O rapaz olhou para Erica, que parecia ser a mais firme de todos. Mas era apenas aparência. A moça não lhe encarava para que pudesse manter a pose de firmeza e não demonstrasse receio no rumo da conversa. A prova disso?! O modo como a loura não abaixava o olhar na página, mantendo-se sempre nos parágrafos iniciais, sinal de que ela apenas observava o livro, não o lia. O conde sorriu ladino antes de se erguer, forçando Scott a se afastar.

— eles estão maltratando vocês, por acaso? – indagou Stiles girando a bengala na mão, admirando a pedra vermelha entre os seus dedos.

— não. Eles não estão bem nos maltratando – ditou Corey vendo o conde menear em compreensão.

— eles apenas não nos tratam – disse Liam cruzando os braços diante do peito.

— explique – ditou Stiles olhando para o louro pelos cantos dos olhos.

— eles simplesmente nos evitam, nos ignoram – respondeu Ethan olhando com seriedade para o alfa do bando.

— somos como estorvos, incômodos, doenças. Sempre que estamos por perto eles se afastam e nem nos olham direito – completou Aiden sabendo muito bem que o irmão havia meneado em concordância com suas palavras.

— somos como o demônio. Quando nos veem só faltam sair correndo com o rabo entre as patas – definiu Erica ainda sem olhar na direção do castanho.

Stiles analisou cada expressão de seus betas. Eles pareciam realmente incomodados com aquilo. Os seus betas possuíam um olhar sério, mas que ainda assim sustentava um ar decepcionado, triste. O conde observou cada um deles tentar controlar o intuito de abaixar a cabeça e suspirou, chamando a atenção deles. Estava óbvio que eles não queriam passar mais um dia naquele território, na presença dos betas do bando Hale. O Stilinski se virou para a mesa com o intuito de observar a direção da porta da biblioteca, se lembrando dos lobos do outro lado da mesma.

— vocês querem ir embora – afirmou o humano dando as costas ao bando e caminhando na direção da porta da varanda.

— sim – responderam em uníssono.

— o mais rápido possível, por favor – pediu Erica fechando o livro e olhando para as costas do conde, esperançosa.

— estou decepcionado – a voz do alfa humano chamou a atenção de todos os ômegas.

— c-com o quê? – perguntou Corey, nervoso.

— com vocês, é claro – respondeu o humano juntando as mãos atrás do corpo, com a bengala apontada para cima atrás de suas costas.

— p-por que conosco? Não fizemos nada! – indagou Liam, receoso e indignado.

— justamente por vocês não terem feito nada! – ralhou Stiles com a voz calma, olhando por sobre os ombros.

— c-como assim? E-eu... Não estou entendendo, mestre! – questionou Isaac, confuso.

— estão dizendo que os betas do bando Hale são covardes e que fogem de vocês com o rabo entre as pernas. Os únicos que vejo correndo com o rabo entre as pernas são vocês! Vocês me dizem que tem força para me defender de qualquer coisa. Juram lealdade a mim e que nunca vão me decepcionar, mas parece que sua força e coragem estava toda em nossa casa – ditou o castanho se virando para os encarar de frente, vendo todo o grupo encolhido em seus lugares.

— francamente... Betas. Estão com o rabo entre as pernas por causa de betas! Que vergonha! – falou negando com a cabeça enquanto o grupo se encolhia ainda mais.

— M-mas – Liam tentou se pronunciar, mas falhou miseravelmente.

— Liam! Você mesmo queria lutar contra o beta mal adestrado dos Hales. Você sozinho é o suficiente para fazer esse bando de lobos inteiro fugir como se o próprio demônio estivesse vindo ceifar suas almas. Mas está aqui, encolhido, só por que alguns idiotas não lhe dizem bom dia?! Só por que não olham para você?! Eu criei você para ser uma garota de bordel? Eu, por acaso, criei todos vocês para que fossem admirados pelos homens? Para quê eu criei vocês? – discursou o conde, sempre com sua voz calma e inalterada, vendo todos eles abaixarem o olhar, envergonhados.

Na mente de cada um dos ômegas, veio a lembrança da primeira vez em que falaram com o rapaz de cabelos castanhos que eles atendiam como seu alfa. Agora, eles começavam a ter raiva deles mesmos. Eles se sentiam covardes, fracos, medíocres, inúteis. Se sentiam desmerecedores do castanho que lhes julgava no momento. As palavras de Stiles ditas no início do treinamento de cada um ecoavam em suas mentes, os fazendo lembrar do motivo de escolherem passar o resto de suas vidas com aquele humilde rapaz jovem de cabelos castanhos e ar de superioridade que despertou a atenção deles na primeira vez em que colocaram os olhos sobre ele.

— nos perdoe. Nós envergonhamos você – pediu Kira e todos se ergueram para se ajoelharem na frente do humano, o reverenciando com a cabeça abaixada e os ombros caídos.

— nos castigue, se assim desejar, mestre. Somos merecedores – disse Allison cerrando o punho em desgosto de si mesma.

— o meu castigo já foi definido. Ficaremos aqui até o casamento. Mesmo que nossa casa fique pronta antes dele – ditou o conde, com o queixo erguido, olhando para todos com um ar de superioridade, o qual só usava quando os seus betas lhe decepcionaram.

— lhe seguiremos aonde for, mestre – disseram em uníssono, ainda ajoelhados.

— ótimo. Agora quero que façam algo – falou vendo todos erguerem a cabeça e direcionando os olhos para si.

— sejam rudes com aqueles que lhe ignorarem – ordenou vendo todos tomarem surpresa nos olhos.

— Eles não querem lhe enxergar, então façam com que eles lhe enxerguem, mas não de qualquer forma. Façam com que vejam do que são capazes. Mostrem que eles devem enxergar vocês para tomarem o cuidado de não mexer com vocês. Lembrem aos betas inúteis que eles precisam de vocês, não o contrário. Nós só precisamos de uma pessoa. Só precisamos de um beta, e nós já temos ele. – ditou Stiles, sorrindo ladino, vendo os seus betas se entreolharem, confusos.

— devemos matar alguém? – questionou Erica vendo o humano negar com a cabeça.

— não. Usem o que quiserem. Força, velocidade, violência, estratégia, formação. Mas façam com que eles temam mexer com vocês. Mostrem que temos força para fazer eles se arrependerem de qualquer coisa antes mesmo de fazerem ela – falou vendo todos sorrirem vitoriosos antes de começarem a gargalhar baixo.

— agora que eu deixo vocês brincarem um pouco, ainda querem ir para casa? – perguntou vendo os ômegas negarem com a cabeça, sorrindo em sua direção.

— ótimo. Porque nossa casa se quer começou a ser construída – disse o Stilinski dando as costas para abrir as portas da varanda, perdendo o momento em que os seus subordinados paravam de rir para deixarem o queixo cair, indignados.