Lance adentrou o quarto do seu amigo e enteado as pressas, fechando a mesma logo em seguida, lançando um sorriso tímido para Corey e Liam, que o encaravam confusos pelo desespero do loiro. Assim que o rapaz de cabelos loiros fechou a porta, os lobos espalhados pelo chão começaram a se espreguiçar e bocejar, se estirando pelo carpete, antes de se erguerem e encararem o loiro. De um em um, todos foram retornando para as suas formas humanya. Derek, que se encontrava deitado na cama, encarou o loiro com uma expressão cansada. Ele não havia dormido muito na noite anterior. Não dormiu como deveria dormir depois de uma noite enchendo a cara.

O motivo?

Bem simples. O moreno de olhos verdes passou grande parte da madrugada deitado em sua cama, refletindo sobre o que havia ocorrido na cozinha. Derek estava animado pelo álcool, na noite anterior, mas não estava louco por causa da bebida. Ele ainda se perguntava como diabos nenhum deles havia notado o cheiro do conde antes de Jackson desferir aquele tapa no castanho. Pois eles não estavam debilitados pelo álcool até aquele ponto. Cada um deles conseguia muito bem captar e distinguir cheiros, mas mesmo assim nenhum deles conseguiu detectar o Stilinski na cozinha.

Mas o que Derek mais remoeu naquela cama foram as palavras “trocadas” com o conde Stilinski. Ele simplesmente desferiu acusações sem fundamento algum contra o adolescente. Derek apenas ignorou toda a gentileza e paciência que o castanho tivera consigo naquele noivado e surtou com a presença do rapaz na cozinha durante a madrugada, despejando acusações e ignorância contra o castanho.

— o que merda vocês fizeram ontem a noite? – questionou o loiro encarando o moreno de olhos verdes, vendo o mesmo lhe fitar questionador.

— como sabe se fiz alguma coisa ou não? – questionou Derek vendo o loiro sorrir irônico.

— porque eu acordo com os meus dois companheiros falando que vão ter um conversa séria com você – respondeu o loiro vendo o amigo lhe fitar surpreso, antes de suspirar e estalar a língua no céu da boca.

— fodeu para alguém – brincou Garret rindo, vendo Jackson rir ao seu lado. Lance os fitou com seriedade, como se os repreendesse pelas risadas.

— estão rindo do quê? Com ele os alfas querem ter uma conversa séria, e vocês terão um castigo no treinamento de hoje – ditou o loiro vendo os outros lhe fitarem incrédulos, enquanto Jackson e Theo gemiam em descontentamento.

— mas eu nem fiz nada – argumentou Mason vendo o loiro sorrir nasalado.

— Talia está tão furiosa que está cogitando em colocar até a própria sombra no castigo do treinamento – falou Lance e Theo se jogou de costas no chão.

— ah, meu Deus! Foi um acidente. O tapa era para ter sido em você – argumentou Theo vendo Vernon ser o primeiro a se colocar de pé e começar a se vestir.

— o problema não foi se o tapa era para ser no Lance ou não. O problema é em quem o tapa foi acertado. Se fosse em algum membro de nosso bando, estaria tudo bem, Talia sempre riu de nossas brincadeiras. Mas foi acertado não só num membro de um bando que acabou de se aliar ao nosso e que não nos conhece direito, como também no alfa. Estamos muito ferrados. Ainda me surpreendo com o fato de aqueles ômegas não terem invadido esse quarto e atacado todo mundo – falou Boyd enquanto se vestia.

— ah. Meu Deus, que problematização toda com um tapinha de nada. Eu, hein. Nós dissemos a ele que foi sem querer e que era para ser em um amigo nosso. Esse conde já está me enchendo o saco. O Derek não pode sair com a gente que já reclamam, não podemos cometer um erro em uma brincadeira besta que vira esse drama todo. Eu, hein! Que saco! – reclamou Jackson, voltando a se deitar no chão.

— já pensou?! Se quando eu noivar for ser assim também, não vai rolar, não – concordou Theo, se arrastando no chão para se deitar ao lado de Jackson, usando a barriga do outro como travesseiro.

— já até imagino o Theo sendo um daqueles velhinhos que vivem em bordéis – brincou Garret encarando os amigos rirem.

— eu queria ser como vocês. Estar ferrado mas com senso de humor – soltou Lance, sorrindo e negando com a cabeça.

— mas é claro que não será assim, Theo. Você não vai estar se casando a força com alguém que nunca se quer lhe viu na vida – falou Derek se levantando e rumando na direção do banheiro do seu quarto. Lance e Vernon suspiraram cansados antes de encararem o resto dos amigos se vestirem.

— estarei esperando lá embaixo. Não tardem a descer ou Talia ficará mais furiosa – disse o loiro antes de sair do quarto.

Assim que todos saíram do quarto, eles encontraram o bando Stilinski ainda parado no corredor. Derek estranhou. Ele jurava que todos já estariam no andar de baixo, juntos do alfa. Mas estavam ali, do mesmo jeito que ficavam quando o alfa estava no quarto. Aquilo só poderia significar que o humano ainda se encontrava em seu quarto. O que era de se estranhar devido ao horário. Já era relativamente tarde para se estar deitado. Será que o conde estava demasiado irritado consigo e se mantinha trancado no quarto? Derek não sabia dizer, e de certa forma não ligava. Ele estava preocupado, sim, com a aliança e por isso devia se preocupar com o emocional do rapaz. Mas mesmo assim Derek não se importava com o motivo do outro se encontrar no quarto. Ele estava demasiado irritado com o fato de não poder mais sair com os amigos do jeito que sempre fizera e gostara. Já Mason e Garret encararam os outros confusos. Jamais haviam visto um bando se comportar daquela forma. Estavam todos muito bem alinhados pelo corredor, quase que distribuídos estrategicamente pelo ambiente.

— o que porra eles estão fazendo ali? – sussurrou Garret vendo um loiro baixinho, Liam, ajustar a gola da camisa branca que usava, antes de voltar a colocar as mãos atrás do corpo.

— guardando o alfa – respondeu Derek, antes de cumprimentar os ômegas e descer as escadas.

— confesso que faz sentido. O alfa deles é um humano. Deve ser um saco proteger esse cara toda hora – falou Mason vendo os amigos rirem do seu comentário.

— já pensou?! Completo absurdo! E como diabos eles brigam? Como se fosse xadrez? Tendo que parar tudo para proteger o próprio alfa? Ridículo! – exclamou Garret ouvindo os amigos sorrirem.

As risadas morreram e o sangue gelou quando Talia e Cláudia adentraram a sala de jantar, vendo todos sentados a mesa. Talia encarou cada um com um olhar fulminante, antes de puxar uma cadeira para se sentar junto dos mais jovens. Derek suspirou e coçou a testa, enquanto Boyd respirava fundo e pedia ajuda aos céus. Lance adentrou a sala de jantar no instante seguinte e encarou a alfa do bando sentada junto do seu grupo de amigos, os encarando com seriedade, enquanto Cláudia se encontrava em pé atrás da morena. O loiro nada disse, apenas tomou uma expressão séria, engoliu em seco e se aproximou. Ele era companheiro de Talia. Teria que se aproximar mais das responsabilidades do bando, mesmo não querendo nada daquilo. Como parceiro dos dois alfas principais, Lance acabaria se tornando um após o casamento.

— qual é... – Talia começou a falar, mas parou no meio do seu discurso, em busca da palavra corretar para ser usada – o problema de vocês? – inquiriu com calma, passando a cruzar as pernas e esperar por uma resposta do grupo a sua frente.

O silêncio reinou.

Eles não sabiam como responder. A maioria estava apenas de cabeça abaixada. Encolhidos em seu acento, apenas aceitavam o sermão e aguardavam a punição dos seus atos. Por mais que se sentissem injustiçados, jamais iriam se opor a Talia. Principalmente uma Talia furiosa.

— estamos aqui, nos esforçando para acolher um bando aliado devidamente. Eu esperava mais de vocês. – pronunciou Cláudia com autoridade e superioridade.

— E você coloca tudo a perder por álcool, Derek? – inquiriu Talia, visivelmente decepcionada.

Derek engoliu em seco. Não podia argumentar contra aquilo. Ele realmente havia arriscado tudo. No entanto, ninguém parecia enxergar o lado dele naquilo tudo. Era sempre o conde, o conde, o conde. Ninguém parecia se importar com ele naquela merda de noivado. Aquilo o irritava profundamente.

— querida – chamou Lance, um tanto temeroso – eu acho que poderíamos... Ouvir o que eles têm a dizer em sua defesa – ditou o louro vendo a companheira lhe fitar com seriedade, antes de suspirar

— está bem. O que têm a dizer? – indagou Talia vendo todo permanecerem em silêncio.

— Vernon? Por que não me diz algo? Você sempre foi bom com as palavras – falou a alfa superior vendo o rapaz coçar a garganta, um pouco sem jeito.

— bom...

— primeiro nos diga o que lhe foi dito – ditou Derek cortando o melhor amigo. Talia encarou o filho com questionamento, erguendo uma das sobrancelhas para o rapaz.

— como é? – desviou o rosto para o filho, para o encarar de frente.

— quero saber o que lhe foi dito para ficar tão furiosa assim – disse Derek vendo a mãe lamber os lábios em um clara tentativa de controlar a própria língua.

— não me fora dito nada. Ele não me disse nada, se esta é a sua preocupação. Eu estava acordada quando tudo aconteceu. Estive observando vocês desde que entraram na mansão – respondeu Talia surpreendendo o grupo com suas palavras.

— por isso estava parada na porta, ontem – murmurou Derek não esperando que a mãe comentasse.

— sim. Exatamente por isso. Entrei no meu quarto quando ele subiu as escadas. Fiquei esperando por vocês para já deixar avisados de que haveria consequências para seus atos – ditou a alfa vendo o filho cerrar os punhos.

— eu não concordo com isso – disse Derek chamando a atenção da mais velha.

— Derek! – Cláudia tentou repreender o sobrinho.

— por que ele tem que me proibir de sair com os meus amigos? – questionou o Hale deixando as duas mulheres confusas.

— quem lhe proibiu de sair com os seus amigos? – inquiriu Cláudia, curiosa.

— o Conde – respondeu Derek, ríspido.

— ele te proibiu? – indagou Talia, curiosa e o filho dera de ombroa

— indiretamente, sim. Já que estava acordada tão tarde, significa que iria me proibir de sair com os meus amigos para beber por causa do conde. Estou errado? – argumentou Derek vendo a mãe sorrir de canto

— não. Não está. Pelo menos não completamente – respondeu a alfa, o deixando confuso.

— como assim? –

— eu iria te proibir, sim. Mas ele nunca proibiu. Nem direta, muito menos indiretamente. Na verdade, fora justamente o contrário. Quando soube que você saiu com os amigos para beber, ontem pela noite, ele confessou estar aliviado que algo pudesse lhe distrair a mente do peso do noivado. Inclusive me pediu para que lhe permitisse sair mais vezes durante essas semanas, caso alguma vez eu tentasse lhe impedir – ditou Talia surpreendendo o filho.

— isso é verdade? – indagou Derek vendo mãe menear positivamente enquanto se erguia.

— sim. Ele até questionou à Alexander e à Talia se havia problema em pedir aquilo para eles. – afirmou Lance vendo o amigo e enteado se perder olhando para o nada.

— não sei o que te fez desconfiar dele, mas, para mim, é imperdoável tratar com tamanho desrespeito quem apenas lhe protegeu desde que chegou aqui – ditou a alfa empurrando a cadeira para a mesa antes de se retirar da sala de jantar.

— por mais que eu não queira te ver passar por algo assim no meio do seu noivado, mas, infelizmente eu compartilho da mesma convicção eu sua mãe – disse Cláudia antes de seguir a amiga e alfa para fora do ambiente

— eu continuo sendo o seu amigo, Derek. E vou continuar sendo. Mas, infelizmente, elas estão certas – falou Lance dando de ombros e se retirando da sala.

O moreno de olhos verdes ficou ali, sentado, apenas olhando para a mesa a sua frente. Fechando os olhos, o Hale suspirou e mordeu o lábio inferior tentando controlar a raiva que sentia. O conde o havia protegido, mais uma vez, e tudo o que ele fizera fora afundar o noivado em mais problemas. Ele se sentia furioso, diminuído, inútil. Sentia raiva de si mesmo. Pois, no fundo, sabia que era isso o que estava sendo. Um inútil. Não estava fazendo nada para que aquele noivado desse certo, apenas estava afundando o mesmo. Para completar tudo, Derek sentiu o cheiro de rosas atingir o seu nariz. Ao abrir os olhos ele viu o conde adentrar a sala de jantar, sendo seguido pelos ômegas. Os betas viram o bando aliado se ajustar diante da mesa e apenas esperar o castanho. Stiles se sentou e passou a se servir, enquanto todos os ômegas se sentavam. Quando o castanho deu uma mordida no pão com creme de queijo que ele mesmo preparou, os betas fitaram os ômegas encararem atentamente o castanho mastigar. Assim que o homem de vermelho engoliu o que continha na boca, foi que os ômegas começaram a se servir.

Eles comiam apreensivos. O clima na mesa estava estranho. Até os ômegas notaram algo errado. Eles encararam os betas e Jackson se engasgou com a comida. Os ômegas estreitaram o olhar e só então perceberam a distância entre o seu alfa e o noivo. Em todas as vezes que comeram juntos, não que tivessem sido muitas, Derek e Stiles se sentaram lado a lado, como as tradições lupinas mandam. Os ômegas se entreolharam, antes de direcionarem os olhares para os betas, curiosos. Os membros do bando Hale, que tentavam não desviar o olhar da comida, tremeram, antes de Jackson olhar para os ômegas.

— ah... Algum problema? – perguntou o loiro vendo os dez membros daquele bando pequeno estreitaram o olhar.

— não – respondeu Lydia, mordendo a sua maçã concentrada no loiro. Eles haviam encontrado o elo fraco.

— por que? Há algo que deveria estar errado? – questionou Aiden colocando o último morango da mesa entre os dentes com metade do mesmo para fora.

— Jackson? – questionou Ethan virando o rosto do irmão para si e envolvendo a outra metade do morango com a boca.

Jackson engoliu em seco. Os gêmeos lhe encaravam com seriedade assim como todos os ômegas. Aiden tinha um olhar predatório para si, enquanto Ethan tinha um olhar sensual, assim como Lydia. O loiro negou com a cabeça enquanto, assustado, desviava o olhar para a comida a sua frente. Os betas puderam ouvir o riso nasalado do conde e o fitaram de canto de olho, enquanto o mesmo levava a xícara de porcelana aos lábios, elegantemente. Ele bebericou um pouco do conteúdo e parou com o objeto a poucos milímetros dos lábios e sorriu divertido, enquanto ainda se mantinha de olhos fechados.

— deixem o rapaz fazer o desjejum dele em paz – disse o castanho tomando mais um gole do chá em mãos antes depositar a xícara na mesa.

Os ômegas encararam o próprio alfa antes de voltarem a dar atenção a suas respectivas comidas, mas ainda assim encaravam os betas ali sentados pelo canto dos olhos. Os betas também encaravam os ômegas pelos cantos dos olhos. O nervosismo dos betas e a desconfiança dos ômegas criavam uma tensão quase palpável, no ambiente.

Derek encarava o castanho com o título de conde comer normalmente, sem se quer abrir um olho. Ele parecia saber onde cada coisa se encaixava naquela grande mesa. Até mesmo pediu, educadamente, para que Vernon lhe passasse o creme de queijo, o que surpreendeu os betas, já que o castanho se quer abriu os olhos para estender a mão e agarrar o recipiente, passando a espalhar o mesmo sobre o biscoito que comeria. O Hale se perguntava se o motivo dos olhos fechados fora a sua atitude rude da noite anterior. Não seria surpresa alguma se a resposta para a sua pergunta fosse positiva. Ele havia errado feio com o seu noivo. Mesmo que não o visse como um parceiro amoroso, Derek deveria o respeitar. O que não ocorreu na noite anterior.

Ele sabia que deveria falar algo. O Hale deveria consertar a merda que havia feito na noite anterior. Aquilo poderia mudar as coisas quanto a aliança e podia muito bem colocar tudo a perder. E Derek não iria aceitar ser aquele que colocou o bando e o nome do mesmo na merda. Ele só não sabia como se manifestar, muito menos ter coragem para isso. O beta se sentia nervoso. A sua garganta parecia ter se fechado e o seu pé parecia pertencer a outra pessoa, já que ele não conseguia parar de bater com o mesmo contra o solo. A sua boca ficava seca com facilidade e o seu corpo parecia achar que estava fazendo uma corrida, já que começava a suar, mesmo não estando com calor.

— sabem o que fazer se um de vocês acabar por último – disse Stiles, ainda de olhos fechados, se levantando e empurrando a cadeira para a mesa, antes de pegar a sua bengala e se virar para sair.

— eu posso falar com você? – perguntou Derek, um tanto desesperado, enquanto via o humano parar e virar a cabeça para, finalmente, abrir os olhos e lhe encarar.

— é claro que pode – respondeu o Conde se virando para encarar o lobo de frente.

— eu... – o moreno de olhos verdes suspirou e se levantou.

Ele se sentia um tanto vulnerável tendo que erguer a cabeça para encarar o castanho. Talvez fosse algo sobre expor o pescoço, coisa muito repreendida entre lobos, pois deixa um ponto vital muito acessível. Derek se aproximou alguns passos, encarando o Conde de frente, tendo que abaixar um pouco a cabeça, enquanto o adolescente a sua frente erguia a sua. O moreno de olhos verdes coçou a barba por fazer, constrangido por ter que pedir desculpas.

— eu quero pedir desculpas pelo ocorrido de ontem a noite. Eu estava um pouco alterado e acabei lhe julgando mal – pediu o Hale vendo o Stilinski lhe fitar sem expressão.

— está tudo bem. Você mesmo disse que estava alterado. E na pilha de nervos em que você se encontra, a explosão foi natural – disse o castanho vendo o outro suspirar aliviado, meneando positivamente enquanto mordia os lábios.

— obrigado. Não irá se repetir – falou o moreno de olhos verdes vendo o rapaz de olhos castanhos sorrir ladino.

— é bom mesmo – disse cutucando o peito do lobo duas vezes, rapidamente, com a pedra de sua bengala, antes de se virar e sair da sala de jantar.

— pelo menos Talia não vai pegar tão pesado com a gente, agora – ditou Theo, aliviado, sorrindo leve para os amigos

— nós poderíamos saber o motivo de sua alfa os castigar que está relacionado ao nosso alfa? – a voz de Kira saiu séria e um pouco grossa devido a sua expressão fechada, assim como a de todos os ômegas.

Theo engoliu em seco, assim como os outros betas, quando a voz da ômega cortou o seu alivio rápida e facilmente, como uma espada. Os três loiros engoliram em seco e olharam receosos para os seres de odor levemente ácido, que indicava a sua classificação, vendo todos lhe fitarem com olhares afiados, até mesmo os três mais novos.

Era possível ver os olhos dos ômegas tomarem cores diferentes nos olhos. Scott e Isaac tinham olhos azuis num tom prateado, enquanto os gêmeos tinham olhos na cor púrpura. Kira tinham olhos laranjas. Enquanto Erica e Liam tinham olhos rosas, Corey tinha os olhos verdes escuros. Para o espanto dos lobos, mas quem mais os assustou fora Lydia. Os olhos da ruiva uma névoa surgiu, antes de cobrir os dois olhos por completo, enquanto os fios ruivos da franja da moça passava a flutuar. Até mesmo Allison, a caçadora, teve a cor dos olhos mudada. As íris da caçadora se tornaram mais castanhas ainda, quase da cor do mel, como se brilhassem ao identificar a sua presa.

— n-não foi nada. Apenas um mal entendido – Mason tratou de esclarecer rapidamente, fazendo os ômegas erguerem as sobrancelhas para si.

— que mal entendido? – questionou Scott antes de ver os betas se levantarem imediatamente.

— olha a hora! A gente está atrasado! – exclamou Garret se virando para a saída da sala de jantar.

Passos rápidos foram ouvidos e logo, para a surpresa do loiro e de seus amigos, um pequeno fio de cabelo moreno surgiu diante de si, antes de se tornar uma cabeleira e logo a imagem de Corey, parado, de braços abertos, impedindo a saída surgiu. O lobo parou surpreso, vendo o ômega baixinho lhe encarar com seriedade.

— foi um mal entendido. Acabamos confundindo o Conde Stilinski com o pretendente de nossos alfas e acabou ficando uma situação constrangedora –explicou Vernon vendo os ômegas estreitarem os olhos.

— hm, ele não mandou ninguém matar um deles ainda, então deve ter sido isso mesmo – argumentou Ethan dando de ombros e logo todos voltaram a comer.

— no entanto, fiquem avisados de algo – disse Isaac chamando a atenção dos betas para si – é melhor nem sonharem em desrespeitar o nosso alfa. As consequências podem ser dolorosas. Muito... Dolorosas – o louro soou ameaçador antes de simplesmente voltar a comer, como se nada tivesse acontecido. Como se ele não houvesse acabado de ameaçar o pequeno grupo de betas.

O bando Stilinski estava sentado apoiado em um das paredes de uma das salas de treinamento do templo do território Hale, encarando alguns betas alinhados e eretos, apenas esperando as ordens. Todos estavam nervosos e um tanto incomodados com a presença do ômegas ali. Talia, Peter, John, Cláudia, Laura, Alexander e um homem negro estavam de pé em frente ao grupo de betas que seriam treinados por eles naquele dia.

— então hoje teremos os tão falados ômegas em nosso treino? – questionou um dos subcomandantes, se aproximando para encarar cada um dos ômegas com um olhar predatório, enquanto os mesnos lhe fitavam questionadores.

— na verdade, Paul, o bando Stilinski só está assistindo. Eles só entrarão nos treinos daqui há alguns dias – respondeu John, encarando o homem não desviar o olhar dos ômegas e sorrir ladino.

— eu não sei, não. Eles não têm cara de que estão a altura de serem nossos aliados – argumentou Paul vendo os ômegas lhe fitarem questionadores.

Stiles somente encarou o homem da cabeça aos pés algumas vezes, antes de segurar um riso e desviar o olhar, simulando um olhar de tédio para tentar disfarçar o riso. Erica e os gêmeos nem se importaram em gargalhar ao verem o alfa colocar a pedra da bengala sobre os lábios, tentando os pressionar para que não se formasse um sorriso em seus lábios. Derek encarou o bando inteiro do castanho rir das palavras de Paul, um dos subcomandantes mais violentos do seu bando, o qual obedecia as ordens de Peter.

— ah, eu amo esse bando Hale! É cada comediante que me aparece – murmurou Lydia cobrindo a face com um leque, escondendo o seu riso.

— Lydia! – exclamou Stiles, numa falsa repreensão.

— está bem, desculpe – disse ruiva vendo o homem lhe fitar furioso.

— então por que vocês não vêm provar o que ômegas sabem fazer? – questionou o lobo batendo no próprio torso algumas vezes, enquanto se afastava um pouco, para dar distância ao outro para o combate começar. No mesmo instante Liam se levantou e começou a caminhar na direção do lobo a frente do seu alfa.

— Liam – repreendeu Stiles, mas Liam tentou avançar mesmo assim. – Liam – repetiu Stiles em um tom de voz mais alto e o loirinho parou. O louro baixinho encarou o alfa um tanto contrariado.

— eu quero bater nele – ditou o loirinho vendo o castanho lhe fitar com seriedade, o que lhe fez engolir em seco.

— terá a sua chance no futuro. Mas agora terá que me obedecer e sentar junto dos outros, como um bom menino – disse o castanho, antes de o loirinho se aproximar para lhe abraçar apertado, utilizando do seu cheiro para se acalmar, antes de ir se sentar ao lado de Erica e Isaac.

— o quê? Não vão fazer nada? Ninguém vem? – inquiriu Paul encarando o bando de ômegas o ignorar.

— Paul! – repreendeu Peter vendo o homem lhe fitar rapidamente, um tanto irritado.

— o quê? – questionou ignorante.

— olhe o respeito com um alfa aliado! Não vai querer meus castigos depois do treino, vai? – indagou loiro vendo Paul estalar a língua.

— às vezes me dá vergonha ver como você age, sabia? – argumentou Lance, em pé ao lado de Derek, chamando a atenção do mesmo, que lhe fitou questionador.

— é o quê? Por que? – perguntou o moreno de olhos verdes encarando o amigo e padrasto.

— não estou querendo lhe forçar a agir como noivo dele, como fizeram antes. Só estou dizendo que, do jeito que age, mesmo se esse casamento não acontecer, nenhuma pessoa iria se casar com você por vontade própria – respondeu o loiro vendo Derek e os amigos lhe fitarem indignados.

— por que diabos você está falando isso? – questionou o Hale vendo o amigo cruzar os braços.

— porque o mínimo que devemos fazer por nossos pretendentes é os defender. Mas o seu próprio bando o ofende e você não faz nada. Nem se quer mexe um músculo. Eu mesmo não me envolveria com alguém que não faz nada por mim – respondeu o loiro voltando a se posicionar de frente para os alfas quando Talia deu sinal de que iria começar o treino.

— é um casamento arranjado, Lance. O Derek nem se acostumou com a ideia ainda e você já quer que ele faça coisas pelo homem? – questionou Jackson, vendo o primo lhe fitar por sobre os ombros.

— exatamente. Jackson. É um casamento arranjado e o conde já fez muita coisa pelo Derek, até conseguiu que Talia e Alexander não o forçassem a agir como um noivo deve agir, até perdoou aquela situação constrangedora na cozinha. Coisa que um alfa só faria engolindo o orgulho. Mas o Derek se quer faz nada, nem mesmo o defende quando o próprio bando confronta o seu pretendente. Nem mesmo a Braeden aceitaria isso – argumentou Lance, vendo o moreno de olhos verdes lhe fitar surpreso.

— ele conseguiu convencer os meus pais? – questionou surpreso.

Ele não levava muita fé na ideia do castanho. Principalmente na parte em que dizia respeito a convencer os seus pais de algo. Talia e Alexander podiam ser bem mente fechada quando queriam. Derek olhou para o castanho, vendo o mesmo encostado a parede, elegantemente, enquanto brincava, distraidamente, com a pedra de sua bengala. Às vezes Stiles parecia tão maturo para a idade, mas as vezes ele parecia ser bem infantil. A prova disso era o beicinho entediado que o castanho fazia ao deslizar o indicador pelo contorno octogonal do rubi em sua bengala.

O treino se iniciou como qualquer outro. Mas eles podiam sentir que, por mais normal que parecesse, aquele treino era diferente. Não no conceito, mas sim no modo de execução. Os alfas e os comandantes estavam exigindo mais dos betas do que o normal. Pareciam desesperados por mostrar alguma evolução, por demonstração de poder. O que deixava os betas um tanto apreensivos. Aquilo não era normal. Seus comandantes não agiam assim. Algo parecia ter os assustado e eles buscavam calma na exibição de poder dos seus betas.

Derek nem precisava das ordens de seus alfas para dar tudo de si naquele treino. Ele sabia o motivo do desespero dos mais velhos e superiores. O Hale se lembrava muito bem de seus pais dizendo que temiam o castanho. Que algo nele os havia deixado temerosos. Por isso ele sabia que eles queriam mostrar poder ao conde. Queriam mostrar que eram aliados desejáveis, fortes. Queriam mostrar que eram os aliados certos para o bando Stilinski. E era por isso que Derek estava tão passivo agressivo naquele treino. Ele mostrava fúria e potencia nos golpes, mas deixava o corpo exalar calma e paz.

Mas havia alguém que se dedicava tanto quanto o moreno de olhos verdes, mas que não exalava calma ou paz alguma. Paul rosnou alto ao jogar o seu parceiro de treino de costas no chão, o arrastar pelo mesmo por um tempo, antes de chutar o parceiro para que este deslizasse na direção do bando de ômegas. O grupo de ômegas apenas lançou um olhar entediado para o corpo que parou próximo deles, antes de erguerem a série de olhares entediados para o lobo agressivo, o que irritava mais ainda o beta. Peter se cotinha para não voar no pescoço do lobo de cabelos ruivos e olhos verdes. Paul poderia estar, sim, revelando poder, como ele queria, mas com o propósito errado.

— Paul – repreendeu Peter, num rosnado, quando o ruivo se ergueu encarando o bando de ômegas com um sorriso vitorioso. Ele sabia o que o seu beta iria fazer.

— é assim que fazemos, fracotes – rosnou o beta apontando para o próprio peito desnudo, enquanto encarava os ômegas se entreolharem, com tédio. Novamente, todos desviaram os olhares entediados na direção de Paul, como se pedissem por algo que realmente os impressionasse. Aquilo fazia o sangue do beta ferver.

— eu posso agora? – questionou Liam olhando para o beta, que lhe fitava ansioso.

— ainda não – respondeu Stiles, com a mesma expressão de tédio dos seus ômegas.

— qual é o problema de vocês? Obedecendo a um humano? São a escória da espécie. Lugar de humano não é em um bando. Muito menos no comando de um. Era só o que faltava. Ômegas que renegam alfas mas abaixam a cabeça para um humano – ditou Paul, provocativo e Isaac gargalhou.

— você não conhece a nossa espécie – disse o loiro e os ômegas sorriram vitoriosos.

— Paul, eu não vou falar de novo – ditou Peter, encarando o beta, suado, voltar a encarar o parceiro, que se levantou com certa dor.

O treino voltou a ocorrer normalmente quando Paul se calou e voltou q treinar. Peter cortava qualquer chance que o seu beta tinha de provocar o bando aliado. Depois de duas horas de treino, eis que Peter vacilou no controle do seu subalterno. O homem, ao ver o parceiro exausto, pediu uma troca de parceiro de treinamento ao comandante. Peter ordenou que ele escolhesse qualquer um que aceitasse. O ruivo sorriu ladino e, imediatamente se virou para o bando aliado. Só então que Peter notou o seu erro.

— vamos ver se atacando o seu alfa eu consigo arrancar alguma reação de vocês – falou avançando contra o castanho de bengala.

Stiles apenas lhe encarou com tédio enquanto ainda brincava com a pedra vermelha. No mesmo instante os ômegas se ergueram de pronto. O lobo já preparava o punho para golpear o humano.

Talia, Alexander, Peter, John, Claudia, Laura e o homem negro ao seu lado, o qual Stiles descobriu se tratar do pai de Vernon, melhor amigo do seu noivo, se desesperaram para avançar contra o beta e o parar antes que ferisse o castanho. Mas, para a surpresa de todos, o corpo de Paul voou ao receber um chute na lateral do torso, o jogando contra a parede. Stiles ergueu a sobrancelha ao ver o moreno de olhos verdes voltar a avançar contra Paul, apertando firmemente a mão ao redor do pescoço do homem, enquanto a outra tinha as garras voltadas para um dos rins do mesmo.

— acho melhor você parar agora, ou a coisa pode ficar feia para o seu lado – rosnou Derek encarando o mais velho lhe fitar pelo canto de olho.

— não esperava que você fosse aceitar essa infiltração de impuros em nosso pack, Derek – ditou o homem sorrindo ladino. Derek rosnou mais alto, apertando ainda mais a sua mão no pescoço do ruivo.

— é bom você deixar de gracinha, Paul. Eu não vou tolerar alguma coisa do tipo outra vez – disse o Hale empurrando mais o outro contra parede, antes de o soltar e se afastar.

Paul se desgrudou da parede, furioso, antes de se virar para o filho de seus alfas, vendo o mesmo lhe fitar irritado. Stiles caminhou lenta e elegantemente até o ruivo, que lhe fitava com um sorriso nos lábios. Ele se deleitava com o cheiro de raiva que era exalado pelo corpo que cheirava a rosas. O lobo ruivo iria se manifestar, quando o castanho o calou com um golpe da bengala em sua face, lhe fazendo girar o corpo para o lado, devido a força do golpe. Os betas soltaram um som de espanto, enquanto viam o castanho girar a bengala na mão, antes de apoiar o peso do corpo na mesma. Paul levou a mão a boca, limpando o sangue que escorria por seus lábios.

— como ousa me... – o ruivo fora calado por outro golpe da bengala de madeira em seu queixo, o que lhe forçou a girar o rosto para o outro lado.

— posso ter respeito por seus alfas e por todos os membros do bando ao qual pertence. Mas ouse encostar em mim mais uma vez e eu não vou pensar duas vezes antes de colocar um fim em sua vida. Mesmo que isso cause um desentendimento entre os nossos bandos – falou o castanho com seriedade e frieza, antes de se virar para encarar os alfas do bando Hale e os comandantes, vendo todos surpresos por sua atitude. Ele sempre se mostrou tão calmo e tão pouco violento. Mas ali estava ele, agredindo um lobisomem com apenas a sua bengala como arma.

— peço desculpas pelo meu ato para com o seu beta. Mas se há algo que eu não tolero de jeito algum são afrontas desse tipo – disse o castanho cumprimentando os lobos com uma reverencia pequena, antes de caminhar até os seus ômegas.

Derek encarou, surpreso, o noivo se aproximar da parede e voltar a se recostar a mesma, antes de levar a mão até a pedra vermelha de sua bengala, voltando a deslizar o dedo pela pedra vermelha com certa fascinação.