The Daughter Of The Sun
1 Raphaella
Notas iniciais
New York; Upper Manhattan; terça-feira; 7:48 da manhã;
Eu entrei na cozinha de minha casa, e vi minha mãe sentada a mesa, comendo panquecas com manteiga e mel. Do jeito que nós duas gostávamos. E a minha mãe dizia que conhecera o meu pai comendo panquecas, em uma cafeteria. Mas eu não via o meu pai desde... Na verdade, eu nunca vi o meu pai. Minha mãe costumava dizer que ele era um ótimo homem. Uma pessoa maravilhosa, e que viveram um amor intenso, mas que ele teve de nos abandonar por causa do trabalho. Que tipo de pai era aquele? Poxa, abandonar a família por causa do trabalho, é muito cruel. Minha mãe dissera que ele me amava mais do que tudo, e mais do que seus outros filhos. Ou seja, ele tinha outros filhos. Ele tinha outra família? Minha mãe tinha certeza de que ele se foi por causa do trabalho, e não de outra família? Não sabia porquê, mas eu sentia ciúmes desses outros irmãos. Não tinha razão para os ciúmes. Nunca nem vi meu pai. Ok, pensei, nada de ciúmes, Raphaella! Você nem conhece o velho. Bom, a minha mãe parece que ainda gosta dele. Ela me faz usar um colar estúpido de sol que ele deixou para ela. Ela me deu e disse para mim usar, e para, no caso de eu estar em perigo, algum dia, um perigo bem estranho, eu jogar ele para cima. Vai entender.
Sentei-me ao lado de minha mãe e comecei a comer com ela. O silêncio reinava no lugar. Nós duas estávamos comendo, mas não conversando, como normalmente fazíamos. Tínhamos uma boa relação mãe-e-filha. Mas tudo se manteve em silêncio. Quando terminei o meu café, levantei-me e peguei minha mochila, perto da porta, e saí de casa. Desci as escadas e fui até a portaria do prédio onde eu morava. Saí do edifício a chamei o primeiro táxi que passou. Dei endereço de minha escola, e o taxista seguiu para onde falei.
New York; Carnegie Hill; terça-feira; 7:57 da manhã;
Era apenas impressão minha ou o tempo realmente não passava? Eu, sem dúvida, não queria ficar sentada em uma cadeira com uma mesa na minha frente esperando o tempo passar. Tinha que me mexer. Olhava para o meu relógio pelo menos 3 vezes a cada minuto, pegava meu lápis e desenhava de tudo, escrevia, cheguei até a quebrar o lápis para passar o tempo. Contava os segundos para o fim da aula. Sabia em que segundo do minuto o sinal tocaria, e estava esperando por aquilo. Observei o relógio e notei que faltavam sete segundos para o fim da aula. Sete segundos para que eu voltasse a andar, a correr, a viver. Simplesmente não poderia ficar parada mais nenhum minuto. Contei mentalmente “5... 4... 3... 2...”
TRIIIIIIIIIIIM
Aleluia. Achei que aquilo não iria mais acontecer. “Deus me livre dessas aulas”, pensei. Lembrei-me que em cinco minutos teria de estar no refeitório, e depois teria a aula de história. Sabe, das aulas de história, eu gostava. Especialmente porque quase todas as aulas, o professor desviava um pouco o assunto e começava a falar sobre mitologia grega. Eu gostava da mitologia grega. Outra coisa que se você me perguntasse, eu não saberia explicar. Fui até o meu armário e peguei uns cookies que minha mãe fazia. Encontrei Joanne no armário ao lado do meu, como de costume.
Eu: Oi, Joanne.
Joanne: Ah, oi, Rapha. E aí? Como foi a aula?
Eu: Ah, normal. Chato, sabe? Insuportável. Como sempre. Mas feliz, porque a próxima aula de história.
Joanne: Claro. A ÚNICA aula que Raphaella Harmon pode gostar é a de história. Menina, por que você é tão fixada em mitologia grega? Dá um tempo, velho.
Eu: Não sei, Joanne. Isso sempre me chamou a atenção... Sei lá. Só é interessante.
Joanne: Tá bom. Vamos?
Eu: Claro.
Fomos para o refeitório, onde sentamos na mesma mesa de sempre, onde ficávamos sozinhas, porque todos os alunos nos odiavam. Ficamos comendo e conversando, como normalmente fazíamos. Até que Katherine Barton chegou.
Katherine: Ora, ora, ora. Veja só quem nós encontramos aqui. A loira estranha e a morena desengonçada.
Respirei fundo e revirei os olhos. Não que eu não pudesse, mas algo me dizia que eu não deveria dar uma rasteira nela e pisar no pescoço dela até ela sufocar.
Eu: O que você quer, Barton?
Katherine: A mesma coisa de todos os dias! Sentar com minhas amigas: Raphaella e Joanne! Então, o que está rolando? Ah, olhe só ,Rapha, eu consegui um folheto explicando como curar a sua doença!
Katherine tirou da bolsa Prada ridícula dela um folheto, cuja capa dizia MOCO RACRU UAS NRIXEAOA. Depois de ficar alguns minutos estudando a capa, cheguei a conclusão de que dizia COMO CURAR SUA ANOREXIA.
Eu: Esse folheto é para anorexia. Eu tenho dislexia, não que você tenha cérebro o suficiente para distinguir uma da outra.
Ela estreitou os olhos.
Katherine: Pelo menos, eu posso ler um livro. Por horas e horas.
Eu: Ah! Não sei como! Tchau, Barton!
Ela mostrou a língua, se levantou e saiu andando de volta para a sua mesa com suas capangas feiosas. Quando o sinal tocou, Joanne e eu fomos correndo para os armários pegar os livros de história. Caminhamos até a sala 14, onde tínhamos aula de história, quase diariamente. Entramos na sala, sentamos nas carteiras (a vá?) e esperamos o professor entrar. De repente, surgiu uma figura inesperada na porta. Uma mulher velha, cerca de 50 a 65 anos, que usava um cardigã meio sem cor, uma camisa por baixo e uma longa, LONGA, saia preta entrou na sala . Tinha me esquecido de que o nosso professor estava fora, fazendo Deus sabe o quê, e essa velha bruxa que me odiava mortalmente estava conosco. E a vaca da Joanne nem me lembrou. Felizmente, ela só falava sobre a mitologia grega. Tudo na vida tem seu lado bom, né? Não. Descobri isso em questão de minutos.
Bufei e fiz a minha melhor cara de tédio-raiva.
Eu: Sra. Dodds.
Sra. D: Olá para você também, Raphaella Harmon.
A Sra. Dodds entrou na sala e largou as coisas dela em cima da mesa, começou a falar palavras legais que, não sei porquê, na boca dela, ficavam chatas. O tempo passava ainda mais devagar do que na aula de matemática. Impressionante. Depois de cerca de quatro horas, olhei para o meu relógio e vi que faltavam cinco minuto para a aula acabar. Assim que levantei a cabeça, a Sra. Dodds também olhou para o relógio dela e viu as horas, também. E fez um anúncio que eu, assim como todos, eu acho, estranhei.
Sra. D: Bom, classe, hoje eu gostaria de pedir que vocês saíssem mais cedo. Podem sair.
Fiquei feliz. Adorei a ideia de sair correndo da aula dela. Guardei os meus materiais, mas, como eu sento no fundo, eu e a Joanne demoramos um pouco mais para sair. Quando eu estava com a mochila nas costas e quase na porta, minha felicidade foi interrompida.
Sra. D: Você não, Harmon.
Bufei, bati o pé, dei meia volta e andei até a professora.
Eu: O que foi, Sra. Dodds?
Sra. D: Espere até todos saírem.
Joguei minha cabeça pra trás e fiquei observando as pessoas enquanto elas saíam da sala. Quando todos se foram, me voltei para a Sra. Dodds.
Eu: Cadê?
Ela franziu o cenho
Sra. D: O quê?
Eu: A suspensão que você vai me dar por ter te atrapalhado na aula, mesmo não tendo feito nada.
Sra. D: Harmon, eu não te dou suspensões por não ter feito nada. Você realmente me atrapalha. Mas não como professora.
Ah, ela mudou. Não sei como, mas mudou. As suas roupas se rasgaram e ela ficou parecendo um monstro, tipo assim, um cérebro com asas de couro e uma pele nojenta, escamosa, e... Argh! É uma coisa indescritível. E horrível. Me lembrei do segundo ano, quando uma coisa com um olho só estudou na minha sala. E quando eu tinha quatorze anos, e uma mulher que tinha asas e garras tentou me devorar. Horrível, porém não pior do que agora.
Sra. D: Na verdade, Harmon, me chamo Alectó. Sou a Fúria, serva de Hades e vim buscar o que pertence ao meu Senhor.
Tentei correr, mas a coisa me agarrou com as suas garras nojentas e assustadoras. Eu não sabia o que fazer. Será que eu ia morrer agora?
Sra. D: ONDE ESTÁ?
Eu: ONDE ESTÁ O QUE? EU NÃO SEI DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO, ALECTÓ! JURO!
Sra. D: DIGA LOGO, MENINA, OU AS COISAS SERÃO PIORES PRA VOCÊ.
Me lembrei de que aquele era um perigo beeem estranho. Será que é desse tipo de perigo que a mamãe estava falando quando me deu o colar?
Enfiei os dedos nos olhos da coisa e quando ela se afastou, dei um chute nela, que caiu no chão. Enquanto ela se recuperava, peguei o colar, joguei para cima e quando o vi caindo no chão, não era mais um colar. Na verdade, era um arco e uma flecha. Obrigada mesmo, papai, por dar um arco e uma flecha para a sua filha que nunca viu um arco e uma flecha de verdade na vida, usar no momento mais estranho e perigoso pelo qual ela já passou. Peguei o arco e a flecha, juntei os dois (pelo menos ajeitar a bagaça eu sabia fazer), e vi Alectó voltando em minha direção. Fechei os olhos e virei a cabeça, esperando a morte, e soltei a flecha. Quando abri os olhos, me perguntando se já havia morrido, virei a cabeça para ver como era o céu, mas tudo o que vi, foi pó. Puro pó. Nem mesmo Alectó estava lá. Ou será que ela era o pó? Sei que a minha flecha estava no meio daquele pó. Peguei-a e me perguntei o que estava acontecendo. Será que aquilo era apenas um sonho?
Surgiu na porta uma figura com cabelos grisalhos cortados no estilo militar, um pequeno bigode preto, que me lembrava Freddie Mercury, um paletó preto, uma camisa azul de seda e uma gravata vermelha xadrez. Era o Sr. Edwards, meu professor de história, sabia bem. Mas Rapha, e a descrição da calça? Oh, sim. Não me deixe esquecer a calça. Foi o que mais me chamou a atenção. As calças eram muito peludas e marrons e os sapatos eram... cascos? Sim, os sapatos eram cascos. E, na verdade, acho que as calças eram as pernas dele. Mas...
Eu: Hã, Sr. Edwards? O que aconteceu com você? Por que não veio mais nos dar aula e... Por que suas pernas são peludas e seus pés são cascos?
O Sr. E. examinou a cena e o monte de pó que estava no chão.
Sr. E: Querida, o que aconteceu aqui? O que era esse monte de pó, antes de ser pó?
Eu: A coisa me disse que era uma Fúria, seja lá o que isso for, e quando a flecha chegou nela, ela virou esse pó aí, mas... O que aconteceu? E por que você é metade boi-peludo?
Sr. E: Na verdade, sou metade bode. Sou um sátiro. Agora, venha. Vou te levar para um lugar seguro. Você tem roupas? Claro que não, George. Por que a menina iria trazer roupas para a escola? Vamos rápido, querida.
Eu não hesitei. Se aquela coisa, Fúria, cérebro, sei lá o que era, poderia me atacar, eu precisava imediatamente ir para algum lugar seguro. Segui ele até o estacionamento da escola, entramos ambos no carro dele e fomos seguindo até onde aparentaria ser Long Island. Já havia ido para lá, e conhecia o caminho. Sabia onde estávamos indo. Fiquei em silêncio o caminho quase todo. Estava muito em choque para falar. Mas tinha tantas perguntas a fazer...
Eu: Sr. Edwards, o que era aquilo e o que queria comigo?
Sr. E: As três Fúr... as três Benevolventes são servas de Hades, Senhor dos Mortos, já ouviu falar? Claro que já. Eu sempre falo dele nas aulas.
Eu: E, você é um sátiro mesmo? Tipo, meio homem, meio bode? Que nem aqueles sobre os quais você falava nas suas aulas?
Sr. E: Sou sim.
Eu: E onde nós estamos indo?
Sr. E: Para o único lugar seguro para pessoas como você.
Eu: Pessoas como eu? Eu sou diferente?
Sr. E: Meio-sanges. Você é um meio-sangue.
Eu: E o que é um meio-sangue?
Sr. E: Quem tem sangue meio humano, meio deus.
Eu: Deus? Tipo, Deus existe?
Sr. E: Deus, tipo deus grego.
Eu: Como Zeus, Hera e Poseidon?
Sr. E: Ah, sim.
Eu: E como o meu sangue pode ser meio deus?
Sr. E: Você é filha de um deus.
Eu: Mas, eu? Eu sou filha de um deus?
Sr. E: Di immortales, menina, você faz perguntas demais!
Eu: Olhe, eu ainda tenho muito mais perguntas a fazer. Por exemplo, eu ainda não entendi pra onde nós vamos.
Sr. E: Para o Acampamento Meio-Sangue.
Eu: Eu posso avisar a minha mãe que eu estou indo? Tipo, você tem um celular para me emprestar?
Sr. E: Celulares são ímãs de monstros. Você quer outro monstro hoje?
Eu: Não.
Sr. E: Então, nada de celulares.
Eu: E Joanne?
Sr. E: Joanne não pode saber para onde você foi. Sabe, Harmon, quando eu entrei na sua sala, senti um forte cheiro de semideus. Mas, maior do que o normal. Você irradia poder. Poder demais, pra apenas uma semideusa. Você deve ser perigosa, Harmon. Por isso, precisamos te levar para o Acampamento Meio-Sangue, para você treinar e aprender a controlar os seus poderes.
Eu: Eu tenho poderes?
Sr. E: Sim, claro. Todo semideus tem os seus poderes. Porém, os poderes variam de acordo com o parente divino. Por exemplo, os filhos de Atena, deusa da sabedoria, são muito inteligentes e sábios, como a mãe, e tem planos inteligentes para os seus futuros. Annabeth, uma filha de Atena, do Acampamento, quer ser uma arquiteta. Outro exemplo são os filhos de Hefesto, deus dos ferreiros e do fogo. Eles levam muito jeito com ferramentas, e alguns, muito poucos, isso é muito raro, nascem com a habilidade de manipular o fogo.
Eu: E qual deus é meu pai? Porque, a minha mãe eu já conheço.
Sr. E: Eu não sei. Você ainda é indeterminada, Harmon. Agora, chega de perguntas.
Seguimos em silêncio pelo resto do caminho. Enquanto o Sr. Edwards ia dirigindo, eu tentava decifrar o que estava acontecendo. Uau. Um deus é meu pai? Por isso eu fui abandonada. Olha o trabalho dele, ser um deus. Quer saber? Ainda assim não é desculpa. Ele é um deus, pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, e podia ter estado comigo na minha infância. Podia ter sustentado a mim e a minha mãe enquanto nós passávamos fome porque ela havia perdido o emprego. Podia, pelo menos, ter me protegido daquela maldita Fúria, daquele maldito ciclope do segundo ano, daquele maldito monstro galinha que tentou me pegar enquanto eu estava no 9º ano e de todos os malditos monstros que me perseguiram a minha vida toda! E ainda tinha que ter ido embora e deixado a minha mãe me criar sozinha, né, pai? Claro, um ser divino que pode estar em diversos lugares ao mesmo tempo não pode ficar casado com uma simples nova-iorquina e ajudar ela a criar a sua filha, enquanto ela tem uma falsa esperança de que ele ainda vai voltar pra ela! Obrigado, pai, por ter proporcionado a mim e a minha mãe, vidas tão maravilhosas nos últimos dezessete anos. Quando chegamos em Long Island, ele virou o carro e começou a subir uma colina.
Sr. E: Bem vinda a Colina Meio-Sange.
Ele parou o carro.
Eu: Eu vou ter que subir tudo isso a pé?
Sr. E: Nós vamos.
Bufei. Nunca fui boa em escalada, e eu duvidava que ia ser agora que eu ia ficar boa.
Subimos a maldita colina, passamos por um pinheiro com um dragão meio assustador enrolado nele, e eu vi um acampamento enorme cheio de gente. Mas algumas pessoas de lá eram bem estranhas. Sátiros, por exemplo. Vi meninas que viravam árvores, campos de morango, crianças jogando vôlei com camisetas laranjas que diziam “Acampamento Meio-Sangue”, e vi uma praia. Bem louco, não? Sim. Bem louco. Fomos seguindo em direção a algumas casas que estavam lá. Vi doze casinhas, dispostas em formato de U.
Eu: E eu vou morar aqui?
Sr. E: Sim.
Eu: Em qual dessas casinhas?
Sr. E: No chalé 11, de Hermes. É lá que todos os indeterminados ficam, até serem reclamados. Mas antes, precisamos ir falar com Quíron.
Arregalei os olhos.
Eu: Quíron, tipo, o centauro? Aquele que treinou Héracles, Ajax, Enéas, Actéon, Ceneu, Teseu, Aquiles, Jasão...
Sr. E: Sim, esse Quíron.
Eu: Isso está ficando cada vez mais estranho.
Andamos até uma grande casa azul que me lembrava bastante a Grécia antiga. Na varanda de lá, havia um homem com longos cabelos encaracolados e uma barba bem aparada, sentado em uma cadeira de rodas.
Sr. E: Quíron!
E o homem olhou para nós.
Não, não era possível aquele ser Quíron. Não o meu Quíron. Não o Quíron certo. Quíron é um centauro. CEN-TAU-RO. Tem uma bunda enorme de cavalo. Isso é um centauro.
Quíron: Olá, George. Essa é a bela jovem de quem você me falou?
Sr. E: Oh, sim. Seu nome é Raphaella Harmon. Diga oi à Quíron, Harmon.
Eu: Érr, olá, Quíron. Pode me chamar de Rapha.
Quíron: Ah, claro. Rapha. É um apelido adorável.
Eu: Hã, me desculpe mas... Você não deveria ter...
Quíron: Uma bunda de cavalo?
Assenti.
Quíron: Bom, na verdade, esta é uma cadeira de rodas mágica. Serve para esconder a minha parte equina.
Eu: Ah.
Sr. E: Bom, eu vou indo.
E o meu professor de história/sátiro se foi.
Eu: Então, onde exatamente é aqui?
Quíron: O Acampamento Meio-Sangue. Um refúgio, o único lugar seguro no mundo para semideuses, como você.
Eu: E... Você já sabe quem é meu pai?
Quíron: Sinto muito, querida, mas não. Por enquanto, você ficar no chalé 11, de Hermes, junto com os filhos de Hermes e os outros indeterminados. Porém, logo você será reclamada.
Observei meus cachos castanhos caídos nos ombros. Á luz do sol, pareciam ruivos, o que os deixavam ainda mais bonitos. Respirei fundo, pois vi que protestando, não iria chegar a lugar nenhum.
Eu: Ok, né?
Fomos andando até estar de volta naqueles chalés em forma de U.
Quíron: Chalé 11, querida.
Eu: Claro.
E me virei para ver os outros chalés. Quando me voltei para Quíron, ele já havia ido embora. Voltei a olhar para os chalés e um, em especial, me chamou a atenção. O chalé 3. Imaginei que seria proibido, mas, assim mesmo, entrei nele.
Era... empoeirado. Apenas um chalé bagunçado e empoeirado. Papéis de bala estavam no chão. De salgadinhos também. Vi algumas roupas jogadas no chão, um escudo pendurado na parede e uma caneta. Pensei em anotar um recado para os membros daquele chalé vazio limparem o lugar, pois estava uma tristeza. Peguei a caneta e quando a destampei... Uou. A caneta já não era mais uma caneta. Era uma espada de um material que parecia bronze, de 90 centímetros. Um menino um pouco maior que eu, bonitinho, fortinho de cabelos pretos bagunçados, olhos verdes, um colar de contas, bermuda e a camiseta laranja do Acampamento apareceu e correu na minha direção.
Xx: Opa – disse ele tirando a espada e a caneta da minha mão -, melhor não. Essa é minha espada, Contracorrente. Você é nova por aqui?
Eu: Hã, sim. Eu cheguei há... uns 10 minutos? Por aí.
Xx: Novata sim. Oi, eu sou Percy Jackson – Ele estendeu a mão para mim.
Eu: Raphaella Harmon. Pode me chamar de Rapha. – Apertei a mão dele.
Percy: Oi, Rapha. Normal ou indeterminada?
Eu: Indeterminada. Só sei que o meu pai é um idiota.
Percy: Grande parte dos olimpianos são. Acredite, falo por experiência própria.
Eu: Eu acredito. Eu sei que eles são. Enfim, quem é seu pai ou mãe?
Percy: Poseidon.
Eu: Olha, um filho de um dos Três Grandes. Legal! Você... Sei lá... Tem poderes?
Percy: Alguns. Posso controlar o mar, causar terremotos, respiro de baixo d’água... Essas coisas de filhos de Poseidon.
Eu: Sei... Os poderes mais legais.
Percy: É... Mais ou menos. Bom, já que você ainda é indeterminada, imagino que deva ir para o chalé de Hermes.
Eu: Sim, eu deveria. Mas... Não sei. Esse chalé me chamou a atenção, eu... simplesmente quis entrar aqui.
Percy: Talvez você seja filha de Poseidon, como eu. Na minha primeira vez aqui, eu também quis entrar nesse chalé. Deve ser por causa do cheiro do oceano. Eu sempre gostei desse cheiro.
Eu: Sabe que eu também? Sei lá... Esse cheiro sempre me tranquilizou.
Percy: E deixou seus pensamentos claros?
Eu: Sim. Em qualquer praia, em um dia de sol, eu consigo pensar melhor. Vai entender. Se aparecer uma nuvem no céu, por menor que seja, eu volto ao normal.
Percy: Eu também sou assim. É, existe uma possibilidade de nós sermos irmãos, ambos filhos de Poseidon.
Eu: É, ah não ser que sua mãe se chame Patricia Harmon. Nesse caso, podemos ser irmãos sem ser filhos de Poseidon.
Não sei porquê, mas eu meio que não fiquei muito animada quando ele falou que poderíamos ser irmãos. Eu, meio que senti um negócio estranho. A palavra certa era decepcionada. Por quê?, pensei, Conheci ele há dois minutos! Ai, controle-se Raphaella!
Eu: Bom... Então será que você pode me explicar como rolam as coisas por aqui? Tipo, é um acampamento de verão, certo?
Percy: Certo, mas alguns campistas ficam aqui o ano todo. Você vai poder escolher. Uns ficam o ano todo e outros vão embora e ficam aqui apenas no verão, como eu e Anna...
Eu: Anna quem?
Percy: Um campista. Você ainda não a conhece, acho. Se chama Annabeth.
Eu: Realmente não conheço, mas já ouvi falar. Nome interessante. Bonito. Annabeth. Quando tiver uma filha...
Percy: Se sobreviver até lá.
Aquilo não era nada legal de ouvir. Se sobreviver até lá, ou seja, provavelmente, até você ter a idade, já estará morta.
Eu: Se eu sobreviver até lá, vou chamar minha filha de Annabeth. Quem é o parente divino dela?
Percy: Atena.
Eu: Ah, uma filha do pensamento.
Percy: É. Como você conhece tanto os deuses e essas histórias gregas?
Eu: Sempre fui fissurada em mitologia grega. Não sei descrever. É como se algo me dissesse: Estude isso. Você vai precisar aplicar essas coisas na sua vida futura. Bom, agora eu sei onde eu vou aplicar isso. Isso é minha vida. Minha família. E eu também sempre tive instintos do que fazer no presente para que o futuro fosse bom. Novamente, como se algo me dissesse: Não faça isso. Faça aquilo. Aquilo vai fazer bem para você, no futuro, mesmo que agora não pareça. Isso acontece direto. Sempre aconteceu.
Percy: Érr, não sei explicar. Deve ser um dos seus poderes. Aliás, belo colar.
Que colar?, pensei. Quando coloquei a mão no meu pescoço, vi que o meu colar estava de volta. Não sei, não achei que era a hora de contar para ele que aquele colar era um arco. Mesmo que ele conhecesse a história, afinal, a espada dele era uma caneta.
Eu: Obrigada. Minha mãe me deu, depois que ela ganhou.
Percy: Ah, legal. Espera, você tinha pedido pra mim te explicar como funcionam as coisas, não é?
Eu: Acho... acho que sim. Sei lá, a gente foi mudando de assunto...
Percy: É, e foi ficando interessante...
Eu: É. Mas... Enfim... Como são os treinamentos? Tem aulas aqui? Vocês falam grego? Aliás, por que eu sou disléxica? Por que eu tenho TDAH?
Percy: Ás vezes tem jogos de guerra; temos aulas de várias “coisas gregas” como esgrima; falamos um pouco de grego; você é disléxica porque o seu cérebro está programado para o grego antigo, ou seja, quando você aprender a falar grego, vai ler com facilidade, em grego, claro; e você tem TDAH, porque são os seus instintos do campo de batalha.
Eu: Ah, obrigada, Percy. Agora, eu só tenho mais umas mil perguntas.
Percy: Continue perguntando. Posso saber grande parte das respostas.
Eu: Ok. Primeiro de tudo: quem raios é o olimpiano estúpido que é meu Pai?
Percy: Bom, vamos analisar as estatísticas. Você tem instintos do que fazer no presente para melhorar o futuro, o que parece com filhos de Apolo. Apolo é o deus do oráculo, das profecias, então, alguns de seus filhos nascem com isso de ver o futuro, tentar ajudar no presente, tentar ter um futuro melhor, mas o futuro é inevitável. Mas, você também disse que em uma praia, perto do oceano, seus pensamentos ficam mais claros, o que é uma coisa bem filha-de-poseidonsada. Vamos ver... Você é persuasiva?
Eu: Não. Nem um pouco.
Percy: Tem... sei lá... uma queda por viagens?
Eu: Não.
Percy: Facilidade para roubar coisas?
Eu: Não. Não tenho nem coragem para roubar coisas, muito menos facilidade.
Percy: Então, já podemos eliminar a opção filha de Hermes. Você tem queda por guerras? Por vingança?
Eu: Por guerras, sim. Por vingança, não, mas odeio injustiça.
Percy: Então, você pode ser filha de Ares.
Eu: Nós vamos ficar fazendo essas perguntinhas para tentar descobrir quem é meu pai?
Percy: Até seu pai te reclamar, é o jeito mais fácil de criarmos uma suspeita.
Eu: Ótimo. Tô com fome. Quando é o jantar?
Percy: Á noite.
Eu: E tem um ritual de homenagem aos deuses, ou coisa assim?
Percy: Bom, tem. Você tem que pegar a melhor carne, o melhor pão, as melhores frutas, o que tiver de melhor no seu prato, e fazer uma oferenda aos deuses. Eles gostam do cheiro.
Eu: Uau. Legal. Deve ser ótimo o cheiro de pão queimado junto com carne queimada e frutas queimadas.
Ele riu.
Percy: Eu também pensava assim. Mas o cheiro é bem bom.
Eu: Imagino. Deve cheirar como pizza estragada. Que delícia.
Ele riu de novo.
Percy: Gostei de você, Rapha. Você é engraçada. Deveríamos andar juntos.
Eu: Não tem nenhum problema em andarmos juntos.
Percy: Ótimo. Então, acho melhor você ir para o seu chalé, sabe, conhecer o lugar. Conhecer os seus colegas de chalé.
Eu: Mas nós já não chegamos a conclusão de que eu não sou filha de Hermes?
Percy: Sim, mas ainda não sabemos quem é o seu pai. Sinto muito, Rapha, mas você vai ter que dormir lá.
Pensei em dormir em algum chalé vazio. Pensei que como Hera é a deusa do casamento, não deve ter filhos semideuses.
Eu: Hera tem chalé aqui?
Percy: Tem. Os doze olimpianos tem.
Eu: E alguém mora lá?
Ele olhou para fora como se quisesse ter certeza da resposta antes de falar.
Percy: Não.
Eu: Então, vai ter algum problema se eu dormir lá? Tipo, até eu ser reclamada? Porque, vamos encarar a realidade, já estou até vendo. O chalé de Hermes é uma bagunça, cheio de garotos suados e esquisitos que devem roubar tudo o que podem e pregar peças em todos.
Percy: É, ser filha de Apolo é uma possibilidade que não deve ser descartada.
Eu: Vou dormir no chalé de Hera. Qual é o número?
Percy: Chalé 2. Mas, eu não recomendo você a fazer isso. E se alguém perguntar...
Eu: Você não sabia de nada, você não me recomendou nada, você não viu nada.
Percy piscou para mim.
Eu: Aliás, uma última pergunta.
Percy: Diga.
Eu: Percy... Perseu?
Percy: Isso mesmo.
Eu: Valeu, Percy, pela ajuda.
Saí do chalé 3, fui até o chalé 11 e conheci as pessoas que iam ficar comigo. Os conselheiros-chefes do chalé se chamavam Connor e Travis Stoll. Estranho, dois filhos do deus dos ladrões com sobrenome Stoll, que se parece com “stole” que é roubar em inglês. Deve ter sido isso que atraiu a Hermes na mãe deles.
O chalé era exatamente como eu previ. Um monte de garotos suados e esquisitos tentando roubar tudo o que podem e pregar peças em todos. Eu não ia dormir naquele lugar de jeito nenhum. Depois de um tempo observando a bagunça, a sujeira, todas aquelas pessoas estranhas, aprendendo nomes de campistas e os lugares de lá e rindo um pouco das besteiras dos meus não-possíveis irmãos, a noite caiu e deu a hora do jantar. Fomos para o pavilhão do refeitório, onde todos os chalés estavam reunidos. Percebi que Percy estava sozinho. Devia ser o único filho de Poseidon por lá. Tantos filhos não reclamados entalados no chalé de Hermes, e o único filho de Poseidon fica sozinho, pensei. Deve ser bem solitário. Tadinho do Percy. As pessoas dos chalés começaram a pegar a melhor carne, o melhor pão, as melhores uvas e jogar na fogueira, e dizer os nomes dos deuses seus pais, como Percy falou que ia ser. Eu não sabia de qual deus eu deveria dizer o nome, então, quando joguei o meu melhor pão na fogueira, uma ideia surgiu na minha cabeça.
Eu: Pai, eu não sei quem é você, eu não sei com qual deus exatamente estou falando, mas eu queria te pedir, por favor, me reclame. Por favor. Não posso ficar na bagunça que é o chalé de Hermes, sem ofensa, Lorde Hermes. Por favor, me reclame.
Saí de lá, e outra ideia surgiu na minha cabeça. Percy estava sozinho e eu não queria ficar com o chalé 11, então, fui e me sentei com ele.
Percy: Eu adoraria a sua companhia, mas é proibido sentar em uma mesa que não é a do seu chalé.
Eu: Nunca liguei para regras. Não é agora que eu vou começar.
Percy: Uau, que rebelde. Tranquem os seus chalés hoje, porque a moça aqui é do mal.
Revirei os olhos e dei um soco no braço dele.
Percy: Ai! Doeu!
Eu: Eu sei, era pra doer mesmo!
Percy: Caramba, vou dormir de olho aberto hoje.
Revirei os olhos, novamente. Percebi que uma menina loura de cabelos cacheados sentada com o chalé de Atena estava nos olhando com uma cara de poucos amigos.
Eu: Imagino que aquela que aparenta já me odiar deva ser Annabeth.
Percy: Sim, é ela mesma. Não é que ela já deve te odiar, é que ela respeita muito as regras daqui.
Eu: Ela não parece com alguém que respeita as regras. Ela parece ser bem... legal?
Percy: É, realmente, ela não respeita muito as regras e ela é legal.
Eu: É, adoraria ficar amiga dela, mas ela não parece ter ido muito lá com a minha cara.
Percy: Bom, eu vou falar algumas coisas boas de você pra ela.
Eu: Ciúmes.
Ele pareceu confuso.
Percy: Ciúmes do que?
Eu: Annabeth. Ela está olhando torto para cá porque está com ciúmes.
Percy: Annabeth? Ciúmes? Ah tá.
Eu: Você está duvidando da minha palavra, Perseu Jackson?
Percy: Eu não. Só um pouquinho assim – Ele separou um pouco o polegar do indicador fazendo sinal de “pouco” e me fazendo rir e revirar os olhos.
Eu: Eu conheço o cérebro de uma mulher, Percy. Eu sei reconhecer o que cada olhar significa. O cérebro feminino é fácil de decifrar. Se vocês, homens, se esforçassem... Bom, voltando ao assunto, se o cérebro de uma menina é fácil de decifrar, imagina o cérebro de uma menina que veio do cérebro?
Ele ficou pensando por alguns segundos. Depois, piscou como se estivesse acordando de um transe.
Percy: Sabia que você fica bem bonita à luz da lua?
Pela zilionésima vez naquele dia, revirei os olhos por causa de Percy Jackson.
Eu: Homens...
Ele riu.
Percy: Não, é sério. Os seus cabelos castanhos cacheados caídos no ombro, como uma cascata mal arquitetada de chocolate, seu rosto bonitinho parecendo um anjo imortal modelado pelos deuses, à mão, sem maquiagem nenhuma, como se não achasse isso importante...
Eu: E eu não acho!
Percy: ... e esses olhos castanhos, rodeados por uma circunferência preta... ficam fabulosos em você. É como se encaixassem perfeitamente no seu rosto. Aliás, encaixam.
Eu corei totalmente. Nunca, na minha vida, alguém me dissera coisas tão bonitas. Nem mesmo minha mãe, ou Joanne. Acho que o Percy não tinha prestado atenção no que ele estava falando, porque ele também corou.
Eu: Uau, Percy. Nunca, pensei que fosse ouvir alguém falando essas coisas para mim. Foi a coisa mais bonita que alguém já me disse.
Percy: Ah... quê isso! É só a verdade!
Eu: Bom... – Falei tentando mudar de assunto antes de evoluir de tomate para pimentão – O que de interessante vamos fazer amanhã, ou, sei lá, durante o resto da semana?
Percy: Amanhã tem jogo de captura a bandeira.
Eu: E como funciona?
Percy: Nunca jogou?
Eu: Sim, mas, tipo, aqui vocês usam espadas, escudos, lanças e coisas do tipo?
Percy: Sim, o que me lembra que vou ter que te levar para o arsenal para escolher uma arma.
Eu: Quero uma lança! Tenho uma queda por lanças...
Percy: Não sei... Tenho minhas suspeitas de que você seja filha de Apolo.
Eu: Ou de Ares.
Percy: Nem te perguntei sobre Hefesto. Leva jeito com ferramentas?
Eu: Érr, nunca tentei. Mas sou apaixonada por carpintaria.
Percy: Gosta de fogo?
Eu: Gosto. Fogo é quente. Eu amo o quente.
Percy: Então, já criamos outra suspeita. Você pode ser filha de Hefesto.
Eu: É, é possível.
Percy: Por que eu não consigo gostar da ideia de que possivelmente sejamos irmãos?
Eu: Quando descobrir, me fala, porque eu também não sei e eu também não gosto.
Olhei para aqueles olhos verde-mar e vi algo... digamos, diferenciado.
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