The Dark Storm
3 A ligação
Já era tarde da noite. Há duas semanas não haviam mais relatos de desaparecimento ou morte. Eric estava aliviado, e chegou a crer que aquele pesadelo vivo estava acabado. Mas não estava. Não havia mais ninguém naquela ala da delegacia. Eric permanecera lá revendo cada pista, cada informação, minunciosamente, até cair num sono. Acordou assustado com o tocar do telefone. Mas não era o dele. Viu pela janela, lá estava. O telefone em cima de uma mesa, entre tantas. Iluminando-o, havia uma luz fraca da luminária em cima da mesma mesa. Eric foi apressado até lá e quase não conseguiu. Talvez, se não tivesse conseguido, sua vida não mudaria tanto. Mas o destino, no qual Eric nunca acreditou, brincou com sua vida, com seu futuro, com a maior naturalidade. Do outro lado da linha, ouvia-se uma voz doce mas assustada :
– Polícia ? Alô ? Alô ?
– Delegacia de Mainville, como posso ajudar?
– Meu filho .. desapareceu.
A mulher contou em poucos minutos de ligação, tudo o que era necessário. O garoto, de 5 anos, chamava-se Stephen Boyle. Desapareceu há menos de 24 horas, quando sua mãe foi busca-lo na escola, rotineiramente, e ele não estava lá. Voltou para casa, e nada. Ligou para os familiares, amigos de Stephen, vizinhos. Ninguém sabia do garoto. Até que a ligação caiu. Eric se desesperou. Inquieto, anotou tudo o que ouvira e ficou lá, por mais algum tempo, pensando sobre tudo. Mas, o que mais lhe incomodava não era o caso em si. A voz no telefone, lhe parecia conhecida. E o sobrenome do garoto, Boyle, ele pensava já ouvir algores antes . Estava propenso a retornar, quando o telefone tocou novamente. Não pensou duas vezes, arrancou o aparelho do gancho e pôs-se a ouvir. Mas não era ninguém. Apenas o silêncio, que reinava na ligação, em seu ouvido e, mais adiante, em sua mente. Desistiu. Se auto-denominou louco e, resmungando palavras aleatórias, foi ao escritório. Passava das onze da noite. Arrumou sua maleta de documentos, calçou sua galocha, pois no bolso seu molho de chaves e caminhava em direção à saída, quando o telefone tocou uma última vez. Era a voz, dessa vez mais doce e calma :
– Alô ? Com quem falo ?
– Eric Scott, da delegacia de polícia criminal de Mainville. Como posso ajudar?
– Eric ? Por céus, eu sabia que era você. Eu sabia.
– Desculpe ... ? — respondeu, confuso.
– Sou eu, Jeniffer. Jeniffer Boyle. Lembrado ?
Como já disse, Eric não tinha esposa, quão menos filhos. Mas seu último relacionamento foi há cinco anos, com uma mulher chamada Jeniffer. Até hoje, Eric se pegava pensando nela. Nunca soube ao certo o que vira nela. Era uma mulher problemática, depressiva, que carregava a vida nas costas sem vontade de vive-la. Mas atualmente não. Virou uma jornalista importante, feliz, belíssima e, aparentemente, mãe. Jeniffer temia a ligação cair novamente. Por isso, marcaram de se ver no dia seguinte, o mais cedo possível, no parque da cidade. No horário marcado, no local marcado, Eric sentou-se em um banco. Viu Jeniffer, que apelidara há anos carinhosamente de Jeni. Ela estava linda. Mais magra, com os cabelos escuros longos e cuidados, roupas novas e limpas e um andar com mais classe do que Eric jamais imaginaria. Por um momento, esqueceu do problema que a pobre mulher enfrentava, do sumiço do garoto. Esqueceu o motivo da separação, o ciúmes dela com o trabalho dele. Esqueceu que a vida de ambos fora separada. Esqueceu que não tinha mais 35 anos. Esqueceu do mundo em volta. Do barulho irritante dos patos, animal no qual Eric sempre guardou imenso ódio. Ela ainda não o vira. Ele, continuava o mesmo mas, agora, admirado. Eric se apaixonou, mas não por ela, pela lembrança de um passado lindo que viveram juntos.
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