Giovanni e Luigi voltavam da escola em silencio, Luigi andava com uma expressão de preocupação no rosto enquanto olhava pro rosto do amigo a cada cinco minutos.

– Cara, você tá bem mesmo? Não disse uma palavra na escola e nenhuma palavra aqui também. Tá me deixando preocupado.

– Não é nada. – Giovanni caminhava com o olhar no chão.

– Sabe que pode me contar qualquer coisa né? Está tendo problemas em casa?

– Se eu contar vai achar q estou louco e dizer que é coisa da minha cabeça. Prefiro deixar como tá.

– Não direi isso. O que é?

Giovanni parou e Luigi o olhou curioso. Os cabelos negros que chegavam perto dos ombros balançaram com o vento.

– Eu te disse na escola que ontem durante o temporal eu vi um cara de preto parado em frente à minha casa. Não dei tanta bola, mas o cara sumiu de repente. E para piorar eu vi ele de novo pela janela da sala de aula.

– Duas vezes? Ele tá te seguindo?

– Parece que sim. Mas ele tá sempre de preto e nunca consigo ver o rosto dele. Ele dá medo.

– A rua ontem estava deserta. Isso piora ainda mais não é? – Luigi pareceu acreditar dessa vez. Uma parte dele gostava daquilo, mas ele ainda parecia com medo da história do amigo.

– Pois é. – Os dois voltaram a andar com o vento em seus rostos.

Giovanni se despediu do amigo e entrou em casa. Caminhou em direção ao quarto jogando a mochila de qualquer jeito ao lado do sofá na sala.

– Já cheguei.

Estranhou não ter tido nenhuma resposta, sua mãe sempre estava em casa quando ele chegava da escola.

– Sua mãe saiu, garoto. – Giovanni pulou de susto ao ouvir uma voz grave vindo de seu quarto. Assim que olhou seus olhos se arregalaram. O homem de preto estava parado em frente a cama.

– Quem é você? Por que não para de me perseguir? – O garoto gritava para o homem.

– Se acalme. Não irei machuca-lo.

O homem tirou o chapéu que cobria seu rosto, revelando quem era.

– Vovô? – Giovanni tremeu ao ver quem realmente era o homem de preto.

...

Hyokas

Os oito conselheiros do clã estavam novamente reunidos, o assunto principal era o último escolhido, o garoto italiano, Giovanni.

– O garoto foi encontrado finalmente. Só resta esperar que seja trago até aqui. – Dizia um dos homens, parecia o mais novo, tinha a barba por fazer e cabelos castanhos cobrindo a testa.

– Sim. Só nos resta esperar até que venha até nós. Não podemos nos dar ao luxo de perder tempo. Os Guardiões precisam ser treinados o quanto antes. – disse outro sentado na última cadeira da mesa. Rugas marcavam sua testa, dando-o uma expressão dura no rosto.

...

Giovanni permanecia parado na porta de seu quarto encarando a figura de seu avô.

– Você estava morto. Eu o vi naquele caixão. C-Como pode estar aqui agora? – sua voz falhava.

– Por favor, explicarei tudo que precisa saber garoto, sente-se aqui. – disse o velho apontando para a cama.

Giovanni caminhou ainda tremendo até sua cama e sentou-se ao lado de seu avô.

– Comecemos do começo. Eu não estou morto. O que você vê aqui não é um fantasma e nem algo desse tipo.

– Então o que era aquele corpo que eu vi deitado em um caixão há sete anos atrás? – Giovanni desviava os olhos do avô.

– Aquele era um corpo falso. Uma cópia exata do meu verdadeiro corpo. Era o único jeito de eu ir embora sem colocar você e sua mãe em perigo. Mas agora a situação está ruim, e isso me obrigou a retornar.

– Por que teve que ir? Qual situação está ruim? Eu não estou entendendo nada que o senhor diz. – Giovanni se esforçava para não chorar. Não chorava em momento algum, e não seria aquele uma exceção.

– Pois bem. Explicarei tudo. Mas um aviso, assim que eu lhe explicar sua vida não será mais a mesma.

– Minha vida já não é mais a mesma desde o momento que você apareceu pra mim naquele temporal. – Giovanni disse, dessa vez olhando nos olhos de seu avô.

O homem sorriu fraco. – Ok. Para começar, o nome pelo qual você me conhece, é um nome falso. Precisava usá-lo enquanto vivia com vocês. Meu nome real é Lucius.

– Corpo falso, nome falso. O que mais o senhor tem de falso vô? – Giovanni já não tremia mais.

– Toda a vida que você me conheceu garoto. Enfim, você já deve saber sobre as crenças religiosas certo? Anjos, demônios, espíritos.

– O que isso tem a ver?

– Todos esses seres são reais, e dividem o mundo conosco. Em outras dimensões claro.

Giovanni não conseguia acreditar nas palavras do avô. Ele olhou para sua prateleira com completa de livros.

– Está dizendo que aqueles seres que eu leio em livros e contos, existem?

– Sim. Sei que é extremamente difícil de acreditar e você deve pensar que fiquei louco por estar dizendo essas coisas. Mas é real.

– Vô. Eu passei praticamente toda minha vida acreditando em seres sobrenaturais, e finalmente alguém aparece me revelando que são reais. Eu não o acho louco. – Giovanni olhou para o avô ainda com olhos úmidos, mas as lagrimas já haviam parado.

Lucius sorriu. – Ótimo. Você realmente cresceu. Isso me deixa orgulhoso. Enfim, vamos ao que interessa. Existem quatro mundos. O nosso, o mundo humano, é também conhecido como plano físico. Existe o mundo dos espíritos ou plano astral, onde habitam os espíritos, é o mais próximo do mundo humano, por isso algumas pessoas conseguem ver espíritos ou vultos.

Giovanni ouvia cada palavra de seu avô em silencio. Sempre acreditou em histórias de espíritos, e agora ouvia que todas elas são reais.

– E mais distante existe o plano etéreo. Onde se encontram o Paraíso e o Abismo, também conhecidos como Céu e Inferno.

– “O Abismo”. Não parece ser um lugar pra se passar as férias de verão.

Lucius riu. – Não é mesmo. Bem, todos esses mundos são divididos por uma camada invisível. A camada entre o mundo espiritual e o mundo humano é a mais fina, por isso se um humano possuir um grande nível de energia espiritual, ele é capaz de ver os espíritos.

– Essas pessoas já nascem com isso? – perguntou Giovanni.

– Algumas sim, outras conseguem adquirir por meio de meditação, como os monges por exemplo.

– O senhor pode vê-los?

– Sim. Eu sou um dos que necessitaram de meditação. Precisei de vários anos para adquirir uma energia espiritual alta para poder vê-los.

– Como o senhor sabe tanto?

– Pois é. É onde eu queria chegar. Bem, dentre os arcanjos, Miguel e Rafael possuem descendentes humanos. E esses descendentes criaram dois clãs, os Hyokas para Miguel e os Lanes para Rafael. Eu sou parte do clã Hyoka. Sou um dos 9 conselheiros.

– Uau. É um dos importantes então? – Giovanni estava totalmente surpreso a cada palavra de Lucius.

– Sim. Mas infelizmente Rafael e Miguel entraram em guerra e isso fez com que os dois clãs se tornassem rivais.

– Entendi.

– E é aí que você entra.

– O que? O que tenho a ver com tudo isso? – Giovanni olhou para o avô, surpreso.

– Você tem tudo a ver. Desde o primórdio da humanidade, Miguel escolhe seis humanos para se tornarem os Guardiões. Que lutam contra ameaças aos humanos. A cada geração novos guardiões surgem novamente.

– Q-Que quer dizer com isso vô?

– Quero dizer que nessa nova geração, você é um dos escolhidos, garoto.