The Dark Knights
1 O Começo de Uma Nova Era
Em meio às trovoadas de uma chuva torrencial que remetia as pessoas a pensarem sobre o dilúvio que um dia lavou a terra purificando-a de toda impureza, no alto de um prédio abandonado encontrava-se um homem com altura entre um e noventa, um e noventa e cinco, cabelos negros, como as roupas que trajava. Um sobretudo preto assim como todo o resto: óculos escuros, botas de cano longo, calças ajustadas e uma camiseta. Sentado numa beirada do prédio onde deveria haver uma janela com uma perna pra fora olhando para baixo, com uma espada na mão direita segurando-a firmemente deixando-a repousar sobre o ombro direito ao lado de seu rosto. Ele estava prestes a saltar. Saltar?
– Que os jogos comecem. _ Disse ele momentos antes de mergulhar naquela névoa, formada pela baixa temperatura. Imponente, atirou-se de uma altura equivalente a quinze andares com os braços para trás e o rosto elevado, seu semblante transpirava confiança apesar do chão se aproximando, aproximando...
Em sua queda livre, o homem aproveitou para praticar suas manobras acrobáticas que podiam ser as últimas.
O mundo não era um lugar bom para se viver, nunca foi, mas ficou cada vez pior com a crescente ganância dos homens, literalmente apodrecendo. Alguma coisa precisava ser feita, alguém tinha que fazer alguma coisa, mas... Quem? Quem seria capaz de trazer justiça a um mundo tão corrompido. Capaz de punir os maldosos sem piedade, proteger os fracos com a própria vida? Essas perguntas estavam prestes a ter uma resposta.
Aqui começa sua trajetória. Aqui serão ditas as ambições e os planos veementes destes heróis.
Ela era loira, tinha cabelos pelos ombros, um pouco maiores, na verdade, tinha olhos verdes e alegres, e estava cansada da dependência dos pais. Arrumou um estágio no setor administrativo da universidade onde estudava administração, mesmo que sua realidade não exigisse isso de si, além de ter controle do próprio destino ela agora teria a experiência da qual necessitará futuramente. Filha de um empresário bem sucedido, ela tinha tudo o que uma garota de sua idade poderia querer, um armário enorme com um lado exclusivo para os sapatos, roupas da moda, o carro importado que sempre quis, além de um cartão de crédito no qual ela gastava sem muita preocupação. Porém, com vinte anos, ela agora queria caminhar com suas pernas, obter suas conquistas.
Milena, a pobre garota, tão concentrada em ganhar o seu espaço, provar-se, descobrir quem realmente era que não percebeu que alguém, que também estava concentrado em seus objetivos, fitava-a com profundo interesse. Aluno de Engenharia Mecânica, um dos nerds da universidade, bolsista, com o rosto marcado por espinhas, cabelos escuros, ondulados, secos e sem brilho, olhar duro e indecifrável por trás de sobrancelhas grossas, do tipo que ele acreditava que nunca se daria bem com ela. Ele sempre a quis e os boatos que ouvia a respeito dela só alimentavam sua cobiça por aquele fruto proibido fazendo-o parecer mais doce e suculento do que podia imaginar.
Roberto amava-a e odiava-a ao mesmo tempo. A amava por sua beleza incomparável para ele, pelo seu cheiro doce quando passava por ele nos corredores da instituição, ainda que não soubesse quem ele era, pelas vezes que pensou ter visto aquelas esmeraldas encrustadas nos olhos dela fitarem-no, pelo som de sua voz angelical, a maciez de sua pele quando por acidente se crusaram no corredor, apressados. Ela fora simpática com ele naquele dia, e então, nasceu uma amizade que restringia-se a um cumprimento, às vezes uma conversa rápida jogada fora. Como ele ficava contente com aquilo! Era o bastante pra fazê-lo concentrar-se na aula de química. Quando ela o convidou para sua festa de aniversário então? Fora às alturas, parecia que sua amizade estava crescendo e se tornando real, no entanto voltara ao chão tão rápido quanto subira. A festa na casa dela cheia de pessoas com as quais ele não tinha nada em comum o deixara nervoso, pensara em recusar o convite, mas quando teria novamente a chance de estar tão próximo dela por tanto tempo? Aceitara o convite. Que besteira! Ficara de canto grande parte do tempo, eram tantos convidados que Milena pudera dar-lhe atenção poucas vezes nas seis ou sete horas de festa na piscina, tentara fazer Roberto se enturmar, porém sem sucesso. Mesmo assim, fora bom pra ele, vê-la tão exposta, de bíquini, banhada pela luz refletida pela água.
Os dias se passaram e, meses depois, como não podia deixar de ser surgiram enfim rumores de que Milena estava namorando, para a infelicidade do rapaz, não era o seu nome que citavam nos boatos. O iceberg que levou para o fundo do mar os seus sonhos no entanto foi a confirmação da moça.
Que fim trágico dado às suas esperanças de um final feliz… Mas… Ainda podia haver final feliz. Claro. Sim, podia sim. Para ele! Não seria recusado de novo.
Por semanas ele a observou, o que não era difícil já que estudavam na mesma universidade. Anotou seus horários, seguiu-a até sua casa sem ser notado, tornou-se uma sombra na noite, deixou que sua obsessão extirpasse o resquício de consciência que possuía.
Mais uma noite ele a observa. Seria esta noite… Tinha que ser. Tão focado em seu alvo, ele também não percebeu que também era observado por alguém, uma amiga de longa data que não era nenhuma modelo, mas tinha sua beleza e poderia fazê-lo feliz como ele queria, tê-lo salvo de cometer aquele enorme engano, se ele não estivesse tão focado e percebesse que ali estava ela o tempo todo. Porém isso não importava mais, os destinos já estavam traçados. De todos…
Roberto era muito inteligente e naquele dia não foi a faculdade, preparou um álibi, já sabia como descartaria o corpo da moça, mas não tinha certeza se faria isso imediatamente ou se contemplaria o corpo dela por mais alguns dias. Ele foi a faculdade mais cedo, pouco antes do término das aulas, sempre observador, conseguiu identificar as falhas na segurança e chegou ao estacionamento sem ser notado, encontrou o carro de sua diva e adentrou a parte traseira, onde aguardou.
Ela estava descendo pelo elevador e ele sabia… Destravou as portas e desligou o alarme do carro e ele se assustou, estava chegando a hora. Hora de algo ruim acontecer. Bom, na verdade, as coisas eram apenas uma questão de perspectiva. Ele ouviu a porta abrindo, sentiu quando ela sentou no banco e o tranco da porta se fechando. A loira deixou suas coisas no banco ao lado, pôs o cinto e deu a partida. Faltava pouco, só precisava esperar até ela sair do estacionamento. E é o que inocentemente ela fez.
Milena passou a marcha ré e manobrou o carro para sair do estacionamento, tinha que passar pela segurança na saída e seria melhor para Roberto se ela não aparentasse nervosismo.
– Boa noite, senhorita. _ Disse para ela um homem moreno de camisa e gravata usando um crachá com seu nome, Alan e o cargo que ocupava como controlador de acesso.
– Boa noite. _ Respondeu com um sorriso cortês digno de uma moça de família, bem como seus pais a ensinaram. Mostrou o cartão para o leitor, mas havia algum problema, ele não estava passando.
Seu amigo atencioso logo prontificou-se para ajudá-la.
– Não está passando? Deixe-me ver. _ Indagou, movendo-se rapidamente para ajudá-la. Pegou o cartão, levou para dentro da guarita e confirmou seu cadastro no sistema. — Ah, aqui está. A senhorita se esqueceu de renovar o cadastro do seu cartão, não foi? — Lançou um risinho para ela.
Milena fez uma careta, seguida de um biquinho.
– Vou ter que voltar, né? — Perguntou, morta de preguiça só de pensar a respeito.
Roberto deitado no assoalho do carro começava a suar frio. Onde estava com a cabeça? Como levou aquela ideia adiante? Como pode pensar que realmente daria certo? A vida não é uma série de tv, é cheia de imprevistos… Seria pego, com certeza. Teria de se explicar, e no melhor dos cenários, seria apenas processado.
– Não, nada disso senhorita. Não faria isso com você. _ Sorriu bobamente Alan para a loira. — Vou liberar a sua saída manualmente hoje, mas amanhã não se esqueça de fazer essa renovação, certo? _ Ah, a luxúria. A mesma capacidade que tem para atrair bênçãos tem para atrair maldições. Alan levantou para ela a cancela e permitiu sua passagem.
Roberto ficou tão agradecido pela atitude do homem quanto Milena.
– Ai, obrigada Alan. Já estava com preguiça só de pensar em ter que voltar pra administração. _ Admitiu, aliviada, com um sorriso mais amigável desta vez. — Tome. _ Disse ela, virando-se para pegar sua bolsa e a carteira dentro dela. Ofereceu ao homem uma nota de cinquenta reais, a qual ele se recusou em receber de imediato, como rege a educação de pessoas com menos recursos “não seja óbvio, espere a pessoa oferecer pelo menos três vezes”. Por fim, após cumprida essa obrigação social, ele aceitou o dinheiro.
– Muito obrigado senhorita. _ Disse, guardando a nota no bolso da camisa.
– Eu é que agradeço a sua gentileza. Pede uma pizza. _ Sugeriu, lançando uma risadinha para ele. Com tanta rasgação de ceda era difícil dizer se ela estava apenas agindo como fora ensinada pelos pais ou se, realmente, agora estava dando mole para o sujeito. Aquela cena toda apenas dava mais determinação para Roberto.
Encerradas as cordialidades, Milena finalmente arrancou com o carro.
Após distanciar-se da universidade, Milena parou em um semáforo, dando a Roberto a deixa pela qual esperava. Ela se distraiu novamente ao buscar a bolsa para retocar a maquiagem, afinal, ainda poderia surgir alguma festa pra curtir ao final da noite. Ela ajeitou o pequeno espelho na altura dos olhos e não percebeu de início, mas havia um par de olhos na escuridão, observando-a. Quando os avistou pelo canto do espelho seus olhos se arregalaram, mas fora tarde demais, e o suspiro assustado que viria foi suprimido por um laço em seu pescoço. Bravamente, instintivamente, ela tentou lutar com os punhos fechados desferindo diversos golpes na direção de seu agressor, porém, além de errar a maioria pela posição que a desfavorecia, a falta de energia em seus músculos frágeis de mulher era exposta pela coloração azulada que sua pele recebia lentamente. Sua visão estava escurecendo e a consciência apagando-se. Ao notar a cabeça da moça pendendo para o lado, Roberto aliviou a pressão que exercia com o laço.
Milena recobrou a maior parte da visão, respirou e tossiu profundamente algumas vezes arranhando a garganta. O laço voltou a enforca-la.
– Se quiser viver, fará exatamente o que eu disser. _ Disse uma voz conhecida, em um tom grave e sombrio. Ao passo que Milena buscava ar para encher os pulmões, seu desespero misturou-se com desapontamento, tristeza e traição ao reconhecer aquela voz. Uma lágrima escorreu pela sua face antes alva, tanto por causa de sua luta pela vida como pela traição que sofreu.
Ela concordou com um aceno fraco de cabeça para que ele a deixasse respirar novamente e assim ele o fez.
Ele ditou o caminho para a moça que dirigia por locais cada vez mais ermos, pegando uma rodovia que Roberto conhecia bem, e visitara por semanas enquanto arquitetava seu plano. Logo chegaram a uma região com vegetação ligeiramente alta, algumas árvores e bem ao fundo um lago vasto e como Roberto pode conferir em suas visitas àquele local, tinha profundidade suficiente para esconder o corpo da moça e o carro.
Agora eles estavam a sós, era hora de algo ruim acontecer!
Roberto forçou-a a aproximar-se da beira do lago, puxou o laço mais uma vez e colocou um pano em seu rosto embebido com algum soporífero, afrouxando a linha no pescoço de Milena para que ela inalasse profundamente…
Ah, a arrogância humana. Não importava o quanto Roberto era inteligente ele jamais poderia prever o que aconteceria em seguida. Ele também estava sendo observado com enorme interesse por alguém, uma entidade oculta nas trevas.
Quando Milena começava a perder a consciência, uma coisa sinistra e inimaginável aconteceu. A porta traseira de seu veículo foi arrancada com uma enorme força bruta e arremessada para trás, Roberto não teve tempo para reagir apenas para olhar para a ceifadora das trevas ao seu lado que também o agarrou e o jogou longe contra uma árvore.
O rapaz encontra o chão após o duro golpe, gemendo de dor, apavorado com a força e a presença monstruosa daquela mulher que exalava à morte em todos os sentidos. Em seus cabelos negros, lisos e compridos, em seus óculos escuros que tornavam sua expressão ainda mais assustadora, naquela lâmina de aço em sua mão direita cujo frio já penetrava-lhe a carne pelo simples contato visual, naquelas roupas negras e o som de suas botas esmagando as folhas secas produzindo o mesmo som que ele imaginava que seus ossos fariam quando ela o pisoteasse.
– Então… _ Disse ela caminhando em direção a ele com frieza, permitindo que ele rastejasse se agarrando a sua esperança vã de sobreviver de alguma forma aquilo, colocando-o na posição de sua vítima. — gosta de brincar com garotas indefesas em locais ermos é? _ Concluiu sarcástica.
Milena semi-consciente dentro do veículo, tão perdida quanto seu sequestrador, também queria fugir, pensou que poderia ser a próxima. Não conseguia processar o que estava acontecendo, achava que só podia ser um pesadelo, mas, mesmo em pesadelos, o instinto de sobrevivência nunca falha. Ela sabia que tinha que fugir. Abriu a porta do carro e caiu na terra úmida, resistindo o máximo possível para permanecer acordada. Ela via borrões próximos de uma árvore e às vezes as imagens sumiam, vozes distorcidas, sensação de enjôo…
O anjo negro aproximasse de Roberto, que não conseguiu se levantar depois do ataque feroz, e o agarrou pelos cabelos.
– Eu vou te ensinar a brincar direito. _ Sussurou em seu ouvido e ele soube que acabaria ali, porém, ele também tentava se consolar desejando que tudo não passasse de um pesadelo, o mais real que já tivera em toda a vida.
Milena perde a batalha para o soporífero que Roberto lhe deu e desmaia a alguns metros do veículo, quando os gritos do rapaz começaram.
Para a infelicidade dele, ele estava certo, o som das folhas era muito semelhante ao de seus ossos sendo moídos pelas botas daquele anjo negro com um pequeno detalhe apenas, seus ossos produziam um som mais audível e grave. Pássaros afugentaram-se criando uma trilha sonora macabra com o farfalhar de suas asas para os últimos momentos sãos daquele homem, antes de sua morte.
– Acabe logo com isso, Agatha. _ Ordenou uma voz masculina que vinha de algum outro ponto naquela vasta escuridão que Roberto não conseguiu determinar.
Agatha bufou para a voz, contrariada. Ela detestava que ele lhe dissesse o que fazer, ela sabia muito bem. Mesmo assim, seugiu as recomendações, não porque a voz mandou, mas porque sabia que era o que devia ser feito.
– Diga adeus… — Falou, aplicando-lhe sua sentença. Recostou-o em uma árvore, aproximou-se dele e revelou seus olhos para ele. Duas orbes negras como o inferno. Quando os olhos do rapaz caíram dentro dos dela, irrompeu um grito tenebroso tão alto que poderia arrebentar suas cordas vocais.
Hora de algo ruim acontecer!
Mas… É tudo questão de ponto de vista.
Após dar o devido tratamento ao sequestrador, Agatha dirigiu-se para o veículo de Milena e fuçou lá dentro, encontrou a bolsa da moça e pegou seu celular. Chamou o resgate.
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