The Circus
4 Entre o encanto e o perigo
Notas iniciais
A manhã já avançava quando Edward terminou de distribuir a última porção de alimento entre os animais. O sol atravessava as frestas da lona, desenhando faixas douradas sobre o chão de terra batida, revelando com clareza aquilo que, à noite, parecia menos cruel.
E era cruel, jais do que ele havia imaginado.
Os animais estavam magros demais, alguns com o olhar opaco, outros marcados por feridas mal cuidadas, cicatrizes antigas que contavam histórias silenciosas de negligência. Um leão, de juba falha e olhar cansado, sequer reagiu quando Edward se aproximou com cautela. Outro, mais jovem, recuou com medo antes mesmo de qualquer toque.
Aquilo o incomodava profundamente.
Ele trabalhou em silêncio, com paciência quase obstinada. Limpou feridas, aplicou remédios improvisados, ajustou pequenas coisas dentro do possível. Em alguns momentos, suas mãos hesitavam, não por medo, mas pela consciência de que aquilo era apenas o começo de um problema muito maior.
Quando terminou, suas roupas estavam sujas, o corpo cansado… mas sua mente inquieta.
Havia algo que ainda o puxava e ele sabia exatamente o que era.
Silver Star.
E, talvez, mais do que o cavalo… quem estaria ao lado dele.
Edward caminhou até a tenda com passos mais lentos, como se quisesse prolongar aquele pequeno instante de expectativa. Ao afastar a lona, encontrou a cena que, de alguma forma, já esperava.
Bella.
Ela estava ajoelhada ao lado do animal, os dedos deslizando suavemente pela crina clara do cavalo, como se cada toque fosse uma tentativa silenciosa de confortá-lo. Havia uma delicadeza quase impossível em seus gestos, algo que contrastava violentamente com o restante daquele lugar.
Edward parou por um segundo, apenas observando.
— Devo me preocupar com esse forte concorrente? — A voz dele surgiu baixa, próxima ao ouvido dela.
Bella se sobressaltou levemente, levando a mão ao peito.
— Edward… — disse, soltando um pequeno suspiro — Você me assustou.
Ele sorriu, aproximando-se mais.
— Não deveria estar aqui tão cedo… — comentou, sentando-se ao lado dela — Você não tem histórias para contar hoje?
Ela desviou o olhar por um instante, um sorriso suave surgindo em seus lábios.
— Tenho… mas achei que ele precisava mais de mim agora.
Edward acompanhou o gesto dela, olhando para o cavalo.
Depois, voltou os olhos para ela.
E, por um breve instante, esqueceu todo o resto.
Seus dedos encontraram a mão dela, entrelaçando-se com cuidado, quase pedindo permissão. Bella não se afastou, apenas baixou o olhar, levemente corada, enquanto sentia a proximidade dele crescer.
— Edward… — murmurou, com a voz mais baixa — Alguém pode ver…
Ele ergueu a mão livre, tocando o rosto dela com delicadeza.
— Você é linda — disse, quase em um sussurro.
Bella fechou os olhos por um segundo e então, em um impulso leve, rápido, ela o beijou.
Foi breve.
Mas suficiente para fazer o coração dele disparar e antes que ele pudesse reagir, ela se levantou, rindo, afastando-se.
— Você vai ter que me alcançar — disse, já recuando em direção à saída.
Edward riu, levantando-se.
— Vai fugir de mim?
— Se conseguir me pegar…
E então ela correu.
A mata ao redor do circo parecia outro mundo, mais silenciosa e viva.
Edward seguiu Bella entre as árvores, o som dos passos dela se misturando ao farfalhar das folhas e ao riso leve que escapava de vez em quando. Em alguns momentos ele a perdia de vista, apenas para reencontrá-la mais à frente, como se ela conhecesse aquele caminho melhor do que ele jamais conseguiria.
Então o som da água surgiu.
Forte.
Constante.
Ele seguiu o som e a encontrou.
Bella estava à beira do lago.
A mesma cachoeira.
O mesmo lugar.
Ela se virou para ele, os cabelos já soltos, o sorriso leve, quase provocador.
— Você demorou.
Edward respirou fundo, aproximando-se.
— Você corre rápido.
Ela riu e então entrou na água.
O movimento foi natural, leve, como se fizesse parte daquele cenário.
Edward hesitou por um segundo, mas entrou.
A água estava fria, contrastando com o calor do corpo, despertando cada sentido de forma imediata. Quando se aproximou dela, Bella já o observava com um olhar diferente, menos brincalhão, mais… consciente.
Ele parou diante dela.
A proximidade agora não era mais uma brincadeira.
Era escolha.
Suas mãos encontraram a cintura dela com cuidado, puxando-a levemente para mais perto. Bella não resistiu ao contrário, levou as mãos ao rosto dele, tocando-o com uma suavidade que parecia carregada de algo que nenhum dos dois ainda sabia nomear.
O beijo veio dessa vez mais lento.
Mais profundo.
Mas ainda assim… contido.
Como se ambos soubessem, instintivamente, que estavam atravessando um limite e que isso precisava ser feito com cuidado.
Quando se afastaram, Bella encostou a testa na dele, respirando fundo.
E, por um instante, o mundo parecia pequeno demais para caber o que estava acontecendo ali.
Depois de passar a tarde inteira ao lado de Bella, Edward retornou ao espaço improvisado que agora chamava de quarto com uma leveza incomum no corpo, como se cada passo ainda carregasse o eco do riso dela, o calor da proximidade, a sensação quase irreal de ter encontrado algo que não sabia que procurava. Havia um brilho discreto em seu olhar, difícil de esconder, e um certo descuido em seus gestos, como se ainda estivesse parcialmente preso àquele momento à beira da água.
Dentro do vagão, Emmett e Alec já estavam sentados.
A cena era simples, quase sempre era, mas contrastava com o estado de espírito de Edward, que entrou cantarolando baixo, puxando Alec pelo braço em uma tentativa repentina de fazê-lo girar em uma dança improvisada. O jovem reagiu com um bufar irritado, afastando-se imediatamente, enquanto Emmett soltava uma gargalhada rouca, claramente entretido com a situação.
— Está feliz, garoto? — perguntou o velho, inclinando-se levemente para frente, os olhos estreitados em curiosidade divertida.
Edward deixou-se cair sobre a cama improvisada de feno, soltando o ar em um suspiro longo, quase satisfeito demais para aquele lugar.
— Apaixonado.
A palavra saiu simples e direta, mas carregada de um peso que não passou despercebido.
Alec revirou os olhos, impaciente, e então jogou um pequeno papel amassado na direção dele.
— Os homens de Charles deixaram isso para você.
Edward pegou o bilhete, alisando-o com cuidado antes de abrir. Seus olhos percorreram as palavras com atenção crescente, enquanto o silêncio no pequeno espaço se estabelecia por alguns segundos.
“Sr. e Srª Swan, juntamente com sua filha, terão o prazer de contar com sua presença no camarote 3, vagão 48, onde será servido coquetel e ceia.”
Emmett soltou um suspiro pesado, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
— Então foi por isso que a menina cancelou a leitura hoje…
Havia um leve tom de desapontamento em sua voz.
Edward dobrou o papel lentamente, pensativo.
— Acho que vou.
Seu olhar voltou para Emmett, um leve sorriso surgindo.
— Comida de graça é difícil recusar.
O velho riu, sacudindo a cabeça.
— Só não esqueça de quem está aqui dividindo o feno com você.
Edward estendeu a mão, tocando o ombro dele com firmeza.
— Nunca.
Os vagões não seguiam uma ordem lógica.
Edward percebeu isso logo ao começar a procurar o número indicado no bilhete. Caminhou entre fileiras que pareciam se repetir, observando detalhes nas pinturas, marcas de uso, pequenas diferenças que denunciavam histórias diferentes sendo carregadas ali.
Quando finalmente encontrou o vagão 48, soube imediatamente.
Ele se destacava.
A pintura em tom grená era mais profunda, mais recente, quase brilhante sob a luz da noite. As letras douradas chamavam atenção, desenhadas com precisão ornamental:
Circo dos Irmãos Swan — O Maior Espetáculo da Terra.
Mas havia algo mais.
Logo abaixo, quase imperceptível, outro nome surgia sob a camada de tinta fresca, como um passado que insistia em permanecer:
Circo dos Irmãos Dwyer.
Edward observou aquilo por um instante a mais do que deveria.
Até que uma voz o puxou de volta.
— Edward!
Ele ergueu o olhar.
Bella estava na janela.
A luz do interior iluminava seu rosto de forma suave, destacando seus traços delicados e o sorriso que surgiu assim que o viu. Segundos depois, ela apareceu na pequena plataforma do vagão, segurando-se no corrimão com leveza. O movimento fez com que sua saia girasse ao redor do corpo, criando uma imagem tão natural quanto encantadora.
— Venha — disse ela, com simplicidade.
Edward subiu, sentindo um leve aperto no peito que não vinha de nervosismo, mas de expectativa.
Ao entrar, seguiu Bella por um corredor estreito, atravessando uma porta que se abriu para um ambiente completamente diferente de tudo o que havia visto até então.
O camarote era luxuoso.
Excessivamente.
Tapetes, tecidos, móveis bem trabalhados, cada detalhe parecia deslocado da realidade dura do restante do circo. Mas, ainda assim, nada ali chamava mais atenção do que Bella.
Ela parecia não pertencer àquele lugar ou talvez… fosse o único elemento que realmente fazia sentido dentro dele.
— Fique à vontade — disse Marlena, aproximando-se com um sorriso gentil enquanto servia um copo de whisky para Edward — Meu marido deve chegar em breve.
Ele agradeceu, sentando-se, observando com atenção o ambiente e as duas mulheres.
— Bella, por que não mostra seus poemas ao Edward? — sugeriu Marlena, com um leve tom de incentivo.
Bella hesitou por um instante, claramente contrariada, mas acabou saindo do aposento.
O silêncio que se seguiu foi breve.
Edward se inclinou levemente para frente.
— Posso fazer uma pergunta?
Marlena sorriu, relaxando na cadeira.
— Claro.
— O que aconteceu com a mãe dela?
A mudança foi imediata, sutil, mas perceptível.
Marlena respirou fundo antes de responder.
— Ela morreu após o parto… uma infecção. Foi rápido.
Edward assentiu, o olhar mais sério.
— Sinto muito.
— Bella gosta de você — disse Marlena, mudando levemente o tom — Mais do que você imagina.
Ele a observou.
— E você precisa ter cuidado — continuou ela — Charles protege o que é dele… e não costuma dividir.
O aviso veio suave, mas não era leve.
Antes que Edward respondesse, o som de uma porta se abrindo interrompeu a conversa.
Bella voltou.
Os cabelos desalinhados, a respiração levemente acelerada, como se tivesse procurado algo às pressas.
— Eu não encontrei…
Marlena riu, levantando-se.
— Não há mais tempo, querida.
Ela a conduziu até a penteadeira, começando a arrumar seus cabelos com habilidade prática, enquanto Bella fazia uma leve careta, visivelmente contrariada.
Edward observava.
Em silêncio.
E foi nesse momento que Marlena percebeu.
A marca.
Discreta.
Mas visível.
Com um movimento rápido, ela ajustou os cabelos de Bella, cobrindo o sinal, exatamente no instante em que Charles entrou.
— O que é isso no seu pescoço, Isabella? — A voz dele veio firme.
Direta.
Marlena não hesitou.
— Uma sanguessuga — disse, com naturalidade quase perfeita — Eu disse para ela não entrar naquele lago.
Charles franziu o cenho, confuso.
— Sanguessuga?
— Ainda bem que Edward tinha o que precisava para ajudar — completou Marlena, lançando um olhar rápido na direção dele.
Bella riu, acompanhando a história.
A tensão passou, mas não completamente.
Mais tarde, o jantar transcorreu com aparente tranquilidade.
Edward conversou com Charles, dançou com Bella, com Marlena… e, aos poucos, percebeu que estava sendo observado, avaliado, medido em cada gesto, em cada palavra.
Quando ficaram a sós, o tom mudou.
Charles acendeu um charuto, tragando devagar antes de falar.
— Quero lhe pedir algo.
Edward assentiu.
— Bella é… especial.
Houve uma pausa.
— E eu não quero que nenhum homem deste circo se aproxime dela.
Edward permaneceu em silêncio.
— Se precisar dizer que está com ela… diga.— O olhar de Charles se fixou nele.— Mas mantenha outros afastados.
Não era um pedido.
Era um acordo.
Edward assentiu lentamente.
Mas, ao sair dali, uma dúvida permanecia, firme, impossível de ignorar:
Aquilo o aproximava de Bella…Ou o colocava exatamente no centro do perigo?.
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