The Circus

5 O preço do silêncio


✦ Capítulo 5

A noite anterior havia sido, de certa forma, produtiva. Edward conquistara algo que, naquele lugar, valia mais do que qualquer moeda: a confiança de Charles. Ainda assim, a tarefa que lhe fora atribuída permanecia como um peso constante em sua mente, uma dúvida insistente que se recusava a desaparecer. Ele não conseguia decidir se aquilo representava uma oportunidade… ou uma ameaça direta ao que começava a construir com Bella.

Porque aquilo… ainda não tinha nome.

Relacionamento.

A palavra parecia grande demais. Incerta demais.

As palavras de Marlena ecoavam dentro dele com uma insistência quase viciante, como se repetissem em um ciclo do qual não conseguia escapar.

“Bella gosta muito de você… ela nunca se relacionou com alguém… é complicado… mas Charlie é perigoso…”

Edward caminhava, mas sua mente permanecia presa àquela conversa.

Àquela proximidade.

Na noite anterior, pouco antes do fim do jantar, Marlena o chamara discretamente, afastando-se dos demais com naturalidade calculada. Aproximara-se dele mais do que o necessário, perto o suficiente para que seu perfume o envolvesse, para que o calor de sua respiração tocasse sua pele.

— Você é especial, Edward… — dissera ela, roçando o nariz em seu pescoço, num gesto íntimo demais para ser ignorado.

Edward reagira com desconforto imediato, afastando-se um pouco, passando a mão pelos cabelos em um gesto nervoso.

— Obrigado… senhora.

Mas Marlena apenas sorrira.

Um sorriso lento.

Conhecedor.

Ela jogara uma mecha dos cabelos loiros para trás, aproximando-se novamente, como se testasse seus limites.

— Preciso de você amanhã… às seis. No meu vagão.

E então se afastara, caminhando com uma naturalidade que beirava o provocativo.

Desde então, aquilo não saíra da cabeça dele.

E agora, ali estava.

Parado diante do vagão número 48.

Já fazia alguns minutos.

Talvez mais.

O tempo parecia estranho quando se estava dividido entre o que se queria… e o que se temia.

Edward ainda tentava organizar seus pensamentos quando algo leve atingiu sua cabeça, trazendo-o de volta à realidade.

— Eu pensei que você estivesse em outro planeta.

Seth.

O tom divertido, quase zombeteiro, contrastava com o estado distraído de Edward.

— Parecia hipnotizado.

Edward abriu a boca para responder, mas não teve tempo.

A porta do vagão se abriu.

Marlena surgiu.

Vestida de vermelho.

O tecido justo destacava cada curva de seu corpo, contrastando com a palidez de sua pele e com o dourado vivo de seus cabelos. Havia algo calculado em sua presença, como se cada detalhe tivesse sido pensado para causar impacto.

— Que bom que vocês vieram — disse ela, sorrindo — Não temos muito tempo. Jacob já está aqui com as crianças.

Edward trocou um olhar rápido com Seth e entrou.

Sem entender completamente o que estava acontecendo.

O interior do vagão estava completamente transformado.

Fitas coloridas pendiam das paredes, balões ocupavam os cantos, e no centro havia um bolo simples, mas cuidadosamente decorado, com velas cor-de-rosa ainda intactas. O ambiente carregava uma energia diferente, leve, quase infantil , algo raro naquele lugar.

Edward olhou ao redor.

Faltava alguém.

— Seth, Edward! — chamou uma voz pequena.

Leonor.

A menina de cabelos loiros e olhos castanhos segurava um cartaz maior do que ela, coberto de glitter e flores desenhadas com esforço visível.

— Podem me ajudar?

Edward se aproximou, ajudando Seth a prender o cartaz na parede.

“Parabéns Bella.”

O nome, escrito em rosa, parecia iluminar ainda mais o ambiente.

Marlena se aproximou deles, o sorriso agora mais suave.

— Hoje Bella faz dezessete anos — disse — Mas não é um dia fácil para ela.

Houve uma pausa breve.

— Então vamos fazer com que seja especial.

O plano era simples.

Esperar.

Surpreender.

Fazer com que, por um momento, aquele lugar deixasse de ser o que era.

Todos concordaram e esperaram.

Não demorou.

O assobio de Billy veio como um sinal e então Bella entrou.

O contraste foi imediato.

Enquanto o ambiente estava cheio de cores e expectativa, ela carregava consigo uma tristeza silenciosa, perceptível no olhar, na postura, na forma como caminhava.

Mas ainda assim…Ela era linda.

O vestido azul destacava sua delicadeza, e os cabelos semi-presos revelavam seu rosto de forma suave, natural, completamente diferente da beleza elaborada de Marlena.

— Surpresa! —As vozes ecoaram juntas.

Bella parou.

Sem reação.

Seus olhos percorreram o ambiente, absorvendo cada detalhe, as pessoas, o bolo, o cartaz, até que encontraram Edward.

E então…Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas verdadeiro.

— Feliz aniversário, pequena — disse Marlena, aproximando-se com o bolo iluminado — Faça seu pedido… mas nada de príncipes encantados.

Risadas preencheram o espaço.

Bella apagou as velas e , por um breve instante, pareceu esquecer de tudo.

— Obrigada… — disse, emocionada — Obrigada a todos vocês.

As crianças correram primeiro, depois os adultos.

Edward esperou, observando e sentindo.

Quando finalmente chegou sua vez, hesitou.

— Eu… não trouxe presente.

Bella não respondeu com palavras.

Ela o abraçou com força, como se aquilo, por si só, já fosse suficiente.

— Você é o melhor presente que eu poderia ter… — murmurou em seu ouvido.

O coração dele falhou um compasso e, sem pensar, ele tocou o canto dos lábios dela com um beijo leve.

Mas não tiveram tempo.

— Bella...—A voz de Marlena veio baixa e controlada.— Discrição.

O momento se desfez, mas não desapareceu.

Mais tarde, Bella lia para as crianças.

A voz suave preenchia o espaço enquanto narrava a história de Rapunzel, uma jovem presa, sonhando com liberdade.

O paralelo era evidente demais para ser ignorado.

— Bella… — interrompeu Tomás — Quando você vai embora daqui?

O silêncio caiu.

Pesado.

— Como assim?

— Quando você vai viver feliz longe daqui… Feliz para sempre com seu príncipe encantado? — completou Leonor.

As crianças observavam.

Esperando.

— Talvez… — Edward falou, antes que pudesse impedir — Ela não precise ir embora.

Todos olharam para ele.

— Talvez ela possa encontrar o que procura aqui mesmo.

Bella o encarou e havia algo naquele olhar, algo profundo.

Mas não durou.

A porta se abriu com força.

Charles entrou.

O ambiente mudou instantaneamente.

— O que é isso? —Sua voz carregava desprezo e ele arrancou o cartaz da parede.— Que palhaçada é essa?

Marlena tentou intervir.

— Nós só queríamos...

O som do tapa ecoou, seco e brutal.

As crianças recuaram.

Edward sentiu o corpo inteiro tensionar.

— Você… — Charles olhou para ele — Eu não te trouxe aqui para isso.

O tiro veio em seguida.

Para o alto.

O som rasgou o ar.

As crianças correram para Bella.

Que tremia.

— Você não faz aniversário — disse ele, aproximando-se dela — Você não precisa disso.

Havia algo errado, muito errado.

Quando ele puxou Bella pelos cabelos, a dor foi visível.

Crua.

Edward deu um passo à frente, mas Marlena segurou sua mão.

— Não — Um sussurro desesperado.

— Você quer perder sua pureza? — continuou Charles, arrastando Bella — Então vai ser agora.

E levou.

Os gritos começaram logo depois e não pararam.

Edward tentou ir, mas foi impedido.

— Vai piorar — disse Marlena, chorando — Ele é capaz de coisas piores se você reagir...

Seth estava pálido.

— O que ele vai fazer?

Marlena não respondeu de imediato.

Quando falou, sua voz estava quebrada.

— O que ele sempre faz…

O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer resposta.

Quando os gritos cessaram, o mundo pareceu parar junto.

Charles saiu primeiro.

Frio.

Como se nada tivesse acontecido.

— Tirem as coisas dela — ordenou — Ela não dorme mais comigo...Não é mais minha filha...

Marlena correu, Edward foi atrás e o que encontrou…

Não era apenas dor, era destruição.

Bella estava no chão, com a roupa rasgada, ferida e quebrada.

Edward tirou a camisa, cobriu seu corpo frágil e tentou se aproximar.

— Eu quero morrer…

As palavras dela foram baixas, mas suficientes para destruir qualquer resistência dentro dele.

Quando tentou tocá-la, ela recuou.

Assustada.

Marlena a envolveu em um abraço.

Seth trouxe água.

Bianca entrou, deeterminaa, seu corpo tremia de ódio e seu olhar era frio.

— Você vai ajudar — disse ela a Edward.

E ele ajudou, com cuidado, com respeito e com tudo que ainda restava dentro dele.

— Eu nunca vou machucar você… — sussurrou.

E, pela primeira vez…Bella acreditou.

E naquele momento, uma certeza nasceu dentro dele.

Fria.

Definitiva.

Charles Swan iria pagar, não importava como.

Não importava quando.

Mas iria.

Custe o que custar.

Notas finais
Respira comigo um segundo… Eu sei. Esse capítulo foi difícil e ele precisava ser. Aqui, a gente atravessa aquele ponto da história onde tudo deixa de ser apenas encanto, romance e descoberta… e passa a revelar o que realmente existe por trás das lonas do circo. Nem tudo é espetáculo. Nem tudo é mágico. E, às vezes, o que está escondido é justamente o que mais dói encarar. Bella… Eu quero que você pense nela agora. Na forma como ela entrou naquele vagão, quieta, carregando um peso que ninguém via. No sorriso dela quando viu o Edward. Naquele pequeno momento de felicidade… que foi tirado dela tão rápido. E Edward… Aqui é onde ele muda. Não é mais só o garoto perdido que pulou em um trem sem rumo.Agora ele viu. Agora ele entende. Agora ele sente. E quando alguém sente assim… nada fica igual depois. Eu sei que foi pesado, mas esse capítulo é o coração da história começando a bater de verdade. É aqui que o amor deixa de ser leve… e passa a ser necessário. Urgente. Perigoso. E eu preciso te perguntar: Você perdoaria Edward se ele não fizer nada? Ou você também sente que algo dentro dele, e dentro de você, quer justiça? Porque a partir daqui… as escolhas vão ter consequências. E eu prometo pra você:o que vem agora… só aumenta. Se você chegou até aqui, fica comigo. A história está só começando a mostrar sua verdade. Com carinho (e um pouco de dor), — Giozpattz ✦