The Circus

7 Entre o Desejo e a Culpa


Notas iniciais
Oi, meus amores… Se você está aqui agora, nesse capítulo… eu só consigo pensar em uma coisa: obrigada por não desistir dessa história. “The Circus” nasceu lá em 2016, numa fase completamente diferente da minha vida. Era mais leve, mais impulsiva… mas cheia de sentimento. E por muito tempo, essa história ficou parada, esperando o momento certo de ser retomada. E eu sinto que esse momento chegou. Mas não da mesma forma de antes. Hoje, essa história está mais intensa, mais madura, mais dolorida, e mais verdadeira também. Eu não quero mais contar apenas um romance bonito… eu quero contar algo que mexa, que incomode, que faça vocês sentirem junto comigo. E o capítulo de hoje…ele entra exatamente nesse lugar. Entre o desejo… e a culpa. Entre o que se quer… e o que se pode ter. Então se prepara. Porque nem todo sentimento vem com conforto...

✦ Capítulo 7 — Entre o Desejo e a Culpa

O dia avançava com uma inquietude mordaça. O circo, em sua rotina de engrenagens e lonas, parecia prender a respiração. Não havia nada de errado na superfície — os elefantes eram conduzidos, os operários martelavam a terra, a poeira subia sob o sol. Mas Edward sentia a densidade do ar.

Era um presságio sem rosto.

Talvez fosse o peso de Charlie, a fragilidade de Bella, ou algo mais sombrio que se esgueirava pelas sombras das tendas.

Ele estava na tenda dos animais quando a atmosfera mudou. Não houve som de passos, apenas a súbita percepção de que o oxigênio havia ficado mais caro.

**Marlena.**

Ela nunca chegava; ela simplesmente *estava*. Usava um vestido de seda cor vinho profundo que não apenas a cobria, mas a emoldurava. O tecido fluía como sangue ao redor de suas pernas, seguindo o balanço hipnótico de seus quadris.

— Você tem passado muito tempo aqui… — a voz dela era um veludo perigoso.

Edward não interrompeu o trabalho. Terminou de ajustar a sela antes de encarar o abismo nos olhos dela.

— Alguém precisa cuidar deles. Eles não entendem a política deste lugar.

Marlena sorriu. Um sorriso lento, predatório.

— Você fala como se este lugar tivesse salvação, Edward.

— E não tem?

Ela deu um passo à frente. O perfume dela — algo como sândalo e fumaça — invadiu o espaço dele.

— Talvez tenha… se você continuar olhando para o que importa.

Ela parou perto demais. O calor que emanava dela era um convite e um aviso. Edward sentiu os músculos do pescoço retesarem.

— O que você quer, Marlena?

— Direto — ela riu, um som baixo e gutural. Seus dedos, frios e decididos, deslizaram pelo braço dele, subindo pelo bíceps. — Eu gosto disso. Você não me olha como os outros homens.

— Talvez porque eu não seja como eles.

— Ou talvez — ela inclinou o rosto, a voz caindo para um sussurro que roçou a orelha dele — você esteja apenas tentando não olhar. Tentando resistir a algo que já sabe que quer.

O silêncio entre eles tornou-se uma corda esticada ao limite. Edward estava imóvel, o conflito interno travando seus movimentos, quando uma voz cortante rompeu o feitiço.

— Eu sabia.

A voz firme de Bianca ecoou pelo espaço.

Ela estava na entrada, os braços cruzados, flanqueada por Seth e Emmett. A desaprovação em seu rosto era palpável. O momento quebrou como vidro sob um martelo.

Marlena não se assustou. Ela recuou com a elegância de uma pantera que acabara de ser interrompida em uma brincadeira.

— Vejo que temos plateia — ironizou ela, ajeitando o cabelo.

— Interessante — Bianca cuspiu as palavras, ignorando a mulher de vinho. Seu olhar estava cravado em Edward. — Principalmente considerando tudo o que a Bella passou hoje.

O nome de Bella agiu como um soco no estômago de Edward. Ele se afastou bruscamente.

— Não é o que você está pensando, Bianca.

— Ah, não? Porque, de onde eu estava, parecia uma traição em progresso. Você acha que ela aguenta mais uma decepção?

— Eu não fiz nada — Edward defendeu-se, a voz carregada de uma culpa que ele ainda não entendia completamente.

— Ainda — Bianca sentenciou. Ela lançou um olhar de puro desprezo para Marlena antes de se virar. — Escolha melhor com quem brinca, Marlena. O Edward não é um dos seus brinquedos de corda.


O pôr do sol trouxe uma calmaria falsa. O céu sangrava em tons de laranja e violeta quando Edward chegou à cachoeira.

Bella estava lá.

Ela era o oposto da densidade de Marlena. Na água, ela parecia feita de luz e transparência. Seus movimentos eram suaves, quase etéreos, como se ela tentasse se lavar do mundo. Mas quando Edward entrou na água, o silêncio entre eles não era de paz; era de necessidade acumulada.

Ele a puxou. O beijo não foi um pedido; foi um desabafo. Foi carregado da culpa que sentira na tenda e do desejo que tentava sufocar. Bella correspondeu com um desespero que partiu o coração dele, mas, tão rápido quanto começou, ela se afastou.

— Edward… não.

— Bella…

— Eu não consigo — ela disse, a voz trêmula, os olhos nublados por uma dor antiga. — Eu gosto de você. Mais do que deveria. Mas eu não estou inteira. Eu não consigo ser o que você precisa agora.

Ela saiu da água como se fugisse de um incêndio, deixando apenas as ondas circulares onde antes estava sua presença.


A noite chegou, e com ela, o espetáculo.

Edward observava pela fresta da lona principal. Marlena era a rainha do fogo. Sob os refletores, ela era magnética, impossível de ignorar. Ela se lançava nos tecidos acrobáticos com uma força bruta disfarçada de graça. Cada giro, cada queda controlada, arrancava suspiros da plateia. Ela era o domínio absoluto. Quando seus olhos encontraram a fresta onde ele estava, Edward sentiu um calafrio. Ela sabia que ele estava lá. Ela dançava para ele.

Incapaz de sustentar o olhar, ele saiu para o ar fresco da noite.

E foi lá, longe do palco e dos refletores, que ele a encontrou.

Bella.

Ela não estava no centro de um palco, mas no centro de um círculo de crianças e amigos. A música era diferente — um ritmo árabe, ancestral, que parecia pulsar da própria terra.

Ela dançava. Mas não era a delicadeza de antes. Era uma sensualidade orgânica, selvagem e, ao mesmo tempo, melancólica. E então, ele viu a serpente.

A cobra deslizava pelo corpo de Bella como uma extensão de sua própria pele. Passava pelo ventre, subia pelos ombros, enquanto Bella ondulava em uma entrega absoluta ao ritmo. Não havia o medo que ela demonstrava no dia a dia. Havia apenas poder.

Marlena era o espetáculo da força.

Bella era o espetáculo da alma.

Edward percebeu, com um aperto no peito, que enquanto Marlena queria dominá-lo, Bella, sem sequer tentar, já o possuía por completo.

A música parou. Os aplausos ecoaram. Bella olhou para ele, o suor brilhando em sua testa e a cobra descansando em seus braços. O sorriso que ela deu foi pequeno, triste e real.

Edward soube, naquele instante, que o verdadeiro perigo não era o desejo por Marlena, mas a impossibilidade de salvar Bella de si mesma.

Os aplausos ainda ecoavam, mas para Edward, o som era abafado, como se ele estivesse submerso. Bella deixou o círculo de dança. Não houve alarde, apenas o desvanecer de uma presença que, segundos antes, preenchia todo o espaço.

Ela se retirava para as sombras, o lugar onde se sentia segura.

Edward deu um passo instintivo, mas o olhar que ela lançou por cima do ombro o paralisou. Era um olhar de vidro: transparente, bonito e terrivelmente frágil. Havia amor ali, um sentimento que brilhava como uma promessa, mas estava cercado por muros altos demais.

Não se aproxime, os olhos dela gritavam. Eu ainda não sei como ser tocada.

E Edward, em um ato de amor que mais parecia uma tortura, recuou.

Nos dias que se seguiram, o silêncio tornou-se um morador permanente entre eles. Não era o silêncio da raiva, mas o da ausência deliberada.

Bella continuava suas tarefas. Lia para as crianças com uma doçura que parecia protegê-la do mundo; cuidava dos animais com mãos que nunca tremiam. Mas, assim que Edward entrava no campo de visão dela, a coreografia mudava. Ela encontrava um balde para carregar, uma lona para ajustar, um caminho oposto para seguir.

Ela lutava contra a própria gravidade que a empurrava para ele. E, a cada vez que desviava o olhar, parecia perder um pedaço de si mesma no processo.

Edward sentia a vulnerabilidade crescer. A rejeição silenciosa abria fendas em sua determinação, criando um vácuo de inquietação. E foi exatamente nesse vácuo que o perigo encontrou morada.

Marlena não esperava mais por convites. Ela agora operava na frequência do ataque.

Naquela manhã, o ar na tenda de suprimentos estava parado, carregado de poeira e do cheiro de couro velho. Edward organizava os arreios quando a luz da entrada foi bloqueada.

— Ouvi dizer que o silêncio é a música dos covardes, Edward. Ou dos desesperados.

Ele não precisou se virar. O timbre da voz dela já havia se tornado um gatilho para o seu estado de alerta.

— Estou ocupado, Marlena.

— Ou fugindo? — Ela entrou, os passos lentos e predatórios. — Ela não fala com você, não é? A "boneca de porcelana" trincou de vez.

Edward cravou os olhos nos dela.

— Não ouse falar dela.

Marlena riu, um som seco e desprovido de empatia. Ela se aproximou até que o calor de seu corpo desafiasse a distância social. Sem aviso, ela espalmou a mão no peito de Edward, sentindo a batida errática de seu coração sob o tecido da camisa.

— Você está desperdiçando a sua força em um fantasma — ela sussurrou, a voz subindo como fumaça. — Ela está quebrada, Edward. Há lugares dentro dela que homem nenhum vai conseguir tocar. Ela foi moldada pela dor, e a dor não deixa espaço para você.

A mão dela subiu, os dedos deslizando pelo pescoço dele com uma posse que ele não autorizara. Edward segurou o pulso dela, a pele de Marlena queimando contra a sua.

— Marlena, chega. Você tem um marido e uma vida perfeita...

— Casamento é uma palavra que não sobrevive à poeira da estrada — ela sibilou, inclinando o rosto. Os lábios dela estavam a centímetros dos dele, um convite direto, cru e perigoso. — Eu sou inteira. Eu sei o que quero. E eu quero o que ela tem medo de aceitar.

O mundo pareceu girar devagar. A hesitação de Edward não era desejo; era cansaço. Era a fraqueza de quem estava sendo empurrado para o abismo por quem amava e puxado para o fogo por quem temia.

— Eu sabia! — A voz de Bianca chicoteou o ambiente.

O feitiço quebrou. Edward soltou o pulso de Marlena como se tivesse tocado em brasa. Bianca estava lá, os olhos injetados de uma fúria protetora, com Seth e Emmett servindo de sentinelas às suas costas.

— Você não tem vergonha? — Bianca avançou para Marlena. — O circo é pequeno, mas a sua falta de caráter é maior que a lona principal.

Marlena suspirou, ajeitando o decote com uma calma irritante.

— Você é tão... previsível...

— E você é um veneno — rebateu Bianca, antes de se voltar para Edward. — E você? Vai esperar ela se destruir sozinha para finalmente ceder a isso?

— Eu não quero nada com ela, Bianca! — Edward explodiu, a frustração transbordando. — É a Bella. É sempre a Bella.

Bianca sustentou o olhar dele por um longo tempo, buscando qualquer rastro de mentira. Não encontrou.

— Então prova. Porque ela já está lutando contra os próprios demônios, Edward. Ela não precisa de mais um motivo para acreditar que todos os homens são iguais.

Mais tarde, ele a encontrou perto dos vagões de carga, onde o sol morria no horizonte. Bella estava sentada no chão, as pernas encolhidas contra o peito, os braços envolvendo os joelhos em uma postura de autodefesa que dizia mais do que qualquer palavra.

— Bella… — ele chamou, a voz quase um sussurro.

Ela fechou os olhos com força, como se a voz dele fosse um toque físico que ela não conseguia processar.

— Por favor… não faz isso.

— Eu só quero entender. Eu só quero estar perto.

Ela finalmente abriu os olhos. Não havia raiva, apenas uma exaustão profunda e o brilho de lágrimas contidas. O trauma que ela carregava, a memória das mãos de quem deveria protegê-la, as mãos de seu próprio pai, agia como um arame farpado ao redor de seu coração.

— Eu amo você, Edward — a confissão saiu como um soluço seco. — E é por isso que eu me afasto. Toda vez que você chega perto, a minha mente vira um lugar escuro. Eu quero ser sua, mas o meu corpo lembra de coisas que eu tento esquecer.

Edward sentiu o impacto daquelas palavras. A barreira entre eles não era Marlena, nem o circo; era uma cicatriz que ele não podia curar apenas com vontade.

— Eu não sou ele, Bella. Eu nunca seria.

— Eu sei — ela disse, levantando-se com dificuldade, a voz falhando. — Mas, às vezes, o medo não sabe a diferença. Eu não consigo ser inteira para você hoje. E não quero te ver quebrado tentando me consertar.

Ela caminhou em direção à escuridão do vagão, deixando Edward sozinho sob a primeira estrela da noite. Ele entendeu, com uma dor aguda, que o amor no circo não era sobre luzes e aplausos. Era sobre a paciência de esperar alguém voltar de uma guerra que nunca terminava.

Notas finais
Esse capítulo… ele não é sobre escolha fácil. É sobre conflito, aquele lugar onde o coração quer uma coisa… e a realidade impede. A Bella ama, mas não consegue ficar. E isso, talvez, seja uma das coisas mais dolorosas de se viver, quando o sentimento existe, mas você não consegue sustentá-lo. E o Edward? Ele está começando a entender que amar alguém não é só estar junto… às vezes é esperar. É respeitar. É doer em silêncio. Agora me diz: 👉 Você ficou com raiva da Bella por se afastar? Ou você entende completamente o que ela está vivendo? E a Marlena... Você acha que ela é vilã… ou só uma mulher presa em um lugar que também a destruiu? Porque ela não vai parar e isso ainda vai complicar muito. Esse capítulo é um divisor. A partir daqui… nada vai ser simples. E o circo… começa a mostrar os dentes. Me conta o que você sentiu lendo 💔🎪