The Circus

8 O que não pode ser tocado


✦ Capítulo 8 — O que não pode ser tocado

O silêncio da manhã não trazia paz; trazia o peso do julgamento. Dentro da tenda, a luz entrava em feixes poeirentos, iluminando a bacia de metal onde a água já perdera o pouco calor que tivera.

Bella estava sozinha. Ou, ao menos, tentava estar.

Suas mãos tremiam violentamente enquanto ela mergulhava os dedos na água fria. Ela levava o pano áspero à pele do braço, esfregando com uma força que beirava a autoflagelação. Esfregava para apagar o toque de Charlie. Esfregava para arrancar o rastro daquela "perfeição" doentia que o pai lhe exigira sob o preço do próprio corpo.

— Por que não sai? — sussurrou, a voz quebrada.

Ela pressionava a pele até que o tecido ficasse rubro, até que a dor física superasse, por um segundo, a náusea mental. Mas o nojo era uma tatuagem invisível. O abuso sofrido há poucos dias, o castigo por ter ousado amar, ainda pulsava nela como uma ferida aberta e purulenta.

— Você vai acabar arrancando a própria carne.

A voz de Seth era cuidadosa, mas carregada de uma preocupação que ele não conseguia mais disfarçar. Ao lado dele, Bianca entrou. Ela não tinha a hesitação do irmão. Ela se ajoelhou diante de Bella e segurou seus pulsos com uma firmeza de ferro.

— Chega, Bella.

— Me solta — Bella tentou puxar, os olhos nublados. — Você não entende... eu estou suja. Eu sou o que ele disse que eu era.

Bianca soltou um riso curto, amargo como o café de ontem.

— Entendo mais do que você imagina. Eu também já senti que a minha pele não me pertencia. Eu também achei que ele tinha levado tudo.

O ar na tenda pareceu congelar. Bella parou de lutar. O segredo compartilhado entre irmãs era o único laço que ainda as mantinha sãs naquele inferno de lonas e serragem.

— Se você parar de lutar — Bianca disse, os olhos fixos nos dela —, ele vence. Se você se trancar nesse nojo, o Charlie leva a sua alma junto com o que ele já roubou. O Edward... ele é a sua chance. A única saída desse circo que não seja dentro de um caixão.

— Eu não consigo, Bianca — Bella soluçou, a voz falhando. — Toda vez que ele chega perto, eu vejo as mãos do meu pai. Eu amo o Edward, mas eu não pertenço mais a ninguém.

— Você pertence a si mesma — Seth interveio, a voz baixa. — Só precisa tentar. Um passo de cada vez.

Longe dali, na tenda dos animais, Edward sentia o peso do desgaste. A rotina mecânica de cuidar dos cavalos não conseguia silenciar a dúvida que Marlena plantara. Ele amava Bella com uma intensidade que o assustava, mas a distância dela era um deserto que ele não sabia como atravessar.

Foi nesse momento que a sombra de Marlena cruzou o chão.

— Ela nunca vai conseguir, Edward — disse ela, encostando-se na madeira velha. — Você viu os olhos dela. Ela tem medo do seu toque. Ela vê o pecado em tudo.

— Você não sabe de nada, Marlena.

— Sei o suficiente para ver que você está morrendo de fome por um afeto que ela nunca vai te dar. — Ela se aproximou, o perfume doce demais, invasivo. — Por que sofrer por uma santa quebrada quando você pode ter alguém que saiba exatamente como te amar?

Edward respirou fundo, os pulmões cheios do cheiro dela. Ele estava exausto, vulnerável, com a guarda baixa pelo cansaço emocional. Marlena não hesitou. Ela eliminou o espaço entre eles, segurando o rosto dele com mãos que sabiam exatamente o que estavam fazendo.

E o beijou.

Foi um beijo de posse, de domínio. Por dois segundos, o corpo de Edward travou. Não era desejo; era o choque de um homem que estava sendo empurrado para o abismo. Mas, para quem visse de fora... parecia uma entrega.

E Bella viu.

Ela estava parada na entrada, segurando um pequeno xale, os olhos arregalados em um horror silencioso. O mundo era feito de aparências, e o que ela via era a destruição da única pureza que ela ainda acreditava existir.

Edward se afastou de Marlena bruscamente, o rosto pálido.

— Bella...

Ela não gritou. Não houve o drama das apresentações do circo. Houve apenas o som do seu coração se partindo, um estalo seco que ninguém ouviu.

— É claro — sussurrou ela. A voz era tão desprovida de vida que soava como o vento entre as lonas. — É claro que seria assim.

— Bella, espere! — Edward tentou dar um passo, mas seus pés pareciam presos na serragem.

Ela deu um passo para trás. Depois outro. O olhar que lançou para ele não era de raiva; era de uma despedida final. Era o olhar de quem acabara de confirmar que o mundo era, de fato, um lugar onde o amor não tinha permissão para sobreviver.

Ela virou as costas e correu. Não para a tenda, não para o pai, mas para a escuridão entre os vagões.

Edward passou a mão pelo rosto, sentindo o gosto do batom de Marlena como se fosse veneno. Ele olhou para a mulher à sua frente, que agora exibia um sorriso vitorioso, e entendeu a tragédia absoluta daquele momento.

Ele não tinha apenas perdido Bella. Ele tinha acabado de confirmar a ela que o medo dela era a única verdade que restava. No circo da vida, o timing era o carrasco mais cruel de todos.

As lonas do circo pareciam sufocá-la. Bella corria, mas a imagem do beijo estava projetada em cada sombra, em cada dobra de tecido encardido. Ela desabou atrás dos vagões de carga, onde o cheiro de feno e animal era mais forte, tentando desesperadamente não vomitar o pouco que havia comido.

Emmett estava lá, sentado em um caixote, polindo uma ferradura com a calma de quem já viu o mundo acabar várias vezes. Ao lado dele, Seth e Bianca chegaram ofegantes, os rostos pálidos ao verem o estado de Bella.

— Ele a beijou — a voz de Bella saiu como um vergão de chicote. — Eu fui lá... eu ia dizer que tentaria. Que passaria por cima do meu medo. E ela estava com as mãos nele. E ele... ele não a empurrou.

Emmett parou o movimento das mãos. Seus olhos velhos, profundos como poços, miraram o horizonte.

— O Edward é um bom homem, pequena. Mas o cansaço faz o homem mais forte vacilar diante do fogo.

— Não fale dele como se fosse uma vítima, Emmett! — Bianca explodiu, abraçando Bella pelos ombros. — Ele sabia o que estava em jogo. Ele sabia o que o pai dela fez!

— O Charlie me marcou — Bella sussurrou, as unhas cravando-se nas próprias palmas. — Ele me quebrou porque eu ousei sentir algo por um homem. E agora eu descubro que o homem por quem eu morri por dentro... não consegue esperar um batimento cardíaco antes de se entregar para a mulher de outro.

Seth tentou tocar o ombro de Bella, mas ela se encolheu. O trauma de Charlie era uma fera faminta, e o beijo de Marlena acabara de alimentá-la.

Mais tarde, o dever a chamou. Bella sentou-se no círculo de poeira onde as crianças do circo se reuniam. Ela segurava um livro de contos de fadas com as bordas puídas, mas sua voz não tinha a magia de costume. Era uma leitura técnica, fria.

Ao final, uma menina de olhos grandes e tranças desfeitas, segurando uma boneca de pano, puxou a barra do vestido de Bella.

— Srta. Bella… o príncipe e a princesa se amam de verdade? O amor é sempre assim, como música e flores?

Bella fechou o livro com um baque seco. Seus olhos vagaram pela plateia infantil e pararam em um ponto fixo: Edward . Ele estava parado a alguns metros, encostado em um poste, observando-a com uma expressão de agonia pura.

— O amor é uma mentira que os livros contam para que as crianças consigam dormir, querida — disse Bella, sua voz projetada para que Edward ouvisse cada sílaba. — Nos livros, ele salva. Na vida adulta, o amor é uma lâmina. Ele é doloroso, sujo e, na maioria das vezes, ele te deixa sozinha quando você mais precisa de luz. Não procure o amor nas pessoas; ele só é bonito onde as páginas não podem sangrar.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Edward sentiu como se tivesse sido executado em praça pública.

Quando as crianças se dispersaram, ele avançou.

— Bella, por favor. Me escuta. Foi uma armadilha, ela me pegou de surpresa, eu…

Bella levantou-se, limpando a poeira da saia com uma dignidade cortante.

— Eu fui até você hoje, Edward. Eu ia te dizer que aceitava o risco. Que aceitava as suas mãos, mesmo que elas me lembrassem das dele, porque eu confiava que o seu coração me protegeria.

Ela deu um passo à frente, o rosto a centímetros do dele, os olhos transbordando uma mágoa que nenhuma desculpa alcançaria.

— Ver você com ela… ver o prazer que ela sentia em te possuir… isso me machucou mais do que o meu pai. O Charlie quebrou o meu corpo, Edward. Mas você? Você acabou de matar a única parte de mim que ainda acreditava que eu podia ser amada.

Ela passou por ele como se ele fosse apenas um espectro de poeira.

Edward sentia o sangue ferver. Ele atravessou o circo com passos de tempestade até encontrar Marlena em seu camarim improvisado, retocando o carmim dos lábios diante de um espelho rachado.

— Você está satisfeita? — ele rugiu, chutando a porta.

Marlena virou-se devagar, fingindo uma surpresa angelical que não chegava aos olhos.

— Do que você está falando, querido? Você parece nervoso. Precisa de um chá? Ou de outro beijo?

— Não ouse brincar comigo! Você viu a Bella. Você planejou aquilo! Você sabia que ela estava vindo!

Marlena levantou-se, deixando a máscara de "sonsa" cair lentamente, substituindo-a por uma intensidade possessiva. Ela caminhou até ele, a seda de seu robe roçando nas botas de Edward.

— E se eu soubesse? — ela desafiou, a voz subindo como um veneno doce. — Eu fiz um favor a você, Edward. Aquela menina é um fardo. Ela é um altar de sofrimento onde você vai se sacrificar em vão. Ela nunca vai te dar o que eu posso dar.

— Eu não quero nada de você!

— Quer sim! — ela gritou, cravando as mãos nos ombros dele. — Eu amo você, Edward! Do meu jeito distorcido, neste lugar esquecido por Deus, eu vi em você alguém que não pertence à lama. Eu me declarei para você com cada olhar, com cada toque! Eu posso ser a sua rainha, a sua fuga. Por que escolher o silêncio de uma morta se você pode ter o fogo de uma mulher viva?

Edward a empurrou, o nojo estampado em cada traço de seu rosto.

— O seu fogo não ilumina, Marlena. Ele só consome. Você não me ama; você só quer ser a dona da única coisa que não pode comprar.

Ele saiu da tenda, deixando Marlena sozinha com seu espelho rachado. Mas o estrago estava feito. Em naquele dia a verdade importava pouco quando o coração já havia sido enterrado sob a serragem do picadeiro.