The Child of Memories
1 Capítulo 1
Dezembro de 1926 – Westminster
Um raio cortou o céu seguido não muito tempo depois pelo barulho forte e estridente de um trovão. Os músculos de Amélie se enrijeceram mais uma vez. Ela sentia frio, de modo que seu corpo se encontrava tenso e travado, as juntas latejavam por conta do ar gélido que cortava sua pele. O inverno aparentemente havia chegado ao seu auge.
Mas, embora ela nem mesmo conseguisse, tampouco pretendia se mover. Mantinha com todas as forças os olhos abertos, encarando a madeira do beliche acima de sua cabeça. Estava fazendo aquilo há tantas horas que involuntariamente havia decorado cada pequeno detalhe ou marca nas tábuas que seguravam o colchão suspenso sobre ela.
Ali dormia Georgia. Ou ao menos era o que parecia, Amélie não podia saber ao certo, a hora estava chegando e talvez sua amiga tivesse resolvido aproveitar os últimos momentos de descanso que teria.
Elas haviam se conhecido logo quando chegaram ao internato, dividiam aquele mesmo quarto desde a primeira noite ali. Georgia era uma das poucas amigas de Amélie naquele lugar.
Mais um clarão tomou o quarto, os móveis ao redor que pareciam apenas silhuetas indefinidas no escuro tomaram forma devido a rápida centelha de luz que inundou o lugar. Naquele inverno as chuvas haviam sido frequentes demais.
Amélie não gostava de tempestades.
Era um medo de infância, um pouco inexplicável e completamente irracional.
O frenesi, o impacto, os sons, a deixavam paralisada. Assim como ela se encontrava naquele momento.
Um relógio tiquetaqueava abafado sob seu travesseiro, lutando para ser ouvido devido ao barulho da chuva do lado de fora, insistentemente mais alto. Era o relógio de seu pai. Seu amado pai que devia estar naquele momento em sua casa. Talvez lá não estivesse chovendo, e talvez o frio fosse mais ameno. Em todos os momentos difíceis de sua vida, Amélie encontrara conforto nele, e não foi diferente naquele momento. Embora a chuva continuasse, embora o frio ainda a envolvesse, ela sentiu uma pequena chama se acender dentro de seu peito e se espalhar pelo resto de seu corpo. Uma sensação agradável, como um formigamento brando, suave como um carinho, internamente.
Sua família, tão longe. Não deveriam fazer a mínima ideia do que acontecia ali, Amélie se culpou por um momento, pensando que talvez devesse ter arranjado mais tempo para lhes escrever, comunicar-lhes o que acontecia, comentar sobre o clima, dizer o quanto os amava e como estava com saudade de casa.
Voltar para casa, era tudo que ela queria.
Um trovão retumbou ao longe e levou a cabeça de Amélie às alturas. Ela não suportava mais, e agora, mesmo através do barulho da chuva, o relógio sob seu travesseiro parecia gritar.
Ela se sentou em sua cama, os pés descalços tocando o chão que não estava apenas frio, estava ácido de tão gelado. Um calafrio subiu-lhe pela espinha, todo o seu corpo estremeceu levemente. Ela inspirou fundo, uma mão deslizando para baixo do travesseiro, vasculhando o pequeno espaço em busca do relógio. O metal também era gelado e contrastava com o tecido quente ao seu redor, uma sensação agradável percorreu a mão de Amélie.
Ela o segurou em frente ao rosto, mas o escuro não permitiu que ela distinguisse as horas. Pelo tempo que passara supôs que era muito tarde, mas o tempo é relativo, e quanto mais se espera por algo mais devagar ele caminha.
Os sons da tempestade pareciam se intensificar ainda mais, as gotas violentas de água retiniam com cada vez mais força contra a janela. A cada trovão os nervos de Amélie se agitavam, a garota se contorcia como num tique nervoso, uma leve fisgada puxava um ponto em sua cabeça, a mão ao redor do relógio apertava cada vez mais firme. O metal já não estava mais tão gelado contra sua pele, e sua mão acumulava suor frio.
A mão livre esfregava o nariz.
Incessável.
Insistente.
Era desse modo que seu corpo reagia ao nervosismo.
Alguns minutos se passaram, e apesar de sentir o tique-taque nítido do relógio em sua mão, Amélie não soube dizer quantos foram, até que o trovão mais alto de toda aquela noite foi ouvido. E então, silêncio. Interrompido apenas por um suave estalar de madeira. Georgia não dormia, assim como Amélie ela aguardava acordada, ouvindo a tempestade.
Um raio cortou o céu no horizonte, próximo demais, porém Amélie sequer chegou a vê-lo, os olhos estavam presos à face do relógio, paralisados. Então, exatos dois segundos depois, um relâmpago tomou o céu e a luz novamente banhou o quarto. Ela conseguiu distinguir a hora.
02:37 a.m.
Era hora.
Era a hora.
Do beliche de cima, Georgia já sentada a encarava. Também compreendia.
Elas precisavam sair dali o quanto antes.
...
Amélie havia arquitetado tudo há dias. Há semanas. Cada mínimo detalhe, cada pequeno imprevisto, ela calculou tudo, o plano fora montado com maestria, tudo deveria se desenvolver perfeitamente, tudo fora planejado.
Exceto, é claro, a chuva que retinia contra o telhado com violência.
E também o rapaz em pé ao lado de Georgia.
— Não posso deixá-lo, Élie. Por favor, ele vai nos ajudar, é maior e mais forte que nós duas. – ela explicara numa súplica baixa a Amélie, que a olhava desacreditada.
Tanto tempo planejando o plano perfeito, e Georgia podia ter colocado tudo em risco. Tudo. Ela não sabia o que dizer.
— E eles podem pegá-lo, quem sabe depois nos encontrar de alguma forma. Amélie, eu apenas não quero que o matem. Por favor, deixe que ele venha conosco.
Mas naquele momento já era tarde demais para impedir, e Georgia estava certa. Talvez as duas não conseguissem se virar sozinhas quando necessitassem de força física, e a única coisa que Amélie mais desejava era poder voltar para casa. Não importava, desde que ela conseguisse voltar para sua casa tudo estaria certo.
Agora os dois caminhavam à frente, devagar e em silêncio por um corredor estreito e escuro.
Travis era pelo menos vinte centímetros mais alto que Georgia, talvez trinta a mais que Amélie. Era magro e esguio, porém forte o bastante para sua idade. O rapaz era dois anos mais velho que as duas meninas, tinha cabelos negros e estudava na Instituição de Westminster para Rapazes.
A IWR era uma pequena extensão da Academia de Westminster, para senhoritas. A instituição era uma das mais antigas da Inglaterra, e no início era apenas para moças, o instituto para garotos era algo bem recente.
O prédio consistia em uma enorme mansão, quase um castelo antigo nos arredores da cidade, cercado de florestas de pinheiros por todos os lados. Ele era divido ao meio por um grandioso jardim, cheio de colunas, canteiros e uma bela fonte central. Na maior parte do tempo os rapazes e as garotas não se encontravam, apenas em eventos sociais ou nos campeonatos de tênis, mas nesses, infelizmente, apenas os garotos podiam participar, as garotas se limitavam a assistir.
Foi em um desses eventos para uma partida que Georgia havia conhecido Travis, mas ele não era um dos jogadores. Quebrando todas as regras ele havia se sentado à mesa das duas, se servido de chá e ali continuou até o final do evento. Mais tarde as garotas descobriram que ele recebera uma punição, e elas não conseguiram imaginar o que havia sido, mas vindo da diretora daquele lugar Amélie imaginou que não seria algo agradável. Ele nunca tocou no assunto.
Alguns dias depois ele apareceu na árvore da janela do quarto das duas, no terceiro andar. Amélie não sabia como ele havia conseguido atravessar o jardim para entrar na área feminina da escola, e pouco se importava. Ela fingiu dormir, mas com os olhos semicerrados pode ver Georgia saindo pela janela com ele. Ela não viu quando a amiga voltou.
Ela achava aquilo uma total perda de tempo, além de ser muito arriscado. Os boatos sobre namoricos sempre chegavam aos ouvidos da diretora, e nunca acarretava coisas boas.
No curto período de tempo em que esteve lá, Amélie presenciou quatro expulsões. Ela não se interessava pelos garotos. Talvez ela ainda fosse muito inocente.
— Certo, o que vamos fazer? – a voz de Travis não passava de um sussurro encoberto pela tempestade.
Amélie se esgueirou pelo corredor e parou centímetros antes da abertura de uma porta arredondada na parede, através dela os dois viam as paredes do hall.
—Nós vamos ter que seguir em silêncio e pelas sombras, chegar até lá e entrar no salão principal.
Georgia já conhecia todo o plano, porém Travis ficou confuso.
O salão principal ficava na extremidade oposta à da porta que levava à saída.
— As portas para o jardim da frente estão sempre fechadas, todas as noites. Mas a do salão principal não. Nós entraremos lá e sairemos pela entrada dos funcionários.
Os dois assentiram às ordens de Amélie.
...
A fuga foi fácil. Talvez fácil demais. Mas Amélie não se deu ao trabalho de registrar esse fato por dois motivos.
Ela estava livre, mas a chuva continuava ainda mais avassaladora do lado de fora.
As gotas eram finas e rápidas, como agulhas colidindo conta seus rostos. O frio cortante era terrível, mesmo com as roupas grossas que eles usavam, que mesmo há pouco tempo sob a tempestade já estavam quase ensopadas.
— Nós precisamos seguir por aqui. – Foi necessário que Amélie gritasse para se fazer ouvir, e uma das mãos apontou a oeste. – Há uma árvore, teremos que escalar para poder passar sobre o muro.
E foi para lá que eles rumaram.
O muro deveria ter ao menos quatro metros de altura, se erguia imponente sobre eles, gotas de chuva batendo contra ele.
— E como a gente vai descer do outro lado? – perguntou Travis, pegando Amélie de surpresa.
Ela não havia pensado nessa parte, nem chegara a considerar isso. Ela se esquecera completamente de que para atravessar o muro precisariam cair do outro lado. Ela negou para si mesma, envergonhada. Um leve rubor cobrindo suas bochechas.
O rapaz fechou os olhos e inspirou fundo, parecia raciocinar de forma rápida. Amélie pode jurar que se não fosse pelo barulho alto da chuva poderia ouvir o som das engrenagens em sua cabeça se movendo com rapidez. Ele olhou ao redor, desapareceu entre alguns pinheiros e voltou minutos depois segurando uma corda.
— O que é isso? – perguntou Georgia, Amélie estava tão curiosa quanto.
— Um cipó, e dos fortes. – Travis puxou a corda diante delas, era espessa e sólida.
— No meio de uma floresta de pinheiros?
— Não há só pinheiros aqui. – ele deu as costas as duas e começou a subir pelo pinheiro mais próximo ao muro, que era um pouco mais baixo que o mesmo.
O garoto escalou a árvore com certa dificuldade, a chuva ficava cada vez mais forte e o vento chicoteava contra seu rosto. As folhas pontiagudas faziam sua pele pinicar, porém ele ignorava a sensação e continuava subindo.
No chão Amélie e Georgia o observavam, ele estava demorando mais do que o que elas esperavam, suas mãos não pareciam segurar os galhos com a devida firmeza, e várias vezes seus pés escorregaram. Não seria uma queda muito agradável, pensara Amélie.
Travis chegou ao pico e amarrou uma das pontas do cipó no topo da árvore. Ele pareceu hesitar antes de, de repente, pular para o nada.
Georgia levou as mãos ao rosto, tampando a visão e reprimindo um grito, ao passo que Amélie arregalou os olhos no instante em que as mãos do garoto agarraram com firmeza o muro. Por um breve momento pareceu que ele não conseguiria se segurar, mas puxando o corpo para cima ele escalou o muro e se sentou no rebordo.
— Subam com cuidado e desçam pelo cipó. – ele gritou fazendo-se ouvir acima dos sons da tempestade, então se jogou do outro lado do muro.
Amélie virou-se para Georgia e as duas se encararam por alguns segundos, pareciam estar pensando a mesma coisa. Ali, agora, não parecia mais uma boa ideia.
Mas era tarde demais para voltar atrás.
— Eu vou primeiro. – disse Georgia no mesmo momento em que Amélie abrira a boca para dizer algo. Antes que ela pudesse raciocinar a amiga já estava se segurando nos galhos mais baixos da árvore e puxando o corpo para cima.
A menina pareceu ter mais facilidade para escalar a árvore, na metade do tempo que Travis levara, Georgia já estava no topo. Ela não oscilou antes de pular contra o muro, mas suas mãos escorregaram e ela quase caiu. Por um breve momento ela teve medo, foi o que fez com que ela segurasse mais firme e conseguisse lançar o corpo para cima do muro.
— Vejo você do outro lado. Cuidado. – e então desceu, segurando-se no cipó.
Só restara Amélie ali, em pé, com a chuva batendo em seu rosto e ensopando cada vez mais suas roupas. Alguns fios molhados do cabelo ruivo grudavam em seu rosto. Sua respiração estava curta e compassada, e a mochila em seu ombro parecia pesar mais do que antes.
Ela lançou um último olhar para o casarão às suas costas. Apesar da tempestade ele parecia sereno e pacífico, assim como quando Amélie chegara ali pela primeira vez, porém ela nunca mais o veria.
Três anos de sua vida estariam sempre presos às paredes daquele lugar. Três anos de lembranças sempre seriam remetidas àqueles cômodos, àquelas janelas, sempre. Mas a partir dali aquele lugar estaria apenas em suas memórias.
Sem mais demoras ela caminhou até o pinheiro e respirando fundo começou a escalar.
Conforme subia, a chuva a atingia ainda mais. As folhas da árvore cravavam-se em suas mãos, porém ela continuava segurando firme, escalando o mais rápido que conseguia, como um gato, astuto e rápido.
Ela nem percebeu quando atingiu o pico da árvore, seu cérebro não registrou o momento em que seus músculos se enrijeceram por completo ou quando suas mãos agarraram o beiral escorregadio. Ela só assimilou o que fizera quando seus pés tocaram novamente o chão e ela viu os rostos de Georgia e Travis, que a aguardavam.
Os três se encararam por alguns segundos antes de se por a correr.
Mais uma vez Amélie olhou para trás. Aquela vida, aquilo tudo já era.
— Passado. Tudo isso ficará preso no passado. – ela sussurrou para si mesma.
— Amélie, vamos. – a voz de Georgia soou alguns passos à frente.
Amélie os alcançou e os três voltaram a correr.
...
É claro que Amélie estava ocupada demais drenando aos poucos a adrenalina em seu corpo e imersa em seus pensamentos para perceber. O plano não fora um total sucesso, pois em uma das janelas do primeiro andar um par de olhos espreitava ao longe a fuga dos três.
Assim que eles sumiram afora dos terrenos da escola um par de pés se pôs a correr, os passos ecoando ao redor.
A segunda porta do corredor do quinto andar se abriu com um rangido alto, após várias batidas insistentes.
— Diretora Christell. – a voz da menina estava ofegante, e apesar do frio algumas gotas de suor despontavam em sua testa devido à corrida. – Delord, Bricksley e um garoto... Eles... Eles fugiram.
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